Deu no Financial Times: globalização impopular na Europa e EUA

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The Financial Times, o porta-voz do neoliberalismo global, um dos jornais mais influentes do mundo, assombra-se e manifesta ”profunda preocupação” (em Retrocesso da globalização nos países ricos, 22/7/2007*) com os resultados de uma pesquisa multinacional do instituto Harris Interactive Survey em cinco países-membros do G7 (EUA, Grã-Gretanha, Alemanha, França e Itália), e de quebra a Espanha. Esta mostra um repúdio generalizado à globalização.
Por Alfredo Jalife-Rahme, em La jornada**

Os maiores beneficiários da globalização exibem a ”terrível revelação”, explica De Defenza (23/7), centro de pensamento militar-estratégico europeu com sede em Bruxelas: ”Os povos do mundo desenvolvido, matriz da globalização, na sua maioria a repudiam”.

”Resultados desoladores”

Os ”tristes resultados” (super sic!) aplicam-se aos EUA e Grã-Bretanha, com culturas econômicas mais liberais, como às economias européias continentais, mais ”dirigistas”, explica Chris Giles. Ele admite que ”a globalização é vista como uma esmagadora força negativa pelos cidadãos dos países ricos; estes desejam que seus governos amorteçam os golpes que, segundo sua percepção, decorreram da liberalização de suas economias no comércio com os emergentes”.

Pesará tanto assim a sombra competitiva do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China)? Desolado e assombrado, The Financial Times constata que ”os cidadãos dos países ricos semtem-se inseguros. Enxergam a globalização como danosa aos seus interesses; preocupam-se com as crescentes desigualdades; não se deixam impressionar pelos grandes empresários; e desejam que os políticos tornem o mundo mais igualitário”.
Um dos problemas é que a classe política, com honrosas exceções, foi desmantelada pelas lubrificações financeiras dos executivos das transnacionais. Só resta, como último recurso saneador, que os próprios cidadãoe assumam o comando de seus destinos.

Para Giles, uma das conseqüências será que ”os resultados abrem o caminho para políticos populistas (sic) obterem o apoio da retórica (sic) antiglobalizante, com promessas de maior controle e regulamentação das economias”. Ele comenta que, ”embora definir a globalização seja algo que desafie muitos especialistas, nas pessoas dos países ricos o termo desperta pensamentos lúgubres”. Ressalta que ”na Grã-Bretanha, EUA e Espanha, menos de um quinto dos consultados respondeu que a globalização é benéfica”.

O fosso entre possuidores e despossuídos

Os extravios e desvarios semânticos de fato alcançaram alto nível de trivialização propagandística. Como o empregado tirânica e unilateralmente na mídia pelo neoconservador bushiano Enrique Krauze Kleinbort, – que chegou a perorar atrevidamente sobre a ”globalização da democracia”, uma verdadeira contradição, já que nada é mais antidemocrático que a desregulada globalização financeira feudal, um modelo eminentemente plutocrático e misantrópico.

Mais sensato, Giles observa que ”os resultados são preocupantes (sic), já que a maioria (super sic!) dos econistas acredita (hiper sic!) que a globalização estimulou o desempenho econômico tanto dos países ricos como dos pobres (sic)”. Isso não é um ato de fé. E nunca tais ”economistas” (a referência deve ser à fauna neoliberal) chegaram a comparar seus dogmas publicitários fundamentalistas com os fatos da vida real.

Cabe perguntar a sir Chris Giles: os resultados são ”preocupantes” para quem? Certamente não para os cidadãos livres, que com seu repúdio têm a oportunidade de ouro de dar uma virada em seu destino, sequestrado pela parasitária plutocracia especuladora, inimiga do bem comum. e única beneficiária de um modelo pernicioso, predador e desumano sob todos os aspectos.

A Espanha, ou medieval Aznarstão

O fosso entre os possuidores e os despossuídos se aprofundou nos países ricos. ”Mais (sic) de três quartos dos consultados respondeu em seus países, exceto a Espanha, pensam (ultra sic!) que a desigualdade aumentou”.

A Espanha, o medieval Aznarstão [de José Maria Aznar, líder da direita espanhola], há muito pedreu o norte; é um país colonizado financeiramente pela banca britânica, a ponto de ser reduzida a sua verdadeira dimensão pela implosão de sua bolha imobiliária e por sua paulatina expulsão dos setores estratégicos latino-americanos, em conseqüência do renascimento nacionalista e da insolente intromissão de suas antigas colônias. Sem contar as grotescas aventuras militares espanholas, compartilhando as derrotas de seus amos anglo-saxões no Iraque e Afeganistão, a aznarista Espanha medieval já brigou com a China (nada mais!), o Irã (nada menos!) e personalidades de primeiro escalão na América Latina, região que ela maltrata como sua conquista do século 16, sem se dar conta de que age como um instrumento do unilateralismo bushiano, em plena putrefação.

A gloriosa Espanha de outrora, hoje totalmente irreconhecível, era um dos pontos civilizatórios do planeta. A globalização financeira feudal desfigurou-a.

Surpresas não surpreendentes

Daí a revolta cidadã contra os executivos parasitas, que gozam de salários estratosféricos – o que levou os cidadãos dos seis países a ”apoiar maiores impostos sobre quem ganha mais”. Giles agrega que ”vários estudos sobre desigualdade entre gerações mostram que os filhos de pobres serão provavelmente mais pobres nos EUA e Grã-Bretanha que nos países da Europa continental”. Por que então a surpresa, se o capitalismo anglo-saxão é um dos modelos econômicos mais bárbaros que o gênero humano já conheceu?

De Defensa comenta, de forma sarcástica, que a primeira ”surpresa” da pesquisa multinacional é a ”dolorosa desilusão” do Financial Times: ”Terá essa gente (sic) imaginado por um instante sequer que a globalização era popular entre os cidadãos civilizados?”

A segunda ”surpresa não surpreendente”, que abunda na inquietação do Financial Times, é, para De Defensa, que ”os povos anglo-saxões não são os que menos se opõem à globalização”. Ocorre que povos ”com forte identidade” tampouco se identificam com as ”orientações adotadas por seus governantes”.

Os resultados da pesquisa multinacional de The Financial Times apresentam mais uma prova em favor de nossa tese da desglobalização.

* O artigo de Chris Giles (em inglês) acha-se em http://www.ft.com/cms/s/2a735dd0-3873-11dc-bca9-0000779fd2ac.html

** Jalife-Rahme, escritor mexicano especializado em temas internacionais, é colunista do diário de esquerda La Jornada (http://www.jornada.unam.mx); intertítulos do Vermelho
Site do PC do B

Rizzolo:
Isso já era de se esperar, nos países desenvolvidos a culpabilidade pelas desigualdades sociais é maior até do que em países em desenvolvimento; o conceito de igualdade de oportunidades e justiça social existe de forma mais intensa, contudo, atualmente as sociedades desses países perceberam que a política que a escola neoliberal apregoa, de que tudo seria “uma coisa só “, que os mercados se regulam por si só pela ” a dinâmica do mercado “, nada mais foi do que uma tremenda balela, e que, de certa forma, eles acabaram sendo enganados de forma espúria por esses economistas e governos perversos que sempre defenderam o ” liberalismo” excludente. É, dói na consciência, né? Mas estão acordando. Haja vista o caminho adotado por estes mesmos países na tratativa de conter esta crise.

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