Brasil não deve copiar a Ásia, diz Conceição Tavares

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A relação centro/periferia mudou e o Brasil não é mais a periferia preferencial do capitalismo – agora esse papel é ocupado pela Ásia. Apesar disso, o futuro do Brasil não é se tornar asiático e os países centrais ainda têm interesse no país como o centro de custos mais importante da América Latina, destacou a economista Maria da Conceição Tavares, durante aula inaugural do curso de desenvolvimento econômico, promovido pelo Centro Internacional Celso Furtado.

Para ela, no entanto, o que vai definir se o Brasil se tornará uma “fortaleza de expansão dos Estados Unidos” é o que virá como resultado dos processos de desnacionalização e internacionalização das nossas empresas.

Na análise da economista, o Brasil está protegido contra uma turbulência forte e mesmo uma recessão dos Estados Unidos, devido ao que denominou “lado bom do conservadorismo do Banco Central”. Para Conceição, a única coisa boa que o Banco Central fez não foi elevar a taxa de juros, “mas subir as reservas e diminuir a dívida externa”.

Ela destacou, porém, que a economia brasileira ainda tem o passivo de curto prazo das empresas e não dispõe de controle de capitais para se proteger de uma fuga de capitais. Raciocina, no entanto, que se houver uma crise muito forte, os capitais não terão para onde fugir, apesar de terem, recentemente, corrido para os títulos americanos. “Se houver uma depressão mundial vamos todos para o ‘beleléu’, inclusive a China.”

Potencial brasileiro

Ao discorrer sobre a economia brasileira, Conceição considerou que em princípio, o potencial de crescimento do Brasil é hoje maior que o da maioria dos países da América Latina e África. “Agora, não é maior que o da Ásia, que ainda está no ciclo da industrialização pesada.” Entretanto, ela não vê nenhuma vantagem em comparar o país com os Tigres Asiáticos. “Espero que o país não vire um asiático na pobreza e que nossas metrópoles não se pareçam com as da Índia, que pode crescer o quanto quiser, mas suas grandes cidades continuarão sendo o inferno em vida.” A economista avalia que ser asiático, americano ou europeu não é uma característica que dure para sempre no mundo globalizado.

O Brasil entrou numa trajetória de crescimento a partir de 2006 e ela acredita que o país vive agora o desafio de continuar nesta estrada. Porém, para ser bem-sucedido no desenho de um modelo econômico sustentável, o governo Lula terá que recompor o tripé de desenvolvimento sustentado pela aliança do Estado, do capital estrangeiro e do capital nacional, que vigorou nos anos JK e Geisel.

Para ela, o grande desafio do país é acabar com o gargalo da infra-estrutura. “O PAC está rastejando, mas a ministra (da Casa Civil, Dilma Rousseff) demonstra uma grande paciência para restaurar o tripé do desenvolvimento desmantelado no governo Fernando Henrique Cardoso.

Papel do Estado

Na visão de Conceição Tavares, o problema mais complexo do país, na área da infra-estrutura, é o setor elétrico. “Foi a privatização mais porca de todas.” Para ela, ninguém está de acordo com o modelo elétrico do país. “A ministra Dilma acertou como pode este modelo, que era uma colcha de retalhos e acabou no apagão.”

A economista lembrou que o Brasil teve sua industrialização promovida por Getúlio Vargas, que em seus dois governos não recebeu nenhum apoio do capital estrangeiro. Na era JK foi desenvolvido o Plano de Metas e, nos anos 70 e 80, o país conseguiu se equilibrar por conta de uma administração da economia que visava salvar os bancos e as empresas tocada por Delfim Neto e Reis Velloso, o que garantiu que o parque industrial brasileiro não fosse arrasado, como aconteceu com a Argentina e o Chile na crise da dívida.

“O Estado brasileiro sempre foi forte”, lembrou Conceição Tavares. “Só tivemos neoliberalismo no governo Dutra, um período rápido na gestão Campos-Bulhões e, infelizmente nos oito anos do Fernando Henrique Cardoso, quando levamos uma desarrumação brutal do capitalismo, mas que não chegou a destruir nada significativo da nossa indústria, só nossos sonhos de um Brasil independente”, acrescentou.

Fonte: Valor Econômico
Site do PC do B

Rizzolo: Em alguns pontos dá pra concordar, principalmente na questão da energia, da infra-estrutura do setor elétrico, que está interligado ao aumento da produção industrial, contudo a análise de que foi bom “diminuir a divida externa”, não concordo, não sou economista, mas saldar a dívida da forma que está sendo feito, sacrificando o povo brasileiro para fazer superávit primário, e jamais questionar o valor real da dívida, nem pensar em audita-la, só pra conferir, aí eu não concordo, devemos pagar negociando ou não, mas devemos saber se estamos pagando aquilo que devemos. Não deveríamos auditar essa dívida? Vai pagando assim? Ademais o que fizemos é trocar o mito do fim da divida externa com a reciclagem da dívida interna. Admitindo-se uma taxa de juros de 14% ao ano, e um estoque de NDFs de US$ 70 bilhões, podemos estimar que os ganhos anuais dos estrangeiros seriam de quase US$ 10 bilhões, ou seja, cerca de 70% das atuais remessas de juros da dívida externa brasileira! Ora, está claro que a “dívida interna” não passa de uma reciclagem do clássico mecanismo da dívida externa.

Além dessas, há muitas possibilidades de outras operações financeiras realizadas diretamente por investidores e bancos estrangeiros que, diante da total liberalização financeira, podem adquirir títulos da dívida interna brasileira, ou aplicar em fundos de investimento no Brasil. Por isso, não se pode dizer que a dívida interna é uma dívida para com os brasileiros.
Enquanto o governo brasileiro divulga a falácia de que a dívida externa “acabou”, e que não há mais dependência ou vulnerabilidade externa, os investidores estrangeiros, por meio de operações virtuais, continuam colocando o governo de joelhos. Um bom exemplo disso é o que ocorreu em maio deste ano. Em resumo, falar a verdade nua e crua, ninguém fala, a parte do discurso que eu gostei foi a de que devemos prestigiar a indústria nacional, desmantelada desde o governo JK, o resto é ficar em cima do muro.

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