Delfim: falso risco inflacionário expõe ligação BC/“mercado”

O Brasil assiste a um “espetáculo de intrigas” dos agentes financeiros para sustentar a ata do Copom que sinalizou aumento de juros

“Com uma eficiente e mal disfarçada ação de marketing orquestrada, os agentes financeiros conseguiram transformar o problema da taxa de juros num cabo-de-guerra”, afirma o economista, ex-ministro da Fazenda e ex-deputado Delfim Netto, que, em dois artigos publicados na terça-feira, dia 8, no “Valor Econômico” e na quarta-feira, dia 9, na “Folha de S. Paulo”, expôs a tentativa de dar “suporte do ‘mercado’ ao ridículo ‘terrorismo’ da última ata do Copom” – que sinalizou com a elevação das taxas de juros em sua próxima reunião.

“A imbricação e cumplicidade entre o ‘diz-que-me-diz’ das autoridades e os ‘desejos’ dos agentes está estampada no Boletim Focus de 28 de março”, aponta Delfim. “O Banco Central, através de dura mensagem (estimulado pela ‘ciência’ do ‘mercado’), declarou o óbvio: está pronto para atuar de forma ‘preventiva’ para evitar a deterioração das expectativas inflacionárias. Não esclareceu nada. Apenas confundiu. Primeiro, porque seria espantoso se não estivesse pronto, se e quando, se verificasse a deterioração e, segundo, porque ignorou o seu próprio e importante papel na formação e na deterioração das expectativas”.

INTRIGAS

“Na última semana, o Brasil assistiu a um espetáculo de intrigas nos meios de comunicação para ‘afirmar’ a autonomia do Banco Central diante do ‘jurássico’ Ministério da Fazenda. Como? Iniciando já um movimento de elevação da taxa de juros. O ‘merchandising’ financeiro conseguiu quase unanimidade na direção do movimento. Para evitar eventual processo de formação de cartel, os agentes ‘fixaram’ taxas de juros diferenciadas para a Selic em dezembro: de acordo com a ‘qualidade’ da pseudociência, elas variaram de um modesto 12,5% até um fantástico 13,75%!”.
“A coisa tem um ar estranho. Ouvindo a autoridade monetária e lendo as análises do sistema financeiro, alguém que ontem tivesse chegado de Marte concluiria que o Brasil está sob grave ameaça de voltar a uma superinflação, que deve ser ‘preventivamente’ combatida por ‘superjuros’”.

Delfim observa que o Relatório de Inflação (do próprio BC), “é mais tranqüilizador. No seu cenário básico (crescimento de 4,8%, taxa Selic de 11,25% e taxa de câmbio de R$ 1,70)”, a projeção central é de 4,6% de inflação para 2008. “E, para o final de 2009, a projeção central é da ordem de 4,4%. O IPCA acumulado de 12 meses, até fevereiro, foi de 4,6%, fortemente influenciado pelo comportamento dos preços da carne, do leite e do feijão, o que tem pouco a ver com ‘excesso de demanda’. De fato, sem esses três produtos, o IPCA de 12 meses é de 3,4%”.

“Trata-se de saber se há evidência empírica convincente para a ameaça de uma ‘ação preventiva’, que pode ter conseqüências graves sobre o ‘espírito animal’ dos empresários. É este que está estimulando a volta dos investimentos, do crescimento do PIB e do emprego”.

“Pelo menos até agora não parece haver. Os quatro argumentos que tentam justificar a ameaça de aumento da taxa de inflação são duvidosos. O primeiro é que já somos um caso clássico de ‘excesso de demanda’, mas usa para demonstrá-la a ótica de uma suspeita macroeconomia de livro-texto; o segundo afirma que os salários reais estão crescendo mais do que a produtividade da mão-de-obra, o que é falso e, além do mais, ignora os avanços comportamentais do mercado de trabalho; o terceiro é que sem o nível de investimento X é impossível sustentar o crescimento Y, o que ignora a enorme instabilidade dessa relação e, o quarto, é a redescoberta arqueológica da Nairu: o nível de desemprego já estaria no nível abaixo do qual a inflação se acelerará…”.

Delfim considera que “a preocupação com o aumento dos preços dos serviços é justificada. Eles refletem as conseqüências de um aumento da demanda produzido pela modificação na distribuição de renda, ainda não acompanhada pela oferta. E como se ajustaria a oferta senão por um aumento de preços relativos? O importante é que eles não têm a capacidade para reproduzirem-se como um processo inflacionário. Os salários reais na economia estão crescendo menos do que a produtividade (o que explica o aumento dos lucros)”.

“Não parece portanto razoável iniciar um aumento da Selic que terá graves conseqüências sobre o custo da dívida pública (o mercado já ajustou o juro) apenas para ‘provar’ a autonomia do Copom”, considera Delfim Netto. “O Banco Central é hoje prisioneiro de sua própria armadilha. O que se espera dele é objetividade e moderação. Nunca ‘antes neste país’ foi tão importante obedecer à lei de Brainard: ‘Quando não tiver certeza sobre o que vai fazer, faça devagar’”.
Hora do Povo

Rizzolo: A verdade é que os altos lucros obtidos pelos especuladores falam mais alto do que qualquer argumentação interna. Temos que focar no desenvolvimento e não na inflação, que por hora não apresenta perigo. Fico a imaginar, já pensaram se os bancos que estão sendo socorridos pelo Fed (e outros especuladores malandros) resolverem pegar dinheiro emprestado lá e comprar títulos da dívida pública brasileira a juros de 11,50? Eles vão ganhar três vezes: quando pegarem emprestado lá; quando investirem no Brasil; e quando resgatarem o que devem lá!!! Quanto ao desenvolvimento do Brasil, não há problema. Pode-se esperar até que os banqueiros se refaçam do prejuízo das hipotecas imobiliárias.

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