As águas que fecham o ano – Coluna Carlos Brickmann

Coluna de domingo, 13 de dezembro

São Paulo tem enchentes todos os anos – enchentes pluripartidárias, com prefeito do PT, com prefeito do PP, com prefeitos do PSDB e do DEM. São Paulo não pode escapar das enchentes: a cidade só tem uma saída de água, ali onde o rio Pinheiros desemboca no Tietê, debaixo do Cebolão, um complexo de viadutos. São Paulo não deveria ter enchentes: bastaria seguir a lição dos portugueses que fundaram a cidade, que deixaram livres as várzeas e não mexeram nos rios.

Há muito que pode ser feito, e não é: jogar lixo nas ruas e nos rios é suicídio. Há alguns anos, este colunista assistiu à dragagem do rio Tietê e viu pilhas e pilhas de dois metros de altura de pneus usados; viu sofás, geladeiras, até carros depenados. E não há no mundo quem tenha orçamento para limpar os rios todos os anos. Jogar latas e garrafas de plástico nas ruas, para entupir os bueiros, é terrível; e com frequência a Prefeitura não cuida da limpeza como devia (embora o ideal fosse evitar esse lixo e o custo para retirá-lo). Derrubar árvores e cimentar canteiros é fácil: quem quer limpar as folhas da calçada? E as obras oficiais, qual delas inclui gramados e canteiros? O chão impermeável joga toda a chuva nos rios, imediatamente, sem que este fluxo seja retardado por qualquer plantinha.

Traduzindo, não é culpa dos atuais administradores, nem de seus antecessores. A enchente é culpa coletiva, que inclui o avanço da cidade sobre as várzeas dos rios, que inclui o aumento das áreas verdes. Mexer nisso é o caminho. Só que um caminho de quase 500 anos não se muda de uma hora para outra.

Eleições?

A coisa está esquisita: a candidata oficial demora a decolar, e mesmo assim o presidente Lula e o PT hostilizam seu maior aliado, o PMDB. Em circunstâncias normais, o PMDB já é um aliado difícil, com diversas alas que não dão a menor bola para a direção nacional; e, após as declarações do presidente Lula, de que Michel Temer na vice pode ser, pode não ser, que o melhor seria escolher três nomes para que Dilma escolhesse seu favorito, tudo ficou mais complicado.

Eleições mesmo?

Já havia problemas em São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Pernambuco, que preferem Serra e o PSDB; com o Paraná, que lançou o governador Roberto Requião à Presidência para ter melhores condições de negociar; com Bahia, Pará, Rio e Minas, onde o PMDB quer ir com Dilma mas exige o apoio do PT na luta pelo Governo estadual, e não consegue nada. Enquanto isso, Lula viaja, como se não houvesse eleições no ano que vem.

O que sai da boca

Não se impressione com o uso, pelo presidente Lula, da palavra “merda”. Do latim “merda, merdae”, não é sequer qualificada como chula pelo dicionário Aulete. “Merde” é o que respondeu Cambronne, general de Napoleão, quando foi intimado a render-se em Waterloo pelas tropas vitoriosas do Duque de Wellington. “Viva Chile, mierda!” é grito patriótico (como “Bolivia, carajo!” também o é). Mas, se Lula disse “merda”, não foi pensando nessas explicações: era o único jeito de sua viagem ao Maranhão não ser lembrada apenas pelo encontro com aquela família de quem sempre falou mal, pelo menos até aliar-se a ela.

Panetonão

Tudo muito bom, tudo muito bem, o governador brasiliense José Roberto Arruda se desfiliou do DEM e, portanto, não pode concorrer a cargo nenhum no ano que vem. Está sendo investigado de todos os lados – até a ex-mulher entrou na parada. Mas é preciso não esquecer que o PDT de Cristovam Buarque, o PMDB, o PV, o PSB, o PPS e o PSDB participavam do Governo. A equipe de Arruda foi herdada de Joaquim Roriz, hoje seu maior adversário (e tio de Tadeu Filipelli, que lhe tomou o PMDB para ficar com Arruda). Arruda ficou com o panetone, mas seus companheiros é que esperam ter um Próspero Ano Novo.

Questão de ocasião

Não, não vamos discutir o vasto reajuste que a Câmara dos Deputados deu a seus servidores (e que, apostem, será seguido pelo Senado). Não vamos discutir a criação de um setor de Marketing na Câmara Municipal paulistana. Não vamos discutir a presença de dois ministros do Tribunal de Contas da União, que devem fiscalizar o uso do dinheiro público, entre os 785 participantes da Comitiva da Alegria em Copenhague – destino turístico, diga-se, dos mais aprazíveis e caros.

Admitamos que é tudo supernecessário: pagar aos servidores de Suas Excelências mais que o salário dos deputados, posicionar mercadologicamente os vereadores paulistanos, levar ministros do Tribunal de Contas para uma reunião internacional sobre o clima. Mas há horas, como esta em que o panetone está assando, em que certas coisas não se fazem. É desrespeitoso. Esse pouco caso com os outros explica em boa parte por que quase todos são contra esse tipo de gente.

Questão de justiça

Pioneirismo: o livro-agenda Esporte com Arte, lançado ontem no Museu do Futebol, em São Paulo, é o primeiro a homenagear o centenário do Corinthians. O projeto, de Fred Rossi, juntou dois craques: o jornalista e dramaturgo Oswaldo Mendes, nos textos, mais Paulo Hardt, na direção de Arte. E é Corinthians.

Carlos Brickmann é Jornalista, consultor de comunicação. Foi colunista, editor-chefe e editor responsável da Folha da Tarde; diretor de telejornalismo da Rede Bandeirantes (prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte, APCA, em 78 e 79, pelo Jornal da Bandeirantes e pelo programa de entrevistas Encontro com a Imprensa); repórter especial, editor de Economia, editor de Internacional da Folha de S.Paulo; secretário de Redação e editor da Revista Visão; repórter especial, editor de Internacional, de Política e de Nacional do Jornal da Tarde.

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