Sociólogo Francês vê “sinais do futuro” na Venezuela

Trinta dos 82 anos de François Houtart foram dedicados ao estudo das mudanças políticas nos países do Sul do planeta. Desde 1976, o sociólogo belga dirige o Centro Tricontinental, núcleo de estudos da Universidade de Louvain. O trabalho permitiu que o ex-padre acompanhasse de perto a maioria das guerras de independência da África, as guerrilhas da América Latina e os governos nacionalistas da Ásia.

Neste momento, Houtart está mais interessado pelos novos governos da América Latina. Vê nos governos de Hugo Chávez, na Venezuela, e Evo Morales, na Bolívia, iniciativas “únicas no mundo atual” por fazerem acordos comerciais que não visam somente o lucro, mas também a solidariedade. Segundo ele, “sinais do futuro sem capitalismo”.

Houtart vê diferenças entre esses e outros governos da América Latina. No caso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o sociólogo acredita que sua política mantém o incentivo às grandes transnacionais do agronegócio, exploradoras da principal riqueza brasileira: o solo. E se diz preocupado com os custos sociais do aumento da produção de etanol e com a visão do governo de que o biocombustível é a solução para as mudanças climáticas.

O sociólogo francês está no Brasil para participar do 5º Congresso Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que começa nesta segunda-feira (11), em Brasília. No final de semana, ele concedeu a seguinte entrevista à agência Brasil:

O senhor acaba de chegar de uma visita a Venezuela e Bolívia. Como vê a situação desses países?
François Houtart: Eu penso que é um fato não só realmente novo para América Latina, como único no mundo atual. Estamos passando da resistência à ofensiva contra o neoliberalismo. As iniciativas que estão surgindo nesses países vão no sentido do fim do neoliberalismo. Veja bem que, evidentemente não significa terminar com o capitalismo, mas são passos que vão numa direção muito diferente do neoliberalismo.

Obviamente, em cada país, os processos são muito diferentes. Mas, em alguns lugares, como Venezuela, Bolívia, Equador e Cuba, há tempo, vão num sentido anti-imperialista. E até um certo ponto, isso ocorre também em Brasil e Argentina. Isso ficou claro na rejeição à Alca (Área de Livre Comércio das Américas).

E para nós, sociólogos, é muito interessante investigar porque esse processo está acontecendo agora na América Latina, e não na Ásia, Oriente Médio ou África. Para mim, isso se deve pelo fato da América Latina ter sido mais prejudicada pelo neoliberalismo e as privatizações da década de 1990. E conviver mais de perto com o império norte-americano.

Muitos analistas apontam diferenças um grupo que seria formado por Venezuela e Bolívia e outro, encabeçado por Brasil e Argentina. Essa análise é feita tanto para criticar um como outro. O senhor acredita que há essa diferença?
Houtart: Há uma diferença importante. Bolívia e Venezuela têm reservas naturais, de petróleo e gás, que estavam totalmente entregues a empresas estrangeiras. E o movimento para recuperar o controle sobre esses bens é um ato nacionalista forte.

Mas, além das situações serem diferentes de país a país, também a leitura que os governos fazem dessa realidade é diferente. O Brasil não tem o mesmo problema da Venezuela ou Bolívia, em recuperar suas reservas naturais. Mas aqui, o problema central, que é a expropriação do território agrícola para exportação, não está sendo enfrentado pelo governo. Ao contrário, o Brasil está em uma dinâmica de entregar ao exterior cada vez mais o seu principal recurso natural: o solo.

Em Bolívia e Venezuela, há um projeto político fruto do desejo de sair do neoliberalismo. Esse não é o caso do Brasil. A visão que tenho do exterior é que a política de Lula é fazer o país crescer dentro dos parâmetros neoliberais. Com juros altos, gastando a maior parte de seus recursos públicos com a dívida pública. E a contrapartida disso são políticas mais assistenciais que estruturais, como o Bolsa Família.

Mas mesmo com políticas relativamente diferentes, acredito que sejam possíveis alguns acordos entre esses países.

Além da rejeição à Alca, que tipos de acordos esses países podem fazer?
Houtart: A base dessa aliança sul-americana tem de ser o anti-imperialismo, ou seja, a submissão aos Estados Unidos. Por isso, foi essencial a rejeição à Alca. Mas é preciso avançar nessa integração sem a tutela da Casa Branca. Um dos pontos seria o Banco do Sul, que tiraria a América do Sul da influência do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), que hoje indicam as políticas econômicas que esses países devem seguir já que controlam suas dívidas.

Outro ponto é a Alba (Alternativa Bolivariana das Américas), que é um conjunto de acordos assinados entre Cuba, Venezuela e Bolívia, para trocas solidárias. Nisso, a Venezuela cede petróleo em troca de serviços médicos cubanos, por exemplo.

São trocas que superam a lógica capitalista, de aumentar o lucro. São feitas sobre a base da solidariedade e da complementação dos países. Isso são sinais de um futuro possível com mais igualdade.

Mas o acordo do Brasil com os Estados Unidos sobre o etanol, vai justamente no sentido oposto. A exportação de etanol para os norte-americanos vai aumentar ainda mais o poder das empresas de agronegócio estrangeiras no Brasil. Além da produção de etanol .

Mas não se formou uma visão dividida dessa questão? Por um lado, há os riscos ambientais e sociais da expansão do etanol, mas é uma possibilidade interessante para países sem reservas de petróleo, como Cuba, que criticou o acordo do Brasil com Estados Unidos.
Houtart: Óbvio que, para a Venezuela, por exemplo, num futuro sem petróleo, o etanol será importante. Mas precisamos ver o custo ambiental e social disso.

Temos de saber que ainda que nós colocássemos os 2/3 da superfície terrestre a produzir etanol, não vamos suprir o consumo de petróleo que existe hoje. Então o etanol e o biodiesel são apenas uma parte da solução, não são “a” solução. Precisamos discutir a quantidade de energia que o mundo consome hoje. E isso tem a ver com o modo de vida capitalista da sociedade atual, centrado na cultura do carro e dos altos padrões de consumo. E para mudar isso, é preciso mudar todo o modelo de desenvolvimento dos países.

Eu estive recentemente nos Estados Unidos e a discussão sobre o etanol não passa pela melhora do clima. O que eles dizem é: “isso vai nos permitir ser menos dependentes do Oriente Médio e da Venezuela”.

Lá, eu li no jornal norte-americano mais popular, o USA Today, um anúncio publicitário: “Como o aquecimento global pode deixá-lo rico”. Então, se é para estender o poder das grandes empresas de agronegócio, não é bom. Pois não muda a lógica de aumentar o lucro cada vez mais, independente dos efeitos colaterais.

Além de Venezuela e Bolívia, o MST também rompe essa lógica?
Houtart: Sim, em outro âmbito, que não é de governo, é o caso do MST. O uso do solo com o fim de garantir, primeiro, a alimentação das famílias e, depois, da sociedade, está nesse espírito. A produção de alimentos sem agrotóxicos, sem visar somente o lucro na produção, também.

Fonte: Agência Brasil

Rizzolo: Acho que a análise é boa e essa questão do fato da América Latina ter sido mais prejudicada pelo neoliberalismo e as privatizações da década de 1990. E conviver mais de perto com o império norte-americano fez com que a América Latina se volte para uma política não neoliberal que também não é socialista, existe sim um direcionamento socialista , contudo , com muita propriedade salientou a expansão do agronegócio no Brasil e a entrega do solo brasileiro, tenho alertado e discordo dessa ” estratégia canavieira “, precisamos ir com cuidado, cautela, as Usinas de Alcool já estão sendo vendidas e muitas já estão nas mãos de especuladores internacionais, o próprio Soros veio aqui pra isso, temos que ter cuidado com o nosso solo, nossas riquezas, chegaremos num momento que não teremos mais controle, isso é uma forma de conquista territorial.

Deve haver muitos militares, cidadãos comuns, empresários progressistas, nesse Brasil que pensam como eu, eu será que sou um Advogado que delira nas madrugadas diante de seu Blog ?

Publicado em Política. 1 Comment »

Uma resposta to “Sociólogo Francês vê “sinais do futuro” na Venezuela”

  1. Piuria Says:

    ntelectuais, clérigos e bufões do canibalpitalismo
    por Jorge Majfud [*]

    “O egoísmo capitalista resulta, pois, tão solidário que se assemelha àquele que prega a Bíblia”.
    (Manual del perfecto idiota, pg. 226)

    No prólogo do Manual del perfecto idiota latinoamericano, (1996) Mario Vargas Llosa já insistia em que “Mendoza, Montaner e Vargas Llosa parecem ter chegado nas suas investigações sobre a idiotice intelectual na América Latina à conclusão […] de que o subdesenvolvimento é ‘uma doença mental'”. O novelista procura, numa espécie de ditadura monoléctica, definir ‘doença mental’ “como [uma] debilidade e covardia frente à realidade real e como uma propensão neurótica a evitá-la substituindo-a por uma realidade fictícia”. Tudo devido a “uma incapacidade profunda para discriminar entre verdade e mentira, entre realidade e ficção”. Na campanha eleitoral que Alberto Fujimori ganhou ao próprio Vargas Llosa em 1990, aquele reprovou a este ter “uma imaginação de novelista”, o que significava exactamente o mesmo que anos depois o autor deste prólogo reprova aos latino-americanos como sintoma característico de uma enfermidade: simplesmente qualificações pessoais (doença mental, incapacidade, debilidade, covardia, etc), sem argumentos. Ou seja, isto é verdade porque o digo eu.

    Um dos axiomas centrais do Manual consiste em dar a entender (ou crer) que vivemos naturalmente em sociedades amorosas — sobre isto Voltaire já ironizara —, onde não existem poderes de nenhum tipo interessados na dominação. Os recursos produtivos como o petróleo, as fontes de sobrevivência como a água, a multiplicidade de monopólios, a omnipresença da voz dos mais fortes nos meios de comunicação, a doações milionários dos bilionários às campanhas eleitorais, tudo, faz parte de um grande impulso fraterno para compartilhar a graça de Deus. Criticando os teólogos da libertação, os autores sustentam a atitude contrária: “O termo ‘libertação’ é em si mesmo conflitivo: apela ardorosamente à existência de um inimigo ao qual há que combater para por os desafortunados em liberdade”. E a seguir: “Será o Deus da justiça também o Deus da inveja? […] Os curas da libertação não notam que o capitalismo acaba por ser o sistema mais solidário de todos, um mundo onde a caridade […] é infinitamente maior que qualquer outro sistema. […] No capitalismo, todos colaboram com todos. O egoísmo capitalista resulta, pois, tão solidário que assemelha-se ao que prega a Bíblia”. (Fora do contexto qualquer um poderia atribuir esta frase a Marx.) Mais adiante, uma definição à la carte: “o capitalismo é uma palavra que simplesmente descreve um clima de liberdade no qual todos os membros de uma comunidade dedicam-se a perseguir voluntariamente os seus próprios objectivos económicos”. Ou seja, Gengis Khan promoveu o capitalismo na Ásia muito antes dos modernos narco-traficantes.

    Mas um sistema dominante não só precisa negar-se a si próprio como tal, tornar-se invisível, como também moralizar acerca da perigosa existência de tudo o que é marginal no seu próprio centro. A tese de procurar uma causa do subdesenvolvimento nas faculdades mentais de um grupo ou de um povo definido como fracassado não menciona, em momento algum, que função cumpre a tese em si mesma. Ou seja, a quem convém — de onde provém — esta catequese ideológica.

    Este livro foi citado e recomendado por políticos e presidentes como Carlos Menem na cimeira da euforia primeiro-mundista que assolou os países do “continente idiota”, pouco antes do desastre económico e moral de princípios do século. Mas não é uma novidade e sim uma tradição intelectual que remonta a Sarmiento ou pelo menos a Alcides Argueda (Pueblo enfermo, 1909). Só que sem o correspondente mérito histórico e literário.

    Em 1550, para legitimar a exploração e genocídio dos nativos americanos, também o teólogo Ginés de Sepúlveda lançou mão da Bíblia. Perante o rei e a corte que debatiam a justiça ou injustiça da escravidão denunciada pelo sacerdote Bartolomé de las Casas, Sepúlveda citou o livro dos Provérbios. Segundo o famoso teólogo, “escrito está no livro dos Provérbios: ‘O que é néscio servirá o sábio’, tais são as gentes bárbaras e desumanas, alheias à vida civil e aos costumes pacíficos e será sempre justo e conforme ao direito natural que tais gentes submetam-se ao império de príncipes e nações mais cultas e humanas”. O próprio Hernán Cortés, invocando Deus depois de torturar e assassinar a galope aldeias inteiras, anotava nas suas cartas ao rei que a virtude da sua acção consistiu em deixar em paz aqueles povos selvagens. Para torná-lo mais legal, costumava ler-lhes, em castelhano, o comunicado de uma imediata submissão ao rei de Espanha, do contrário seriam submetidos pela força. E quando assim faziam, escrevia o herói, os mesmos caciques — que não sabiam uma palavra de castelhano — voltavam a chorar, arrependidos e reconhecendo que a culpa da destruição das suas aldeias radicava na sua própria estupidez. Por esta desobediência ao “direito natural”, afirmava Sepúlveda, a guerra empreendida pelo império era uma guerra justa.

    Jorge Luís Borges, um intelectual funcional para a sua classe oligárquica, soube entretanto usar argumentos como recurso retórico principal. Certa vez recordou uma anedota: numa disputa entre dois, um deles lançou um copo de água à carta do outro. O agredido respondeu: “Muito bem; isso foi uma digressão. Agora espero os seus argumentos”. De um ponto de vista filosófico, talvez seja uma novidade histórica começar por definir o adversário dialéctico como “idiota” ao invés de atacar as suas ideias. De um ponto de vista histórico não; é apenas uma tradição: (des)qualificar o outro para perpetuar a sua opressão. Estas ideias responsabilizam os oprimidos pela sua opressão e ao mesmo tempo negam a existência desta. Legitimam uma ordem herdada de um pesado passado, mas em nome do progresso material e espiritual futuro.

    Segundo Mário Vargas Llosa, a América Latina produziu destacados artistas, novelistas e pensadores delirantes, “tão faltos de profundidade e tanto ideólogos em contradição perpétua com a objectividade histórica e o pragmatismo”, tudo sintoma de idiotice. Faz-se implícito que o único caso em que um escritor, um novelista latino-americano é capaz de ver a realidade real e a objectividade histórica, no único caso em que não estamos perante as observações de outro idiota, é o seu próprio. Do contrário as suas afirmações anular-se-iam por si próprias, dada a sua suposta condição de perfeito idiota.

    Não creio em absoluto que Vargas Llosa seja um idiota. É só parte de uma mesma lógica. Não é por acaso que ele os intelectuais funcionais condenam a “realidade fictícia” como produto de uma “doença mental” que impede o aceitar da “realidade real”. Porque realidade é o que existe (o canibalpitalismo). Portanto, se é difícil criar algo diferente no interesse de um sistema dominante que cria essa realidade, mais difícil ainda será fazê-lo se condenamos a liberdade da imaginação como um atributo da idiotice e do subdesenvolvimento. Essa mesma imaginação que se venera nos revolucionários e progressistas utópicos do passado que não se resignaram à “realidade real” do feudalismo o dos façanhudos negreiros do século XVIII ou da venda de carne humana nas fábricas do Progresso.
    20/Junho/2007
    [*] Escritor uruguaio, professor de Literatura Latino-americana na Universidade da Geórgia, Atlanta, EUA.

    O original encontra-se em http://alainet.org

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


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