As diferenças entre Ségolène e Sarkozy

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Entusiasta do mercado e da flexibilização de direitos, Sarkozy quer aproximação com os EUA. Já Ségolène Royal defende papel do Estado e promete reformar a França sem brutalizá-la. Pesquisa aponta redução da vantagem do candidato conservador.

Marco Aurélio Weissheimer – Carta Maior

O fato de os diversos partidos que compõem a esquerda francesa manifestarem-se a favor do voto para a socialista Ségolène Royal, contra o conservador Nicolas Sarkozy, evidencia que há algumas diferenças importantes entre os dois candidatos que disputarão o segundo turno das eleições presidenciais francesas no próximo dia 6 de maio. Tradicionalmente críticas do pensamento econômico do Partido Socialista francês, essas forças políticas identificam em Sarkozy um inimigo maior a ser derrotado. Mas qual são, afinal de contas, as principais diferenças entre Sarkozy e Ségolène? A trajetória dos dois candidatos já aponta algumas delas.

Ministro do Interior no governo de Jaques Chirac, Sarkozy, de 51 anos, tornou-se conhecido nacionalmente por defender uma política mais dura em relação à imigração. Durante os distúrbios de rua de 2005, ele se referiu aos jovens habitantes da periferia de Paris como “racaille”, ou ralé. Enquanto ministro, Sarkozy aprovou medidas para combater a imigração ilegal, incluindo deportações e o incentivo à integração dos “imigrantes mais qualificados” à sociedade francesa. Dizendo-se inspirado no primeiro-ministro britânico, Tony Blair, apresenta-se como um modernizador que quer romper com as tradicionais elites que detêm o poder na França. Na campanha eleitoral, Sarkozy defendeu uma ruptura com o estilo tradicional da política e prometeu estimular a mobilidade social, com melhores escolas e cortes no funcionalismo público.

Ségolène Royal, de 54 anos, nasceu em 1953, no Senegal (ex-África Ocidental Francesa). Formou-se em economia no Instituto de Estudos Políticos, de Paris, e depois foi estudar na Escola Nacional de Administração, um tradicional centro formador de autoridades francesas. Nesta escola, conheceu François Hollande, com quem vive até hoje. Uma das principais lideranças do Partido Socialista, Hollande era um dos postulantes socialistas à candidatura presidencial. Ela enfrentou uma pesada carga de preconceitos na disputa pela candidatura. Um dos concorrentes, Laurent Fabius, chegou a perguntar-lhe quem ficaria cuidando de seus filhos, caso ela fosse candidata. A declaração infeliz de Fabius acabou rendendo pontos a Ségolène. Eleita parlamentar pela região de Deux-Sevres, foi ministra do Meio Ambiente (1992-1993), vice-ministra da Educação (1997-2000) e vice-ministra da Família e Infância (2000-2001).

Propostas econômicas
O jornal Le Monde relaciona, nesta terça-feira (24), aquelas que seriam as principais diferenças entre eles no terreno econômico. O conservador Nicolas Sarkozy é apontado como um entusiasta do mercado e da flexibilização de direitos sociais e trabalhistas como caminho para a França crescer. Além disso, é um defensor de uma maior aproximação com os Estados Unidos, algo que significaria uma considerável mudança na política externa francesa.

Sarkozy promete fazer da “revalorização do trabalho” uma de suas políticas prioritárias. Durante a campanha eleitoral, tentou convencer os trabalhadores assalariados a “trabalhar mais para ganhar mais”. Essa idéia envolveria, entre outras coisas, a supressão de impostos, para os empresários, sobre horas extras trabalhadas (para além de 35 horas semanais). A supressão destes encargos, segundo ele, estimularia os empresários a pagar mais por horas suplementares de trabalho. O candidato governista apresenta-se como um defensor da “França que se levanta cedo e trabalha muito”, enfatizando enormemente o que chama de “valor do trabalho”. O outro pilar de sua campanha é a valorização da identidade nacional, da questão da imigração e da segurança. Com esse tripé, típicos do discurso da extrema-direita francesa, Sarkozy conseguiu abocanhar uma considerável parte dos votos que, nas eleições presidenciais de 2002, haviam sido dados a Jean-Marie Le Pen.

Já a socialista Ségolène Royal aposta em soluções neokeynesianas que consideram o papel do Estado indispensável para a retomada do crescimento e a geração de empregos, com inclusão social. Ela promete reduzir a carga tributária das empresas e priorizar a geração de novos empregos, especialmente para a juventude. Enquanto Sarkozy fala para o que considera ser a “França profunda” (conservadora), explorando o medo e a insegurança dos franceses diante da ameaça do desemprego, da “invasão de estrangeiros” e mesmo do terrorismo, Ségolène adota um discurso que promete melhores condições de trabalho para a juventude, com cursos de formação profissional e melhoria do sistema educacional. O desafio comum aos dois candidatos é colocar esses discursos em prática diante de um cenário de estagnação econômica e de crise de financiamento do Estado.

Nos últimos cinco anos, a França registrou um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) inferior à média das 30 principais economias do mundo. A renda per capita, que era a sétima do mundo em 1990, hoje ocupa uma modesta (para os padrões históricos franceses) 17ª posição no ranking internacional. Tanto Ségolène quanto Sarkozy prometeram atingir índices de crescimento econômico na casa dos 2%. A socialista promete reformar a França sem brutalizá-la, uma referência ao discurso linha dura adotado por Sarkozy, em defesa da identidade nacional, do controle e redução da imigração e de uma mão dura do Estado para diminuir os índices de insegurança. “É preciso fazer triunfar os valores humanos frente aos das bolsas de valores”, repetiu a socialista durante a campanha. O desafio de Ségolène é imenso, pois precisa dialogar com os temores de boa parte da população em relação a temas como violência, insegurança e desemprego.

Redução da vantagem de Sarkozy
Sarkozy saiu do primeiro turno como favorito mas, nesta terça-feira, uma pesquisa apontou uma significativa redução de sua vantagem sobre Ségolène. A pesquisa do TNS Sofres mostrou o candidato conservador com 51% dos votos, contra 49% da socialista. O levantamento ouviu mil pessoas entre os dias 23 e 24 de abril. Um dado significativo é o alto número de indecisos: cerca de 20% dos entrevistados disseram que ainda não definiram o voto. Na última pesquisa do mesmo instituto, realizada nos dias 18 e 19 de abril, Sarkozy tinha 53% das intenções de voto, contra 47% de Ségolène. Na reta final da campanha, os dois disputam o voto do eleitorado de centro.

A maioria do setor empresarial e do eleitorado de extrema-direita e centro-direita está fechada com o primeiro. Ségoléne, por sua vez, tem apoio do eleitorado de esquerda, da maioria da juventude de periferia e dos imigrantes com direito a voto. Para vencer, terá que conquistar ainda o apoio de uma parcela importante desse eleitorado de centro. A socialista tem pouco mais de dez dias para reverter o favoritismo de Sarkozy. No dia 2 de maio, terá uma oportunidade para fazer isso, em um debate nacional pela televisão com Sarkozy

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