Crônicas

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. Alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem… Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar.” (Vinicius de Morais)

Rua Dona Eugêniaa

A pista estava molhada e o dia nublado, mas a emoção de estar entrando no estado gaúcho me fez, num gesto rápido, pegar um CD do Borghetti, tocador de gaita inigualável. Eu era capaz de ouvi-lo sem parar. Sempre que viajo, gosto de entrar no clima da cidade, seja ela qual for. Se é Porto Alegre, visto-me espiritualmente de gaúcho; se for Minas, já sinto o cheiro do café; se for o Rio, então, só me falta virar malandro do morro. Acredito que incorporar o ar da cidade, observar o jeito das pessoas é o que faz a diferença quando estou fora do meu hábitat, que é São Paulo.

No entanto, para mim, Porto Alegre sempre foi especial. O cheiro de churrasco nas ruas calmas do Bairro Petrópolis, aos domingos, me impressionava e me entorpecia nas longas caminhadas, quando olhava além dos prédios baixos e o chão de paralelepípedo. Aquele era um paralelepípedo diferente – tinha algo de carvão, de frio, de brisa, de gaúcho mesmo. A rua em que eu ficava era a Dona Eugênia, perto do famoso “Força e Luz”. Caminhando mais um pouco, chegava-se à Redenção, parque que abrigava, também aos domingos, o “Brick da Redenção”, feirinha de antiguidade que tinha de tudo, do colecionador de selo ao gaúcho com olhar parado segurando o chimarrão.

Da Dona Eugênia eu ia até o centro, na rua da praia. Lá, sentia o ar gaúcho, dos pampas, no meio daquela gente que gritava vendendo coisas. Nos bares, havia aquela conversa amigável, quase carioca. Aliás, gaúcho e carioca sempre se deram bem, e descobri que são parecidos até ao contar casos, frequentemente pincelados de exagero e bom humor.

Fazia quase 15 anos que eu não ia a Porto Alegre, porém tudo ficara na memória: as pessoas, as ruas, o Brick, os paralelepípedos, o cheiro de churrasco. Um dia, já morto de saudade, fiz algo imprevisível, inusitado: comprei uma passagem, daquelas mais econômicas vendidas na internet, e fui a Porto Alegre. Ao chegar lá, peguei um táxi, como se estivesse fazendo algo proibido, e desci na rua Dona Eugênia. Meio sem graça, pedi ao motorista que ficasse na esquina durante 30 minutos. Como era julho, estava frio e rua deserta. Desci do carro e comecei a andar em direção ao Força e Luz. As casas eram as mesmas, o cheiro me convidava a caminhar devagar, e senti uma saudade no peito. Passei perto de uma casa e ouvi um latido conhecido, de um cão que um dia foi meu. Firmei o pé na caminhada e, como num filme, toda Porto Alegre me veio à mente – as casas, as vendas, o supermercado Zaffari -, amainando minha saudade.

Ao voltar, agradeci ao motorista, que com olhar de curiosidade me perguntou: “Tudo bem, doutor?”. Respondi meio encabulado e cansado: “Ah, sim, tudo ótimo! Podemos voltar para o aeroporto”. Na volta, pela Protásio Alves, o homem, um pouco constrangido e intrigado, me perguntou: “Veio só dar uma passadinha aqui em Poá, não é?”. Com o olhar distante, e de volta ao passado, olhei para ele e disse: “É que a música do Borghetti, o cheiro do churrasco, a Rua Dona Eugênia, meu cachorro e o Força e Luz não me saíam da cabeça, aí vim matar a saudade por aqui”. Como um bom gaúcho, ele me olhou e completou: “Acho que um dia tu teves uma prenda por aqui, não é?”. Olhei para ele sem responder nada e perguntei quanto havia sido a corrida. Com olhar meio triste, ele disse: “Só 15 pilas, doutor. Venha sempre a Porto Alegre e tenha uma boa viagem”. Agradeci, fechei a porta do carro e pensei: Porto Alegre, o Porto dos Casais, Força e Luz, a luz de Porto Alegre, a saudade que deixei…

Fernando Rizzolo

Tarde Fria

O dia estava chuvoso, era daqueles dias que gente sente frio dentro casa, tudo úmido, o ar, a sala, o chão. Preparei um chá bem quente e fui ler, mas algo me incomodava, decidi então escrever, mas não sobre economia, direito, escrever algo como quem galopa num cavalo amado. As idéias corriam como num campo aberto, mas nada de concreto, pensei o quanto chuvoso estava os campos da mata, da fazenda, o quanto as arvores se embebeciam de água, e também na alegria dos seres vivos que no interior das matas habitam e convivem.

Mas pensar nas matas, nos bichos, nas águas ? Foi quando por encanto, percebi que estava pensado em Deus, na sua grandiosidade, no ciclo da água, da vida, e da morte. Não queria escrever sobre Economia ou Direito, nem tampouco o frio me tanto incomodava, mas no fundo, queria sentir o aconchego divino, de estar sentindo a umidade me inspirar a natureza…..

Fernando Rizzolo

Sinoca

A água batia no chão como quem num ritmo forte e umedecendo ar, oferecesse um café quente ao lado de um fogão de lenha. O cheiro de madeira queimada, invadindo os quartos quentes com um chão semi úmido e empoeirado . Do lado de fora, um mato raso e uma tristeza pobre de se ter apenas pouco para comer, via-se feijão contido em pequenas porções, numa prateleira de madeira envelhecida pelo tempo.

Essa era a casa de Sínoca, o roçador de Aldeinha, pequeno bairro rural no Vale do Ribeira; orgulhoso, dizia que ” trabaiava por dia”, e o preferia assim, do que ser um ” tomadô de conta” . Nas suas histórias , aprendi o que é ser alguém contando com si mesmo, longe de tudo, no meio do mato, desassistido; era contratado por fazendeiros da região por um valor mísero, que mal dava para seu sustento, e de sua mulher.

Com seu andar desiquilibrado, no meio da lama, com as botas sujas de barro, atrás um cavalo, aprendi e descobri que as coisas simples podem trazer um sorriso, uma generosidade, um desafio. Sínoca e sua esposa, Janice, eram filhos de um Brasil rural, pobre, sem nada, mas que me ensinaram a conviver com o humilde, a fazer-me sentir o cheiro da casa de barro, da madeira queimando no fogão, no café em bule de ferro, do cheiro de pinga que se escondia em algum lugar da cozinha. Aos 12 anos descobri que no Brasil, existem milhões de Sínocas, e de Janices, que ainda hoje, no meio rural, roçam as tristezas da vida na esperança de um dia melhor, de uma vida mais digna, de uma prateleira mais cheia e menos envelhecida pela injustiça dos homens.

Fernando Rizzolo

O individualismo e o isolacionismo

Globalização é a expressão de ordem do capitalismo. Na realidade o que impulsiona essa expressão é um tipo de alienação. A ironia da globalização, advêm do fato do mundo estar teoricamente unificado, e ao mesmo tempo as pessoas estarem tão separadas entre si como nunca na história da humanidade. Cada vez mais, nós nos definimos a nós mesmos em termos econômicos. Costumamos a um primeiro encontro, sempre perguntar ao outro. Você trabalha em que área? Nossas semanas estão divididas entre o trabalho e o descanso, o que na maioria das vezes significa horários para produzir, e horários para consumir, nos encontrando num ciclo entre produção e consumo, invariavelmente.

Nossas alienações aumentam de forma progressiva. A cada etapa que acompanha o desenvolvimento profissional, nos distanciamos dos outros cada vez mais; mudamos de um apartamento para um condomínio fechado, sem contato com os nossos vizinhos, compramos dispositivos que efetuam ” personalização ” do mesmo apenas para nosso uso exclusivo, nos proporcionando ouvir ou assistir somente músicas ou filmes do nosso gosto, de forma separada dos outros, geralmente através de “headphones” que acabam nos desconectando do mundo. Até mesmo nossos celulares, que deveriam nos conectar com os outros, nos permitem ” filtrar” nossas relações, nos separando dos corpos que estão ao nosso redor, de forma a nos fazer ouvir vozes ” descorpadas”, de pessoas, que no final, raramente encontramos. Filhos que só falam com os pais por telefone, visitas via celular a entes queridos, com um final geralmente dizendo ” eu te amo “.

Desesperadamente procuramos no fundo, estar com, somos na essência ” animais sociáveis”, apesar de com freqüência estarmos exaustos da alternância entre fazer, comprar, produzir e consumir, o que nos impõe uma real impossibilidade de “simplesmente sermos nós”.

Num ambiente altamente desfigurado, agir diretamente ao outro, é a melhor forma de nos tornarmos parte de algo maior. Como fazer isso? Agindo ao semelhante, ou seja, fazer aos outros aquilo que gostaríamos que fizessem a nós mesmos. Seria o princípio judaico de assegurar que não haverá ninguém sem roupas enquanto temos roupas, ou não haverá famintos enquanto alguns saboreiam alimentos. O capitalismo nos leva ao egocentrismo, ao individualismo, e dessa forma, não mais temos condições de pensar no coletivo, tudo enfim gira em torno do pessoal, do único, do mesquinho.

Mas como poderíamos quebrar essa cultura importada, a do consumo? Uma das formas é a reflexão, é o se despir da ganância, é se voltar as coisas simples da vida, à natureza, aos amigos, e não se deixar levar à extrema concorrência que gera o ódio, e leva fatalmente à depressão.

Ter um projeto de vida e uma visão política de Justiça Social, enobrece o homem e refina os preceitos éticos que tanto o individualismo consumista nos obscureceu. Pensar em Deus e agir como parceiro dele aqui na terra procurando ser o melhor naquilo que você faz é a melhor oração, mas sem se deixar levar pela febre do isolamento e do do consumo que o levará fatalmente à tristeza e a falta de sentido na vida. Pense nisso.

Fernando Rizzolo

Uma resposta para “Crônicas”

  1. generosa magalães diz:

    Recebi um mail seu e visitei seu blog. Fiquei maravilhada c/ seu jeito simples de falar sobre coisas dificieis. Acho a humildade e a simplicidade dons divinos e aprecio muito pessoas q os posuui. Gosto muito de ler, escrever sempre apreciei leituras q falassem de deus seja ela de qualquer forma. Estou muito contente pelo convite; seu blog está muito bom e q seja p/ sempre assim tão iluminad escrevendo coisas boas p/ nós. obrigda e parabéns


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