Raças: Implausibilidade científica, plausibilidade sociológica

Os mais diferentes ramos da ciência biológica produziram conhecimentos que provam de maneira inequívoca e irrefutável a inexistência de diferentes raças na espécie humana. Os estudos vão além, concluem que ao longo da epopéia humana, que datam aproximadamente 160 mil anos, estabeleceu-se contatos genéticos que permite afirmar, seguramente, que nunca houve populações humanas racialmente puras.

Todas as correntes ideológicas e interesses subjacentes no campo científico, a partir da queda do nazismo e respaldados pelas pesquisas mais recentes, concensualmente acreditam na implausibilidade do conceito de raças apregoado pelos pensadores do racismo científico. Ou seja, para ciência a humanidade é biologicamente una, aqueles que insistem em afirmação contrária estão em flagrante equívoco e, do ponto de vista das ciências biológicas, acientífico.

Ocorre que a gênese política que permitiu a construção científica do conceito de raças em finais do século 18 e praticamente todo século 19, tinha objetivo de classificar, hierarquizar e legitimar a dominação da classe dominante européia e da nascente burguesia estadunidense sobre povos e grupos sociais com diferenças culturais, psicológicas, históricas, geográficas e fenotípicas, por isso as teorias raciais foram elaboradas sob intencionalidades não cientificas, assim nascem tendenciosas e racistas. Trocando em miúdos a racialização da humanidade deu suporte para várias formas de dominação: escravidão de africanos e seus descendentes em todo continente americano; colonialismo em todos os países africanos e de parte importante da Ásia; marginalização e exotização dos povos e das culturas, cuja base civilizatória descompatibiliza com a cultura eurocêntrica nas suas variadas formas de manifestação. De modo que as formulações do racismo científico nunca beneficiou a parcela não branca que se constitui na massa majoritária da população mundial, ao contrário, sempre prejudicou, por isso sempre foi negada.

A plausibilidade sociológica do conceito de raças se sustenta no fato dos grupos humanos compartilharem semelhanças físicas, psicológicas, morais, culturais, religiosas, lingüísticas, experiências históricas e lugares geográficos comuns.

Historicamente a semelhança fenotípica impôs momentos históricos, estereótipos, condições sociais e destino comum a vários povos. Esses elementos dão conformidade identidária e idiossincrática que singulariza grupos humanos transformando-os em raças. Mesmo após a evolução científica dos estudos genéticos que concluiram que há grandes possibilidades de um africano ter maior semelhanças genéticas com um esquimó a um outro africano de sua comunidade; mesmo convictos da igualdade dos homens enquanto espécie humana, as determinações sociais historicamente produzidas pelo racismo, outrora com a legitimidade da ciência, hierarquizam e diferenciam os seres humanos. Os genes não determinam comportamento sociais.

A certeza da inexistência de raças na espécie humana não evitou que em diversos países exista contradições raciais que aparecem em assimetrias econômica, social, política e cultural que se revelam na hierarquia de raças estabelecidas segundo a ordem de superioridade racial classificada pelos teóricos do racismo científico. Na maior parte das sociedades capitalistas modernas as elites que historicamente vem concentrando poder econômico produzido em escala mundial, em detrimento de seus e de outros povos, são brancas. Essas elites herdaram o capital, bem como as benesses do racialismo da espécie humana, que outrora beneficiou os donos das empresas escravagistas e coloniais.

A desracialização sociológica da humanidade não se dará pelo conjunto de retóricas elaboradas por mentes ilustradas bem ou mal intencionadas, nem pela boa vontade daqueles que repudiam o racismo. As estruturas historicamente construídas pelas práticas racistas cotidianas sustentaram e continuam sustentando o capitalismo internacionalmente; produziram e produzem beneficiários coletivos e individuais; cunharam as culturas dominantes e dominadas, por isso impregnam o senso comum; estão enraizadas nas instituições e nas práticas políticas; transitam de modo subliminar ou acintosamente nos setores formadores de opinião.

Para reverter a lógica racialista será necessário tornar a predominância do pensamento dominante e seus efeitos intangíveis na vida cotidiana das populações vitimadas. Para isso precisamos de ações públicas nos campos político, educacional, cultural, legal, religioso, econômico, dentre outras esferas que organizam a vida em sociedade.

Enquanto a pobreza atingir desigualmente as pessoas, gerando várias ordens de desvantagens as populações e países de maioria não brancas; enquanto o continente africano e alguns países asiático não forem reparados pela devastação do colonialismo; enquanto os países americanos não resolverem as desigualdade internas entre negros, índios e brancos; enquanto os países europeus tratarem como cidadãos de terceira classe os imigrantes africanos, latinos e asiáticos a sociedade humana estará fadada a sofrer da praga do racialismo, do racismo e dos conflitos étnicos que eles produzem.

*Edson França, É membro da executiva nacional da Unegro, membro do Conselho Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) e da coordenação da Conen-Coordenação Nacional de Entidades Negras
Site do PC do B

Rizzolo: O conceito racial realmente trouxe reflexões acusatórias às minorias não brancas, a sustentabilidade dos argumentos racistas levam a desqualificação daqueles que não são brancos e serviu de base para legitimar o escravagismo. Temos que romper com o conceito de raça. O racismo leva a uma legitimização das arbitrariedades porque na sua explicação ilógica oferece um conteúdo de liberalidade e legitimidade para o cometimento das atrocidades às minorias, não brancas.

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