Pochmann destaca “oportunidade histórica para o movimento sindical”

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“Os trabalhadores devem liderar a convergência pelo desenvolvimento”

“Está colocada uma oportunidade inédita para o sindicalismo brasileiro disputar as transformações”, afirmou o professor Márcio Pochmann, no Seminário das centrais sindicais

“Neste momento, o movimento sindical tem uma oportunidade histórica de liderar a convergência pelo desenvolvimento. O que está colocado é uma oportunidade inédita dos trabalhadores disputarem a pauta das transformações, pois se o Brasil ficou de fora na primeira e na segunda revolução tecnológica, agora tem condições de incorporar as novas técnicas pensando em um desenvolvimento qualificado, ambientalmente sustentável, que interessa à coletividade”.

A afirmação é do professor e economista Márcio Pochmann, durante debate no Seminário da Jornada pelo Desenvolvimento com distribuição de renda e valorização do trabalho, realizado pelas centrais sindicais (CUT, CGTB, CGT, CAT, SDS, Força e NCST) em São Paulo.

“A experiência neoliberal quebrou o Estado, retirando sua capacidade de coordenação e de gestão, e hoje são os monopólios que governam ”, denunciou Pochmann, alertando que a “recuperação do papel do Estado como indutor do desenvolvimento econômico” é um dos desafios colocados para os sindicalistas e para a própria nação. “Não temos como reproduzir o padrão de desenvolvimento privatista e mercantil que gerou riqueza para o centro do capitalismo e subdesenvolvimento para os países periféricos. Não podemos transformar o país num imenso shopping center. O sentido da vida está na construção de um projeto de sociedade que nos valorize”, acrescentou.

“O padrão de consumo norte-americano é individualista, pensa no próprio umbigo. O Brasil tem 40 milhões de automóveis, se copiássemos o modelo dos EUA seriam 120 milhões de carros, multiplicando por três o que temos. Se hoje já não conseguimos andar direito pelas nossas cidades, imaginem três vezes mais. Que grau de investimento precisaria ser feito do ponto de vista de pontes, rodovias, para justificar um padrão de desenvolvimento deste tipo e para quê? E o que dizer então da China, com seus um bilhão e 400 milhões de habitantes? O Brasil tem de pensar em transporte coletivo, em metrô, trem, ônibus”, exemplificou.

Na avaliação do professor da Unicamp, o mais importante é pensar “a agenda do trabalho para os próximos anos e décadas”. O que não podemos fazer, sublinhou, “é dirigir um automóvel e ficar olhando fundamentalmente para o retrovisor, sem dar a atenção devida ao caminho que está sendo desbravado à nossa frente”.

“Como o próprio Celso Furtado já nos ensinou em 1974 no livro o Mito do desenvolvimento, o padrão de desenvolvimento do século passado gerou o mito de que seria possível universalizá-lo. Notamos que ele se expandiu para poucos países e a sua universalização quando ocorreu veio na forma de subdesenvolvimento. Nós somos um exemplo do que significa esse subdesenvolvimento”, alertou Pochmann, citando a “enorme concentração de renda e a brutal desigualdade social”.

EXPANSÃO

“Estamos há 26 anos – e espero que sejam só 26 anos – de ausência de desenvolvimento das forças produtivas deste pais. O ritmo de expansão da economia brasileira é muito baixo, é ridículo frente à expansão da população. Um país que tem 2,5 milhões de pessoas ingressando anualmente no mercado de trabalho não pode se dar ao luxo de crescer menos de 5% ao ano. Toda vez que crescemos menos de 5% ao ano, o que se gera é mais desemprego, mais precariedade nos postos de trabalho. Há uma geração perdida. Temos de recuperar mais de sete milhões de jovens que estão fora da escola e do trabalho. Não podemos continuar nesta marcha”, frisou.

Há a necessidade de construção de uma convergência nacional em torno do desenvolvimento, como a que ocorreu na Revolução de 30, afirmou Pochmann, destacando a importância do rompimento com a submissão ideológica. Na época, recordou, “Wahington Luís ainda achava que a laranja substituiria o café. imagina se nós ainda estivéssemos colhendo laranjas onde a gente estava, o que seria?” Os que pregam o subdesenvolvimento hoje, frisou, advogam uma inconcebível “convergência em torno do combate à inflação, que virou silêncio dos cemitérios. O movimento sindical tem a oportunidade inegável de liderar um movimento que contrabalance a égide neoliberal, que nos faz pensar pequeno”.

Com base em estudos que comprovam o espetacular aumento da produtividade do trabalho, Pochmann declarou “não haver razão alguma para jutificar, do ponto de vista técnico, jornada de trabalho superior a quatro horas por dia, acima de três dias por semana, pois já é compatível com o atual padrão de produção. Por que se tem que condenar os filhos dos trabalhadores a iniciar muito cedo no trabalho? Por que só os filhos dos ricos podem se preparar e entrar no mercado aos 25 anos, para ocupar as principais funções? Este é o nosso debate, o da qualidade do desenvolvimento”. Em vez disso, pela enorme “centralização e concentração”, “500 empresas-mundo” passaram a cartelizar todas as atividades e o que está ocorrendo é uma maior exploração, com “as doenças profissionais aumentando drasticamente”. “O que é o Karochi japonês, que faz a pessoa morrer de trabalhar?”, questionou.

Ao concluir sua intervenção, Pochmann destacou que a solução para estes problemas só virá com a “luta social, pela organização sindical, pelo partido político, pois muita gente deu sua vida para que pudéssemos gozar do padrão que temos hoje, teve de haver pressão social. Eventos como esse marcam o início de uma nova jornada do sindicalismo brasileiro, mas o futuro dependerá da nossa capacidade de luta”.

hora do povo

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