Superávit primário

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O Banco Central publicou, nos jornais da semana, alguns dados da nossa contabilidade pública referentes aos idos de abril. Um espanto. Segundo a matéria de capa de quase todos os cadernos econômicos dos grandes jornais, o Brasil bateu, naquele mês, recorde histórico de economia para pagamento dos juros. Essa “economia”, o mal chamado superávit primário, somou R$ 23,5 bilhões, o maior valor já registrado desde que se mede tal descalabro.

Para se avaliar o tamanho bestial de tal quantia, basta dizer que ela quase equivale ao que o governo imagina investir em obras o ano inteiro: R$ 25 bilhões. Ou seja, em um mês se gasta em juros quase tanto quanto se reserva para investir o ano inteiro. O tão propagandeado PAC, outra comparação, desembolsou nos quatro primeiros meses deste ano apenas R$ 680,7 milhões. Perto da roleta cassino, uma aceleração merreca. Já o superávit primário de abril triplicou em relação ao de março.

Fica claro que o governo predica uma prioridade e pratica outra. Manquitola em tudo o mais, mas paga os juros com uma precisão suíça. Entre janeiro e abril, o total de juros pagos pelo setor público somou R$ 51,1 bilhões, ou 6,56% do produto bruto. Ou seja, todo santo dia, em média, se transferiu do tesouro público para a roleta do cassino financeiro a bagatela de R$ 426 milhões. Quase o PAC do quadrimestre por dia, uma sangria desatada que explica a permanência dos inúmeros gargalos na produção e, ao mesmo tempo, a euforia dos rentistas.

Essa overdose de dinheiro injetado na jogatina é um absurdo. Assim como absurdo é o próprio conceito com que tal operação se inscreve na nomenclatura da contabilidade atual. Invenção recente, o superávit primário é contemporâneo da supremacia absoluta do capitalismo financeiro. Os contadores formados antes do surto neoliberal não tinham conhecimento dele e, na certa, considerariam uma heresia o fato, hoje comum, de se poder ostentar um déficit nominal ao lado de um vistoso superávit primário. Nem os jornais escondem mais: é a cota reservada para os que mandam no mundo do dinheiro.

O conceito foi inventado pela casta financeira para garantir o “meu pirão primeiro”. Com ele, cravaram uma gigantesca sanguessuga nas burras do Tesouro, através da qual privatizam, na fonte, parcelas cada vez maiores dos recursos públicos. Ainda assim, a dívida só faz crescer. Na mesma ocasião, o Banco Central informou também que a dívida líquida do setor público fechou abril em R$ 1,080 trilhão, 44,4% do PIB. É a lógica do modelo econômico que faz do Brasil o paraíso do rentismo.

Lá atrás, ainda nos primórdios da conversão lulista, o escritor Luiz Fernando Veríssimo, em bela crônica, foi buscar na mitologia grega uma explicação para o fenômeno. Como Teseu, Lula teria sido escolhido para derrotar o Minotauro da dívida. Os milhões de votos seriam o fio de Ariadne a lhe indicar os caminhos. Entrou no labirinto e não mais voltou. Emissários enviados para saber as razões da demora encontraram os dois animados no maior bate-papo. Os dois continuam amigos até hoje e, confortavelmente instalados no labirinto financeiro, comemoram juntos os recordes sucessivos do superávit primário.

Léo Lince é sociólogo.
Correio da Cidadania

Rizzolo: Todos sabem que apoio em grande parte as diretrizes do governo Lula, contudo, minha ressalva se faz nessa ” economia ” que é um assalto chamada ” superavit primário “, ou seja, em um mês se gasta em juros quase tanto quanto se reserva para investir o ano inteiro, o governo “economizou” em abril R$ 23,5 bilhões , recorde histórico de economia para pagamento dos juros; é uma verdadeira sangria na economia, até quando vamos suportar isso ? Porque não criamos coragem e fazemos como a Argentina ? a resposta: Lula não tem correlação de forças. Concordo , em termos, o Brasil é um país muito pobre, temos que repensar essa dívida , negocia-la , reavalia-la agora ficar pagando isso não dá , né. Eu acho que não precisa ser Trotskista para entender esse número absurdo. Vamos esperar a famosa correlação de forças, até para termos esperança num Brasil melhor e menos subserviente à espoliação internacional.

Publicado em Política. 1 Comment »

Uma resposta to “Superávit primário”

  1. Alexadre Porto Says:

    FHC1 não fez economia, déficit primário.
    Resultado: endividamento galopante e perda de capacidade de investimento, que pagamos até hoje. Em dois anos o Governo economizou 2% do PIB em pagamento de juros. Esse é o rumo.


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