Ao lado do velho córrego, ele chorava como uma criança

Ainda me lembro bem daquele sábado, era uma tarde quente, e eu como que tivesse uma alegria estranha, com uma corda na mão, tentava laçar meu cavalo para caminhar pelas estradas de Potuverá, um bairro rural de Itapecerica da Serra, interior, hoje, periferia de São Paulo. Aquilo para mim naquela época, em 1973, era uma aventura. Eu estudava Direito em São Paulo, e quando chegava sexta-feira, sentia o cheiro do mato das florestas, dos riachos, do trilho de trem que rasgava Aldeinha passando por trás da nossa Fazenda. Mas naquela tarde, algo de estranho ocorreu; percebi que meu cavalo – sempre me avistava costumava correr em minha direção- Numa peleja dura e com muito custo, cheguei a laça-lo, e enfim, segurando -o firme como quem contava com um amigo, coloquei a sela e fui em direção ao centro da cidade pela antiga BR116, hoje, a Régis Bittencourt.

O caminho era sempre o mesmo, virava no ” Bar do vovô” e seguia a velha estrada até a cidade. Galopava com um vento no rosto, naquela estrada de terra dura, num cavalo que “socava” chamado ” amargoso”- mistura de amargo com “bardoso’. Foi quando observei num vilarejo uma voz de choro, um choro triste que chegava a doer na alma. Puxei a rédea, parei, observei e vi uma casa muito pobre, com umas galinhas ciscando, e ao lado da casa um córrego, com uma água verde que cheirava mal.

Mas o choro, o choro mesmo, vinha de trás da casa. Resolvi então descer e caminhar até lá. Logo que me aproximei da casa, uma velhinha com uns olhos azúis marejados me olhou com um olhar assustado, como quem precisava de ajuda. Perguntei: ” A senhora mora aí ?” “Moro, sim senhor “, respondeu meio encabulada.” Está tudo bem? Ouvi alguém chorando… “. Logo que ela percebeu que eu já tinha ouvido o choro me disse: ” Sabe que é, senhor, o irmãozinho dele morreu hoje pela manhã. Ele era muito apegado ao irmão, de tanto brincarem juntos no córrego, o irmãozinho ficou doente e morreu; quem disse foi o médico lá do Hospital. Olha senhor, ele não pára de chorar, está chorando o dia inteiro, ali atrás, perto da curva do córrego”.

Com o coração totalmente partido, caminhei em direção à curva do córrego e vi então uma cena muito triste: um rapaz agachado, encolhidinho, soluçando como uma criança. Tentei consolá-lo, mas era difícil, a perda do irmão doía no seu peito como uma faca rasgando seu tórax, perguntei “O que houve? ”
– Meu irmãozinho de seis anos morreu, ele dependia de mim, minha mãe morreu, meu pai sumiu, e nós vivíamos aqui com a minha avó. Sempre aos sábados brincávamos jogando bola ou empinando pipa ao lado desse córrego, mas não sabia que estava contaminado; o doutor disse que a infecção ele pegou aqui ”

Naquele momento, olhei para ele e percebi o que a miséria e as desventuras da vida fazem com as pessoas. Já naquele tempo não se investia em saneamento básico, e não se investia como ainda hoje não se investe, porque saneamento básico é obra que não aparece, não dá votos. E mais, hoje como antigamente, as pessoas continuam morrendo de infecções vindas da rua, dos córregos, dos riachos, pela negligência dos políticos que são bons, em época de eleição tocar ” aquelas musiquinhas irritantes “, com aqueles carros de som imundos. São os que eu chamo de velhos “políticos profissionais”, “espertos”, dotados daqueles “olhinhos” que não perdem um lance de oportunidade sequer, que prometem tudo; mas quando eleitos, fazem afinal o jogo dos prefeitos, que por sinal, detestam investir em saneamento básico, saúde pública e lixões.

Fiquei muito abalado com aquela cena, que até hoje a tenho na memória. O choro, o desespero a miséria, ainda estão vivos em mim, quando passo por lá, sempre lembro do garotinho que se foi, e o soluço de tristeza de seu irmão, que hoje é um conhecido comerciante no Embu. Há dois anos, o encontrei num supermercado, ele se lembrou de mim, do cavalo, dos momentos em que eu tentei consolá-lo. Disse a ele brincando que um dia ainda seria prefeito de Itapecerica da Serra. Ele olhou para mim, deu um sorriso, depois olhou para o chão e disse: ” Doutor, se um dia o senhor for prefeito, acabe com aquele riacho maldito, que ele ainda está infectado, matando as crianças e rindo de mim. Sempre que posso, ainda sento ao lado dele derramo minhas lágrimas, choro de saudade do meu irmãozinho; infelizmente ele se foi e não volta jamais “. Naquele momento senti que a alma daquela criança migrara para aquelas esferas em que todas as almas santas e injustiçadas se encontram. Não consigo imaginar o Eden sem aquele menino, inocente e vítima do descaso.

Fernando Rizzolo

Dedico este texto a todas às crianças da periferia de São Paulo que morrem ou morreram nas últimas décadas, face à falta de saneamento básico e abandono pelo Poder Público.

Uma resposta to “Ao lado do velho córrego, ele chorava como uma criança”

  1. Ana Maria Pacheco e Silva Says:

    A historia e verdadeiramente triste! Um drama cotidiano no nosso pais; como os sucessivos governantes deixaram acontecer isto? O Rio Tiete (S. Paulo), dentre outros. A cidade do Rio de Janeiro, as praias, um descaso. Eu moro no Canada, e vejo o cuidado com os corregos, toda a ‘agua e’ tratada, tratam a natureza como um santuario! Espero que vc. seja eleito e possa fazer algo pelo nosso pais. Divulgarei seu nome, boa sorte!!!


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