Capos do Citi e Merrill naufragam no colapso da pirâmide das hipotecas

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Tiveram que anunciar grandes perdas os bancos e corretoras que lideravam a ciranda alimentada pelos papéis podres. Além do Citibank e Merrill Lynch, a Bear Stearns, o Morgan Stanley, Lehman Brothers e o europeu UBS, entre outros

Em novo desenvolvimento do colapso da pirâmide com papéis podres de hipotecas nos EUA, o maior banco do país em ativos, o Citibank, e a maior corretora de títulos e derivativos, a Merrill Lynch, anunciaram a queda dos seus executivos-chefes, respectivamente Charles Prince e Stanley O’Neall.

As perdas do Citi no terceiro trimestre do ano atingiram US$ 11 bilhões, e ficaram em US$ 2,3 bilhões na Merrill, e ainda US$ 8,4 bi de provisões para empréstimos não-honrados. As perdas não se limitam aos dois. Também foram atingidos o Bear Stearns (queda de 61%) – corretora onde veio à tona o colapso do ‘subprime’ em agosto -, 7% no Morgan Stanley e 3% no Lehman Brothers. Bancos europeus, que participaram da orgia, também sofreram. O UBS suíço, o maior banco europeu, comunicou perdas de US$ 3,4 bilhões no terceiro trimestre e tratou de trocar de sofá, isto é, de chefão. Para recompor o Citi, chamaram a cavalaria, isto é, o ex-secretário do Tesouro no governo Clinton, Robert Rubin, ex-Goldman Sachs.

DANÇANDO

Em julho, Prince havia asseverado que o Citi “ainda estava dançando a música do boom das aquisições”. Fazia mais de um ano que começara a estourar a bolha das hipotecas e papéis com base nelas. Em outubro, já não havia como encobrir a realidade, ou deixar de percebê-la. Ao final, coube a ele estimar, no início do mês, que o lucro do banco “desabaria 60% no terceiro trimestre em relação ao mesmo período de 2006”.

Mas, então, as perdas já extrapolavam o estouro dos papéis ‘subprime’, estas da ordem de “US$ 1,3 bilhão”. De acordo com o “The Economist”, as perdas “nos mercados de renda fixa” – que apontou como um dos alicerces do Citi desde que absorveu o Salomon Brothers – chegavam “a US$ 1,9 bilhão”. Mais “US$ 600 milhões por causa de ‘significativa volatilidade de mercado e a ruptura das relações históricas de preço’” – leia-se: papéis tidos como “AAA” que viravam do dia para a noite títulos “junk” (lixo). Perdas de US$ 1,4 bilhão em empréstimos alavancados com cobertura e sem cobertura, “que despencaram de valor”. Quanto a isso, o Citibank acrescentou tratar-se de compromissos – isto é, os citados “empréstimos alavancados” – de “US$ 69 bilhões no segundo trimestre e US$ 57 bilhões no fim do terceiro trimestre”. Também um aumento de US$ 2,6 bilhões em custos de crédito antes dos impostos no crédito ao consumidor, três-quartos dos quais “para cobrir futuras perdas e as perdas no trimestre”.

Assim, a previsão de “US$ 7,2 bilhões no terceiro trimestre”, apresentada no início de outubro transformou-se, no início de novembro, momento da queda de Prince, em perdas de US$ 11 bilhões. E ainda falta o quarto trimestre para o ano terminar, que adverte o ‘The Economist’, pode ter resultado ainda pior. A situação estava tão delicada que o Citibank tomou uma atitude incomum: antecipou do dia 19 de outubro para o dia 15 o anúncio das perdas. Antigo advogado-chefe do banco, Prince havia sido elevado, em 2003, a executivo chefe, com a incumbência de tapar as imbricações do banco com as fraudes da Enron. A renúncia foi anunciada em pleno domingo, antes que as bolsas abrissem.

Já O’ Neal foi apeado da direção da Merrill Lynch uma semana antes, depois de, segundo o “New York Times”, “tumultuosos 10 dias que incluíram significativo prejuízo e baixa contábil”, com perdas de “US$ 2,3 bilhões no terceiro trimestre e reserva de US$ 8,4 bilhões para ‘cobertura’. Ele jogou um papel particular no agravamento da crise. Engalfinhou-se com a Bear Stearns, a quinta maior corretora, quando esta buscava um acordo para dar baixa em um fundo de derivativos com base em ‘subprime’, em que as duas tinham participação, e que já fora a pique. Mais tarde, tornou-se óbvio aos especuladores de Wall Street que, se o desmanche dos papéis ‘subprime’ “contagiasse” os demais tipos de derivativos, e de montante muito maior, o cassino poderia vir ao chão. Os números do “The Economist” sobre o buraco na Merrill são um tanto diferentes. O jornal relatou que, no dia 24 de outubro, a Merrill havia anunciado baixa de US$ 7,9 bilhões nos ativos com hipotecas, “US$ 3,4 bilhões a mais do que estimara apenas 19 dias antes”. Outro motivo para a queda de O’ Neal foi a indiscrição com que propôs a fusão com o banco Wachovia como “saída que a Merrill deveria considerar para emergir das suas dificuldades”, claro, na cínica defesa, “uma das muitas” opções. E, casualmente, a sua preferida.

FINA FLOR

A fina flor da banca norte-americana passou os últimos anos fingindo acreditar que sua pirâmide jamais iria estourar, ao contrário de todas as que já existiram no mundo, já que isso seria impedido pelos novos e pomposos apelidos da vigarice, como “collateralized debt obligations (CDOs)”, e as maravilhas da computação financeira. “Hedge”: “Cobertura”. Em suma: pessoas sendo empurradas para hipotecas de longo prazo “financiadas” por títulos de curto prazo, que eram rolados entre seguradoras, corretoras e bancos, garantindo polpudas comissões e juros a todos estes. Os empréstimos sem cobertura, ou de duvidosa validade e documentação incompleta podiam ter seu risco disfarçado através dos chamados “derivativos”, como os CDOs, negociados e renegociados entre especuladores. Lotes de empréstimos bichados podiam ser disfarçados junto a títulos menos podres, e assim por diante. No finalzinho da pirâmide, valia tudo, até conceder hipoteca modalidade “Ninja” (sigla em inglês de “Sem salário, sem emprego, sem endereço”). No mais, era aquela ciranda, entre corretoras hipotecárias, fundos de derivativos, corretoras e bancos – e a enrolação de bancar 30, 40, 50 anos de hipoteca com títulos rolados no overnight. E o mico chegou.

Os bancos europeus que se envolveram na pirâmide do ‘subprime’ e outras modalidades de derivativos, também foram abalroados. As ações do maior banco europeu, o UBS, caíram 17% em relação ao ano passado, enquanto no Credit Suisse, tido como relativamente incólume, encolheram em 10%. As perdas do UBS foram as primeiras desde 1998, quando o fundo de derivativos Long Term Capital Management, dos EUA, afundou. No ano passado, o HSBC abrira a fila.

ANTONIO PIMENTA

Hora do Povo

Rizzolo: Bem ao estilo da vigarice neoliberal, a velha pirâmide recebeu nomes pomposos, como “collateralised debt obligations (CDOs)” – o que apenas significava que os empréstimos sem cobertura, ou de duvidosa validade e documentação incompleta podiam ter seu risco disfarçado através dos chamados “derivativos”, negociados e renegociados entre especuladores. A irresponsabilidade e a falta de controle do governo americano faz com cada vez mais os países emergentes adotem medidas contra essas crises promovidas por especuladores ” out of control “. Na crise passada do subprime, Bancos Centrais dos EUA, Europa e Japão transferiram US$ 370 bilhões para socorrer bancos privados atolados em suas hipotecas sem lastro. “Estado mínimo”, só quando é para usar verbas para atender as necessidades do povo.

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