Um presente guardado no cofre

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Como de costume, todo Sábado procuro não escrever textos que não estejam relacionados com o Shabbat e com o estudo da Tora. Sem ter a intenção de dar uma conotação pessoal religiosa ao que escrevo, permito dirigir me a você, que acompanha minhas reflexões diariamente, e compartilhar com o amigo(a), de uma forma humilde, esses momentos de introspecção dos meus estudos no Shabbat, que se iniciam todas às sextas-feiras, quando me recolho duas horas antes da primeira estrela surgir no céu, numa Sinagoga ortodoxa que freqüento em São Paulo.

Como já disse anteriormente, tenho profundo respeito por todas as crenças, religiões, e acima de tudo sou um brasileiro patriota, amo meu país e o povo brasileiro, e tenho sim, uma grande satisfação espiritual em ao estudar a Parashá (Porção da Tora semanal) relacioná-la ao que vivemos nos dias atuais. Shabbat é um dia de paz, descanso e harmonia. Devemos nos abster das tensões e às exigências da vida cotidiana.

Como é uma reflexão de estudo pessoal, baseada na introspecção bíblica, recomendo a todos que acompanhem no Antigo testamento (Torah ) os comentários aqui expostos, para que possamos ter uma semana de paz; e que através dos estudos judaicos, possamos compreender nossas vidas e encontrar formas de superar as adversidades na visão de Hashem (Deus). Isso nos dará energia e um “Idiche Kop” ( perspicácia particular), para que enfim tenhamos condições de construir um Brasil cada vez mais digno e com mais justiça social, que é a base do Judaísmo, do Cristianismo, do Islamismo, e de todas as religiões que levam a um mesmo Deus.

E lembre-se, Deus não quer apenas que você ore, mas que você aja com um parceiro dele aqui neste mundo, promovendo mudanças, estudando, se aperfeiçoando cada vez mais em sua área de atuação, e lendo, lendo muito. Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo . Nesses aspectos, Ele Hashem ( Deus), precisa mais de você do que você dele. Somos aqui nesse mundo, parceiros de alguém maior. E quando orares, siga um conselho do Rabi Menahem Kotzk que ouvindo o comentário, respondeu: ” Se alguém clama ” Pai, ó Pai ! ” várias vezes, Deus acaba se tornando realmente seu Pai “.

A parashat desta semana chama-se Ki Tissa e começa com a ordem de D’us a Moshê para fazer um recenseamento, coletando uma contribuição igual de uma moeda de meio-shêkel de cada adulto do sexo masculino entre as idades de 20 e 60, e estes lucros irão para o Mishcan (Tabernáculo).

D’us descreve a Moshê o kiyor de cobre (lavatório e base) na qual os Cohanim santificarão suas mãos e pés antes de servirem no Mishcan. É também discutido o azeite para unção que seria usado para santificar os vários utensílios para uso normal. A isso segue-se a receita para o ketoret, insenso aromático a ser queimado duas vezes ao dia. D’us designa Betsalel, da tribo de Yehudá, e Oholiyav, da tribo de Dan, a supervisionar a construção do Mishcan que está para ser iniciada. A mitsvá do Shabat é então repetida para advertir a nação de que mesmo a construção do Mishcan não suplanta a observância do dia semanal de descanso.

A Torá retorna à narrativa da Revelação no Monte Sinai, e descreve o terrível pecado do bezerro de ouro. D’us acede às preces de Moshê para que os filhos de Israel sejam poupados da aniquilação por sua grave transgressão, e Moshê desce da montanha com as duas Tábuas dos Dez Mandamentos.

Ao testemunhar uma parcela da população dançando ao redor do Bezerro de Ouro, Moshê quebra as Tábuas e queima o ídolo, iniciando o processo de arrependimento. Como resultado da queda do povo de seu patamar espiritual elevado, D’us anuncia que Sua presença não pode residir entre eles.

Moshê é forçado a mudar temporariamente a tenda para fora do acampamento, para que D’us continue a se comunicar com ele. Moshê novamente sobe à montanha para rezar a D’us para que perdoe o povo judeu, e lhes devolva o status de povo escolhido. Moshê finalmente retorna com o segundo conjunto de tábuas e um pacto renovado com D’us; sua face aparece resplandecente como resultado da revelação Divina.

Essa parashat é interessante pois revela após o entusiasmo do povo em relação à construção do Tabernáculo o povo se reuniu a pedido de Moisés e fizeram generosas doações para financiar a construção. Na verdade, foi a primeira coleta de fundos do povo judeu, feita para possibilitar a construção do tabernáculo. Instantes antes de iniciarem a as doações e a obra, forma ditas as seguintes palavra ” De certo, Meus sábados guardareis, pois este é um sinal entre mim e vós.E guardaram os filhos de Israel o Shabat, para fazer do Shabat, por suas gerações, uma aliança perpétua ” Êxodo 41:13-16

Na verdade Deus tinha um pequeno receio que o entusiasmo na construção do Tabernáculo, levasse o povo a não mais respeitar o Shabat. O conteúdo do Shabat e o modo como seus resultados são alcançados, são assuntos para uma discussão à parte. No entanto, é interessante acompanharmos a redescoberta do Shabat por pensadores contemporâneos, que não cresceram em sua observância. A cultura consumista e escravizante da sociedade tecnológica ocidental, tritura os indivíduos até os ossos, fez com que tais pensadores passassem a sentir saudades da mensagem do Shabat, passando a enaltecê-lo. Por exemplo:

” A era tecnológica tritura a alam humana. O desafio das velocidades destrói o ritmo de comunicação emocional entre as pessoas, tornando-a, no melhor dos casos, uma comunicação funcional, empobrecida de conteúdos emocionais e espirituais… A multiplicação das possibilidades e a potência das opções de satisfação das necessidades corroem a paz de espírito do homem. A publicidade moderna, incluindo as ” relações públicas “, tem por objetivo furtar os últimos vestígios de tranqüilidade dos ” clientes”, levando-os continuamente de uma paixão induzida a outra, Assim também foi destruida a comunicação interiro na alma do indivíduo, que não consegue conhcer a si próprio nem compreender seus sentimentos…É para isto que necessitamos do Shabat. Ele nos é indispensável, se quisermos sobreviver nesta terra de forma permanente. Não há nada mais moderno do que no Shabat original ! O Shabat em sua originalidade, em sua compreensão espiritual e em sues parâmetros psicológicos é importantíssimo para nós, os filhos do século vinte… O shabat é a ” complementação da criação ” Ou seja, ele apresenta um ritmo necessário para existência da vida em sua totalidade, o qual é totalmente diferente do ritmo dos dias de trabalho… ”

Texto para Reflexão

O que diz a lei judaica sobre a pena de morte?

A maioria dos países ocidentais aboliu a pena de morte. Os Estados Unidos são uma das poucas exceções. Os defensores da pena de morte freqüentemente citam a Bíblia como a fonte para justificar seu uso, mas será uma surpresa para muitos que, sob a lei judaica, a pena de morte é praticamente impossível de aplicar. Isso ocorre porque, além dos Cinco Livros de Moshê (a Lei Escrita) a lei judaica consiste também da Lei Oral, que explica e interpreta a Lei Escrita. Enquanto a Torá nos dá uma lista de crimes capitais, o Talmud (Lei Oral) estabelece os requisitos necessários para se provar a culpa. Antes que a culpa possa ser estabelecida e uma execução levada a cabo, numerosos requerimentos legais devem ser satisfeitos:

1 – Duas testemunhas versus prova circunstancial. A célebre história de Rabi Shimon ben Shetach (San’hedrin 37b) ilustra até que ponto a prova circunstancial não é considerada pela lei judaica. Ele testemunhou ter visto um homem perseguir seu amigo até umas ruínas. Correu atrás dele e encontrou o amigo morto, enquanto o perseguidor segurava uma espada banhada em sangue. Rabi Shimon disse: “Ó perverso, quem matou este homem? Ou fui eu ou foi você. Mas o que posso fazer – seu sangue não foi entregue às minhas mãos, porque a Torá diz: ‘Com base em duas testemunhas, ele será condenado à morte.'” A faca podia estar suja de sangue, o homem que ali estava podia ser o único que possivelmente cometera o assassinato. Mas enquanto não houvesse duas testemunhas que realmente presenciaram o crime, as cortes não poderiam condenar.

2 – Requisitos para testemunhas. As testemunhas devem ser “casher”. Isso significa, por exemplo, que não podem ser parentes umas das outras ou de qualquer outra pessoa envolvida no crime. Além disso, o Talmud relaciona uma vasta quantidade de razões que desqualificam uma testemunha, baseada em personalidade, ocupação, etc. Por exemplo, uma pessoa que aposta em jogos de azar é desqualificado como testemunha.

3 – Advertência. Na lei judaica, ninguém pode ser condenado por um crime, a menos que tenha sido advertido adequadamente. Isso significa que as duas testemunhas que vêem uma pessoa prestes a cometer um crime devem bradar ao criminoso em potencial tanto o texto bíblico proibindo o ato quanto a penalidade para tal infração em particular.

4 – “No prazo”. Uma advertência não é suficiente se for feita mais de quatro segundos antes do crime ser cometido. É possível que o infrator tenha esquecido a advertência ou não a esteja mais levando a sério, caso mais que quatro segundos se passarem entre o sinal de alerta e o crime!

5 – Aceitação da advertência. O último requisito é provavelmente o mais “chocante” e “ilógico” da série. Para que tudo que foi dito acima tenha validade, o criminoso prestes a cometer um crime deve indicar verbalmente que ouviu a advertência e optou por ignorá-la. Somente se o criminoso responder : “Apesar disso, farei”, o tribunal pode prosseguir com suas deliberações para a pena de morte.

Devemos lembrar que o sistema legal que reconhece D’us como Juiz Supremo não está afirmando que este homem deva permanecer impune. Ao contrário, quer dizer que uma corte humana é apenas designada por D’us para executar a retribuição quando existe certeza absoluta. De outra forma, devemos deixar que D’us cuide para que os perversos recebam o que lhes é devido.

Dadas as restrições acima, é compreensível que Rabi Elazar ben Azaryá dissesse que um tribunal que pronuncia uma sentença de morte a cada setenta anos é um tribunal assassino (Talmud, Tratado Macot 7a).

Os padrões que explicamos – do requisito de duas testemunhas até a aceitação da advertência – derivam todos da Torá. No entanto, a própria Torá, em termos que não deixam dúvida, ordena: “Certamente deve ser morto.” Como pode a Lei Escrita ordenar uma sentença que a Lei Oral torna impossível impor? Como esta contradição pode ser resolvida? Qual é, então, a vontade de D’us?

Melhor prevenir que remediar

Há uma grande diferença entre a lei judaica e outros sistemas legais. Enquanto outros se concentram na situação após o crime ter sido cometido, a lei judaica tenta impedir que o crime seja cometido. Apesar das alegações daqueles que propõem punições pesadas, a estatística indica que os criminosos muitas vezes não são impedidos pela ameaça de uma sentença severa. No máximo, sentenças severas afastam os criminosos da sociedade por algum tempo. Quanto ao crime capital, e na verdade todas as formas de crime, o objetivo da lei judaica é prevenir o crime.

No Êxodus, o sistema legal do judaísmo é introduzido com o seguinte versículo: “E estes são os estatutos que deverás colocar perante eles” (Shemot 21:1). Este é o único lugar em que a frase “perante eles” (Lifnehêm) é usada. Em qualquer outro lugar da Torá, as ordens são dadas “a eles” (Lahêm). Por que então a Torá usa as palavras “perante eles” quando apresenta o sistema legal?

O famoso orador, o Maguid de Dubno, respondeu com uma parábola: “Os sábios de Chelm” – conhecidos mundialmente por possuírem a sabedoria que exemplifica a estupidez da humanidade – depararam-se com um sério problema. Uma das estradas da cidade tinha um aclive muito íngreme no ponto em que fazia a curva em torno da encosta da montanha. Não havia defensas. Quando cavalos e carruagens desciam em alta velocidade, eram incapazes de acompanhar a curva e se precipitavam no despenhadeiro, ficando gravemente feridos.

“O que deveria fazer a cidade de Chelm quanto a esta situação terrivelmente perigosa? Durante vinte e quatro horas reuniram-se e deliberaram. Uma curva acentuada, sem proteção, pessoas, cavalos e carruagens constantemente se ferindo. O que fazer? E então a resposta veio num clarão de brilhante discernimento. A cidade de Chelm votou unanimemente pela construção de um hospital sob o desfiladeiro.”

O mundo tem demonstrado uma reação de “Chelm” a seus problemas. Uma onda de crimes? Construa mais prisões. Uma epidemia de drogas? Comece mais campanhas contra os tóxicos. Violência, perversidade, corrupção? Construa hospitais que lidem com os efeitos, mas nunca com as causas.

Prevenção, não punição

A essência da lei judaica é preventiva. Estas ordens são colocadas “perante eles” porque visam lidar com o crime “antes” e não após o ato. A lei judaica foi feita para ser estudada por todos, não somente advogados. O judaísmo afirma que quando uma criança é criada com o conhecimento da lei de D’us e com amor pela Torá, esta criança provavelmente não transgredirá. A declaração de que um malfeitor “certamente deve ser condenado à morte,” não significa uma punição a ser posta em prática depois que o crime foi cometido, mas uma doutrina educacional, a ser estudada por todos, de que aos olhos de D’us isso é um crime hediondo.

Como podemos transmitir aos filhos o grau de severidade implícito em diferentes tipos de comportamento errado? Se o filho perturba com um pequeno ruído, o pai diz: “Pare com isso.” Se ele, inadvertidamente, brinca com uma chave de fenda e começa a colocá-la numa tomada, os pais gritam a plenos pulmões e talvez até digam: “Se fizer isso de novo, vou matá-lo.” Obviamente, a ameaça não deve ser levada a sério, pois seu propósito é assegurar que aquilo não aconteça. Afinal, os pais não querem que a criança perca a vida.

Quando D’us estabeleceu estas leis perante o povo de Israel, Ele estava, na verdade, intercedendo em uma linguagem similar de amor e preocupação. Quando D’us diz: “ele certamente será morto”, está dizendo que se a pessoa cometer este crime, merece morrer, não que Ele realmente deseja que seja executada. Para enfatizar isso ainda mais, estas palavras são seguidas pela ordem de D’us aos tribunais: “E o tribunal julgará e o tribunal salvará” (Bamidbar 35:25), ordenando aos juízes que façam tudo ao seu alcance para conseguir um veredicto de “inocente”.

Alternativa para a pena de morte

O judaísmo encontrou uma notável alternativa para a pena capital. De fato, reunir pessoas em praça pública às segundas e quintas-feiras pela manhã, bem como no Shabat. Que a praça seja a sinagoga. Em vez de enforcar ou guilhotinar, eletrocutar ou decapitar, que todos ouçam as palavras do próprio D’us: “Aquele que fizer tal e tal coisa certamente será morto.” Imagine uma criança que, desde os primeiros dias, vem ouvindo em nome do Onipotente que amaldiçoar ou ferir os pais é um crime capital e quem fizer assim deve morrer. É difícil acreditar que um dia considere displicentemente a perpetração destes crimes.

O que outras culturas fazem após o crime, via execuções públicas, o judaísmo consegue com uma metodologia de instrução pública.

Medidas de emergência

Existe ainda uma admoestação final, a de medidas de emergência. Se os criminosos souberem que sempre conseguirão escapar impunes, se os castigos bíblicos forem vistos como universalmente inaplicáveis, não é possível que a compaixão acabe sendo inútil? Os Sábios estavam claramente conscientes desta possibilidade. Portanto, em situações extremas, o San’hedrin (Tribunal Supremo de 71 juízes), recebeu a autoridade de fazer vista grossa às benesses das leis de pena capital e impor uma sentença de morte, apesar da falta de advertência total e evidência incontestável.

A pessoa se pergunta como o San’hedrin lidaria com a sociedade moderna. Chegamos ao ponto em que medidas de lei de emergência deveriam ser consideradas aplicáveis? Seria bom sentir que não fomos tão longe a ponto de nossa sociedade não poder ser trazida de volta à lei de D’us. Entretanto, algo fica muito claro na lei judaica. Antes que os tribunais pudessem ignorar as leis de punição capital, deveriam ser feitos todos os esforços para assegurar que toda a sociedade entendeu, desde tenra idade, o que D’us deseja de nós.

Fontes: Beit Chabad, e Reflexões sobre a Torá de Moishe Grylak

Tenha uma semana e um sábado de muita paz !

” A voz daquele que chora à noite é ouvida, e as estrelas choram com ele”.
Rabi Nahaman de Brtslav

Fernando Rizzolo

Paulo Nogueira Batista: “A Argentina em apuros”

A Argentina é um país muito especial. Já escrevi várias vezes a respeito dela nesta coluna e em outras publicações. Nos tempos de Carlos Menem e Domingo Cavallo, na década de 1990, a minha preocupação central era que os argentinos pudessem ser arrastados para a dolarização total e a subordinação completa aos Estados Unidos, contaminando em alguma medida a posição brasileira e solapando de vez a integração sul-americana. Depois, sobreveio a crise terrível de 1999-2002, uma das piores de que se tem notícia.

Por Paulo Nogueira Batista Jr.*

Surgiu então uma espécie de salvador da pátria: Roberto Lavagna, um dos melhores, provavelmente o melhor ministro da Economia que apareceu na América Latina em muito, muito tempo. Lavagna conseguiu, primeiramente, restaurar a moeda nacional, libertando-a da vinculação rígida ao dólar, estabelecida no governo Menem, e afastando o risco de dolarização plena da economia. Mostrou que era perfeitamente possível romper a ligação com o dólar sem recair na hiperinflação, como muitos temiam. Em 2004, a taxa de inflação diminuiu para apenas 4,4%, contrariando previsões tenebrosas.

Se tivesse feito só isso, Lavagna já teria entrado para a história econômica argentina. Mas fez mais: liderou a reestruturação da dívida. Nervos de aço. Com coragem e criatividade, acabou conseguindo que a maioria dos credores aceitasse uma espécie de contrato de adesão, que reduziu consideravelmente o estoque e o serviço da dívida pública. A proposta de Lavagna gerou muitas reações iradas no exterior, mas ele ficou firme e acabou prevalecendo.

O que aconteceu, na prática, foi uma reestruturação unilateral da maior parte da dívida.
Infelizmente, Lavagna desentendeu-se com o presidente Néstor Kirchner e deixou o cargo em novembro de 2005. Desde então, a qualidade da política econômica argentina vem sofrendo sensível deterioração. Os seus sucessores deixaram muito a desejar.

A situação da Argentina não é de todo ruim. A economia continua crescendo em ritmo acelerado, mais de 8% ao ano. O balanço de pagamentos em transações correntes registra superávits ano após ano. As contas públicas também estão bastante ajustadas.

O grande problema é a volta da inflação – problema agravado pelo descrédito dos índices oficiais de preços. A taxa de inflação oficial foi de 8,5% em 2007. Ninguém acredita nesse número. Técnicos do instituto que calcula os índices de preços estimaram a inflação de 2007 em 26%.

A Ecolatina, firma de consultoria fundada por Lavagna, apresentou uma estimativa de 24%. Roberto Frenkel, um dos mais importantes economistas argentinos, supõe que a taxa de inflação esteja por volta de 20%.

Como observou Frenkel, a inflação chegou a um nível perigoso. Aumenta a freqüência com que se ajustam os preços e os salários. Os contratos tendem a se encurtar. A economia fica mais vulnerável a choques e à aceleração da inflação. É urgente estabelecer uma política crível de combate à inflação.

Quem sabe não está chegando a hora de chamar Lavagna de volta?

* Paulo Nogueira Batista Jr. é economista e diretor-executivo do FMI

Artigo publicado na edição desta quinta-feira (21/2) da Folha de S.Paulo

Rizzolo: O problema crucial é a inflação mascarada, ela de fato existe; oferece-se um ” índice oficial “, mas na realidade o real é bem diferente. Vi isso na Venezuela, o ano passado, quando todos questionavam os números inflacionários. O ministro da economia venezuelano argumentava, que a inflação variava de cidade para cidade, tentando desqualificar os altos números. Contudo, não há como crescer sem um pequena inflação, os próprios EUA, com as medidas adotadas ao crescimento, já prevê um aumento da inflação. É velha questão: O que é melhor, economia em recessão ou pouca inflação? Aqui no Brasil os números são bons e o fantasma da inflação apenas serve de pretexto à política de manutenção dos altos juros visando interesses financeiros.

Charge de Tacho para o jornal NH (RS)

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STF breca processos com base na Lei de Imprensa

Em decisão liminar (provisória), o ministro Carlos Ayres Britto, do STF, suspendeu a eficácia de 20 dos 77 artigos da Lei de Imprensa. Na prática, a decisão interrompe a maioria dos processos ou das condenações judiciais que tenham como base essa lei.

O despacho de Ayres Britto foi motivado por ação protocolada no Supremo, há dois dias, pelo PDT. Assina-a o líder do partido na Câmara, deputado Miro Teixeira (RJ). No texto da ação, o PDT requer a revogação de toda a Lei de Imprensa. Argumenta que, baixada em 1967, sob a ditadura militar, essa lei se confronta com a Constituição de 1988. Miro mencionou na ação os processos movidos pela Igreja Universal contra jornais e jornalistas.

“A atual Lei de Imprensa não parece mesmo serviente do padrão de democracia e de imprensa que ressaiu das pranchetas da nossa Assembléia Constituinte de 1987/1988”, anota Ayres Britto em sua decisão. “Bem ao contrário, cuida-se de modelo prescritivo que o próprio Supremo Tribunal Federal tem visto como tracejado por uma ordem constitucional (a de 1967/1969) que praticamente nada tem a ver com a atual.”

Leia aqui a íntegra da decisão do ministro. Ela vale até que o mérito do processo seja levado a julgamento no plenário do STF, composto por 11 ministros. Algo que nao tem data para acontecer.

Blog do Josias

Rizzolo: Não é possível vivermos num regime democrático, com a devida liberdade de expressão que lhe é pertinente, tendo ao lado uma mordaça denominada Lei de Imprensa. Foi com o costumeiro acerto, que o ministro Carlos Ayres Brito só STF, concedeu liminar parcial a uma ação de Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental impetrada pelo PDT. Com efeito, a Constituição de 1988, promulgada há 19 anos, estabelece princípios que na realidade são contraditórios com a maior parte da Lei de Imprensa. O restante da Lei poderá cais quando o assunto for levado ao plenário do STF. O mais interessante neste caso, é que Lula ao invés de cerrar fileira e opinar contra essa Lei autoritária, defende de forma apaixonada, o direito daqueles que de forma abusiva tentam amordaçar a imprensa. Esse é o presidente Lula que se diz democrático, e essa é a ” esquerda” que sempre ” gritou” por liberdades de expressão e que agora ao ouvir o silêncio de Lula sobre a Lei, também se cala. Temos que rechaçar essa Lei autoritária editada em 1967 pelo governo militar tão apreciada pela esquerda que evita comentá-la, pois entende que sem ela vai ” haver muita liberdade de expressão “.

Brasil já tem reservas o bastante para pagar dívida externa

O Banco Central divulgou documento nesta quinta-feira (21) no qual estima que as reservas internacionais brasileiras superaram a dívida externa do país em cerca de US$ 4 bilhões. Em outras palavras, o fato, que é inédito, significa que o Brasil possui moeda estrangeira suficiente para honrar seus compromissos internacionais, o que lhe confere o título de credor externo.

Ao final de 2003, a dívida externa brasileira registrava US$ 165,2 bilhões e, em 2007, de acordo com projeções do Banco Central, o indicador reduziu para US$ 4,3 bilhões e, já no mês passado, caiu ainda mais, para US$ 4 bilhões. O banco avalia que esta redução é oriunda do programa de recompra da dívida externa, antecipação de pagamentos e solidez das reservas internacionais.

Apenas no ano passado, as reservas internacionais cresceram 110% e chegaram a US$ 180,3 bilhões no final de dezembro.

“A análise dos resultados observados pelo setor externo da economia brasileira nos últimos anos e seus impactos nos indicadores de sustentabilidade externa mostram um inquestionável fortalecimento da posição externa do país”, avaliou o BC no documento.

“Em resumo, diante de um cenário internacional por aumento considerável na incerteza, pela volatilidade dos mercados financeiros e desaceleração da atividade econômica, a melhoria desses indicadores tende a mitigar, embora sem anular por completo, o impacto de eventos externos adversos.”, diz o órgão.

Grau de investimento

Com a posição credora no mercado internacional adquirida pela primeira vez pelo Brasil – as reservas brasileiras ultrapassam o total da dívida externa do Brasil -, o País fica a um passo do grau de investimento – classificação dada aos países com baixíssimo risco de calote da dívida. A opinião é do ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e atual consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Julio Gomes de Almeida.

Para ele, se a situação externa não apresentar deterioração, é possível que o País receba o grau de investimento ainda este ano. “Esse é o nosso passaporte para o grau de investimento e mostra porque estamos vivendo essa situação de tranqüilidade em meio à forte crise internacional. Se não fosse isso, é muito provável que o Brasil tivesse sofrido com a crise, com riscos para a economia”, diz Gomes de Almeida.

Com a posição credora, o ex-secretário avalia que o anúncio do grau de investimento – que foi motivo de forte rumor ontem no mercado financeiro na quarta-feira – deve ser acelerado. “As agências de classificação de risco só não nos dão o investiment grade agora porque é preciso cumprir certo ritual para que a classificação seja dada. Nessa crise, o Brasil já está mostrando que é investiment grade”, reforça.

Para Gomes de Almeida, a situação credora do Brasil contou com a colaboração externa gerada por alguns fatores como o aumento da demanda internacional, principalmente na China, disparada dos preços das commodities e boa liquidez (volume de negócios) no mercado internacional.

Para ele, essa situação permitiu que o Brasil acumulasse dólares com os seguidos superávits comerciais e, assim, aumentasse as reservas. Apesar da posição credora, ele afirma que ainda há espaço para que o Brasil continue adquirindo dólares no mercado cambial.

PIB

O BC divulgou também dados referentes ao Produto Interno Bruto do país. Em 2007, o PIB nominal dolarizado atingiu US$ 1,310 trilhão, um aumento de 159,7% sobre a posição de US$ 504,4 bilhões em 2002. Segundo o BC, esse é um dos indicadores que podem ajudar numa blindagem do Brasil aos efeitos de uma possível crise externa da economia mundial.

A evolução do PIB em dólares foi favorecida pelo crescimento da atividade e, em especial, pela apreciação do real nos últimos três anos. O BC cita que ao bom desenvolvimento da posição financeira internacional desde 2003 decorreu “da implementação de políticas macroeconômicas consistentes”, o forte ingresso de divisas por saldos recordes da balança comercial e pelo ingresso maciço de investimentos produtivos.

Da redação, com agências
Site do PC do B

Rizzolo: Não há dúvida que é uma ótima notícia, na verdade o cenário internacional colaborou para esse resultado, contudo, países da Ásia como a China, podem sofrer este ano diminuição nas suas exportações. Resumo da ópera, o Brasil se beneficiou face ao cenário internacional, contudo, no âmbito do cenário interno, muito há que fazer. O mais importante a ser feito, é alterar a política econômica que rege o mercado interno, diminuindo os juros e fortalecendo a nossa indústria nacional; ter desempenho apenas em razão da situação econômica mundial, e em virtude de fazer superávit primário esquecendo os investimentos internos, é extremamente perigo, precisamos fortalecer o nosso mercado consumidor, e saber gerir o País internamente, sem as atrapalhadas como na questão do embargo da carne brasileira pelo mercado europeu.

Lula descobriu que Matilde é inimputável

Um novo conceito de inimputabilidade surgiu ontem nas palavras do presidente Lula, quando pretendeu dar uma nova embalagem ao que chamamos de eventual desvio de dinheiro público; passou entende-lo como uma simples questão de caráter administrativo. Parafraseando o presidente, “nunca antes nesse País” a inimputabilidade fora argüida e defendida de forma tão apaixonada, não por debates jurídicos nos tribunais, tampouco por jurisprudências emanadas das instâncias forenses, mas sim vindas da popularidade e da visão simplória de Lula.

O presidente, defendeu nesta quarta-feira, 20, a ex-ministra da Igualdade Racial Matilde Ribeiro, que deixou o cargo por conta das denúncias de mau uso do cartão corporativo do governo, como se a mesma fosse uma incapaz, uma inimputável. Segundo Lula, “Ela saiu do governo sem ter cometido nenhum crime, não cometeu nenhum delito, teve apenas falhas administrativas”.

Não tardou o presidente, ao saber que sua popularidade encostava ao céu, para afirmar que Matilde, nada fez, postulando sua inocência numa postura confortável, condizente de quem se dá ao luxo de dizer o que quer face a sua popularidade. Lamentavelmente, o presidente Lula ao chancelar que os eventuais gastos com o erário público através do mau uso do cartão corporativo, não é crime, desqualifica uma norma moral se não penal, e se alça numa posição acima dos conceitos mínimos de ética e da boa gestão administrativa.

Mas como não existe pecado aos que queridos e populares são ao povo, o Brasil esvazia os toneis da probidade e legitima posturas amorais que deveriam ser rechaçadas com veemência. O problema toma corpo quando a questão racial é levantada de forma a encobrir os fatos. Da maneira em que foi colocada a questão, nos leva a imaginar que a condição racial de Matilde contribuiu para que o governo tomasse medidas drásticas, e isso não ocorreu, o que houve, sim, foi uma atitude face a um ato de improbidade, que não deve ser justificado ou abrandado. Na verdade ela saiu mesmo porque, se ficasse tendo comprovadamente desviado dinheiro público para compras particulares, os massacrados seriam Lula e a defesa do governo no uso dos cartões corporativos.

Fico a imaginar como deve se sentir aqueles que julgados cometeram delitos de menor potencial delitivo, que causaram menor lesão patrimonial, e que no rigor da Lei, cumprem penas nas penitenciárias. Infelizmente as afirmativas presidenciais denotam um aspecto simplório e distorcido na análise dos fatos que envolveram o uso do dinheiro público . É de se pensar, que da forma que as coisas caminham, aqueles que lotam as fétidas prisões do Brasil, se lembrarão com certeza dessa visão presidencial abrandada sobre o que vem a ser um ato condenável, e ao olharem para o teto úmido da povoada cela na fria madrugada, se lembrarão enfim, de suas terríveis ” falhas administrativas “, que acabaram levando-os às barras da Justiça. Compreenderão então, o quanto o Direito é interpretativo.

Fernando Rizzolo

O otimismo é o grande eleitor

Como é possível que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva atinja picos de popularidade e aprovação enquanto as simulações de voto apontam liderança folgada dos candidatos da oposição na corrida pela sucessão presidencial em 2010? Esse aparente paradoxo aparece nos números da pesquisa CNT/Sensus, que pode ser conferida em reportagem às páginas 2 e 3 desta edição [do Correio Braziliense].

Há algumas hipóteses imediatas, no terreno do senso comum. Pesquisa a tanto tempo da eleição não diz muita coisa, objetam alguns. É um argumento razoável, ainda que os mesmos que torcem o nariz para a suposta antecedência excessiva fiquem eles próprios de orelha em pé a cada informação sobre intenção de voto para presidente.

Uma segunda linha é que os números refletem mais o recall do que a disposição real de votar neste ou naquele. A memória de eleições passadas certamente tem importância. Mas não explica, por exemplo, o bom desempenho de um político como Aécio Neves — que nunca disputou eleição fora de Minas Gerais e a quem falta presença nacional equivalente à de seus concorrentes pela indicação no PSDB. Aliás, se recall fosse tudo, certamente Geraldo Alckmin apareceria à frente de Aécio na espontânea, e não atrás.

Um terceiro caminho é creditar o desempenho presidencial ao “lulismo”, ao carisma de um presidente supostamente descolado de sua base partidária e cuja influência eleitoral estará limitada por não poder ele próprio concorrer a um novo mandato. “2010 será a primeira eleição sem Lula, desde a volta das diretas para presidente”, repete-se. É verdade. Lula não poderá se candidatar ele próprio daqui a três anos. Mas nada impede que venha a apoiar um “Lula”, alguém que signifique a continuidade das políticas de seu governo.

O fato é que o presidente vai muito bem, obrigado. Depois de anos de polêmicas, já há consenso de que as políticas sociais e a economia respondem estruturalmente pela popularidade de Lula e pela musculatura política dele. A variável a analisar é outra: deseja-se avaliar se, e quanto, ele será capaz de “transferir” musculatura e popularidade a um candidato.

Uma questão da pesquisa divulgada ontem pode contribuir para clarear o caminho da análise. O Sensus quis saber por quanto tempo o entrevistado acha que o Brasil vai continuar a crescer. Quase 61% responderam que o país “não vai parar” de crescer. Uma taxa alta de otimismo, especialmente porque colhida logo depois do intenso noticiário negativo decorrente da crise financeira americana.

Quando abriu seu mandato, em 2003, Lula disse que iria trabalhar para aumentar a auto-estima nacional. Parece que conseguiu. Sob Lula, pelo menos seis em cada 10 brasileiros esbanjam otimismo em relação ao futuro do país. E, se a economia e os programas sociais são o capital presente do governo, esse otimismo é o seu grande capital futuro.

Pois eleições são invariavelmente apostas sobre isso, o futuro. Currículo é pré-requisito, mas não decide. O que amarra o voto é a capacidade de liderança, de encarnar a habilidade e a força necessárias para transformar sonhos em realidade, para alcançar dias melhores. O suadouro que Barack Obama está aplicando em Hillary Clinton deveria servir de lição a esse respeito.

Lula conseguiu transformar o brasileiro médio num otimista. Se o estado de espírito persistir, o presidente da República será o principal eleitor em 2010. Mas isso não significa que a oposição vá necessariamente caminhar para o matadouro. Se ela for inteligente, poderá tentar emplacar um discurso em que estejam conectadas as realizações positivas do governo do PT e a necessidade de renovação política, sem grandes rupturas.

Até o momento, a aposta da oposição parece residir em outros lugares. Em uma suposta superioridade gerencial e administrativa que só existe na cabeça dos marqueteiros dela. Ou na tentativa de levantar o país numa cruzada moral “contra a roubalheira”, conforme o conselho de Fernando Henrique Cardoso. Os números do Sensus são a enésima evidência de que, por aí, a oposição brasileira caminha mais uma vez para a derrota. Ainda que hoje possa saborear confortáveis — e enganadores — índices de intenção de voto.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada (19/02/2008) no Correio Braziliense.
Por Alon Feuerwerker

Rizzolo: Concordo com o Alon, não há dúvida que a imagem de Lula hoje está distanciada do PT. Ao privilegiar banqueiros, e aumentar a capacidade de renda da imensa população pobre, fez o presidente uma mistura ideal (mas pouco moral) nesse momento histórico. É inocência acreditar que a elite financeira lucrando nesse patamar vai por em risco, as espetaculares rentabilidades do setor, e os pobres que agora tem ao menos mais dinheiro no bolso e oportunidades de emprego face à situação econômica, vão descer o morro rufando seus tambores de guerra por de gastos públicos de uma ministra em free shop. Falta no momento uma consciência ética, e isso se faz com tempo, condições de vida adequadas, e educação. Caso contrário surgirão vários “Lulas” quantos for necessário, na preservação dos interesses dos poderosos em troca de algumas esmolas aos desvalidos que nada tiveram e que por pouco se tornam otimistas e gratos a quem ao menos lhes estendeu as mãos.

Fisco pesca notas frias nas arcas de Serra em 2002

A Receita Federal, como se sabe, virou do avesso a escrituração de nove partidos políticos. Detectou irregularidades em todos eles. Suspendeu-lhes a imunidade tributária. E tenta cobrar os impostos devidos. Deve-se ao repórter Leonardo Souza a descoberta de detalhes da apuração do fisco no PSDB. É uma das legendas encrencadas. Foi autuada em R$ 7 milhões.

Entre as irregularidades está a seguinte: os auditores fiscais “pescaram” nas arcas da campanha presidencial de José Serra, em 2002, R$ 476 mil em notas geladas. Foram emitidas por uma firma fantasma (Gold Stone Publicidade e Propaganda) e outra inidônea (Marka Serviços de Engenharia).

Ouvido, Serra, hoje o presidenciável tucano mais bem-posto nas pesquisas de opinião, mandou dizer, por meio de um assessor, que não comentaria a notícia. Afirma que se trata de tema afeto ao comando da campanha, não ao candidato.

Eduardo Jorge, secretário de Organização do PSDB, acusa o fisco de “mentir”. Sustenta que as contas tucanas estão em situação regular. E lança na atmosfera uma pergunta: “Quer dizer que o PT está tentando mudar o PSDB na CPI dos cartões vazando o relatório da Receita?”

A insinuação de que a Receita seja movida a interesses políticos desmerece um dos grandes feitos de FHC. Deve-se ao ex-presidente o mérito de ter mantido o fisco a salvo do flagelo das indicações políticas. Deu liberdade ao ex-secretário Everardo Maciel para transformar a Receita numa repartição irrepreensivelmente técnica.

Registre-se, porque é de justiça, que o petista Antonio Palocci manteve intacta a estrutura do fisco. Acomodou na cadeira de secretário Jorge Rachid, ex-braço direito de Everardo. Quando quis massacrar o caseiro Francenildo, Palocci serviu-se dos dados companheiros de uma Caixa Econômica Federal aparelhada pelo PT.

De resto, não cheiram bem as notas que o tucanato diz estar limpas. Mencione-se, por eloqüentes, os documentos emitidos pela Marka Serviços de Engenharia. Coisa de R$ 139,2 mil. A empresa fora desativada em janeiro de 1996. Não poderia expedir notas fiscais como prestadora de serviços de uma campanha eleitoral ocorrida em 2002.

Há mais e pior: chama-se Márcio Fortes o proprietário da Marka. É tucano de boa cepa. Respondeu pela secretaria-geral do PSDB entre 1999 e 2003. Em 2002, era presidente do comitê financeiro que geria as arcas da campanha. Dois dos cheques emitidos pelo PSDB em favor da Marka aportaram na conta pessoal de Fortes.

Procurado, Fortes diz que os cheques (R$ 94,7 mil) foram à sua conta pessoal porque era ele quem “operava essa questão”. Desativada em 1996, a Marka, diz ele, foi reativada e regularizou sua situação fiscal. Reconhece, porém, que o movimento se deu depois da descoberta do indício de malfeito.

Em reação à notícia, os líderes do PSDB e do DEM –Arthur Virgílio (AM) e José Agripino Maia (RN)— protocolaram na Mesa diretora do Senado um requerimento de informações dirigido ao ministro Guido Mantega (Fazenda), de cuja pasta pende a Receita Federal.

Perguntam por que PSDB e DEM foram perscrutados numa investigação fiscal que, na origem, destinava-se a desvendar as estripulias praticadas pelas legendas mensaleiras. Pedem detalhes acerca dos achados dos auditores na escrituração das legendas governistas. Por exemplo: “Que ações e diligências administrativas foram realizadas especificamente para averiguar a ocorrência de fluxo de recursos em ‘caixa dois’ por parte do PT, no montante próximo a R$ 50 milhões, segundo apontou o Ministério Público Federal?”

Pedem, de resto, informações sobre as providências adotadas pela Receita para apurar o vazamento das informações fiscais sigilosas para o repórter Leonardo Souza. Desejam a punição dos responsáveis.

É de estranhar que os dois maiores partidos oposicionistas questionem o fato de a Receita ter varejado também as suas contas. Fez bem, muito bem o fisco em estender a investigação às arcas do PSDB e do DEM. Há operações suspeitas? Que se expliquem, assim como os demais.

Quanto ao sigilo, os líderes Virgílio e Agripino fariam melhor se advogassem a celebração de um mega-acordo, pluripartidário, pela abertura de todas informações relativas a todas às legendas. Levado ao texto constitucional para proteger pessoas físicas e jurídicas, o sigilo fiscal não deveria ser invocado para preservar dados relativos a partidos políticos e demais entidades bafejadas pela imunidade tributária. Que venham a público todas as informações. Pratos limpos, eis o que desejam os eleitores.

Blog do Josias
Folha de São Paulo

Rizzolo: Isso aí não está nada bom, já havia comentado que muito embora escândalos nesse Brasil não afetam candidatos (vide Lula), a velha “postura idônea” do PSDB fica comprometida. A improbidade com o erário público já está se tornando endêmica. Isso de fato vem de encontro com a necessidade de uma ampla reforma política elaborada de baixo para cima, talvez lançando-se mão da democracia participativa, mesmo porque, pode-se inferir pela conduta dos partidos, sejam eles quais forem, que a idoneidade está definitivamente maculada. É uma pena que as opções políticas que temos no Brasil, não passam pelo rigor da ética e da probidade. Foi baseado na premissa desses escândalos que brotam ao redor de Serra, que este Blog propôs, ainda quando todos falavam em voz uníssona sobre a opção Kassab, que o melhor seria Geraldo Alckmin, o respingo seria bem menor. E não venham os petistas e pseudo comunistas dizer que eu tenho um ” cérebro de Jânio “, imprevisível, que eu oscilo entre o judeu Trotsky e o reacionário judeu Sharon, sou apenas ético e realista. O resto podem falar o que quiserem, menos cometer o crime de racismo, acho que fui claro.

Os dois lados de Fidel Castro

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Como um atleta que abandona sua carreira, o líder cubano Fidel Castro anunciou nesta terça-feira que não voltará a ocupar a presidência do país. A renúncia foi divulgada por meio de uma carta publicada no jornal oficial do país, o “Granma”. O líder cubano foi eleito recentemente como membro do Parlamento mas não aceitou e não deseja mais participar do cargo de Presidente do Conselho de Estado e Comandante Chefe.

Nenhum estadista até hoje foi tão diversamente interpretado; as mais variadas leituras do ponto de vista pessoal, ideológico e filosófico foram exaustivamente discutidas quer pelas esquerdas do mundo, quer pelas direitaa quase sempre impiedosas com o líder cubano. Talvez, para não cometermos excessos, ou até por nos precavermos de uma análise unilateral, Fidel Castro deve ser compreendido numa outra dimensão, desta feita despojada do conteúdo ideológico que sempre foi alvo.

Até poderíamos pensar que a política deve ser baseada na qualidade das idéias e na sua densidade contributiva em trazer à sociedade bem-estar, justiça social, e oportunidade, mas o enfrentamento da questão em si se dá na forma da condução e como atingi-los via regime político; e talvez aí, os enfrentamentos ocorrem. A relação entre a política e as receitas marxistas, sempre estiveram presentes nas idéias de Fidel, o início da revolução cubana e sua essência deu-se em função do marxismo. Alvo de críticas, mesmo em alguns segmentos da esquerda, Fidel sempre valeu-se da defesa intransigente dos preceitos marxistas na tentativa de se fazer prevalecer, até para na época contar com a simpatia e auxílio dos países socialistas.

O embargo americano à ilha provocou danos irreparáveis, a queda da União Soviética o abalou do ponto de vista material e ideológico; era o monento, bastava naquele naquela ocasião uma revisão, ou uma reflexão sobre os destinos do socialismo numa visão mais distanciada dos dogmas marxistas, mas Fidel não o fez, preferiu por amor ao debate insistir em sua colocações empobrecendo a discussão, e levando alguns grupos de esquerda e filósofos no mundo, a tê-lo como um romântico não disposto a questionamentos.

É nessa visão romântica que me atenho a Fidel Castro, um homem pouco dado a democracia. Na verdade, nunca foi um democrata, como também é discutível sua postura de ditador como tantos gostam de apregoar. Era mais um filósofo que começou uma história e não sabia como termina-la. Deveria, de fato, tê-la conduzido como os chineses a conduziram, estabelecendo um relação com o capitalismo, elaborando um socialismo de mercado latino-americano, contudo, preferiu escrever, falar, continuar com seus trajes, e olhar o mundo já aos seus 81 anos com os olhos de um profeta que sonhou um mundo de justiça e igualdade, mas não discutindo a essência do fracasso, esvaziando o debate.

É esse lado então romântico de Fidel Castro, que encanta o mundo, sua ética aos pobres, suas intervenções nos chamando às reflexões, a pensar, um combatente que perdeu a guerra mas ficou apenas com as idéias. O socialismo de cunho estritamente marxista não prosperou e não irá prosperar em Cuba assim como em todos os países que o experimentaram. Talvez abandonando o comando, e saciando o desejo daqueles que sempre o odiaram, seus ideais de justiça social ao povo cubano poderão surgir através de uma democracia participativa, através de um adeus, de uma partida digna, de um aceno, como a de um atleta que muitas emoções ao povo brindou. Assim, quem sabe, apenas uma lição poderá um dia nos deixar : a de que a luta pela justiça social tem quer alcançada, nem que seja apenas um sonho distante, um sonho difícil de ser realizado.

Fernando Rizzolo

Serra lidera pesquisas para eleições de 2010

A pesquisa CNT/Sensus divulgada hoje mostrou que o governador de São Paulo, José Serra, lidera as intenções de voto em todas as listas apresentadas aos entrevistados, tanto no primeiro turno como no segundo. Na primeira lista, Serra conta com 38,2% das intenções, seguido de Ciro Gomes (18,5%), Heloísa Helena (12,8%) e Dilma Rousseff (4,5%). Em outra lista, Dilma é substituída por Patrus Ananias. Serra, nesse caso, conta com 37,5% das intenções de voto; Ciro com 19,6%; Heloísa Helena com 13,9% e Patrus com 3,4%.

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Quando o candidato do PT é Tarso Genro, Serra aparece com 37,3% das intenções; Ciro com 19%; Heloísa Helena com 13,3%; e Tarso com 4,9%. Em uma lista em que Serra não aparece, Ciro Gomes lidera com 25,8% das intenções, seguido por Heloísa Helena com 19,1%, Aécio Neves com 16,6% e Dilma Rousseff com 5,4%.

Apesar do desempenho fraco dos candidatos do PT nas simulações, o diretor da Sensus, Ricardo Guedes, afirma que, se o nome for “palatável”, o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva provavelmente vai colocar o candidato no segundo turno. O mesmo raciocínio vale para candidatos de outros partidos da base aliada que venham a ser apoiados por Lula.

Nas simulações de segundo turno, Serra também vence em todas as listas apresentadas. Diante do candidato do PT, a folga do tucano é bem maior. Contra o ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, Serra venceria por 59,1% contra 8%. Na disputa com Dilma Rousseff, venceria com 57,9%, ante 9,2% da ministra da Casa Civil. Já em um eventual embate contra Tarso Genro, Serra teria 57,5%, e o ministro da Justiça teria 10,1%. Serra só venceria com um placar mais apertado a disputa com Ciro Gomes, com 46,5%, enquanto o deputado cearense teria 25,5%.

A pesquisa também fez duas simulações considerando Aécio Neves no segundo turno, enfrentando Dilma Rousseff e Tarso Genro. O tucano vence nas duas simulações. Contra Dilma, ele teria 36,9%, ante 14,5% da ministra; e contra Tarso, 36,1%, ante 15,5% do petista.

Folha online

Rizzolo: Muito embora a popularidade de Lula continua alta, a possibilidade de um apoio seu a um candidato se acaso isso ocorresse hoje, não alcançaria Serra. Isso deve-se ao fato de que o tucano atualmente está muito à frente dos demais candidatos. Na verdade, existe muito tempo até 2010, tempo suficiente para melhorar ainda mais a economia, emprestando a Lula confiabilidade, e tempo suficiente para piorar o cenário econômico mudando totalmente o quadro eleitoral. Agora, Ciro Gomes, Dilma Rousseff , Heloísa Helena, com esse time precisa muito Lula e muito vigor na economia para ” dar conta” e levantar o prestígio desse pessoal. Outro dia um leitor me escreveu , Rizzolo porque vc está revoltado com o Lula ? e eu respondi. Simplesmente pelo fato de que Lula traiu o povo brasileiro. E veja bem, não é que Serra e Alckimn são bons, os outros é que são por demais ruins. Deu para entender, não é ?

“Copo d’água para quem tem sede é papo furado”, diz Ciro

Na quinta-feira (14/2), em uma audiência pública no Senado Federal sobre a transposição do Rio São Francisco, o deputado federal e ex-ministro Ciro Gomes (PSB-CE) assumiu que as populações difusas do semi-árido brasileiro não serão beneficiadas.

Ciro defendeu o projeto afirmando que há vazão suficiente no rio para se retirar o mínimo de 26m³/s previstos para a transposição, sem prejudicar nenhuma das funcionalidades do rio. Por outro lado, reconheceu que “essa conversa mole de ‘um copo d’água pra quem tem sede’, isso tudo é papo furado. Não é a redenção do Nordeste nem nada, mas resolve a questão da segurança do abastecimento humano e dessedentação animal para 12 milhões de pessoas na área de influência do projeto”, disse o deputado.

“Para chegar a 12 milhões de pessoas [até 2025], eles consideram cidades de médio e grande porte como Fortaleza, Mossoró, João Pessoa… cidades que não vivem situações alarmantes de seca. Quando falam de segurança hídrica, significa que a água vai para a onde ela já está concentrada, para os grandes reservatórios”, rebateu Luciano Silveira, da coordenação da Articulação do Semi-Árido (ASA), lembrando que, pela primeira vez, os defensores do projeto assumem que a população rural do Semi-Árido continuará excluída. “Isso corresponde à metade da população do Semi-Árido (10 milhões de habitantes). Fica evidente a incoerência do projeto, excluindo a população que mais sofre com a seca, que é também a que mais migra”, acrescentou.

Dom Luiz alerta que projeto é “anti-ético”

Em sua fala, a primeira da audiência, Dom Luiz Cappio, bispo de Barra/BA, mostrou que a transposição beneficiará os grandes produtores nordestinos, em detrimento da população sertaneja que não tem acesso à água. Ele comparou o projeto com alternativas propostas para a região como as obras do Atlas do Nordeste, desenvolvido pela Agência Nacional de Águas, do próprio governo federal. Enquanto a transposição pretende atender 12 milhões de pessoas em 4 estados, o Atlas pode beneficiar 34 milhões de pessoas em 10 estados pela metade do custo. Ele reforçou que o projeto de transposição tem fins econômicos, como produção de frutas para exportação e criação de camarão em cativeiro.

O bispo reafirmou que o governo faz uma propaganda enganosa em torno da transposição. “O projeto é antiético, pois usa a boa-fé das pessoas. A população deveria ser prioridade, se fosse assim, seríamos a favor”, disse. Dom Luiz criticou a postura do governo em desconsiderar os impactos ambientais da transposição; os impactos sociais para 156 comunidades quilombolas, 34 povos indígenas e diversas comunidades ribeirinhas; além de ignorar a legislação brasileira, incluindo a Lei de Recursos Hídricos. “Água temos em abundância, o que nos falta é a democratização da água”, concluiu.

Nova audiência será marcada

Alguns senadores propuseram que um novo debate para maiores esclarecimentos ocorra no Senado. Além disso, uma comissão de senadores deve visitar o Rio São Francisco em julho. A intervenção de todos os participantes pode ser lida no site http://www.senado.gov.br/Agencia/verNoticia.aspx?codNoticia=71510&codAplicativo=2
“Hoje foi um dia de cidadania. Pena que está acontecendo depois das obras terem começado”, disse Dom Luiz ao agradecer a oportunidade. Em 2005, após o primeiro jejum do frei em protesto contra a transposição, Lula havia se comprometido a debater o projeto antes do início das obras. Ao encerrar a audiência, o bispo fez uma proposta ao plenário: “não seria mais interessante colocar o Exército a serviço da revitalização do São Francisco e de outras bacias, já que a revitalização é um consenso nacional?”.

A audiência, requerida pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP), durou mais de 6 horas, com a participação de vários oradores. O público acompanhou o debate na Tribuna de Honra e nas galerias do plenário. A audiência foi transmitida ao vivo para todo o Brasil pela TV Senado.

Contrários ao projeto falaram na tribuna: Dom Luiz Flávio Cappio, bispo de Barra (BA); Luciano Silveira, da coordenação da Articulação do Semi-Árido (ASA); Luciana Khoury, promotora de Justiça da Bahia e coordenadora da Promotoria de Justiça do Rio São Francisco; Apolo Heringer Lisboa, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas e coordenador do projeto Manuelzão (UFMG); João Abner, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; Henrique Cortez, ambientalista e coordenador do portal EcoDebate; Letícia Sabatella, Osmar Prado e Carlos Vereza, atores e integrantes do Movimento Humanos Direitos.

Ao chegar ao plenário, Dom Tomás Balduino, bispo emérito de Goiás, foi convidado pela presidência da mesa a se dirigir à tribuna. Breve e taxativo, o bispo enfatizou que essa discussão não diz respeito somente à água, mas ao modelo de desenvolvimento e à convivência com o Semi-Árido.

Defenderam a transposição: Geddel Vieira Lima, ministro da Integração Nacional; Ciro Gomes (PSB-CE), deputado federal e ex-ministro da Integração Nacional; João Reis Santana Filho, secretário de Infra-Estrutura Hídrica do Ministério da Integração Nacional; Marcondes Gadelha (PSB-PA), deputado federal; Rômulo Macedo, gerente do Programa São Francisco, de responsabilidade do Consórcio Logos-Concremat; Paulo Canedo de Magalhães, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro; Dom Aldo Di Cillo Pagotto, arcebispo da Paraíba e presidente do Comitê Paraibano em Defesa da Integração de Bacias e de Transposição das Águas do Rio São Francisco.

A audiência foi realizada pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH), em conjunto com as Comissões de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE); de Serviços de Infra-Estrutura (CI); e de Desenvolvimento Regional e Turismo (CDR).

Projeto de Transposição – O governo pretende construir canais de concreto a céu aberto que somam 720km, correspondendo aproximadamente à distância, por rodovia, entre Belo Horizonte e Brasília. Partindo de dois pontos de captação em Pernambuco, as águas do São Francisco percorreriam dois caminhos: o Eixo Norte (Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte) e o Eixo Leste (Pernambuco e Paraíba). O volume a ser retirado continuamente do rio para transposição, outorgado pela Agência Nacional de Águas, é 26,4m3/s. A estrutura projetada é para uma vazão máxima de 127m3/s.

por Renina Valejo (Cáritas Brasileira). Colaborou Marcy Picanço (Cimi).

Caritas Brasileira CNBB

Rizzolo: A transposição do rio São Francisco é uma obra do ponto de vista técnico pródiga, sem sentido, visando apenas os interesses dos poderosos. Em um artigo meu na revista Cáritas da CNBB, tento discorrer sobre esse tema. Na verdade, a transposição não passa de mais uma gastança excluindo os pobres promovida pelo governo, e árduamente defendida pelo Sr. presidente Luiz Inácio da Silva e por aqueles que se dizem pertencer a ” esquerda”.

Discípulos de Juan Carlos querem calar a OAB

Foi durante a ditadura militar que a Nobre Ordem dos Advogados do Brasil, juntamente com a Igreja e outros representantes da sociedade, demonstraram sua indignação, coragem, e posturas destemidas, aos que na época jogaram os direitos de cidadania do povo brasileiro numa escuridão sem limites, onde a censura, a falta de informação, o sigilo de cunho fascista, levava aos porões da ditadura aqueles que se levantavam contra toda ordem de injustiça que na época reinava.

Na falta de informação, na férrea censura da imprensa e de todos os meios de comunicação, crimes contra a humanidade corriam por todos os cantos do País sob a égide da legitimidade, nos pretextos da segurança nacional. Como uma voz destemida, surgia a OAB na defesa dos interesses da nação, forte, rígida, representada por advogados na sua maioria paulistas que não se intimidavam de forma alguma, frente aos impiedosos do regime de exceção. A nossa Ordem como guardiã da cidadania, sempre se levantou em oposição aos regimes totalitários e aos desmandos de governos autoritários, promovendo a defesa intransigente do Estado Democrático de Direito. Talvez seja esse orgulho, que impulsiona até hoje velhos advogados como meu pai, que aos 82 anos se reúne todos os anos com seus colegas de turma, em lembrança aos tempos da velha Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, trincheira de luta de renomados advogados.

Mas a advocacia mudou, não há mais a cordialidade e a distinta urbanidade que havia entre os advogados e demais membros do Judiciário. Alguns por se acharem chancelados por um concurso público, numa ” metamorfose ambulante”, parafraseando nosso presidente, viram as costas para a advocacia e seus membros. Se alçam face ao cargo, numa posição superior, soberba, muitas vezes humilhando o pobre advogado no árduo exercício de suas funções, intimidam-no com ordens de prisão descabidas vindas do alto do “parquet”, para que de forma submissa se posicione o pobre advogado resignado, aos desígnios de sua autoridade. Por sorte, poucos são os magistrados, membros do Ministério Público e autoridades públicas em geral, que desta forma agem. Por virtude ainda, existe nos corações dos muitos membros do judiciário e do executivo, as lembranças e o respeito aos colegas de carteira que hoje transitam na labuta jurídica solitária do dia-a-dia, por muitas vezes estressados e vivenciando problemas financeiros.

Mas o brado na defesa intransigente daqueles que sofrem os efeitos dos desmandos de autoridades públicas existe na nossa Ordem. As violações às prerrogativas dos advogados estão previstas pela Lei Federal 8.906/94, nela encontra-se o amplo direito ao contraditório, e se constatado o abuso, há, sim, o ato de publicidade. Ao contrário dos desmandos ocorridos na época do regime militar, a Ordem exercita aquilo de mais nobre, que jamais houve nos regimes ditatoriais ou de exceção: a publicidade dos atos, dos nomes dos servidores autoritários, e repito, que após terem passado pelo direito de ampla defesa, se constatou a violação. Por muito menos se faz ao pobre, ao simples cidadão devedor, a publicidade de seu nome em listas de cunho averiguatório comercial.

Como poderíamos como defensores da cidadania sermos alvo de desmandos por parte de autoridades públicas, por muitas vezes humilhados publicamente, e ficarmos calados? Pronta foi de fato, as respostas dos dirigentes da OAB Federal e paulista, esta última, na pessoa do Nobre presidente da seccional Luiz Flávio D´Urso, que rechaçaram as acusações com veemência vindas de instituições que outrora caminhavam lado a lado com a OAB na busca dos interesses do povo brasileiro.

Lamentavelmente, acredito que o episódio envolvendo o procurador-geral de Justiça de São Paulo, ao adjetivar como “fascista” a atuação da OAB-SP na defesa das prerrogativas dos advogados, seja fruto do pouco senso de cordialidade, do pouco coleguismo do antigamente, e talvez, da impossibilidade de ter vivenciando o senso de coleguismo tão comum entre os profissionais do direito onde impera o respeito mútuo. Hoje, jornalistas como Elio Gaspari e alguns poucos membros do Judiciário, tentam amordaçar a OAB, desqualificando-a numa tentativa de faze-la serviçal aos interesses que não pertencem à essência da instituição, que é acima de tudo, discutir o Brasil e levar ao povo brasileiro a defesa da ética e da liberdade. Se pudessem diriam em bom tom ” Porque non te callas OAB?”

Fernando Rizzolo

Demanda é que não vai faltar

A Europa que exige pedigree dos nossos bois é a mesma que tenta nos impingir a importação de suas montanhas de pneus usados. Querem vacas com check-up, enquanto nos empurram o lixo deles

Há alguns dias, a principal revista americana sobre a indústria do cinema publicou um texto para dizer que o filme brasileiro Tropa de elite é fascista. Foi o que bastou para despertar aqui as vozes de sempre, ecoando a tese e apresentando o veredicto da Variety como prova de que estariam corretas as críticas ao filme de José Padilha.

Num outro episódio, aparentemente desconectado desse, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, protagonizou na quarta-feira o inusitado espetáculo de comparecer ao Congresso Nacional para fazer o papel de advogado do protecionismo europeu contra a carne bovina brasileira.

Nada a ver? Tudo a ver, infelizmente. São ainda marcantes entre nós os traços mentais resultantes de séculos de dominação colonial. Se alguém com sobrenome anglo-saxônico deita falação na Variety, ou no The New York Times, tem razão a priori. Se a Europa, a pretexto de “proteção sanitária”, estabelece unilateralmente o número de fazendas brasileiras das quais importará carne, também está certa, por definição.

Qual foi o último filme americano que merece ser celebrado como crítica radical ao mercado de consumo de drogas nos Estados Unidos? O problema dos gringos com Tropa de elite tem a mesma raiz dos ataques desferidos contra a obra pelos nossos círculos supostamente bem-pensantes. Não aceitam o fato de que o consumo pelas classes média e alta é o principal estímulo à produção crescente de drogas e ao narcotráfico. E, portanto, à disseminação da violência e da insegurança. A questão está sintetizada numa das frases antológicas do Capitão Nascimento:

Eu sempre me pergunto: quantas crianças a gente tem que perder para o tráfico só para um playboy rolar um baseado?

Talvez por ignorância, não me lembro de um filme americano que tenha colocado a questão nesses termos. Dirão os cínicos que é porque os Estados Unidos são o maior mercado consumidor de drogas do planeta. Para compensar esse detalhe, despejam dinheiro, armas e soldados na repressão aos mercados produtores, em países da periferia do sistema. O único problema é que de vez em quando topam com um Evo Morales.

O tratamento que os americanos dão ao flagelo da droga supõe a existência de duas categorias de cidadãos. Os deles, que merecem ser afagados e compreendidos — e cujas escolhas comportamentais devem ser lançadas na conta dos tempos modernos. E os demais, sobre quem vai recair o ônus de pagar pelos pecados de uma sociedade doente.

Ora, também no tema da carne brasileira exportada para a Europa institucionalizam-se duas categorias de consumidores. Se o Ministério da Agricultura considera que determinada carne é adequada ao consumo dos brasileiros, por que razão não seria adequada à mesa dos europeus? Em outras palavras, se um certo produto alimentar não tem condições sanitárias para entrar no mercado europeu, tampouco deveria ter sua venda autorizada aqui.

Os países desenvolvidos compensam a ineficiência de sua agricultura com pesados subsídios e com barreiras protecionistas, algumas vezes embaladas com roupas “ecológicas” ou “sanitárias”. É justíssimo que haja preocupações sanitárias e ecológicas quando se trata de produzir alimentos, mas isso não deve nos condenar à ingenuidade ou à subserviência nas relações comerciais com o Velho Mundo.

Até porque, recorde-se, a Europa que exige pedigree dos bois brasileiros é a mesma que tenta nos impingir a todo custo a importação de suas montanhas de pneus usados. Enquanto pedem de nós vacas com check-up, empurram-nos o lixo deles em forma de borracha.

Se o Brasil acha que as exigências sanitárias da União Européia são razoáveis, deve implantá-las internamente. Se houver lógica em mais de duas mil fazendas brasileiras de primeira linha serem proibidas de exportar para os europeus, elas também devem ser impedidas de colocar seu produto na casa do cidadão brasileiro. Mas, se o governo acha que os obstáculos são apenas protecionismo disfarçado, deve reagir. Na Organização Mundial do Comércio (OMC) e no mercado. Retaliando. Que os europeus sintam no bolso as conseqüências da arrogância imperial.

De vez em quando, orgulho nacional nos faria bem. Na cultura e nos negócios. Ainda por cima quando os fatos ajudam. Tropa de elite é ótimo e nada tem de fascista. E, no ritmo em que cresce o consumo chinês, demanda por carne de vaca é que não vai faltar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje (15/02/2008) no Correio Braziliense
por Alon Feuerwerker

Rizzolo: Com efeito, o problema do embargo à carne brasileira é bem complexo, passa por questões internas da própria União Européia onde produtores irlandeses se posicionam pressionando os governos, e muito pela incompetência do governo representada na sua postura indisciplinada, quando do não atendimento das exigências básicas para o fornecimento da carne a EU. Tudo foi muito mal conduzido, do ponto de vista técnico e político. Questões primárias como apresentar o número exato de fazendas credenciadas, 300 e não mais; apresentaram 2500, e pior, o governo não se conforma com as devidas exigências, apostou, sim, no ” jeitinho europeu” que não existe por lá. Entendo que tudo é uma questão de disciplina, capacidade de gerenciamento e de gestão, o que não há nesse governo, onde tudo é resolvido na base do acordo, da negociação, bem típico de sindicato, de negociação ” trabalhista”, isso não funciona. Um País não se administra dessa forma. Hoje o governo tem desde o segundo escalão ao terceiro ” líderes comunitários petistas “, pessoal despreparado, sem cultura que acaba influenciando de certa forma ” a jeito petista de gerir as coisas públicas “. O resultado é desastroso, desde a carne ao desmatamento, passando também pela seara da ética.

Alckmin e Marta lideram disputa pela Prefeitura de SP, diz Datafolha

O ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) e a ministra Marta Suplicy (PT) lideram hoje a corrida pela Prefeitura de São Paulo, revela a primeira pesquisa Datafolha do ano, publicada na Folha deste domingo (17) –que chegou às bancas de jornal neste sábado (16). A íntegra da pesquisa está disponível somente para assinantes do jornal e do UOL.

De acordo com a pesquisa, Alckmin aparece com 29% das intenções de voto, contra 25% de Marta. Os dois estão tecnicamente empatados, já que a margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), tem 12% das intenções de voto. Com esse desempenho, Kassab está tecnicamente empatado com Paulo Maluf (PP) e Luiza Erundina (PSB) –que têm 10% e 8% das intenções de voto, respectivamente.

Na pesquisa anterior, realizada em novembro, Alckmin tinha 26% das intenções de voto, contra 24% de Marta. De uma pesquisa para outra, o percentual de intenção de votos de Alckmin oscilou três pontos para cima, enquanto o de Marta evoluiu um ponto.

Kassab –que tinha 13% das intenções de voto– oscilou um ponto para baixo. Com isso, a diferença na taxa de intenção de voto de Alckmin para Kassab subiu para 17 pontos.

Os dois querem disputar a eleição para a Prefeitura de São Paulo, em outubro. Se nenhum deles desistir da candidatura, a aliança histórica entre PSDB e DEM será rompida. Integrantes do PSDB já chegaram a defender apoio à reeleição de Kassab em prol da manutenção dessa aliança. Em troca, o DEM apoiaria a candidatura de Alckmin para o governo de São Paulo, em 2010. Mas Alckmin quer disputar a eleição de outubro para não ficar muito tempo afastado das articulações políticas.

Folha online

Rizzolo: Tenho dito com freqüência neste Blog, que a viabilidade da candidatura de Alckmin jamais deveria ser deixada de lado como alguns tucanos no início apregoavam. Cheguei a escrever um pequeno artigo intitulado Que tal o Geraaaaldo ?, sobre as conveniências de Alckmin face a sua maior “digestibilibidade” junto ao eleitorado paulista. A pesquisa da Datafolha vem corroborar o meu entendimento. Quanto a Marta, infelizmente fica na população a marca do estigma petista; por mais que os defensores do PT tentem justificar a lama de corrupção, de gastança, e de falta de gestão, acusando a mídia de golpista, os efeitos não prosperam, vez que os escândalos como os do cartões corporativos, saltam aos olhos. E o pior, desde já membros do PT como o secretário-geral do partido José Eduardo Cardoso, descaradamente admitem de forma pública, o que o partido escondia; o vergonhoso escândalo do mensalão. Como se isso fosse natural !

Conheci o ex. governador Alckmin num jantar de amigos em comum, e tivemos a oportunidade de durante duas horas conversarmos sobre o Brasil. Apesar de não concordar com toda sua visão política ideológica, por muitas vezes, durante o jantar, ele me surpreendeu com colocações mais à esquerda do que o nosso presidente. Pensei comigo ” Só aos mortos não é dado o direito a mudar de idéia “, e parace que ele está mudando…para melhor. Num eventual segundo turno entre Alckmin e Marta, o tucano venceria a eleição com 52% das intenções de voto, contra 40% da petista, segundo a mesma pesquisa.

A segunda pele do homem

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Como de costume, todo Sábado procuro não escrever textos que não estejam relacionados com o Shabbat e com o estudo da Tora. Sem ter a intenção de dar uma conotação pessoal religiosa ao que escrevo, permito dirigir me a você, que acompanha minhas reflexões diariamente, e compartilhar com o amigo(a), de uma forma humilde, esses momentos de introspecção dos meus estudos no Shabbat, que se iniciam todas às sextas-feiras, quando me recolho duas horas antes da primeira estrela surgir no céu, numa Sinagoga ortodoxa que freqüento em São Paulo.

Como já disse anteriormente, tenho profundo respeito por todas as crenças, religiões, e acima de tudo sou um brasileiro patriota, amo meu país e o povo brasileiro, e tenho sim, uma grande satisfação espiritual em ao estudar a Parashá (Porção da Tora semanal) relacioná-la ao que vivemos nos dias atuais. Shabbat é um dia de paz, descanso e harmonia. Devemos nos abster das tensões e às exigências da vida cotidiana.

Como é uma reflexão de estudo pessoal, baseada na introspecção bíblica, recomendo a todos que acompanhem no Antigo testamento (Torah ) os comentários aqui expostos, para que possamos ter uma semana de paz; e que através dos estudos judaicos, possamos compreender nossas vidas e encontrar formas de superar as adversidades na visão de Hashem (Deus). Isso nos dará energia e um “Idiche Kop” ( perspicácia particular), para que enfim tenhamos condições de construir um Brasil cada vez mais digno e com mais justiça social, que é a base do Judaísmo, do Cristianismo, do Islamismo, e de todas as religiões que levam a um mesmo Deus.

E lembre-se, Deus não quer apenas que você ore, mas que você aja com um parceiro dele aqui neste mundo, promovendo mudanças, estudando, se aperfeiçoando cada vez mais em sua área de atuação, e lendo, lendo muito. Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo . Nesses aspectos, Ele Hashem ( Deus), precisa mais de você do que você dele. Somos aqui nesse mundo, parceiros de alguém maior. E quando orares, siga um conselho do Rabi Menahem Kotzk que ouvindo o comentário, respondeu: ” Se alguém clama ” Pai, ó Pai ! ” várias vezes, Deus acaba se tornando realmente seu Pai “.

A parashat desta semana chama-se Tetsavê Seguindo-se aos mandamentos detalhados da porção da última semana a respeito da construção do Mishcan, a parashat Tetsavê começa com a mitsvá diária dada a Aharon e seus filhos de abastecer a menorá no Mishcan com puro azeite de oliva.

D’us descreve a Moshê as vestes especiais que devem ser usadas pelos Cohanim durante o serviço, tecidas e adornadas com materiais doados pelo povo. Os Cohanim comuns envergavam quatro vestimentas especiais, ao passo que quatro vestes adicionais deveriam ser vestidas exclusivamente pelo Cohen Gadol. Todos os Cohanim vestiam: 1) O ketonet – uma túnica longa de linho; 2) michnasayim – calções de linho; 3) mitznefet ou migba’at – um turbante de linho; 4) aynet – uma longa faixa ao redor da cintura. Além disso, o Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) vestia: 5) O efod, uma veste similar a um avental, feita de lã azul, roxa e vermelha, linho e fios de ouro; 6) o choshen – um peitoral contendo doze pedras preciosas inscritas com os nomes das doze tribos de Israel; 7) me’il – uma capa de lã azul, com sinos de ouro e romãs decorativas na barra;8) o tsitsi uma placa de ouro usada sobre a testa, com a inscrição “Sagrado para D’us”.

A porção da Torá então transfere sua atenção aos mandamentos de D’us referentes ao melu’im, inauguração ritual para o Mishcan recentemente construído, a ser realizada exclusivamente por Moshê por sete dias.

Tetsavê também inclui as instruções detalhadas de D’us para a iniciação de sete dias de Aharon e seus quatro filhos – Nadav, Avihu, Elazar e Itamar – no sacerdócio, e pela construção do Altar de Ouro sobre o qual o ketoret (incenso) era queimado. Todas estas ordens são na verdade realizadas na porção conclusiva de Shemot, Parashat Pekudê.

A Parashat desta semana fala sobre as vestimentas usadas pelos sacerdotes, determina como e de que forma deveriam ser, dedica quarenta versículos à descrição do corte e dos materiais, a serem utilizados. Na realidade, a roupa simboliza a nobreza, a santidade, e a dedicação do hoje. Ou seja, a roupa é a essência da cultura. As tribos primitivas, que não acompanharam nem ao menos o desenvolvimento tecnológico da humanidade, são tribos que não descobriram a profunda moral da cobertura dos corpos e sua contribuição decisiva ao desenvolvimento físico e espiritual.

A regressão constatada neste século ao culto do desnudamento em suas diversas formas, em conseqüência de uma cultura materialista, expulsou do coração humano os mecanismos da vergonha e da contenção, acionando o aparelho de auto destruição tanto dos indivíduos como na sociedade.

Na concepção judaica, a roupa transforma o homem em um sacerdote no templo do mundo, aquele que carrega e traz consigo o anúncio da moral, permitindo-lhe refinar sua vida, em um estágio inicial, outorgando a estes significados que vão alem das necessidades materiais básicas. A inocência sempre simbolizou o homem sublime, que irradia luz e bondade ao seu redor.

Texto para reflexão ( Fonte Beit Chabad )

O que há por trás da “embalagem

Se um marciano hoje aterrissar no planeta Terra e vasculhar o terreno, como distinguiria os seres humanos dos animais? Como saberia com quem valeria a pena se comunicar e quais seriam os governantes do planeta? Não perceberia que os seres humanos diferem apenas devido à fala porque animais, como golfinhos e baleias, também se comunicam entre si. A única maneira do extraterrestre entender que os humanos são ímpares como raça é pelo fato de trajarem roupas. Nenhuma outra criatura viva no planeta veste e enfeita-se com adornos como o fazemos.

As roupas significam muito mais do que simplesmente apresentar o ser humano ao mundo de forma específica; elas lhe concedem dignidade. É compreensível que a primeira impressão que se tem de alguém é devido ao modo como se veste. Antes de ter a chance de emitir uma única palavra, a primeira impressão já formou-se simplesmente pela aparência.

Mas, além disso, há mais uma característica significativa que distingue a espécie humana dos animais: seres humanos ficam em pé e mantêm-se eretos, enquanto que todos animais são curvados, total ou parcialmente.

O judaísmo sustenta que a maneira pela qual nos vestimos possui relação direta com a forma de agir e o que pensamos a respeito de nós mesmos. Alguém que se veste modestamente, por exemplo, provavelmente deve comportar-se da mesma forma. Por isso o judaísmo exige que homem e mulher vistam-se com recato, para que ajam com discrição e decência.

Vestimenta na Torá

Para uma análise mais profunda sobre a importância do vestuário no judaísmo devemos nos ater à Torá. Existem somente dois momentos nos quais a Torá relata que D’us vestiu o homem ou comandou que assim o fizesse de maneira distinta. O primeiro está em Bereshit (3:21).

Existe uma roupagem particular que identifica os judeus, de acordo com a vontade Divina, que é símbolo de esplendor e glória. Assim como D’us ordenou a Moshê que elaborasse artigos de realeza para seu irmão Aharon, também Ele comandou que um judeu deveria trajar vestes especiais
Imediatamente após Adam (Adão) e Chava (Eva) terem pecado, ao comer do fruto da árvore do conhecimento, a Torá nos diz que deram-se conta de sua nudez. A partir de então precisaram de trajes. Assim, imediatamente após o Todo-Poderoso enumerar as maldições que recairiam sobre eles por terem pecado, o versículo prossegue: “E fez o Eterno D’us para o homem e para sua mulher, túnicas de pele e os vestiu.”

O outro momento é no início da porção Tetsavê. No que diz respeito às obrigações que Aharon e seus filhos tinham em relação a seu trabalho no Tabernáculo, D’us ordenou a Moshê: “Farás vestes de santidade para Aharon, teu irmão, para glória e esplendor” (Shemot 28:2).

Essas duas ocasiões diametralmente opostas e os diferentes tipos de vestimenta para cada momento nos ensinam que existem dois tipos de roupas: os associados à vergonha ou ao esplendor.

As primeiras vestes existentes no mundo foram associadas ao pecado. Adam e Chava tiveram uma vida perfeita no Jardim do Êden. Não precisavam de roupas pois, conforme Maimônides explica no Guia dos Perplexos, viam o mundo em termos objetivos. Não eram susceptíveis às más inclinações, nem se envergonhavam de seus corpos. Mas transgrediram uma proibição explícita de D’us. Já não eram mais perfeitos. Tinham algo do que se envergonhar e conscientizaram-se disso; desejavam cobrir-se para esconder sua desgraça e humilhação. O Todo-Poderoso em Sua bondade, proveu-lhes vestimentas de origem animal, indicando que agiram impulsiva e instintivamente como animais e, por isso, lhe foram fornecidas roupas de vergonha e arrependimento.

Em contraste, as roupas do Sumo-sacerdote, Aharon, assume significado totalmente oposto; eram vestimentas de realeza. Nachmânides, o célebre pensador e comentarista medieval judeu explica que D’us desejou diferenciar Aharon do povo. Por isso, Ele instituiu que ao Sumo-sacerdote deveriam ser dadas roupas exclusivas que o distinguiriam como o indivíduo mais destacado do povo de Israel e, na verdade, do mundo todo.

Nosso invólucro neste século

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Neste século, os judeus foram identificados por duas diferentes maneiras de se vestir. A primeira consistia de um item de vestuário imposto aos judeus pelos nazistas, com o propósito de identificá-los como objeto de escárnio e desprezo: uma estrela amarela com a palavra “Jude”. A estrela amarela não trouxe nada além de humilhação àqueles que eram forçados a trajá-la. Nesse sentido foi similar à primeira circunstância, quando D’us deu a Adam e Chava roupas para cobrir suas falhas e imperfeições.

No entanto, existe uma roupagem particular que identifica os judeus, de acordo com a vontade Divina, que é símbolo de esplendor e glória. Assim como D’us ordenou a Moshê que elaborasse artigos de realeza para seu irmão Aharon, também Ele comandou que um judeu deveria trajar vestes especiais as quais o identificam como tal: o talit catan ou tsitsit (vestimenta de quatro pontas com franjas pendentes em seus quatro lados) e a kipá (solidéu). Esses itens são vestidos voluntariamente e ao usá-los o judeu identifica-se publicamente com seu povo e como judeu. Além disto, o tsitsit e kipá são sinais supremos de santidade e humildade.

Em iídiche, kipá se traduz como yarmulka. Este nome simboliza que o judeu foi criado com um objetivo: é fusão de duas palavras yorê (temor) e malcá (rei em aramaico); assim aquele que os usa, coloca-se com humildade e subjugação constantes diante de seu Mestre, pronto para cumprir Sua vontade.

Tsitsit nos lembra todos os mandamentos da Torá. Os comentaristas ressaltam que o equivalente numérico das letras hebraicas que integram a palavra tsitsit é 600; existem oito fios e cinco nós em cada canto do talit, os quais totalizam 613, o número dos mandamentos Divinos contidos na Torá. Semelhantemente há 32 fios de tsitsit: a Torá se inicia com a letra bet de equivalente numérico igual a 2 e termina com um lamed, equivalente a 30. Assim, os tsitsit nos lembram de toda a Torá, do começo ao fim.

Nesse sentido, kipá e tsitsit atuam juntos: um deles nos lembra que possuímos um propósito maior; o outro nos proclama qual é.

O que há acima da kipá

Se um soldado ama seu país e sente-se honrado por defendê-lo, usará seu uniforme com orgulho. Se envergonhar-se de seu país, usará um sobretudo para esconder seu uniforme em público. Semelhantemente, se judaísmo é motivo de orgulho, a kipá será usada com orgulho. Mas se não podemos inculcar entre os jovens da atualidade um sentimento de orgulho por serem judeus, qualquer identificação judaica torna-se marca indesejável.

Defendo o judaísmo como identidade positiva e confirmatória de vida e ele pode e deve competir no mundo lá fora e no mercado de idéias. Acredito ser possível esta competição e ensino o mesmo a meus alunos. Sempre que um rabino ou líder judeu argumenta com um estudante que quando desiste da kipá, por exemplo, descartou mais de três mil anos de tradição, isso apenas demonstra um judaísmo frágil. Essa atitude não oferece argumento sólido e positivo quanto ao uso da kipá, mas se converte apenas em um apelo aos sentimentos por ter abandonado a tradição.

Na realidade, sua objeção ao uso da kipá se constitui em ser primeiramente identificado como judeu. Sem dúvida esta é uma das funções da kipá. Entretanto, é tão irracional que D’us exija que nossas primeiras lealdades sejam para com Ele e que a primeira forma de identificação seja a de que somos Seu povo? Um povo casado com a vontade Divina, a qual apresenta não somente privilégios, mas também obrigações?

Cabe a nós, como judeus, exibir ambas características diferenciais com relação ao judaísmo: assumir nossas vestimentas tradicionais judaicas por serem únicas e exclusivas, resistentes ao tempo e a todas as estações e estilismos da moda.

Como povo, podemos somente sobreviver se tivermos orgulho de nossas tradições. Este é o verdadeiro ato de vestir a roupa: sermos nós mesmos.

Desta forma jamais seremos um invólucro, mas a confirmação de nosso conteúdo.

Fontes: Beit Chabad, e Reflexões sobre a Torá de Moshe Grylak

Tenha uma semana e um sábado de muita paz e alegria !

Fernando Rizzolo

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Centenário de Olga Benário é lembrado no Brasil e Alemanha

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A passagem dos 100 anos de nascimento da alemã Olga Benário Prestes, completados na terça-feira (12), foi lembrada pelo senador Inácio Arruda (PCdoB-CE) em discurso no Plenário. De origem judia, Olga, cujo nome verdadeiro era Maria Bergner, nasceu em Munique, na Alemanha, em 1908, e passou à história como a revolucionária que se casou com o comunista brasileiro Luis Carlos Prestes e foi entregue aos nazistas por Getúlio Vargas. Ela também recebeu homenagens em Berlim, na Alemanha.

Homenagem em Berlim O senador lembrou que Olga foi designada, em 1934, para garantir a chegada segura de Prestes ao Brasil depois de um período de estágio na então União Soviética. Clandestinos, articularam no país o movimento conhecido como Intentona Comunista de 1935, que eclodiu como uma revolta armada nas cidades de Natal, Recife e Rio de Janeiro.

Os dois acabaram presos. Apesar de protestos internacionais, ela foi entregue, grávida de sete meses, à polícia alemã, tendo passado três anos em um campo de concentração antes de ser enviada para a câmara de gás, em 1942.

“Olga Benário foi um modelo inquestionável de firmeza, coragem e convicção política. Reafirmamos os seus ideais de busca por um mundo justo, fraterno e solidário”, disse o senador.

“Pedra de tropeço”

Em Berlim, Olga Benário Prestes também foi homenageada. Como ponto alto das homenagens que presta ao seu centenário, a Galeria Olga Benario de Berlim inaugurou “pedra de tropeço” em frente ao último endereço que a revolucionária ocupou na capital alemã, na calçada da Innstrasse 24, no bairro berlinense de Neukölln.

A “pedra de tropeço” foi inaugurada pela filha de Olga e Luis Carlos Prestes, a professora Anita Prestes, que nasceu em Berlim quando sua mãe estava na prisão feminina de Barnimstrasse.

“Pedras de tropeço” são pequenas placas de latão cravadas nas calçadas dos prédios onde moraram vítimas do Holocausto. Nelas, estão escritos o nome, data de nascimento, data de deportação e uma referência ao local e data de morte da vítima. A idéia partiu do artista alemão Gunter Demnig. Hoje, já existem mais de 13,5 mil marcos deste tipo espalhados por quatro países europeus.

Olga Benario nasceu em Munique, em 12 de fevereiro de 1908. No início dos anos de 1920, os arquivos policiais da República de Weimar já a classificavam como “agitadora comunista”. Juntamente com seu parceiro, o comunista Otto Braun, ela se mudou aos 17 anos para Berlim-Neukölln, onde se tornou membro da Juventude Comunista.

Olga Benario e Otto Braun ocuparam um apartamento na Innstrasse 24 em Neukölln, tradicional bairro proletário berlinense. Foi neste endereço que foram presos. Logo libertada, Olga organizou a ação espetacular que resgatou seu companheiro Otto Braun da prisão de Moabit.

Disfarçados de estudantes de Direito, Olga e outros camaradas invadiram a sala de audiências para onde Braun era levado. Subjugaram os policiais e libertaram o preso. Após a operação, Olga e Braun fugiram para Moscou, onde Olga trabalhava para o movimento trabalhista internacional.

Intentona Comunista

Com Luís Carlos Prestes, Olga Benario partiu de Moscou para o Rio de Janeiro, em 1935. Durante a viagem, os dois se apaixonaram e tornaram-se um casal, vindo a organizar a Intentona Comunista de 1935.

Após a fracassada tentativa, Olga e Prestes foram presos e, apesar de protestos internacionais, ela foi entregue, em 1936, grávida de sua filha, à Gestapo pelo governo de Getúlio Vargas.

Em setembro do mesmo ano, Olga foi enviada à Alemanha. Em 27 de novembro de 1936, nascia Anita Prestes na maternidade da prisão feminina berlinense da Barnimstrasse. No começo de 1938, Olga foi separada de sua filha e enviada para o campo de concentração feminino de Lichtenburg. Depois foi levada para o campo de concentração de Ravensbrück, onde passou três anos antes de ser enviada para a câmara de gás em Bernburg, em 1942.

Mulher internacionalista

Em 12 de fevereiro de 1984, a Associação dos Perseguidos pelo Regime Nazista/Associação dos Antifascistas fundou a Galeria Olga Benario em Berlim-Neukölln. A galeria informa que três motivos justificaram a escolha do nome de Olga: por ser mulher, por ter uma relação próxima com o bairro de Neukölln e por ser uma internacionalista.

A galeria foi inaugurada com uma exposição sobre a vida de Olga Benario, que, para além da lembrança como revolucionária comunista, vem se tornando, nos últimos anos, um exemplo de coragem feminina para muitos alemães. Talvez por isto, os temas das exposições da galeria se expandiram para solidariedade internacional, imigrantes e asilo, movimento feminista, sindicatos, entre outros.

De Brasília
Aline Pizatto e Márcia Xavier
Com agências
Site do PC do B

Rizzolo: A memória de Olga Benário deve ser respeitada e honrada. Olga lutou em sua época por justiça social e jamais se deixou levar em sua ética como militante comunista. Não importa aqui a ideologia ou questionamentos sobre o regime comunista e sua defesa, o importante na vida é ter ideais de justiça, ética, e possuir suficiente determinação para considerá-los como paradigma em todas as atitudes da vida. Olga foi um exemplo de mulher judia, teve um triste fim, nas mãos de tiranos que a julgaram pela sua ideologia e pela sua etnia. A contribuição judaica nos movimentos socialistas sempre foi maciça.

Hoje os questionamentos continuam os mesmos, se o socialismo fracassou não podemos deixar que outras soluções baseadas na premissa de justiça aos pobres sejam abandonadas, se o fizermos estaremos chancelando a humilhação do capital sobre o homem. Olga por ter ser comunista pouco foi esquecida pela comunidade judaica. Assim sendo, aqui assumo a minha pobre e humilde homenagem a ela que nunca deixou de lutar pelos humildes, os humildes do Brasil.

Bush deixa mais 9 milhões de americanos sem seguro-saúde

Durante os 7 anos de governo Bush, mais 5 milhões de pessoas foram lançadas à “pobreza severa”; o crescimento da oferta de emprego caiu em 2/3. O número de pessoas sem acesso a cuidados com a saúde aumentou de 38 milhões para 47 milhões

Compilação do “Caucus Democrático” sobre a herança maldita de W. Bush, em comparação com os EUA que ele havia recebido na posse em janeiro de 2001, revelou que seu governo reduziu à metade o “crescimento” da economia; quase dobrou a dívida nacional e o débito dos consumidores; cortou em dois-terços a criação de empregos; elevou para 47 milhões o número dos sem-seguro-saúde e para 36,5 milhões o de miseráveis; cortou a renda média por família e tornou negativa a poupança das famílias; transformou um superávit orçamentário num monumental déficit; e arrasou a reputação do país no exterior. O “Caucus” é o mais antigo organismo partidário dos EUA, atuando desde os fundadores da República e se orgulha, ainda, do papel de apoio ao presidente Roosevelt.

Vamos aos números. O crescimento real do PIB dos EUA se arrastou a uma média de 2,65% nos sete anos de W. Bush, comparado com 4,09% nos oito anos anteriores, com os democratas. No mesmo período – 20 de janeiro de 2001 até hoje – a dívida nacional dos EUA quase dobrou, de US$ 5,7 trilhões, para US$ 9,2 trilhões. Note-se que esses “2,65%” do PIB em boa parte eram espuma especulativa, na bolsa e nas hipotecas, como revelado no estouro do subprime.

A criação de novos empregos pelo setor privado, por ano, ao longo do reinado de W. Bush praticamente baixou a um terço da sob o governo democrata (oito anos de Bill Clinton). De 4.369.000 empregos por ano, desabou para 1.760.000 postos de trabalho. (Desses, a maioria recebendo salários miseráveis aos moldes da Wal Mart e McDonalds). Há ainda o superávit orçamentário legado por Clinton, que W. Bush, com suas guerras e sua isenção de impostos para magnatas, transformou em um monumental déficit. Respectivamente “US$ 431 bilhões de superávit sobre os três anos prévios” e a façanha do texano, de US$ 734 bilhões no vermelho.

SUBPRIME

A fonte da maioria dos dados são órgãos do próprio governo e, em vários casos, o Caucus inclusive é condescendente. Isto é, a realidade é ainda pior do que é apresentada. Veja-se que a compilação sequer toca, por exemplo, na crise do subprime, que já se transformou numa crise dos bancos, corretoras e seguradoras, e onde as perdas, de acordo com o “Wall Street Journal”, já ultrapassaram os US$ 100 bilhões. Também não toca no número de americanos que perderam suas casas por causa do subprime. Mas o que mostra é mais do que suficiente.

Ela apresenta, ainda, quanto custou ao povo norte-americano o desastre conduzido por W. Bush, pelo cartel do petróleo e das armas, e por Wall Street. O número de americanos na pobreza aumentou de 31,6 milhões para 36,5 milhões – mais de 15%. Note-se que o país mais rico do mundo, e com a mais perdulária elite já vista, ter 31 milhões de pobres em 2001 já era um escândalo. Mas W. Bush, que costuma conversar com Deus no seu rancho quando não está tirando uma prosa com as suas vacas, logrou aumentar esse número em mais de 5 milhões.

SAÚDE

Ainda no item “qualidade de vida”, o Caucus assinalou que o número de americanos sem seguro saúde, num país onde a saúde é privatizada e caríssima, disparou de 38 milhões antes de 2001 (Clinton), para 47 milhões. Note-se que sob Clinton, que inclusive tentou implantar um sistema menos selvagem sem sucesso, mais 4,5 milhões de pessoas haviam conseguido o seguro saúde, enquanto mais de 8,5 milhões o perderam, sob W.Bush. Outro dado que impressiona é a elevação do custo do seguro saúde “premium” para uma família: quase 100% de aumento, contra uma inflação reconhecidamente pequena nesse período. Segundo os números do Caucus, respectivamente US$ 12.106 por ano (com Bush) e US$ 6.230 antes.

A renda média de uma família também encolheu sob W. Bush. Nos oito anos anteriores à fraude da Flórida, essa renda, de acordo com essa fonte, aumentou US$ 6.000, para US$ 49.163. Com Bush, diminuiu US$ 1.100, baixando para US$ 48.023 (Há estudos situando essa perda em US$ 2.000). Essa renda, apesar de toda a demagogia do texano sobre os cortes nos impostos, foi seguidamente abalroada, ainda, pela triplicação do preço do galão de gasolina, de US$ 1,39 para US$ 3,07 – o que não teria ocorrido sem a invasão do Iraque (a OPEP pleiteava um aumento para um patamar que é hoje um terço do preço das Sete Irmãs de 100 dólares o barril). Também pesou o aumento no ensino superior privatizado, que custa os olhos da cara – de US$ 3164 por ano, para US$ 5192.

POUPANÇA NEGATIVA

Assim, destaca a compilação, a taxa de poupança pessoal despencou de 2,3% positivos para menos 0,50%. O que expressa a situação das famílias tentarem mitigar o arrocho salarial em vigor, apelando para o endividamento forçado, o cartão de crédito e inclusive a hipoteca da casa.

Dessa forma, e com aquela desinteressada mãozinha de Allan Greenspan em prol dos 500 bancos com água pelo nariz em 2001, a dívida dos consumidores explodiu de US$ 7,6 trilhões, para US$ 12,8 trilhões.

Ao mesmo tempo, e refletindo tanto os desajustes estruturais da economia americana, vergada pelos monopólios, e sua perda de competitividade, enquanto não parava de bater recordes de fachada de “aumento na produtividade”, o déficit anual dos EUA no comércio exterior dobrou, de US$ 380 bilhões para US$ 759 bilhões. Por sua vez, a “força do dólar” dos EUA – como apresenta o artigo – caiu de 1,07 euros por dólar (2001), para US$ 0,68 euros por dólar. (Registre-se que nem assim as exportações dos EUA viraram o jogo). Quanto à dependência dos EUA de petróleo proveniente do estrangeiro, aumentou de “52,75% para 60,38%”.

DESASTRE

A compilação também registra o desastre à imagem do país no exterior, sob a política terrorista e as guerras de W. Bush. Ela cita que, no geral de uma pesquisa de “como a América é vista no exterior”, realizada pela PEW em dez nações, o “favoravelmente” caiu de 58,3% para 39,2%. Cá para nós, deram uma retocada para chegar nesses “39%”, para não desanimar o time da casa. Por exemplo, na Alemanha, o “favoravelmente” tinha 78% – depois de Bush foi cortado para a metade; Na Inglaterra, de “83%” pró, um tombo para 56%. Na Turquia é, atualmente, de 12%; ligeiramente melhor na Indonésia – 30%. Abu Graib, Guantánamo e tortura se tornaram a imagem mais fidedigna dos EUA aos olhos dos demais povos.

O Caucus não deixa de notar que a “prontidão de combate” – total em todas as unidades antes de W. Bush – agora virou “nem uma só brigada na ativa ou da reserva considerada ‘plenamente pronta para combate’”. Com sua costumeira modéstia, a Resistência iraquiana compreende as razões do Caucus para não conceder os devidos créditos.

Os dados da compilação podem ser confirmados em órgãos federais e estaduais dos EUA, como o Bureau de Análise Econômica, o Departamento do Tesouro, o Bureau de Estatísticas sobre o Trabalho e o Bureau de Censo dos EUA. Também o Escritório de Coordenação do Ensino Superior do Estado de Washington, Pew Research Center e o Centro Kaiser de Estudos sobre Seguro Saúde.

ANTONIO PIMENTA
Hora do Povo

Rizzolo: A resposta aos republicanos com certeza vai ser dada nas urnas, com a vitória dos democratas. O problema de saúde nos EUA é extremamente sério. Hoje existem 47 milhões de pessoas sem seguro-saúde, situação que inspirou o documentário de Michel Moore sobre essa questão. A idéia de que o mercado por si só é auto regulador, é uma tolice e leva os países, como já levou os EUA a problemas sociais e econômicos. Entender que uma nação poderosa como os EUA não tinham o menor controle sobre as subprimes nos leva a refletir o quanto vulnerável é o sistema puramente capitalista.

O Estado deve ter sua participação na medida contida sem excessos, contudo, a coluna vertebral dos investimentos, os direcionamentos econômicos, devem partir do Pode Público. Negar isso, é chancelar a anarquia, a fome, o desespero, a injustiça. Em parte o que está ocorrendo nos EUA tem caráter didático para que os neoliberais de plantão se contenham e reconheçam os erros. A participação da iniciativa privada deve ser livre, mas o direcionamento dos investimentos devem ser coordenados a partir de uma política pública onde a presença do Estado se faz necessária, senão vira isso que estamos presenciando nos EUA.

Ciro Gomes mostra uma esquerda a serviço dos poderosos

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Em resposta ao bate boca que Ciro Gomes manteve com a atriz Letícia Sabatella, transcevo um artigo meu publicado na Caritás Brasileira da CNBB, pela postura de Ciro, pode-se inferir o pouco comprometimento da esquerda com o pobre povo brasileiro, e a forma autoritária e desbocada ao se dirigir a uma mulher como Letícia, imagine quando estiver num palanque em 2010. Essa “esquerda” é de matar, viu !

Os pobres do semi-árido, perto de Deus e esquecidos por Lula

A transposição do Rio São Francisco de longe passou a ser uma questão que visa a população pobre ribeirinha e sertaneja, desde setembro, a ASA Brasil, não produz mais uma cisterna no Semi – Árido brasileiro. O Programa ” Um milhão de Cisterna ” (PIMC) foi interrompido por falta de repasse de recursos do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, o MDS, pressionado, por setores conservadores. Mas a questão central, é muito mais problemática, envolve a postura do governo Lula, servil aos poderosos, paliativa aos pobres, resignada e passiva aos interesses das empreiteiras, privatizando e concentrando nas mãos dos poucos de sempre as águas do Nordeste, dos grandes açudes, somadas às do rio São Francisco.

Não há como resolver o problema da água, se não priorizarmos a população pobre, e as cisternas, representa o caminho. Como afirma D. Demétrio Valentini, bispo de Jales e presidente da Cáritas brasileira, ” as cisternas não recolhem sós água, elas suscitam cidadania, elas acionam a participação. elas despertam capacidades, elas transformam as pessoas, elas motivam para a solidariedade, elas apostam no desenvolvimento do Semi-Árido”. Isso, é claro, não interessa aos donos das grandes monoculturas irrigadas, devoradoras de água, produtoras de frutas para exportação e de cana para fabricar etanol. É a eles e a alguns grupos industriais que a transposição se destina. Ao sertanejo, cada vez mais, oferecem a opção de se tornar bóia-fria.

O mais interessante da obra, é que a transposição não tem nada a ver com a seca. Tanto que os canais do eixo norte, por onde correriam 71% dos volumes transpostos, passariam longe dos sertões menos chuvosos e das áreas de mais elevado risco hídrico. E 87% dessas águas seriam para atividades econômicas altamente consumidoras de água, como a fruticultura irrigada, a criação de camarão e a siderurgia, voltadas para a exportação e com seríssimos impactos ambientais e sociais.

O mesmo tempo em que o governo se recusar a debater o assunto, a não ouvir os movimentos, a ignorar membros da Igreja Católica, e não negociar, afirma categoricamente aos empresários, e aos que golpearam a prorrogação da CPMF, que não os incomodará, aceitando passivamente, o rombo da CPMF, fazendo uso dos mecanismos de subordinação, propondo a não implementação de novos meios arrecadatórios, sinalizando que cumprirá à risca a receita neoliberal de ” cortar gastos “, enxugando o Estado, que já é mínimo, e ainda, para afagá-los de forma mais doce, promete uma reforma tributária “na forma e modelo que os golpistas determinam”. Essa atitute ao preterir os humildes, e não dialogar, conspurga os ideais pelos quais Lula fora eleito com 58 milhões de votos.

Para finalizar, há 14 ações que comprovam ilegalidades e irregularidades ainda não julgadas pelo Supremo Tribunal Federal. Mas o governo colocou o Exército para as obras iniciais, abusando do papel das Forças Armadas, militarizando a região. A decisão do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região, de Brasília, em 10/12 deste ano, obrigando a suspensão das obras, é mais uma evidência disso. Mas parece que desta feita, com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de manter a transposição do rio São Francisco, o Judiciário também virou as costas aos humildes. E os pobres, esses cada vez mais esquecidos por Lula, tendo como seus anjos, cristãos abenegados como o bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio; ontem o governo sinalizou com a possibilidade de uma paralisação dos trabalhos por dois meses e a realização de debates públicos. É sempre bom lembrar o que consta no Livro de Jonas [Antigo Testamento],” Deus se arrepende e muda de opinião por causa do jejum do povo”. O jejum mexe com Deus.

Fernando Rizzolo