Violência, uma questão de desenvolvimento e gestão

Não resta a menor dúvida, que existe uma inter-relação entre a violência e a falta de oportunidade, que pode ser traduzida pelo desemprego, falta de um planejamento familiar, e principalmente educação. Não relevar as questões sociais, como pano de fundo, é não considera-la a coluna vertebral de uma sociedade, é no mínimo, não ser responsável. Nesse esteio, o governo federal, empreendeu políticas de inclusão assentadas nos recursos advindos dentre outros da CPMF, ora, relegada, por problemas de cunho político.

Todavia, atribuir à questão da violência um caráter meramente econômico ou cultural, é não ir ao cerne da questão enfrentando-a, até porque, existem outros fatores que contribuem para o aumento da criminalidade.No tocante ao desenvolvimento, observamos que na Região Metropolitana de São Paulo, a taxa de desemprego passou de 14,2% em novembro para 13,5% da População Economicamente Ativa (PEA) em dezembro do ano passado.

Na realidade, é a menor taxa, para o mês de dezembro, desde 1996, quando estava em 14,2%. Em dezembro de 1995, a taxa de desemprego na Região Metropolitana de São Paulo foi de 13,2%, a mais baixa de toda a série, esses dados constam da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), realizada pela Fundação Seade e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) divulgada hoje.

Trata-se aí de um dos aspectos que contribuíram para que a cidade de São Paulo, que ocupava o 182º no ranking de homicídios, despencasse para 492º, ou seja, a cidade ganhou 310 posições. A relação do número de mortes por 100 mil habitantes (proporção que caracteriza a taxa de homicídios) na capital paulista caiu de 48,2 em 2004 para 31,1 em 2006. Os homicídios recuaram 40,4%: de 4.275 para 2.546 dois anos depois. Mas a questão principal que vem de encontro a esses números, são dois fatores que somados, levam a uma melhora dos índices de criminalidade, que são: desenvolvimento e gestão.

Esses dois fatores ao se complementarem, e uma vez implementados, geram o que poderíamos chamar de “maior acesso ao manejamento da segurança pública”. Nesse aspecto, o governo Serra tem caminhado na direção certa. Os gestos de responsabilidade do governador, ao pleitear a prorrogação da CPMF junto ao governo federal, vêm corroborar sua visão de que não há excelência em gestão, sem recursos. Em 2001, o estado de São Paulo tinha 67.649 presos; em 2006, eles eram 143.310 — mais do que o dobro. Por outro lado, esse quadro, nos leva a uma reflexão; que não há contenção da violência apenas com o desenvolvimento, mas com gestão, com uma polícia inteligente, com policiais bem remunerados.

Isto posto, não hesitaria em afirmar, que a base, ou concretagem social, vem do produto da implementação das políticas de inclusão, mas apenas elas não bastam. A questão da violência passa pela administração com eficiência dos órgãos envolvidos, dos recursos a eles destinados, e aos programas sociais que levam o desenvolvimento aqueles que poderiam um dia transgredir.

Fernando Rizzolo

“Compra” da Xstrata maquia desnacionalização da Vale

HSBC e Santander colocaram à disposição US$ 50 bilhões para ambevizar a Vale, avaliada em US$ 120 bilhões. Outros US$ 30 bilhões seriam pagos em ações, com direito a voto, aos controladores da mineradora anglo-suíça

O governo federal poderá vetar a aquisição da mineradora anglo-suíça Xstrata pela Vale do Rio Doce. Pela proposta que está sendo gestada pela direção da Vale, conforme divulgada pela imprensa, a empresa corre o risco de ser desnacionalizada e ficar pendurada em bancos e especuladores estrangeiros. O governo considera o negócio prejudicial aos interesses do país.

Para concretizar a compra, a Vale, avaliada em US$ 120 bilhões, precisaria entre US$ 70 bilhões e US$ 100 bilhões. De acordo com o jornal londrino “Financial Times”, já está acertado que US$ 50 bilhões seriam financiados por bancos estrangeiros tais como o HSBC, Santander, Credit Suisse, Citigroup, BNP Paribas, Barclays e RBS. O restante, cerca de US$ 30 bilhões, seria obtido através da transferência de ações preferenciais da Vale aos controladores da Xstrata.

O principal acionista da Xstrata, a trading Glencore, seria beneficiado com as ações da Vale, além dos demais acionistas da mineradora anglo-suíça, em sua maioria especuladores como a Axa Investments, Alliance Bernstein, Black Rock. Caso a negociação seja concretizada, significaria a transferência para os estrangeiros de grande parte do capital da empresa.

Segunda maior mineradora do mundo e a primeira na produção de minério de ferro, a Vale é estratégica para o desenvolvimento do país. Atualmente, as ações ordinárias representam 60% do capital total da Vale do Rio Doce, e as preferenciais (PN), 40%. O detalhe é que as ações preferenciais da Vale são da classe A, que dão direito a voto.

Para preservar a empresa da desnacionalização e entrega do subsolo nacional aos estrangeiros, basta os representantes do BNDESPar e da Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) vetar a negociação no Conselho de Administração da Vale. O governo conta com uma “golden share” (ação especial) que garante poder de veto em algumas situações, entre elas em relação ao aumento de capital estrangeiro na companhia.

Na segunda-feira, o Conselho de Administração começou a analisar a operação. O presidente do Bradesco, Lázaro Brandão, disse que “é só um estudo pra ver realmente se fecha nas condições, se é factível, se tem geração de caixa, esses detalhes todos. Depois, na decisão, [os representantes do] governo tem poder [pra resolver]”, disse ele. O Bradesco é acionista da Vale e participa do conselho através da Bradespar.

O negócio da Vale com a Xstrata está sendo comparado com o da AmBev, que resultou na desnacionalização da principal indústria cervejeira brasileira. Em 1999, Brahma e Antarctica anunciaram fusão e criação da AmBev, sendo aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) no ano seguinte. Mais tarde, o processo de desnacionalização surgiu maquiado por uma campanha que dava conta de que as cervejas brasileiras ganhariam o mundo através de uma associação com a empresa belga InterBrew. Mais ainda, de que a AmBev seria a dona da InterBrew. O que ocorreu foi o contrário. Com a dita “fusão”, foi criada a belga InBev, que passou a controlar a AmBev e monopolizar o mercado nacional de cerveja.

LUIZ ROCHA
Hora do Povo

Rizzolo: O governo federal deverá acompanhar essa negociação de perto, para tanto, os representantes do BNDESPar e da Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) poderão vetar a negociação no Conselho de Administração da Vale. O problema , é que o mesmo poderá ocorrer como na Ambev, quando desnacionalizaram da principal indústria cervejeira brasileira, só que neste caso, não trata-se de cerveja, mas de subsolo nacional. A Vale é a segunda maior mineradora do mundo e a primeira na produção de minério de ferro. Muito embora setores consevadores dizem que isso é “nacionalismo bobo”, não é verdade; todo cuidado é pouco quando se trata de subsolo e produção de minério de ferro, neste caso não estamos falando de bebidas. Contudo, entendo que não há motivos para maiores preocupações, agora, nacinalista todo brasileiro tem obrigação de ser, sem fanatismo, é claro.

Suplicy canta e dança no Iraque para distribuir alegria à tropa de ocupação

Suplicy faz a festa no Iraque ocupado pelas tropas de Bush

O senador Eduardo Suplicy (PT/SP) foi ao Iraque dar palestras sobre “renda mínima”. Cercado de forte esquema de segurança desembarcou em Bagdá, dia 16 de janeiro, ficando até o dia seguinte, quando voou para Amã, e de lá para Paris. Entusiasmado com a fabulosa “redemocratização” levada pelas tropas de ocupação de Bush, cantou “Blowin’n in the Wind”, de Bob Dylan, e dançou para a turma dos parceiros de Bush.

Suplicy contou, extasiado, que foi recebido com status de xeique. No aeroporto, seis homens, contratados pela embaixada brasileira a uma empresa de segurança britânica, o esperavam munidos de metralhadoras automáticas. Além deles, outros seguranças destacados pelo “gabinete” iraquiano protegiam o senador. “Me deram um colete à prova de balas e um capacete para ir até área verde (zona de segurança onde ficam as autoridades no país)”, disse. Suplicy não informou se sugeriu aos mandatários do Iraque doar todas essas armas e equipamentos de segurança para ajudar no “renda mínima”. Aliás, o senador poderia ter dado exemplo, abdicando de usar o colete e o capacete. Abaixo o desperdício!

Na quinta, jantou com 40 pessoas onde relatou para uma animada e receptiva platéia, formada por cinco ministros, parlamentares e empresários, seus mundialmente brilhantes projetos de desenvolvimento e distribuição de renda. “Procurei mostrar como uma renda básica colaboraria para que xiitas, sunitas e curdos pudessem sentir-se todos solidários, participando da riqueza e ajudando na construção da democracia”, esclareceu o senador.

Como se as corporações norte-americanas e seus apaniguados no Iraque estivessem interessados em distribuir riqueza a rodo e construir democracia. Só se for a democracia dos mercenários, esquadrões da morte, da soldadesca invasora e dos assaltantes de petróleo.

Hora do Povo

Rizzolo: É impressionante como o Senador Suplicy não se deu conta de que aquilo é uma invasão norte americana. Ensinar o que é renda mínima no Iraque é no mínimo hilariante. Depois da aula, como se bastasse, cantou “Blowin’n in the Wind”, de Bob Dylan, e dançou para a turma dos parceiros de Bush. Olha, realmente o PT, deveria antes de deixa-lo partir, fazer uma reflexão, chama-lo para uma conversa, tranquiliza-lo com chá de camomila.

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Brasil fica proibido de exportar carne bovina à União Européia

Nenhuma propriedade agrícola brasileira possui no momento autorização para fornecer bois para exportação de carne à União Européia, o que deverá fazer com que as vendas sejam interrompidas a partir de 31 de janeiro, quando entram em vigor novas regras européias.

Como houve uma discordância entre os governos brasileiro e europeu sobre o número de fazendas liberadas para exportar à UE, nenhuma propriedade conseguiu autorização sob as novas regras, válidas a partir de quinta-feira, disse um integrante da Comissão Européia nesta quarta-feira.

Apenas cerca de 300 propriedades brasileiras, ou 3% das fazendas, deveriam receber permissões para exportar aos 27 países integrantes do bloco europeu, segundo interpretação do comissário de Saúde do bloco, Markos Kyprianou, mas o Brasil enviou uma lista com um número maior de unidades consideradas habilitadas (2.600).

Diante dessa divergência, segundo Kyprianou, ainda não há uma lista com as fazendas habilitadas a vender gado para os frigoríficos brasileiros que exportam carne à UE.

“Tínhamos considerado cerca de 300 propriedades sendo autorizadas a exportar para a UE, com base em inspeções prévias e informações dos brasileiros”, disse o comissário de Saúde à Reuters.

“Não há uma lista de propriedades autorizadas… neste momento, não há propriedades autorizadas a exportar para a UE”, acrescentou ele.

Segundo Kyprianou, como o Brasil enviou na terça-feira uma lista com um número muito maior, mais tempo será necessário para que a checagem das fazendas seja realizada.

“Claro que essa situação pode mudar nos próximos dias, mas no momento não há lista aprovada”, disse o comissário.

O governo brasileiro tinha até o final do mês para elaborar a lista.

As restrições impostas pela UE foram anunciadas depois de uma delegação européia ter encontrado, de acordo com o bloco, irregularidades no sistema sanitário e de rastreabilidade do Brasil, no ano passado.

Além disso, as limitações seguem um forte lobby feito por fazendeiros do bloco, principalmente irlandeses, que afirmam estar sendo prejudicados pelas exportações brasileiras.

Para o analista Fabiano Tito Rosa, da Scot Consultoria, a posição da UE, “na prática, paralisa as exportações de carne in natura do Brasil para lá”, a partir de 31 de janeiro.

As exportações de carne industrializadas estão fora das restrições, uma vez que o vírus da febre aftosa é eliminado no processo de industrialização.

Em 2007, o Brasil exportou 2,53 milhões de toneladas (equivalente carcaça) de carne bovina para todos os destinos, obtendo com essas vendas externas US$ 4,42 bilhões.

Segundo a Abiec, entidade que representa os exportadores de carne bovina do Brasil, as exportações de carne bovina para a UE somaram 543,5 mil toneladas (21% do total), o equivalente a US$ 1,4 bilhão (32%).

De acordo com o analista, os países integrantes do bloco europeu respondem pela maior parte da receita obtida com as exportações por pagarem um preço mais elevado pelo produto brasileiro.

Não havia nenhum representante da Abiec imediatamente disponível para comentar o assunto.

O Ministério da Agricultura do Brasil afirmou que se manifestará oficialmente sobre o tema mais tarde nesta quarta-feira.

“Acho que os europeus, por pagarem melhor pela carne brasileira, podem exigir o que bem entenderem. Agora, a partir do momento que o Brasil atende a exigência, não tem por que restringirem as 300 propriedades…”, afirmou Rosa.

Segundo ele, o Brasil tem hoje mais de 6.000 propriedades que atendem as exigências da UE dentro de Estados sem problemas sanitários para exportar. “E dessas 6.000, 2.600, na avaliação do Ministério da Agricultura, atendem todas as exigências da UE.”

Assim, segundo Tito Rosa, não há como o Brasil selecionar uma lista de 300 propriedades, como quer a UE, se tem 2.600 atendendo as exigências. “Qual critério seria adotado? Então essa regra da UE é arbitrária.”

O analista disse ainda que, uma vez que os frigoríficos não sabem quais são as propriedades que serão habilitadas, “estão paralisando abates para atender à demanda de carne in natura da UE”.

Em função do problema, segundo Tito Rosa, provavelmente os frigoríficos vão utilizar o argumento para pressionar o preço pago pela arroba do boi no mercado brasileiro.

Por outro lado, disse o analista, há outros fatores altistas para o mercado de boi, como a redução do rebanho nacional após um período de intenso abate de matrizes, e o setor está em expansão, demandando mais gado para abate, em função do crescimento no consumo interno e externo.

Rizzolo: Agora, o governo tem obrigação de se adiantar, no sentido de preencher as exigências da Europa, por mais bizarras que sejam elas. Tudo isso por falta de capacidade de o Brasil entregar uma lista de 300 propriedades? A União Européia restringiu o número de fazendas a 300 (3% das 10 mil registradas no passado no Sisbov, sistema de rastreabilidade do gado), o Ministério da Agricultura brasileiro apresentou uma lista com cerca de 2.600 propriedades.

Isso significa falta de preparo técnico, mas a questão principal é que o Brasil precisa de uma vez por todas fazer valer nosso potencial de mercado, somos 180 milhões de consumidores. Se existe barreiras protecionistas na Europa, porque não taxamos um pouco mais as enormes remessas de lucros e dividendos das empresas européias aqui sediadas, que vivem do nosso mercado? Mas não, a passividade e a falta de pulso, faz do “conciliador Lula”, uma voz fraca na defesa dos interesses dos empresários nacionais e dos pecuaristas. E mais, não tem nada de radical no que afirmo, radicalismo é deixar o mercado de carne da noite para dia “a ver navios”.

Incluir os esquecidos gera crise ?

Ainda me lembro, quando na década de 70, sugia um filme que como se dizia na época era ” de cunho comunista” chamado ” A classe Operária vai ao Paraíso” do diretor italiano Elio Petri. Com pinceladas socilistas, retratava-se as manifestações de alienação dentro de uma fábrica e a precarização do trabalho que nela ocorre de forma generalizada; ainda estudante de Direito, imagina o dia em que literalmente os pobres iriam vivenciar o consumo, e sua conseqüências boas e ruins.

Na época, o mundo vivia uma fracionazação social entre ricos e pobres muito mais acentuada, o que propiciou as investidas da esquerda no ganho do terreno ideológico em muitos países, inclusive no Brasil. O que não poderíamos imaginar, é que a produção dos bens de consumo, surgiriam como um problema nos Estados socialistas a ponto de perturba-los, e num resumo das pregações leninistas, stalinistas e trotskistas, passassem a rever as relações com os meios de produção, abandonando de vez o socialismo, ou transformando-o, como a China o fez, num ” socialismo de mercado”. Com isso, agregado ainda aos que não sonharam tal sonho, como alguns países da América Latina, observou-se uma investida de forma contundente na inclusão por parte da população mais pobre desses países, no acesso aos bens de consumo.

Nem precisou os economistas se aterem aos estudos de Adam Smith, para logo se apropriarem da idéia de que só a produção e a capacidade de consumo de um povo, aumenta o bem-estar social; face a isso, iniciou-se um alavancamento dos meios de produção em países como a China e Índia, que passaram a fabricar manufaturados e consumir bens elevando e incluindo uma população gigantesca que outrora jamais tivera acesso ao mercado. Na euforia produtiva, os EUA passaram a investir mais na Ásia, e por conseqüência, importar mais produtos desses países consumindo o americano médio mais do que deveria.

Na corrida ao consumo, países emergentes passaram a ter políticas voltadas à inclusão social, com programas evolutivos que culminaram com a acessibilidade maior a tudo que, em tempos atrás, apenas uma pequena parcela tinha participação. Na imensa bolha de consumo mundial, surge o consumo desenfreado com o fácil crédito imobiliário americano, desregulamentado e arrebanhando os excluídos americanos do sonho da casa própria. O final da história já sabemos, crise americana que poderá se tornar mundial sem termos hoje, meios de saber sua intensidade.

Não há que se falar em ” descolamento”, se ela (crise) vier, teremos todos que enfrenta-la. Numa análise mais profunda, observamos que a partir do momento em que os pobres do mundo passaram de forma uníssona a consumir mais, surgiu uma crise, e fica a pergunta no ar: Seria a inclusão dos esquecidos um fator de geração de crises? Ou será que classe operária não tem espaço no capitalismo, para viver no paraíso.

Fernando Rizzolo

O cenário dos pessimistas

Vê-se, portanto, que nem o cenário negativo é tão negativo assim. A não ser que sobrevenha algo catastrófico que não está no momento no horizonte dos analistas

Um estudo distribuído esta semana pela consultoria Tendências a seus clientes afirma que há 30% de chances de um cenário pessimista para a economia brasileira em 2008, em decorrência da crise financeira nos Estados Unidos. Analistas prevêem dois trimestres de contração da economia americana, até meados deste ano, seguidos de uma retomada da expansão. Para compor o cenário pessimista no Brasil, trabalhou-se com duas premissas: 1) o forte impacto da desaceleração estadunidense nos preços das commodities e 2) a deterioração interna do cenário fiscal, em decorrência do fim da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e da resistência do governo, do Congresso e do Judiciário em ajustar, para baixo, seus orçamentos à nova realidade.

Vamos alinhavar os indicadores desse suposto cenário negativo. Para um crescimento mundial de 3,0%, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceria 3,2%. A inflação (IPCA) seria de 5,5%, contra os 4,5% de 2007. O superávit primário bateria em 3,2% do PIB (contra os 3,9% do ano passado) e o risco Brasil iria para 300 em dezembro, em vez dos 214 com que fechou 2007. Mas o quadro pessimista traz também boas notícias, para os críticos do câmbio. Se tudo der errado, dizem os consultores, o dólar encerra 2008 valendo R$ 2,30, contra os R$ 1,79 de dezembro último. O que levaria a dívida líquida sobre o PIB a uma queda de 5,5 pontos percentuais (de 42,7% a 37,2%). Mas, como nada é perfeito, nessa projeção pessimista o juro Selic iria para 14 %, quase três pontos percentuais de alta ao longo do ano.

Quais seriam as conseqüências políticas desse desempenho apenas medíocre? O ajuste brasileiro se daria às custas de alguma inflação adicional e de uma nova elevação de juros. Em troca, os beneficiários dos programas sociais do governo teriam o seu garantido, bem como o capital financeiro e o setor exportador, cujos aplausos certamente encobririam na opinião pública os protestos dos que estão ali pelo meio da pirâmide, gente que vive de salário e depende de crédito e emprego para melhorar de vida.

Assim, nesse cenário ruim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viveria um momento desfavorável em seu segundo mandato, ao absorver todos os custos do ajuste. A oposição não perderia a oportunidade de debitar na conta do petista essa aterrissagem medíocre, e certamente cobraria dele uma suposta perda de oportunidades no ciclo de crescimento anterior à crise. Tudo isso teria efeitos políticos lá pelo fim de 2008, coincidindo com as eleições municipais. Diferentemente do primeiro mandato, quando o ano da disputa nas prefeituras (2004) foi bom, especialmente na comparação com o doloroso 2003 do ajuste antiinflacionário e fiscal.

Se esse é o cenário pessimista, qual é o otimista? O Brasil escapará mais um menos incólume se 1) a economia americana der uma freada rápida, mas pontual, 2) o crescimento chinês provar-se não tão dependente assim dos Estados Unidos e, em conseqüência, 3) a demanda mundial por matérias-primas e comida continuar aquecida. Claro que sempre nos sobrará explicar por que estamos derrubando árvores na Amazônia para plantar soja e criar gado, mas esse ônus é preferível a responder diante dos eleitores brasileiros por que faltam empregos e crédito. Este último problema derruba governos, enquanto o primeiro apenas cria problemas na esfera das relações públicas.

Há um certo consenso de que num cenário otimista na economia será muito boa a perspectiva eleitoral das forças políticas agrupadas em torno do Palácio do Planalto. A novidade é outra. Se estiverem corretos os dados expostos pelos analistas para um cenário desfavorável, estaríamos diante de um tranco suave neste ano, o que deixaria uma margem de pelo menos mais um ano e meio para que o governo conseguisse reacelerar a economia e chegar ao final de 2010 com ventos novamente otimistas.

Vê-se, portanto, que nem o cenário pessimista é tão pessimista assim. A não ser que sobrevenha algo catastrófico que não está no momento no horizonte dos analistas, as chances de o Brasil alcançar bem ou razoavelmente bem a próxima sucessão presidencial são consideráveis. Do que se deduz que a oposição precisará dar um jeito de escapar do discurso catastrofista se quiser chegar a algum lugar diferente dos que chegou em 2002 e 2006.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (29/01/2008) no Correio Braziliense
Por Alon Feuerwerker
alon.feuerwerker@correioweb.com.br

Rizzolo: Fica evidente, num cenário pessimista, que o Produto Interno Bruto(PIB) do Brasil, obviamente, cresceria menos, ao redor de 3,2%. O que a meu ver, sugere um excesso de pessimismo; contudo, em relação a um provável aumento da inflação em relação à do ano passado, entendo ser ela melhor do que agravar os efeitos da crise. O próprio FED americano, admitiu um provável aumento do índice inflacionário, tendo em vista o corte no juro. Quanto à eventual desvalorização cambial, seria benéfica em relação ao aumento das exportações, e poderia até compensar perdas no mercado interno.

É bom lembrar, que temos instrumentos básicos de controle, como fortalecer o mercado interno, e utilizar, se necessário, as reservas internacionais que estão por volta de US$ 185,024 bilhões, para um controle cambial mais eficaz, e evitar fortes e bruscas desvalorizações originadas de um colapso de capitais internacionais para o país, caso isso venha a ocorrer. Isso neutralizará possíveis riscos de reaceleração inflacionária. Observem, que nem tudo, significa necessariamente aumento de juros.

Brasil tem recorde de remessa de lucros e investimento dos EUA

Múltis drenaram US$ 21 bi do Brasil para suas matrizes

Remessa de lucros em 2007 foi recorde e também o “investimento direto estrangeiro”

Os dados divulgados no último dia 28 pelo Banco Central sobre a remessa de lucros e o “investimento direto estrangeiro” durante o ano passado mostraram onde residem os problemas do Brasil para que não seja afetado por uma crise que não é sua, que não provocou e que não tem necessidade alguma de importar ou de se submeter a ela.

Todas as crises no centro do sistema sempre foram uma excelente oportunidade para que os países da periferia desse sistema crescessem e implementassem o caminho do desenvolvimento e justiça social. Foi assim em 1930, onde inauguramos um ciclo de crescimento que iria preencher as décadas seguintes, e até na crise de 1973/74 – onde mesmo a ditadura percebeu o espaço, desenvolvendo o nosso setor de máquinas e equipamentos, antes fundamentalmente externo, e o país cresceu. E será assim nesta crise, se basearmos nosso crescimento firmemente no mercado interno. Exatamente por isso os dados anunciados pelo BC são ilustrativos dos problemas que necessitamos resolver.

LUCROS

A remessa de lucros para o exterior em 2007 foi de US$ 21,2 bilhões. Em 2006, havia sido de US$ 16,3 bilhões. O que representa uma escalada, aumentando sucessivamente de US$ 6,4 bilhões (2003) para US$ 8,2 bilhões (2004), US$ 10,6 bilhões (2005), US$ 16,3 bilhões (2006) e US$ 21,2 bilhões (2007). Ou seja, desde 2003 as remessas de lucros das empresas estrangeiras para o exterior – sem contar as formas maquiadas de enviar lucros – mais do que triplicou. Em relação ao ano anterior, as remessas de lucros em 2007 aumentaram 30%. Quanto a 2008, em apenas 28 dias as empresas estrangeiras enviaram US$ 2,1 bilhões para suas sedes.

Tal aumento de remessas se dá, exatamente, quando se prevê, neste ano, uma redução no saldo comercial de US$ 10 bilhões (de US$ 40 bilhões para US$ 30 bilhões). As remessas, que já são mais da metade do saldo comercial (exportações menos importações), tendem a aumentar em razão da entrada do “investimento” estrangeiro, ou seja, da tomada de setores da economia pelo capital externo. Ao mesmo tempo, o nosso saldo comercial tende a diminuir, devido à própria crise nos países centrais. O que mostra que esse quadro não é sustentável.

O “investimento direto estrangeiro”, isto é, o dinheiro externo para comprar empresas, aumentar a participação acionária externa ou turbinar empresas estrangeiras já instaladas aqui, subiu para US$ 34,6 bilhões. Em 2003, foi de US$ 10,1 bilhões; em 2004, US$ 18,1 bilhões; em 2005, US$ 15,1 bilhões; e, em 2006, US$ 18,8 bilhões. Ou seja, o dinheiro estrangeiro para dominar setores da economia por pouco não dobra em apenas um ano e, em relação a 2003, da mesma forma que a remessa de lucros, mais do que triplicou.

Quanto a esse último dado, há quem ache que ele mostra o “vigor” da nossa economia e que isso é muito bom para o país. Portanto, deveríamos abrir as portas, senão outras dependências mais íntimas, para que esse dinheiro estrangeiro invada o país – e, em seguida, comemorar efusivamente. Daí a importância que vêem no chamado “investment grade”, uma classificação das “agências de risco” – todas, braços de bancos americanos que zelam pela segurança dos especuladores, perdão, “investidores”.

Do jeito que falam nesse “investment grade”, parece até que a Polônia, a Tunísia, a Bulgária e a Romênia, países contemplados com a prebenda, conseguiram alguma coisa com ele, além de ter sua economia transformada numa economia externa, dirigida de fora, saqueada de fora, parasitada desde fora e com lucros enviados para fora. Além disso, esses países conseguiram rebaixar o salário real dos trabalhadores e aumentar o desemprego – pois esse é o efeito de ter monopólios industriais e financeiros externos operando à solta numa economia. O “investment grade” é, precisamente, uma carta de imunidade para que esses monopólios entrem num país.

O estouro na remessa de lucros é suficiente para perceber quais são as conseqüências dessa cegueira – ou quais podem ser, pois, apesar de tudo, o Brasil não é um país em bancarrota como a Polônia ou a Romênia, e esperemos que nunca seja.

Não por acaso, o “investimento direto estrangeiro” sempre foi considerado parte do “passivo externo” do país, assim como a dívida externa. Simplesmente porque ele significa que ativos aqui existentes deixaram de ser ativos brasileiros. Logo, em relação ao país, passaram a ser passivos, transferindo recursos nossos para fora, sob a forma sobretudo de lucros. Funcionam, portanto, como uma dívida, tirando recursos do país, ao invés de aportá-los, como faria um empreendimento nacional. É verdade que, ao contrário da dívida, esse desvio de recursos não tem fim à vista.

Não se trata, evidentemente, de uma questão meramente ideológica de patriotismo, sem base na realidade. Ao contrário, trata-se de uma questão muito prática. A solução não é impedir que haja qualquer capital estrangeiro no país. Subordinadas aos interesses do povo e do país, não há porque não admitir a existência de empresas estrangeiras aqui dentro.

No entanto, não existe país viável sem economia própria, isto é, de propriedade principalmente – ainda que não exclusivamente – nacional. Por que não existe? Entre outras razões porque, se a economia for propriedade principalmente de elementos externos, na primeira crise que houver o país será arrasado, escalpelado e esfolado, pois o primeiro interesse desses proprietários externos será arrancar daqui o que puderem para cobrir os rombos na economia do país deles.

Além disso, os objetivos de justiça social – maior distribuição de renda, maior salário real, mais emprego – são incompatíveis com o domínio da economia por monopólios. O que se chama de “investimento direto estrangeiro” é, precisamente, a entrada de monopólios estrangeiros para açambarcar ramos da economia do país e, no limite, o conjunto da economia. A conseqüência da monopolização, em especial se os monopólios não são do próprio país, é a concentração de renda, o salário baixo e o desemprego endêmico, pois é impossível ao monopólio realizar seu objetivo – o de extrair superlucros – sem que essa seja a conseqüência.

Por essa razão, uma enxurrada de “investimento direto estrangeiro” só é uma boa notícia para quem acha que os capitalistas dos EUA são franciscanos e não capitalistas.

JUROS

No ano passado, entraram US$ 47,97 bilhões (entrada líquida, já descontado o que saiu), para especular na Bolsa ou com títulos do governo. Para isso, o sr. Meirelles manteve os juros nas alturas, sacrificando trabalhadores e empresários nacionais. Logo ao primeiro rebate da crise nos EUA, esse dinheiro começou a sair. Daí a queda na Bolsa aqui no país.

Apesar disso, não há nenhuma inevitabilidade no estouro das contas do país. Pelo contrário, nunca, nos últimos anos, a situação foi tão favorável para que possamos crescer – até porque somos dos poucos países do mundo que contam com um mercado interno potencial enorme, além de amplos recursos naturais.

Certamente, isso significa aumentar o poder aquisitivo da população, aumentar o crédito – inclusive o financiamento às empresas – e avançar em áreas onde, até agora, permanecemos dependentes de importações. Nossa sorte é que foi para isso mesmo que nós elegemos o presidente Lula.

Há alguns anos, alguns débeis mentais – quase todos tucanos de primeira hora ou seus apologistas da mídia – pregavam que não havia diferença entre uma empresa nacional e uma estrangeira aqui instalada. Pois existe. Uma delas é que a empresa nacional não remete bilhões de dólares em lucros para fora do país. Outra é que ela não devasta o país para remeter recursos quando uma crise bate às portas do seu país de origem – simplesmente porque seu país de origem é o Brasil. Ou seja, ela não é um parasita da economia alheia. Não é pouca diferença, amigo leitor.

CARLOS LOPES
Hora do Povo

Rizzolo:O importante nessa análise, por sinal brilhante do jornalista Carlos Lopes, é que na medida em que os investimentos externos momentaneamente desafogam a economia, gerando uma sensação de empregabilidade, ela por outro lado, face a falta de uma política mais restritiva em relação às remessas de lucros acaba sendo prejudicial. Falta no Brasil, uma forte disposição em alavancar a nossa indústria nacional; uma coisa é certa, se estão investindo mais em determinados setores da economia, é porque na verade, é vantajoso, estão embasados nos ” investment grade” que os asseguram o bom negócio.

O capital estrangeiro nesses setores “avalizados” pelas ” agências de risco, por pouco não dobra em apenas um ano. Na realidade o IDE( investimento direto estrangeiro) deve ser considerado, sim, passivo externo, até porque não temos como mante-lo sob controle. Temos que desenvolver o parque industrial nacional e gerar um mercado interno forte robusto contando também, é claro com o capital externo, que é importante e necessário, porém, com maior controle e parcimônia, não se trata de nacionalismo infantilóide, mas gestão de interesses nacionais.