Os Perigos do Neopopulismo

O historiador mexicano Enrique Krause escreveu recentemente (2006: Os dez mandamentos do populismo) que o populismo ao contrário do que se imaginava continua sendo uma variante política da atualidade, sobretudo na América Latina. Ele mostrou como está surgindo o fenômeno da emergência de um populismo latino-americano pós-moderno que poderia também ser chamado de neopopulismo que se diferencia das formas tradicionais, mais conhecidas, que se caracterizavam por uma irresponsabilidade macroeconômica.

Líder carismático, demagogia e palanquismo, dificuldade de aceitar a crítica e a opinião do outro, esbanjamento de recursos públicos (sobretudo para financiar gastos crescentes do Estado com pessoal, quer dizer, com aparelhamento), assistencialismo, incentivo à divisão da sociedade na base dos pobres contra os ricos (ou do povo contra as elites), mobilização das massas, criação de inimigos, desprezo pela ordem legal e desvirtuamento das instituições todos esses ingredientes, quando combinados, compõem a fórmula do novo populismo. (E um regime pode ser autoritário, como nos mostrou o ditador Salazar, em Portugal, sem ser irresponsável do ponto de vista econômico; ou seja, a estabilidade monetária pode ser usada como exemplo de bom-comportamento enquanto se suprime, restringe ou polui o ambiente democrático).

A pesquisa Confederação Nacional da Indústria (CNI)/Ibope conferindo recorde de popularidade ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva atesta que o governo tem a aprovação esmagadora do povo brasileiro. Mas a grande indagação consiste numa reflexão no âmbito da democracia e seus conceitos básicos. Até que ponto uma popularidade excessiva contribui para uma saudável democracia? Observa-se numa análise perfunctória, que o presidente Lula se exalta com as pesquisas, e que como natural seja, se consubstancia do poder e da legitimidade popular que possui, para que em questões controversas, impor seus desideratos. Um caso típico são os das Medidas Provisórias, existem outros, é claro, mas a análise da questão popularidade versus democracia, nos leva a pensar se realmente todos os fatores legitimados em uma pesquisa são efetivamente reais e não frutos de um marketing pessoal, e um momento econômico, e em especial a observação, da real sustentação da transmissibilidade política a um pretenso sucessor seu.

A política desenvolvimentista atrelada a financeirização da economia, por certo período que tem seu expoente na boa condição do mercado internacional, tem propiciado ao Brasil um ótimo desempenho econômico. Alem disso, os efeitos distributivos através do programas de transferência de renda como o Bolsa-Família, tem feito surgir uma nova classe média, a morena, que estuda à noite, ávida a atingir o patamar que outrora era delimitado a outro tipo de classe média burguesa, oriunda ainda de um Brasil escravagista. O componente pessoal de Lula, operário que fala o dialeto do povo sem passar pela mídia tradicional, o transformou num ícone popular. Essa popularidade exacerbada, delega na sua essência poderes de cunho irreverenciais democráticos, ao se dirigir ao presidente Bush, de ” meu filho” ou quando compara Bolsa-Família com milagre da multiplicação dos pães numa analogia a Jesus.

A verdade é que Lula para o povo brasileiro no momento, é a expressão de uma vida melhor, mais dinheiro no bolso do trabalhador, e mais emprego. Os perigos que alta popularidade poderão levar, devem ser aparados por uma oposição coerente e firme, afinal para um País que sempre adotou a receita dos EUA e passou a maior parte de seu tempo como devedor, chegou a hora de se libertar pelo menos em força de expressão na voz de um operário brasileiro. Não é “Bush meu filho, vai e resolve tua crise ! ”

Fernando Rizzolo

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