Uma questão de pernas curtas – Coluna Carlos Brickmann

Coluna de quarta-feira, 19 de agosto

Dilma negou três vezes. Por mais de três vezes Lina confirmou. A doutora Dilma é a dona das provas: dela depende mostrar – ou não – as imagens captadas pelas câmeras na garagem do Palácio, que confirmarão, ou não, que Lina esteve lá; dela depende a divulgação das agendas do Palácio, que mostrarão, nos dias em que Lina esteve lá (se esteve), os compromissos que cumpriu. Se Lina só apareceu no Palácio em datas em que tinha outros compromissos, estará mentindo. Mas Dilma, mestra na vida palaciana, sabe que, se em determinada data houve a presença de Lina sem outros compromissos confirmados, a visitada era ela.

Qual a importância de saber quem tem razão? Apenas saber se um candidato ao maior cargo da Nação é dado ao vício da mentira. Bill Clinton não esteve em risco por seu caso com Monica Lewinsky, mas por tê-lo negado e ser desmentido. Richard Nixon não caiu pela invasão do QG do partido adversário, no Edifício Watergate: caiu por negar sua responsabilidade e ser desmentido.

Dilma já escorregou algumas vezes. No caso VarigLog, negou ter conversado com Roberto Teixeira, o primeiro-compadre do presidente Lula, e acabou sendo forçada a desmentir-se. Precisou renegar seu próprio currículo, que a titulava de Mestra e Doutoranda (na verdade, não era mestra nem doutoranda), e garantiu que nunca o tinha lido. Negou ter mandado fazer um dossiê sobre a falecida primeira-dama Ruth Cardoso, e depois se desmentiu, mas mudando o nome do dossiê para “banco de dados”. Que nome será dado ao encontro com Lina Vieira?

Mudando de conversa

Um indício interessantíssimo ajuda a mostrar quem está falando a verdade e quem procura ocultá-la. Veja esta nota publicada ontem pelo Globo online:

Assessoria do Ministério da Fazenda nega o que disse – A assessoria de Imprensa do Ministério da Fazenda informou na segunda-feira ao jornal O Globo que a secretária-executiva da Casa Civil Erenice Guerra visitou várias vezes o prédio da pasta no final do ano passado. A informação foi repassada ao jornal pela integrante da assessoria Carmem Luiza Cunha. Hoje, a mesma assessoria de imprensa divulgou nota para negar o que foi informado no dia anterior ao jornal.

Leia a íntegra da nota:

“O Ministério da Fazenda informa que é inverídica a afirmação contida na matéria, publicada hoje no jornal O Globo, de que o ‘Ministério da Fazenda confirmou que a Secretária-Executiva da Casa Civil da Presidência da República, Erenice Guerra, esteve várias vezes no prédio em novembro e dezembro do ano passado’.”

A pesquisa…

A pesquisa DataFolha sobre eleições presidenciais pode ajudar determinados políticos a manter candidaturas, ou a rever suas posições; pode influenciar outros políticos na definição de seus rumos; pode sinalizar muita coisa aos doadores de campanha. Mas uma pesquisa a mais de um ano da eleição não tem qualquer importância para definir quem está ou não na frente. Faltam muitas definições, falta clima, sobra tempo. E se aparece uma nova Marina, mas com chances?

…e o que revela

Pesquisa é útil para quem analisa o jogo político. No caso, mostra mais uma vez que escândalos não mudam intenções de voto, nem índices de popularidade. A pesquisa indica, por exemplo, que a maior parte dos eleitores gostaria de ver Sarney fora da Presidência do Senado. Sarney está impopular. Mas o presidente Lula, que se expôs em sua defesa, continua onde estava: perdeu dois pontos de aprovação, o que é pouquíssimo, dentro da margem de erro, e não abala sua invejável posição política. Se uma das maiores campanhas dos últimos anos, como a que se move contra Sarney, não mexe no índice de seus apoiadores, fica claro que insistir em escândalos não é uma boa estratégia para a oposição. Escândalo ou destrói o alvo, e rápido – como o de 1954, que levou o presidente Vargas ao suicídio, ou o que depôs Collor – ou não serve sequer para abalar sua aprovação.

O caminho pedregoso

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, ainda não perdeu as esperanças: quer porque quer candidatar-se ao Governo paulista. Houve época em que flertou com o PT, depois ficou ao lado do PSDB de seu amigo Alckmin, mas não foi acolhido por nenhum dos dois. Agora, diz O Globo, pensa no PMDB, onde entraria pelas mãos do deputado Michel Temer. Só que quem manda no PMDB paulista é o ex-governador Orestes Quércia. E Quércia deve apoiar o candidato do PSDB.

O canhão de Erenice

Erenice Guerra, primeiro-escudo da ministra Dilma Rousseff, perdeu a batalha para o Tribunal de Contas da União: deve ir para lá o ministro das Relações Institucionais, José Múcio. Erenice luta agora pelo Superior Tribunal Militar, na vaga do ministro Flávio Bierrenbach, que se aposenta por atingir 70 anos, o limite de idade. Erenice é advogada, petista há quase 30 anos (mais antiga no partido que Dilma), e tem tudo para entrar na área militar. A segurança do presidente da República, o escudo de Lula, está a cargo dos Dragões da Independência.

Carlos Brickmann é Jornalista, consultor de comunicação. Foi colunista, editor-chefe e editor responsável da Folha da Tarde; diretor de telejornalismo da Rede Bandeirantes (prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte, APCA, em 78 e 79, pelo Jornal da Bandeirantes e pelo programa de entrevistas Encontro com a Imprensa); repórter especial, editor de Economia, editor de Internacional da Folha de S.Paulo; secretário de Redação e editor da Revista Visão; repórter especial, editor de Internacional, de Política e de Nacional do Jornal da Tarde.

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