Na Cúpula Energética, presidentes do Brasil e da Venezuela defenderam que a integração da região será marco para superar o problema

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Independência energética, fortalecimento da integração e cooperação regional em matéria de eletricidade, hidrocarbonetos, biocombustíveis, e fontes alternativas de energia para sustentar o desenvolvimento da América do Sul. Estes foram os principais temas que mobilizaram os chefes de Estado de 12 países e centenas de autoridades que participaram da 1ª Cúpula Energética Sul-Americana, que foi realizada entre os dias 16 e 17 na Ilha Margarita, na Venezuela.

Antes da chegada dos presidentes, os diplomatas dos países da Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA), formada por Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Chile, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela, delinearam uma declaração conjunta e estratégias de ação do bloco. Na tarde da segunda-feira, os presidentes mantiveram reuniões bilaterais, enquanto os chanceleres e ministros de Energia dos 12 países da Comunidade discutiram questões técnicas dos projetos. Além do anfitrião Hugo Chávez, até a segunda-feira estavam presentes Luiz Inácio Lula da Silva, Néstor Kirchner (Argentina), Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador), Nicanor Duarte (Paraguai); o ministro do Suriname Gregory Rusland; o primeiro ministro guianense, Sam Hinds; e o vice-presidente uruguaio, Rodolfo Nin Novoa, que mantiveram uma reunião de trabalho, à qual se uniram posteriormente os presidentes da Colômbia, Alvaro Uribe; e Chile, Michelle Bachelet.

PÓLO

O evento foi precedido por uma ação concreta de integração entre o Brasil e Venezuela relacionada com o tema da Cúpula. Foi o lançamento da pedra fundamental de um pólo petroquímico na Venezuela, numa associação entre as petroquímicas Braskem (do Brasil) e Pequiven (da Venezuela), que resultará na construção do complexo General de Divisão José Antonio Anzoátegui, nos arredores da cidade de Barcelona. Ao lado dos presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, da Bolívia, Evo Morales, e do Paraguai, Nicanor Duarte, o presidente Lula afirmou que “não estamos plantando apenas uma parceria entre Venezuela e Brasil, entre uma empresa da Venezuela e uma empresa do Brasil. Estamos plantando uma coisa muito mais sagrada para o povo do Brasil e o povo da Venezuela, a partir de uma planta aqui, na Venezuela: o conhecimento para que nos transformemos, rapidamente, em exportador de produtos com alto valor agregado, com o valor de conhecimento e de inteligência que justifique os bons preços e o desenvolvimento da Venezuela e do Brasil”.

“Eu quero, Chávez, lhe dar os parabéns”, continuou Lula. “Eu penso que, depois de muito tempo, a Venezuela resolveu tomar uma decisão de se transformar numa grande nação. E uma grande nação, ela só acontece quando os governantes sonham grande, pensam grande. Se pensarmos pequeno, nunca deixaremos de ser pequenos”.

Chávez exaltou a integração e disse que os sul-americanos carregam em seus genes a visão de uma grande pátria unida. “Temos que levantar nossos povos em condições de igualdade. Juntos, como irmãos, faremos realidade o sonho da América do Sul”, afirmou, destacando que “o Paraguai sozinho, a Bolívia sozinha, jamais conseguiriam. O Brasil sozinho, jamais poderia (se desenvolver)”. “Fiquemos juntos para sermos livres”, conclamou. Chávez ressaltou que “vivemos uma crise energética mundial. A causa se chama petróleo, a causa se chama energia. A América do Sul tem tudo para enfrentar essa crise, dando prioridade a nosso consumo (interno)”.

O novo complexo petroquímico que será construído na Venezuela é um exemplo dos acordos a serem implementados na América do Sul. O presidente Lula destacou que esta iniciativa deve ser expandida para outros países. O investimento total é estimado em US$ 5 bilhões. Um dos projetos prevê uma planta de polipropileno (plástico usado em películas e fibras) com capacidade de produzir 450 mil toneladas anuais. A estimativa é de que esteja em operação até o final de 2009.

Outra parceria de grande porte entre Brasil e Venezuela é a refinaria de petróleo que está sendo construída no porto de Suape, em Pernambuco, e terá capacidade de processar cerca de 200 mil barris por dia. O projeto prevê investimentos de US$ 2,5 bilhões em uma parceria entre a Petrobrás e a estatal de petróleo da Venezuela, PDVSA.

INTEGRAÇÃO

Muito mais que uma integração energética, a Cúpula buscou a redução de assimetrias e o desenvolvimento da região, que será financiado pelos governos e por empresas estatais. Além disso, os países sul-americanos planejam criar o Banco do Sul – projeto inicial da Venezuela e da Argentina e que o Brasil recebeu o convite oficial para integrá-lo e aceitou participar -, que terá a missão de financiar projetos na área energética e de infra-estrutura.

Outro exemplo da integração é a construção do gasoduto do sul, iniciativa da Venezuela, Brasil, Argentina e Bolívia, que prevê a construção de um gasoduto com um percurso de 12.500 quilômetros. O gasoduto do sul estará terminado em 2017, com um investimento em cerca de US$ 20 bilhões. O gás será fornecido pela Venezuela e Bolívia. A Venezuela tem reservas comprovadas de mais de 151,5 trilhões de pés cúbicos de gás, as maiores da América do Sul e as oitavas maiores do mundo.

Na manhã de segunda-feira, no seu programa de rádio “Café com o Presidente”, Lula falou sobre a importância do encontro e os benefícios que os acordos trarão para os países da América do Sul. “O Brasil tem mostrado uma preocupação com a integração da América do Sul, e o item energia é um dos principais para que haja uma integração efetiva na América do Sul”, disse Lula. “Por exemplo, na Bolívia, temos muito gás, na Venezuela, temos muito gás. Temos outros países que têm petróleo, como Peru, Colômbia, Equador. A Venezuela tem muito petróleo. Estamos presentes em todos esses países. Estamos construindo parcerias também na questão da energia elétrica, na questão do gás, na questão do biodiesel, na questão do etanol, ou seja, queremos fazer uma integração para que nenhum país da América do Sul sofra qualquer crise por falta de abastecimento de energia, seja elétrica ou seja combustível”, ressaltou.

A Cúpula serviu também para os governos do Brasil e da Venezuela reafirmarem os acordos de cooperação na área de biocombustíveis. O assessor da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, afirmou que o governo brasileiro acertou os detalhes para a venda de etanol para a Venezuela. “Vendemos etanol e vamos continuar vendendo etanol para a Venezuela para que incorpore cerca de 10% do etanol. As críticas sobre a produção do etanol estão atenuadas em certa medida. O acordo já está sendo refeito e agora é simplesmente uma questão de preço. Este tom de debate que apareceu em determinado momento está mais calmo, a discussão está mais racional e menos emocional”.

ETANOL

Poucos dias antes da Cúpula, o presidente Chávez já havia se pronunciado sobre as manipulações de Bush e sua mídia para tentar intrigar a Venezuela e o Brasil em relação ao etanol. “Jamais iremos brigar com Lula, jamais iremos brigar com o Brasil”, disse Chávez, enfatizando que com o etanol, produzido a partir da cana-de-açúcar, “nos permite substituir um dos elementos mais poluentes na gasolina, o derivado de chumbo em até 8% a 10%”.

Na segunda, após reunião de trabalho com os presidentes, Chávez voltou a afirmar que “apenas alertamos sobre a proposta de Bush, que é muito diferente do que propõe o Brasil para uma energia complementar ao petróleo”. O etanol “nunca vai substituir o petróleo e o gás, mas vai complementá-los, como a energia nuclear, a eólica, a energia solar”, ressaltou Chávez, que tratou do tema com Lula.

ALESSANDRO RODRIGUES

Hora do Povo

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