A mulher e uma sociedade mais justa

Superar as diferenças que existem entre homens e mulheres no mercado de trabalho, nas oportunidades, nas religiões sempre foi um desafio tanto daqueles que se propõem a ter uma visão reformista da situação quanto daqueles que almejam, através da política, promover projetos de inclusão da mulher na vida pública ou na defesa da integridade física feminina, frequentemente vítima da sociedade em que os homens legislam.

No caso do Brasil, talvez a condição da mulher seja pior que em outros países. Numa sociedade em que a maioria da população ainda tem baixo poder aquisitivo, muitas vezes o salário da mulher complementa a renda familiar, isso quando não acaba sendo o único recurso para prover o sustento do lar. Com efeito, os movimentos feministas de libertação da mulher no mundo sempre polarizaram a discussão entre homens e mulheres em relação às conquistas no mercado de trabalho e no que diz respeito às oportunidades sociais, tudo isso como se o homem fosse, em si, o ponto central da questão feminista.

Na realidade, esse jogo, que poderíamos caracterizar como uma manobra diversionista, nunca denunciou por completo que a luta pelos direitos reais da mulher deveria ser travada com a união da força de trabalho dos homens, que, cerrando fileiras com as trabalhadoras, avançariam em direção a uma sociedade mais justa e menos fragmentada pela visão tendenciosa e divisionista desses movimentos, cujos objetivos sempre esbarraram no vazio dos avanços sociais e se debelam na disputa entre os sexos.

A notícia de que o Brasil caiu nove posições e atingiu o 82.º lugar no ranking de desigualdade entre homens e mulheres no mundo, segundo relatório do Índice Global de Desigualdade de Gêneros 2009, do Banco Mundial, divulgado neste mês de outubro, nos leva a uma profunda reflexão sobre o papel da mulher na sociedade brasileira. Apesar de estarmos entre os locais com atendimento à saúde menos discriminatório, os pesquisadores responsáveis pelo estudo viram um aumento na lacuna entre a renda de homens e mulheres que trabalham em posições semelhantes e na renda mensal estimada.

Promover uma participação mais justa da mulher na sociedade vai muito além da questão discriminatória; deverá agregar maior inclusão por parte da mulher na vida pública, uma vez que, no Brasil, a política ainda é, na maioria, exercida pelos homens. Tornar o Congresso Nacional mais feminino, mais suave, é expressar o que, na realidade, já ocorre na sociedade, cujo papel da mãe, da esposa, da profissional serve como baluarte da estrutura familiar, suprindo uma lacuna do Estado, que, por vezes, se omite em seu papel provedor, tanto em relação aos homens quanto em relação às mulheres.

Fernando Rizzolo

Os Candidatos e os Programas Sociais

Ao abrir os jornais, é possível observar a disputa. De um lado, Serra, Aécio, Marina Silva, uma oposição com certa dose de admiração por Lula. De outro, Dilma Rousseff, Ciro Gomes e Heloísa Helena, mais afinados, digamos, à esquerda. Todos têm uma história política, um jeito de ser, o que é compreensível até pela formação de cada um e pela natureza humana. Todavia, nessa época, a grande questão que deve permear nossas reflexões em relação aos candidatos não é quem será o vitorioso, mas até que ponto o próximo presidente dará continuidade aos programas sociais e de inclusão já implantados.

Programas como o PAC, o Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Luz para Todos e outros são essenciais e fizeram um marco no desenvolvimento social do nosso país, impulsionando o mercado interno, o que, de certa forma, contribuiu para a superação da crise internacional. Com efeito, o impacto maior desses programas refletiu-se na melhora do nível de vida da população, principalmente no Nordeste. A propósito, esta é a região em que se registrou, nos últimos anos, maior índice de crescimento da renda familiar. Para se ter uma ideia, até mesmo em termos de inclusão digital, houve, no Nordeste, um aumento de 142% no número de domicílios com computador e internet. No restante do país essa elevação foi de 132%.

Discute-se muito a personalidade dos candidatos. No Brasil, a postura ideológico-partidária é frágil e não serve de paradigma para maiores especulações nessa área. É bem verdade que o modo de ser dos prováveis elegíveis mascara de maneira nebulosa a essência dos projetos político-sociais de cada um deles, projetos estes que por ora não estão devidamente perfilados em campanha. Durante este processo eleitoral, o maior desafio é conseguir o compromisso de todos na sequência da postura desenvolvimentista já delineada pelo governo, para que possamos dar continuidade à inclusão social em todos os segmentos da sociedade.

Virar as costas aos pobres, aos negros, aos excluídos é bem pior que rotular um candidato de “durão”, “reacionário” ou “casca-grossa”. O maior desafio não é classificá-los como pessoas, mas tentar descobrir a enorme disposição de cada um deles, através de suas ideias, em continuar fazendo do Brasil um país mais justo e humano para todos nós.

Fernando Rizzolo

O Povo Sorrindo no Shopping

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O tempo não ajudou: dia nublado, frio, feriado, e acabei fatalmente indo ao shopping. Estacionar no piso térreo, nem se fale! Não havia nenhuma vaga. Comecei, então, a dança de tentar o piso superior, rampa após rampa. Por fim encontrei o que estava procurando: uma simples vaga. Foi aí que me lembrei de que era véspera do Dia das Crianças e encontrei, enfim, a justificativa pela falta de vagas.

Descendo pela escada rolante, com olhar curioso, senti algo diferente naquele dia. As pessoas, os rostos, as roupas eram outras; o modo alegre de caminhar denunciava que aquele passeio, aquele dia, aquela compra, era especial. O shopping estava repleto de novos frequentadores – gente humilde, bem-vestida, com pacotes, e o rosto iluminado como eu nunca tinha visto. Muitos vinham da periferia, de ônibus, metrô, mas com uma certeza: consumir no Dia das Crianças, talvez como não faziam havia muito tempo.

Não é à toa que as vendas do Dia das Crianças surpreenderam o comércio varejista e já sinalizam um bom Natal. Duas pesquisas de instituições diferentes divulgadas ontem indicam que o desempenho das lojas neste ano foi cerca de 8% maior que o registrado na mesma data de 2008. O Dia das Crianças foi até agora a melhor data comemorativa de vendas para o varejo do ano, superando o Dia dos Pais.

Na preferência por presentes, os brinquedos lideram a lista e aumentam a representatividade na comparação com o Dia das Crianças do ano anterior. Cresce também a demanda por roupas, calçados e eletrônicos, que contam com grande variedade de produtos e preços, coerentes com a preferência de pagamentos à vista.

Consumir e presentear são um ato de generosidade dos mais pobres, essa parcela da população que há anos foi excluída e que agora ressurge num colorido real, formando um mosaico de gente diversa, alegre, com sede de futuro. Sonhar com dias melhores é exercitar o sentido de justiça, e as datas ficam bem mais alegres com o povo comprando, as crianças sorrindo, os estacionamentos lotados. Mesmo num dia nublado, num feriado lembrado, vendo rostos risonhos de gente feliz, que agora consome, ajeita a vida, criando um novo mercado para o nosso País.

Fernando Rizzolo

A Elite Paulista e o Olhar aos Pobres

Nos anos 1980, foram muitas as tentativas que surgiram por parte da Igreja de fazer com que a elite, não só a paulista, mas as demais, enxergasse os mais humildes de forma fraterna. Da ala religiosa católica mais esquerdista havia uma tentativa de promover campanhas de cunho social, como a “Campanha da Fraternidade”. No entanto, o que foi apregoado em cartazes e sermões parece ter surtido pouco efeito naquela época, em que o neoliberalismo estava mais vivo em nosso País.

Não há como negar que no Brasil, na era Lula, o modo de ver os problemas sociais despertou o interesse, de forma insidiosa, da elite paulista, talvez a mais refratária do País. É interessante notar que a preocupação com o social, com o bem-estar dos mais pobres, tornou-se menos relacionada ao universo estigmatizado de um pensamento esquerdista e passou a ter relação conceitual com os mais ricos, como uma iniciativa fraterna, solidária, quase aos moldes religiosos de justiça social dos anos 1980 ou das iniciativas do Terceiro Setor.

O que Marta Suplicy fez de inovador na época agora já não mais nos surpreende tanto, ao vermos várias personalidades, que jamais poderíamos imaginar, convertidas ao socialismo, engajando-se, exultantes, quer no Partido dos Trabalhadores, quer no Partido Socialista Brasileiro, na tarefa de fazer do Brasil um País mais justo. Talvez exista hoje na elite paulista a consciência de que o consumo dos pobres é algo democrático, que gera empregos e diminui a violência, e de que seja a receita para direcionarmos o Brasil no fortalecimento do mercado interno, gerando um ciclo virtuoso de negócios e empreendimentos.

Acostumarmo-nos com um shopping da periferia lotado, com a mescla racial participando das compras, gastando, adquirindo uma nova geladeira, um novo fogão, gera, na realidade, uma satisfação que desconhecíamos. Essa nova era virtuosa impõe-nos uma nova postura sobre o potencial de consumo brasileiro, uma nova condição política partidária e um olhar novo e fraterno aos pobres, que a cada dia ficam mais parecidos conosco no inevitável desejo de consumir e de um dia tornar-se a elite de amanhã, num Brasil, enfim, bem mais humano.

Fernando Rizzolo

A Cartela e a Virtude

O endereço era em Pinheiros, bairro de classe média em São Paulo. Quando chegamos, fiquei impressionado com uma placa luminosa que piscava como naqueles cassinos em Las Vegas. A curiosidade era muita – afinal, nunca havia entrado num bingo antes, e, como na vida precisamos conhecer de tudo um pouco, lá fui eu com uns amigos que, após muita insistência, conseguiram me convencer a conhecer a tal casa noturna, na época em que os bingos ainda eram legais.

Ao entrar, o ambiente era de fumaça, envolto numa expectativa quase ofegante e atenta por parte dos participantes, sentados em mesas redondas como se sugerissem a roda da vida. Senti algo estranho, certo desespero disfarçado naqueles que ali procuravam mais que diversão, mas uma possibilidade de ganho fácil. Dos que estavam comigo, todos jogavam, incluindo eu, à minha maneira, é claro. Apostava, sim, nos números de forma mental, ganhava e perdia numa dança mentalizada, mas não investia, não comprava cartelas. Talvez uma forma judaica, no bom sentido, de não perder dinheiro, até porque jogos de azar são proibidos no judaísmo e em Israel.

Observei também que a grande maioria das pessoas era composta de gente simples – donas de casa, trabalhadores humildes que muitas vezes se endividavam para sustentar a adrenalina do vício de jogar. Interessante notar que hoje, na nossa sociedade, vivemos um momento em que os valores que compõem a virtude e os bons costumes estão em plena batalha na sobrevivência pela ética. Se por um lado as medidas de cunho profilático e de saúde pública assentam-se como a lei antitabagismo ou como a lei de restrição ao consumo de álcool aos motoristas, por outro as medidas preventivas de saúde mental, da manutenção dos bons costumes ou do combate ao vício do jogo parecem estar demasiadamente enfraquecidas.

Observamos alguns apregoando a descriminalização das drogas, enquanto outros tentam, de todas as maneiras, revitalizar os polêmicos bingos, que já no passado levaram à desintegração várias famílias da periferia, vítimas insanas do vício contumaz. Com efeito, nas próximas semanas, o projeto que legaliza os bingos e caça-níqueis deve agitar os debates do Congresso – a bancada do jogo articula para que o projeto seja votado na segunda quinzena de outubro.

Na verdade, não há argumentação plausível para a implantação de uma estrutura predatória e desintegradora como a legalização dos jogos de azar no nosso país. Instituir o hábito do jogo levará os jovens desde cedo, com toda certeza, a instarem-se ao vício, promovendo no futuro um problema de saúde pública. Ademais, todos os antecedentes do bingo apontam para a criminalidade, a corrupção e a lavagem de dinheiro.

Temos que repensar o Brasil do ponto de vista da virtude, do bem, dos bons costumes, fortalecendo o espírito religioso, da prática dos esportes, e não nos deixar levar pela eterna disputa entre a virtude e o vício. Hoje, quando passo pela rua onde estava localizado o bingo, há uma velha placa escrita “aluga-se”. Não há movimento, não há jogadores, não há luzes piscando. Apenas a lembrança de uma sala esfumaçada, de olhares tristes e tensos, de pessoas cabisbaixas. Naquela noite, ao sair, lembrei-me de uma frase do escritor austríaco Karl Kraus: “O vício e a virtude são parentes como o carvão e o diamante”. Nessa questão, como brasileiros, temos que torcer para que a luz do diamante ilumine de forma intensa o nobre espírito do nosso Congresso, na inegável virtude dos nossos parlamentares.

Fernando Rizzolo

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A Filarmônica, Villa-Lobos e os Negros

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O teatro não era grande, mas era espaçoso o suficiente para ser aconchegante naquela noite fria. Afinal, ouvir Villa-Lobos é quase um ato de oração ao Brasil. Com efeito, a grandeza da música erudita, quando tocada por uma boa filarmônica, nos leva a viajar na melodia, nos conduz à reflexão, arremessando-nos na seara da imaginação. Pois não há ninguém melhor que o grande compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos, com sua música e ritmo, para desnudar de forma artística a essência do povo brasileiro.

Foi exatamente naquela noite, ao som das bachianas brasileiras, que descobri um Brasil que se transforma a cada dia. O público, na maioria oriundo de uma elite paulista, contava também com alguns ouvintes especiais. O que era raro anos atrás estava ocorrendo bem ali à minha frente. Alguns rapazes negros e de aparência humilde aplaudiam o concerto, sensibilizados pela beleza da música – pareciam acompanhar o ritmo cadente brasileiro, degustando a grandiosidade da melodia, embriagando-se de Brasil.

Ao observá-los, comecei a refletir sobre o papel dos negros na cultura, nas artes, na inclusão cultural, fruto de um trabalho social real do governo para finalmente levar a população negra e mais carente a compartilhar das diversas manifestações culturais do país. Não é por acaso que a comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou o texto substitutivo do Estatuto da Igualdade Racial, que agora será votado no Senado.

O texto diz que “o Poder Público promoverá ações que assegurem a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho para a população negra, inclusive mediante a implementação de medidas visando à promoção da igualdade racial nas contratações do setor público”. Não há como pensarmos em igualdade racial sem tutelarmos as ações que visem à igualdade de oportunidades, principalmente no que tange ao mercado de trabalho. Temos que nos conscientizar de que houve, sim, uma defasagem cultural, de oportunidades, de inclusão social, resultado de toda sorte de injustiças que já perduram há 121 anos, desde a abolição da escravatura.

Talvez Heitor Villa-Lobos, ao fundir material folclórico brasileiro às formas pré-clássicas ao estilo de Bach, já estivesse prevendo que um dia sua música inspiraria mais que uma viagem à essência do povo brasileiro – inspiraria uma união racial que levaria suas composições eruditas a serem uma referência lógica; talvez previsse que o reflexo do gosto musical refinado por muitos teria por princípio a participação dos negros e da população excluída – que, de certa forma, serviu de inspiração e de sonho a este grande compositor brasileiro, que cantou um Brasil mais justo para todos nós.

Fernando Rizzolo

*Artigo publicado no Blog da Dilma

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A Política e os Conceitos Religiosos

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Talvez Thomas Jefferson, o terceiro presidente americano, e principal autor da Declaração da Independência Americana, tenha sido um dos primeiros estadistas a reconhecer o valor e a positiva influência dos valores morais da religião na construção de uma sociedade saudável. Jefferson publicou: The life and morals of Jesus. Uma seleção de todos os ensinamentos e eventos essenciais da vida de Jesus expurgada de todas as menções sobrenaturais ou de qualquer modo ligados ao dogma religioso, (ser o rei, o filho de deus, exorcismos, milagres).

A própria concepção judaica de povo, conduzida por um líder, este imbuído de conceitos morais, já demonstrava que uma liderança só poderia ser exercida através de normas de conduta, regras de bons costumes, e um profundo sentimento de unidade. As religiões em geral, invariavelmente, trazem no bojo da sua essência, a noção do que é o correto na sua forma de agir, direcionando dessa forma a sociedade.

Contudo, num Estado laico como o nosso, a fragmentação ideológica – religiosa, dos conceitos morais, se perdem diante dos meios de comunicação como a televisão, o cinema, e outros, que afrontam tais preceitos, diluindo os conceitos morais apregoados pela força religiosa, desfazendo – os, ou tornando os ditames de cunho espiritual, algo ultrapassado, impraticável, ou fora de moda, a ponto destes valores serem apreciados apenas de forma caricata nas novelas, como a no ” Caminho das Índias”, da rede Globo, onde os lampejos morais eram pinçados de forma pitoresca, conceitualmente distanciados do dia-a-dia da maioria das pessoas.

Extrairmos as concepções morais, aplica-los e difundi-los numa sociedade na forma em que Thomas Jefferson o fez, como na chamada “Bíblia de Jefferson”, abstendo-se por completo do caráter religioso em si dos preceitos, é iniciativa cívica que falta no nosso Pais. Sem querer de forma alguma ultrapassar os limites da razoabilidade do que podemos chamar de puritanismo barato, a idéia independente, e de isenção religiosa na difusão dos bons costumes morais nas escolas, é sim de suma importância na construção e no alicerce moral dos nossos jovens de amanhã.

A história nos demonstra, que o ser humano desde a sua antiguidade, exercitou a absorção do que permeia os ensinamentos religiosos; o bem, a boa conduta, a urbanidade, a justiça, e isso constitui-se numa empreita dos educadores, dos governos, da sociedade em geral. Uma tarefa já foi desafiante, que já fora outrora empreitada pelo terceiro presidente dos Estados Unidos, autor da declaração da independência americana, da lei da liberdade religiosa da Virgínia e pai da Universidade da Virgínia por volta de 1800, e que hoje torna-se tão necessária quanto naquela época, que nem sequer televisão havia, e que no lugar da novela das oito, na mesa, no jantar, o que mais se discutia era o evangelho.

Fernando Rizzolo

A CSS e os Notívagos Sofredores

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Realmente o melhor horário para se refletir sobre questões polêmicas é de madrugada, na turbulência de uma insônia. Pelo menos para mim, é o momento em que escrever, torna-se algo obrigatório. Mas como na vida nada é por acaso – e isso é um provérbio judaico – passei momentos na noite passada, refletindo sobre quantos notívagos sofredores – não com a falta de sono, mas a procura de um socorro médico – poderiam estar naquele momento, de madrugada, nos corredores dos hospitais públicos, como no Hospital das Clínicas de São Paulo, ao lado de minha casa.

É bem verdade que as grandes injustiças na humanidade sempre foram cometidas quando uma pretensa legitimidade a serve como esteio argumentativo. Assim foi durante toda a história, nas Cruzadas, no nazi- fascismo, nos regimes de exceção, quando, enfim, identificavam um inimigo comum. A partir daí era fácil; tudo estava chancelado em nome de um falso bem comum e a insensibilidade era justificada.

Interessante é notar como ainda no Brasil alguns insistem em anestesiar a solidariedade, a generosidade, o amor ao próximo, sob justificativas técnicas, insensíveis, para não dizermos egoístas. Todos sabem que o Brasil é um país pobre, que a maior parte da nossa população não possui sequer um plano de saúde privado e que a maioria das nossas crianças, carente e idosos, vivem do sistema público de saúde.

Justificar um não na aplicação dos recursos advindos da nova CPMF ou CSS, Contribuição Social para a Saúde, sob alegação de que o governo “têm dinheiro de sobra”, que se voltar o tributo irá “ser mal aplicado”, ou queo problema é” falta capacidade de gestão”, é o mesmo que virar as costas aqueles que necessitam de ajuda e justificar o auxílio, afirmando que os pobres com o que têm hoje, a eles bastam, o que é uma grande e desumana inverdade.

Mais intrigante ainda, é a falta de coragem daqueles que se dizem ao lado do povo, da esquerda, e numa atitude omissa, fogem do debate. A oposição que rechaça a contribuição, por bem deseja a continuidade da imutabilidade tributária do setor financeiro; rechaçam a CSS pois é um tributo de difícil sonegação e atinge em cheio o chamado ” caixa dois”. Poucos como o ex-ministro da saúde Adib Jatene, possuíram a determinação e coragem de apontar o dedo ao espírito egoísta dos que insistem em serem insensíveis a um problema de tal magnitude.

A saúde pública precisa de muito recurso, sim. Os pobres, as crianças carentes, os moradores da periferia, merecem ter uma medicina digna, um atendimento humano, um sofrimento amenizado nos abarrotados corredores dos hospitais públicos e um maior número de médicos. Nada justifica um não, numa atitude pouco cristã,sob argumentos “pseudo técnicos e frios”, como arma para justificar a falta de generosidade e o amor ao próximo.

Escrever à noite, nos faz pensar, nos torna mais humanos, e nos remete a refletir que intervir em causas justas, mesmo que seja de madrugada, é exercitar a abrangência do que chamamos de Direitos essenciais do ser humano. Direito à saúde, também é uma prerrogativa dos Direitos Humanos ou de uma vida mais digna a todos.

Fernando Rizzolo

*Artigo publicado no BLOG DA DILMA

As Reservas Minerais e o Futuro dos Jovens

Não faz mais do que dois anos quando numa tarde de domingo li um artigo interessante no jornal Folha de São Paulo, e que me levou a refletir sobre o potencial do Brasil em termos de recursos naturais.

Escondida sob a vegetação seca e os mandacarus da caatinga do sertão do Ceará, encontra-se a jazida de Itatiaia, localizado em um distrito distante da sede de Santa Quitéria (212 km de Fortaleza), hoje considerada a maior reserva de urânio do país. Esta área, com grande índice de desertificação e miséria, está também associada a outro minério, o fosfato.

Os moradores das comunidades vizinhas, por certo, mal sabiam do que se tratava tal mineral; apenas estranhavam o solo, montanhoso e cheio de pedras avermelhadas, bem como a movimentação – provavelmente de geólogos – desde 1976, quando foi descoberta a jazida. O que mais me intrigou no artigo foi exatamente o fato de que os habitantes da pobre comunidade, muito embora vivessem sobre um solo extremamente rico, eram essencialmente pobres, fazendo com que a injustiça social fosse ressaltada, envolta num cenário “surrealista econômico” e incoerente, entre a riqueza de um solo e a triste constatação da falta de oportunidade, de emprego, fazendo do destino de ser brasileiro, uma perpetuação alienada entre as riquezas do país e a condição de pobreza imposta pela política oportunista e pelos interesses nada nacionalistas, que sempre permearam nossa política.

Portanto, não há como discordarmos das posturas de defesa dos nossos recursos naturais e da postulação da aplicação de tais dividendos no combate à miséria, no investimento na educação e na saúde, sob pena de nos transformarmos em modelos de subdesenvolvimento como alguns países árabes, detentores de potencial petrolífero, cuja população permanece no desalento, muito embora sobre um solo rico.

Por bem, o governo Lula – na elaboração das regras para exploração da camada pré-sal, enviado ao Congresso – propôs que os recursos do Pré-Sal, irão compor um fundo denominando Fundo de Desenvolvimento Social, sendo que uma parte será investida em títulos públicos, ações e projetos de infra-estrutura e outra deverá ser aplicada na saúde, educação e no combate à pobreza. Com efeito, só podemos conceber uma democracia de qualidade quando exercida por uma sociedade instruída, dotada de conceitos críticos e refratária aos argumentos populista; a instrumentação para isso é o investimento na educação dos jovens.

Assim sendo, nada mais justo do que apresentar um modelo onde a receita dos recursos naturais, quer sejam eles advindos das reservas de urânio ou do petróleo, incidam sobre a preparação intelectual dos jovens do nosso país. Nada justifica termos um solo rico, onde a distribuição desta riqueza não reverta no combate sistemático da miséria, do analfabetismo, na formação profissional e na saúde da população. Principalmente dos jovens, segmento da sociedade preterido pelos modelos econômicos anteriores cuja predominância era de um viés financeiro.

Viver sobre um solo rico num Estado Democrático e de Direito é cada vez mais, fazer valer o “deitar em berço esplêndido” no avançar do desenvolvimento social, na busca de uma sociedade mais justa, fazendo dos seus filhos o reflexo da generosidade natural divina, estendendo e permeando seus frutos na construção de uma sociedade virtuosa e mais justa, onde o ator principal é o jovem de um Brasil próspero, democrático e acima de tudo, ético.

Fernando Rizzolo

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Carta de amor ao Brasil

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Amar o Brasil, é entender o Brasil,
É ter a paciência de um pai com seu filho
É defende-lo num jogo ou gritar de saudade quando longe se está,
e achar engraçado esse lado Brasil de a tudo se ajeitar.

Amar o Brasil, é gostar da multidão, passear na Praça da Sé, ver um camelô,
e entender que todos tem que viver e sobreviver.
Ter amor ao Brasil, é ser generoso, é entender que o negro, o índio, e o branco um só se tornaram, e já desenharam um povo. Que chora em novela, que bebe cerveja, que quer ser doutor, e que gosta de Deus.

Amar o Brasil, é andar pela praia, tomar caipirinha, olhar para o mar, lembrar de Drummond, sentado ao seu lado num banco da praia, lá em Copacabana. Amar o Brasil é gostar do nordeste, é comer tapioca, sonhar com o mar, olhar para a mulata dos olhos de mel.

Amar o Brasil é entender as favelas, lutar pelos pobres, perdoar o passado, amar as florestas, sonhar com os pássaros, e no sábado; Ah! comer aquela feijoada com muita farinha. É entender o silêncio e o olhar de um mineiro, lembrar do Rio Grande, do Norte e do Sul. Amar o Brasil é cantar nosso Hino, com um japonês, um judeu, ou um árabe, ao lado de todos vivem aqui.

Amar o Brasil é não perder a esperança, de poder cada dia construir uma pátria, que seja mais justa, mais ética e armada, presente no solo de Norte ao Sul,, na defesa das matas, dos sonhos, das lutas, abraçando com amor nosso filho gentil, esse amado País chamado Brasil.

texto de Fernando Rizzolo