A janela do quarto e a mulher que orava

Olhava fixamente pela janela, era um olhar distante e pensativo, lá fora o asfalto úmido e frio, dava a impressão que aquele quarto de um antigo hotel em Nova Iorque me convidava para permanecer por lá mais tempo, e tomar um outro café. Afinal de contas, nem sequer tinha naquele dia, e até aquela hora, feita minha reza da manhã. Por aquela janela antiga e de tamanho descomunal com as modernas, fixei meus olhar na rua vendo o movimento dos carros e procurava entender: Aonde estava Deus naquela manhã que eu não o encontrava?

Por mais que eu me concentrasse não conseguia conectar-me
Com Deus. Tentava, mas as idéias me roubavam a concentração. Cheguei a temer por certo momento, que Ele havia decidido definitivamente se ocultar de mim, e que aquele dia era o início de uma percepção de que o Grande Arquiteto do Universo tivesse enfim virado suas costas a mim.

Resolvi então, cumprir meu ritual daquela manhã de forma simples, apenas pronunciando as palavras, afinal tinha ainda naquele dia, muitos compromissos em Manhattan e no Brooklyn, aquele bairro judaico que todos conhecem. Já por volta do meio-dia, resolvi como sempre, ir a um restaurante vegetariano, muito embora sabia que alimentação vegetariana num bairro judaico, um reduto casher, encontraria eu certa dificuldade. Imaginei talvez que poderia descobrir algo judaico e vegetariano, mas a tentativa de algo que conciliasse as duas cozinhas, foi em vão.

Foi quando então um chinês de estatura menor do que um chinês comum, de forma gentil me apontou para um restaurante ao lado de uma igreja presbiteriana que destoava daquele mundo judaico do bairro. O clima aconchegante cheirava a incenso com uma mistura a odores de ervas exóticas, tudo envolvido num clima indiano. A proprietária, uma americana que morou muitos anos na Índia, era uma vegetariana inveterada, algo comum em Nova Iorque.

Mais que depressa procurei um lugar ao canto, pedi meu prato e comecei a observar as pessoas que ali freqüentavam. Ao meu lado sentou uma mulher de origem irlandesa, olhou o cardápio e pediu seu prato. Seu rosto era claro e sua estatura alta, seus olhos castanhos tinham algo de ingenuidade, uma ingenuidade irlandesa dessas do campo, daquelas trabalhadoras filha de pastores. Ao chegar seu prato, postou-se de uma forma rígida à mesa, e com as mãos fechadas levadas entre os olhos, começou a orar sobre seu prato. Acompanhei aquele gesto de forma discreta, e constatei que após a oração, sentia ela ao iniciar a sua refeição, certa satisfação para com Deus.

Naquele instante já tinha terminado meu almoço. Levantei-me pensativo, tomei um táxi, e no trajeto a outro compromisso comecei a me questionar: Quantas formas existem de se chegar a Deus? Provavelmente aquela mulher que orava naquele instante, nem sequer havia procurado por Deus pela manhã, como eu havia feito em vão, mas o encontrava ao olhar os alimentos, de uma forma simples, assim como os judeus ortodoxos o fazem com as “brachot” (bênçãos). Mas não seria muito? Pensei com um ar de quem já procurava Deus em “horários nobres”, e estava liberado. Para que precisava eu, além de rezar pela manhã, lembrar Dele também nas refeições?

Foi quando senti algo dentro de mim maior que meus questionamentos. A imagem da mulher que orava havia se fixado muito na minha mente, seu gesto hábil, firme, em se colocar para a oração diante dos alimentos me impressionou. Havia sentido que Deus estava com ela de forma iluminada naquela oração, e isso era claro até pela respiração dela ao finalizar a prece. Ela havia se conectado daquela forma e do seu jeito, e eu pela manhã não havia conseguido pela forma convencional, que entendia ser a única.

Ao voltar ao Hotel, já anoite comecei a ler os livros judaicos sobre as bênçãos aos alimentos e descobri que ao orarmos antes de ingerirmos os alimentos, os energizamos e o alimento passa a ser um alimento também para a alma. Naquela mesma noite exercitei o novo ato sagrado; desci até o restaurante do Hotel, e pedi um sanduíche, ao chegar, olhei para meu alimento de uma forma diferente, a agradecer a Deus por aquele momento a enxerga-lo como algo criado por Ele, energizando-o de alguma forma, tornando-o um alimento também para a alma. Foi quando então senti Deus ao meu lado, ele reapareceu para mim de uma forma diferente, numa relação entre a matéria alimento e a oração, o link foi o alimento, uma matéria criada por Ele e lembrado por mim por sua criação.

Do outro lado do salão do Hotel, havia um cego com cão guia labrador, que olhou para mim como se rindo estivesse. Cheguei ao cego e perguntei o nome daquele lindo cachorro, e sorrindo me disse: Kalev.

– Kalev ? – exclamei !

– Sim Kalev – disse ele.

– O senhor sabe o que Kalev em hebraico? – me perguntou ele.

– Sim, respondi, Kalev é a palavra cão em hebraico, e significa “perto do coração”.

O cego com um sorriso complementou.

– O Kalev me acompanha em tudo que faço, quando rezo sinto ele pensar em Deus também, e isso me ajuda. – disse ele, alisando seu o cão companheiro que lambia suas mãos.

Olhei para baixo, balancei a cabeça, dei um leve sorriso, e subi. Cheguei frente à janela do quarto, olhei para a rua e pensei: Muitas são as formas de encontrar Deus, e muitas são as formas dele conversar conosco. Pode ser através da oração, de um quarto de hotel, num restaurante, num alimento, ou num simples olhar de um cão chamado kelev.(aquele que está sempre perto do coração)

texto de Fernando Rizzolo

Tenha um sábado feliz e uma semana de paz !

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