Haja cinismo

Os governantes americanos continuam maltratando a inteligência da humanidade. Ao mesmo tempo em que se preparam para invadir o Irã sob a alegação de que o país representa uma ameaça para a “comunidade internacional”, anunciam que pretendem renovar o seu estoque de armas nucleares. O arsenal americano pode destruir o planeta pelo menos dez vezes. Mas, ao que tudo indica, isso não é suficiente. Equipes de cientistas do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, Califórnia, estão produzindo, a pedido do Departamento de Defesa e o de Energia, uma nova bomba de hidrogênio. Tão poderosa essa bomba que foi colocado à disposição deles, para a realização dos cálculos, os mais poderosos supercomputadores do mundo.
A Rússia manifestou indignação, já que essa atitude dos Estados Unidos rompe o acordo Salt II (Strategic Offensive Arms Talk), assinado em 1979, e de acordo com o qual os dois países se comprometem a manter congelado o seu arsenal nuclear.

Controladores iludem-se com a mídia e provocam tumulto

“Numa negociação os dois lados oferecem suas propostas. O governo não é e não vai ficar refém de ninguém”, afirmou o presidente Lula

A mídia reacionária teve no último fim de semana o seu pior surto de delírio dos últimos anos. Depois de açular os controladores de vôo durante meses contra o governo, diante das conseqüências, pôs-se a berrar contra a “quebra da hierarquia”, o “rompimento da cadeia de comando”, “a insubordinação aberta”, o “motim” e outros termos que foram usados pela última vez há 40 anos, quando alguns marinheiros fizeram uma manifestação, três ou quatro dias antes do mês de abril de 1964. Provavelmente, tem razão o pensador que afirmou que os fatos históricos acontecem duas vezes: a primeira, como tragédia – a segunda, em forma de mera e vulgar comédia. Daí, tudo isso soa perfeitamente ridículo, porque realmente é ridículo – mais fora do tempo, mais fora de época do que um dinossauro tomando brisa na Avenida Atlântica.

Não que eles pretendessem derrubar agora o governo através de um golpe militar. Sabem que não têm condição para isso. Sabem, e isso é uma das qualidades que não lhes agrada nos nossos militares, que as Forças Armadas não querem nem ouvir falar nisso. Mas não conseguiram disfarçar o velho cacoete golpista. Queriam atribuir a responsabilidade de uma suposta “quebra de hierarquia” ao governo e, certamente, intrigar a Aeronáutica com o presidente, como se a hierarquia não tivesse como princípio, precisamente, o comando supremo das Forças Armadas pelo presidente.

Seria bom para a sua saúde – ou para os seus negócios, o que é a mesma coisa – que eles percebessem os riscos de tentar manipular quem não quer ser manipulado. Mas, certamente, isso é problema deles. O fato é que nem a Aeronáutica nem o governo, e quase ninguém neste país, se impressionou com o seu charivari de fim de semana. Os únicos a ser enganados, foram os controladores de vôo. Esses até acreditaram que a mídia estava do seu lado, quando ela estava manipulando-os, e não apoiando-os. A essa hora, esperamos, os controladores já devem ter notado que o mundo é muito, muito mesmo, mais complicado do que pensavam.

O acordo conseguido pelo ministro Paulo Bernardo foi o que era possível obter para que a situação fosse minimamente normalizada. Embora, como, ao voltar ao Brasil, disse o presidente Lula aos militares, “numa negociação os dois lados oferecem suas propostas. Ali, só uma das partes cedeu, o que torna impossível considerá-la uma negociação”.

Apesar das dificuldades e das insuficiências na formação e na aparelhagem dos controladores, o serviço de tráfego aéreo brasileiro estava funcionando razoavelmente até o desastre do Boeing da Gol, em outubro do ano passado.

LEGACY

Deflagrando uma campanha para acobertar dois irresponsáveis americanos – provavelmente apenas porque eram americanos e funcionários de uma companhia americana – a mídia reacionária jogou a responsabilidade do desastre sobre o controle aéreo do nosso país.

Logo a Aeronáutica demonstrou que isso era falso, com a divulgação da caixa-preta do Legacy que se chocou com o Boeing. De resto, mesmo que os controladores de vôo tenham cometido alguma inexatidão, jamais se poderia culpá-los por não terem imaginado que estavam diante de dois irresponsáveis que não consultaram o plano de vôo, não ligaram o transponder do aparelho, não responderam às comunicações da torre, e, numa aerovia a 11 mil metros de altura, circulavam alegremente pela contramão. Que controlador de vôo pode controlar tal parelha de irresponsáveis? O lamentável é que quem caiu na mata amazônica tenha sido o Boeing e seus 154 ocupantes.

No entanto, a campanha da imprensa afetou os controladores de vôo. A partir daí, passaram a servir de instrumento dela, e, o que é pior, acreditando que estavam fazendo o melhor, tanto os civis quanto os militares.

Porém, sempre há algo que pode ser pior ainda: acusar a Aeronáutica e o Ministério da Defesa pelas deficiências do controle de tráfego aéreo é somente colaborar no acobertamento dos verdadeiros culpados. Como já disse alguém, se eles não sabiam quem eram esses culpados, deveriam saber. O brigadeiro Mauro Gandra, ex-ministro e ex-comandante da Aeronáutica, por exemplo, relatou há alguns meses sua experiência, do governo Collor ao governo Fernando Henrique: “A tarifa de navegação e dos aeroportos (….) não devia ser contingenciada pelo governo. Desde que era secretário de Economia e Finanças da Aeronáutica, em 1991, eu brigava com o Planejamento por isso. Dizia que eles estavam contingenciando dinheiro arrecadado especificamente para uma função. Eles não podem fazer isso, mas fazem há 20 anos”.

Portanto, acusar o comando atual da Aeronáutica e o Ministério da Defesa atual por um desvio das verbas realizado pelos neoliberais que mandavam e desmandavam nos governos anteriores, é simplesmente encobrir os verdadeiros responsáveis. Mas é isso, exatamente, o que os controladores de vôo estão fazendo.

DEFESA DO ESPAÇO AÉREO

Note-se que o presidente Lula, desde o início, determinou que o caminho fosse o da negociação, e isso foi feito. A “desmilitarização” do controle do tráfego aéreo comercial, foi encaminhada pelo governo para estudos, e até recomendada pela comissão que analisou a questão. O próprio comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, ao tomar posse, em 28 de fevereiro deste ano, admitiu a passagem do controle do tráfego comercial para uma instância pública civil.

Para os militares, seria livrar-se de um pesado fardo. Poderiam, então, concentrar-se inteiramente na defesa aérea, que é a sua função. Por necessidade do país, eles, na década de 70, tiveram de assumir, além da defesa aérea, também o controle de tráfego da aviação comercial. Na época, não havia outra maneira dos transportes aéreos do país crescerem.

Porém, atualmente, isso passou a ser um entrave para que a Aeronáutica possa exercer sua função precípua, a defesa do espaço aéreo do país. Não por acaso, houve necessidade de contratar civis para completar o quadro dos controladores de vôo, e os próprios sargentos envolvidos no controle tendem a se comportar como civis, e não como militares. Simplesmente porque esta é uma função civil. Os militares foram colocados lá porque, na época, não havia outro jeito. Com efeito, a integração da defesa aérea com o controle do tráfego aéreo comercial foi, por muito tempo, uma solução. Agora, com o crescimento exponencial do último, quase que já é uma dor de cabeça para a FAB.

Na segunda-feira, ao reunir-se com os comandantes militares, o presidente Lula, que já havia condenado como “irresponsável” a atitude dos controladores, elogiou a postura do comandante da Aeronáutica, que, mesmo sem concordar com a revogação das punições aos controladores, cumpriu prontamente a sua ordem. Em seguida, disse o presidente: “agora está na hora de restabelecer o princípio da autoridade, da hierarquia e da disciplina. O governo não é, e não vai ficar refém de ninguém. Não admito isso”.

CARLOS LOPES
Jornal Hora do Povo

O Estadão não tem jeito mesmo

É inacreditável a contínua tentativa do Estadão em desestabilizar o governo Lula, fazendo comparações descabidas e absurdas. Hoje, na matéria sobre a reunião do presidente Lula com os comandantes militares para tratar da crise no setor aéreo, o Estadão me sai com essa pérola: “Aos ministros, Lula disse que os controladores teriam paralisado atividades de forma “traiçoeira” – embora a crise no setor já dure seis meses. Também no escândalo do mensalão Lula se disse traído”.

A frase é de evidente má fé. Afinal, o que tem a ver o episódio do chamado mensalão com a crise dos controladores de vôo? Nada. Absolutamente nada. Só mais uma tentativa grosseira de jogar a opinião pública contra o presidente Lula e seu governo.

Um escândalo!