Talvez uma das características mais revolucionárias do instinto humano, é a capacidade de nos indignarmos. Inúmeras foram as pessoas na história do mundo, que pela força motriz da indignação e do não conformismo, se lançaram a uma nova proposta, a uma nova postura, diante de situações que ao olhar de um conformista nada restaria a não ser a resignação.
Tenho me aprofundado muito sobre a questão do que chamamos no judaísmo de Tikún Olam, que significa reparar, transformar e melhorar nosso mundo. Como seres humanos, somos na essência parceiros de Deus, e um bom parceiro não pode passar de forma contemplativa aos problemas que envolvem a sociedade, como o combate às injustiças sociais, a luta contra a miséria, e a disposição para a ética no esforço do aprimoramento profissional em sua área de atuação, seja ela qual for.
Ainda no Brasil não transformamos a política, em um instrumento hábil e capaz de interceder aos interesses da maioria pobre do nosso País. Salvo algumas propostas ou a atuação de alguns políticos idealistas. Na verdade, este instrumento social tem sido desvirtuado da sua originária proposta social. Vivemos no Brasil uma crise de ética política, haja vista o passado dos representantes do povo brasileiro, salvo algumas dignas exceções. Com efeito, a indignação e política são irmãs por natureza, a primeiro advinda do espírito, do senso de justiça, do inconformismo, a segunda da viabilidade social de se fazer concretizar o ideal da mudança.
Muito se fala em relação aos fatores que levam ao Tikum Olam; na própria história do presidente Lula, existe um componente forte de indignação, poderíamos perguntar: Até que ponto sua indignação não o moveu a iniciar um caminho de líder sindical, que culminou à Presidência da República? Quando partimos de uma análise política – espiritual, nos atemos apenas às condições da introspecção emocional, e com certeza, em determinando momento de sua vida, o presidente ainda operário se viu parceiro de um projeto maior, mesmo sem saber bem a essência deste plano, assim como tantos outros líderes, no Brasil e no mundo entre os mais variados segmentos sociais ou profissionais.
O exercício da indignação é algo que devemos praticar; alguns já nascem com ele, outros o desenvolve, e infelizmente outra parcela o perde. A vigilância e os questionamentos sobre o que é justo e ético, do ponto de vista humano, é matéria-prima do senso de indignar-se, que por sua vez, é o instrumento eficaz de participação do projeto divino de parceria do ser humano com Deus, muito embora o valor do exercício dessa parceria material transcende aspectos religiosos.
Muitos daqueles que repararam, transformaram e melhoraram nosso mundo com seus atos, gestos e idéias, mesmo sem saber, foram de uma religiosidade infinita; até porque aos olhos do Grande Arquiteto do Universo, o que importa é a ação, a parceria, e isso vale mais do que mil orações. Ainda me lembro certa vez quando caminhava no centro de São Paulo em direção ao Fórum; em determinado momento, na calçada movimentada, me dei conta que as pessoas, inclusive eu por falta de espaço físico, passavam por cima dos pés de uma criança que dormia enrolada num sujo cobertor, provavelmente drogada.
Logo ao passar por ela, num gesto rápido, olhei no relógio para verificar se estava atrasado ao meu compromisso. Foi quando me surpreendi que eu como tantos outros, havíamos passado por cima de ser humano, uma criança abandonada, doente, e nem sequer nos havíamos indignado. Aquela imagem e a minha insensibilidade me perturbaram o dia inteiro. Dizia para mim mesmo: “Jamais deveria me acostumar em ver crianças jogadas na rua”.
Era época de Yom Kippur, e no Dia do Perdão, quando fazemos um balanço do ano que passou e nos arrependemos dos erros cometidos, tentei responder perante D´US à seguinte pergunta, como todos os anos faço: ” Que tipo de pessoa eu me tornei?” A resposta sempre me serviu para me redirecionar, e fazer-me indignar com as coisas erradas desse mundo. Afinal a indignação é um instrumento de D´US e perdê-la significa não ser mais um bom parceiro, e isso não é bom nem para Ele, tampouco para nós.
Fernando Rizzolo
Tenham um sábado de paz, e um domingo com consciência. Escolham candidatos que olhem pelos pobres, pelos humildes, e que ainda não tenham perdido a nobre capacidade de se indignar…..
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