Charge do Sinfrônio para o Jornal do Commercio

A Oposição e a Estabilidade Política

Muito embora a janela do escritório fosse do tipo “antirruído”, naquela tarde de 1998 o carro de som e as palavras de ordem tiravam minha concentração ao elaborar uma contestação judicial que deveria ser entregue no fórum, no dia subsequente. Como quem já soubesse que se tratava de uma passeata sindical, fui até a janela e olhei a multidão que caminhava com cartazes na avenida Paulista, centro financeiro de São Paulo.

Os sons do microfone, a voz estridente, o volume nas alturas já faziam parte do cenário do segundo mandato do governo do tucano Fernando Henrique Cardoso (1998-2002) As greves e a instabilidade política sindical eram corriqueiras e exigiam uma nova postura do governo. Hoje, ao olharmos para trás e observarmos a calmaria reivindicatória que nos envolve, vemos que o Brasil realmente mudou.

Os sindicatos, apesar de estarem muito mais estruturados, fortes e segmentados, parecem estar sofrendo de determinada “dormência reivindicatória” e pactuados com o governo federal do ponto de vista ideológico. Em contrapartida, alegar que essa condição não produz certo bem-estar e real estabilidade política ao país é não reconhecer os avanços do governo Lula no que diz respeito ao diálogo em relação à flexibilização das ideias, na construção de uma sociedade representativa e mais justa.

A grande questão que devemos analisar nas eleições de 2010 é a objetiva capacidade da oposição, se vencedora, de se alinhar aos anseios sindicais, de ter verdadeira postura à dignidade do trabalhador e, principalmente, de ser capaz de fazer o que o governo Lula fez nas relações de trabalho. Todos sabemos que a maioria das grandes centrais sindicais deverá apoiar a ministra Dilma, que representa a continuidade desse entendimento.

Portanto, talvez devêssemos analisar até que ponto a oposição do país será capaz de ter a devida governabilidade social, hábil em nos proporcionar a tranquilidade sindical tão necessária, expressa na calmaria e na estabilidade política, para que possamos perpetuar esse gosto pelo desenvolvimento, sem as turbulências e violências reivindicatórias tão comuns na era FHC. As conquistas dos trabalhadores não possuem caminho de volta, e com certeza um retorno ao passado, pela falta de diálogo, influenciaria a economia, a vida e os ouvidos da população e principalmente as antigas janelas antirruído, que já algum tempo atrás se tornaram desnecessárias para esse tipo de barulho popular.

Fernando Rizzolo

QUANDO A GENTE SE ESQUECE

“Havia um rei muito bondoso que certa vez, ao passar por uma estrada, escutou gritos de socorro. Ele parou sua carruagem e viu uma mulher cercada por maldosos bandidos. Em um impulso de valentia, o rei conseguiu salvar a mulher. Ela trazia muito dinheiro e certamente aqueles bandidos não teriam misericórdia dela, e por isso ficou muito agradecida ao rei por tê-la salvado. Após aquele incidente eles começaram a se falar todos os dias. Conversaram muito, e a conversa era cada vez mais agradável, até que um dia eles perceberam que estavam apaixonados e decidiram se casar.

O casamento foi uma grande festa, todos se alegraram muito, principalmente o noivo e a noiva. E por algum tempo eles viveram em completa lua-de-mel. Mas passados alguns meses, a esposa já não tratava o rei da mesma maneira. As longas conversas foram rareando, até que praticamente eles não se falavam mais. A mulher já não tinha mais nenhum sentimento de gratidão pelo que o rei havia feito por ela. Mesmo quando o rei tentava puxar uma conversa, ela se mostrava fechada e indiferente.

Não suportando mais aquela situação, o rei teve uma idéia. Certo dia, quando a esposa saiu para dar uma volta, o rei mandou alguns homens, fingindo ser bandidos, cercá-la e ameaçá-la. Quando ela se viu em perigo, gritou desesperada, pedindo a ajuda do rei. Ele apareceu e a salvou novamente. Então ela se lembrou de tudo o que ele já havia feito de bom por ela, e voltaram a ter um bom relacionamento. Muito feliz, o rei confidenciou à sua esposa:

– Gostaria de pedir perdão pelo sofrimento que eu te causei ao te dar este susto. Na verdade fui eu que armei tudo isso, apenas para que você voltasse a me procurar e a valorizar o nosso relacionamento. Mas no fundo eu preferia que você tivesse me procurado sem que eu precisasse te causar nenhum sofrimento. Como vi que nada estava funcionando, tive que fazer deste jeito”

Assim é o nosso relacionamento com D’us. Recebemos Dele coisas boas o tempo inteiro, e tudo o que Ele espera de nós é que nos lembremos Dele durante o nosso dia. Mas a gente sempre se esquece…

*
Nesta semana lemos a Parashá Beshalach, que começa com a saída do povo judeu do Egito, quando o orgulhoso faraó, dobrado pelo peso das 10 pragas que destruíram completamente o Egito, finalmente deixou o povo judeu sair. Mas o povo judeu ainda não se sentia completamente livre, em suas cabeças eles ainda se sentiam escravos, tinham medo que os egípcios os perseguiriam e os levariam de volta ao trabalho pesado. E também D’us não havia terminado Sua justiça com os egípcios, e não havia vingado a morte dos bebês que foram afogados no rio Nilo. Então o que D’us fez? Endureceu o coração do faraó, fazendo com que ele se arrependesse de ter libertado o povo judeu. O faraó reuniu um enorme exército e partiu em perseguição deles. Os judeus de repente se viram presos no deserto, cercado por todos os lados. Diante deles estava o Mar Vermelho, atrás deles vinham os egípcios e seus carros de guerra, e dos lados estava o terrível deserto com todos os seus perigos. Os judeus ficaram desesperados e gritaram para D’us, como está escrito: “O faraó se aproximou; e levantaram os olhos os Filhos de Israel, e eis que os egípcios viajavam atrás deles. E eles temeram muito, e gritaram os Filhos de Israel para D’us” (Shemot 14:10). Então o grande milagre aconteceu: o Mar Vermelho se abriu diante dos olhos de todo o povo judeu, e eles atravessaram no seco. Quando os egípcios foram atravessar, o mar se fechou sobre eles, afogando todo o exército egípcio e terminando definitivamente com a escravidão do povo judeu.

Mas deste episódio surgem algumas perguntas: se D’us queria salvar o povo judeu e terminar Sua justiça com os egípcios, por que teve que “assustar” o povo judeu? Por que Ele não fez de outra maneira, de forma que os judeus nem mesmo vissem os egípcios os perseguindo? Além disso, o Midrash (parte da Torá Oral) diz que a aproximação do faraó, que causou um grande susto no povo judeu, foi mais importante do que 100 jejuns e rezas. Por que?

Para encontrar a resposta destas duas perguntas, antes de tudo precisamos entender o que é a Tefilá (reza), pois em geral temos conceitos muito equivocados. Por exemplo, uma das bases do judaísmo é saber que tudo o que D’us faz é com justiça perfeita. Portanto, se Ele nos mandou algum sofrimento, é porque de alguma maneira nós o merecemos. Então por que rezamos para que Ele tire de nós este sofrimento? Não é uma forma de tentar desviar o julgamento perfeito de D’us?

Sempre que passamos por alguma dificuldade na vida, imediatamente começamos a rezar. Mesmo aqueles que estão afastados da religião, quando surge alguma doença ou qualquer outro perigo de vida, encontram um tempo e uma motivação para rezar. Nos aeroportos e hospitais sempre há um lugar para as pessoas rezarem, pois em geral envolvem situações de perigo ou medo. Por isso estamos acostumados a pensar que a Tefilá é apenas um meio que podemos utilizar para nos salvar de algum perigo ou sofrimento e, se não houvessem sofrimentos, não haveria nenhuma necessidade de fazer Tefilá.

Ensina o Rav Yechezkel Levinshtein que é justamente o contrário. A Tefilá não é um meio, é um propósito por si só. A Tefilá é nossa comunicação com o Criador do mundo, é a nossa forma de agradecer e reconhecer tudo o que Ele nos faz de bom. Diz o Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas) que a Tefilá é um dos pilares que sustenta o mundo. Quanto mais o ser humano reflete sobre o conteúdo das Tefilót e o coloca em seu coração, mais ele cresce no seu amor e no seu temor a D’us, e consegue reconhecer todas as coisas boas que recebe. Mas quando o ser humano se afasta das Tefilót e se esquece do seu Criador, começam a vir dificuldades e sofrimentos que o despertam novamente para a Tefilá. Portanto a Tefilá não é um meio para se salvar dos sofrimentos, ao contrário, o sofrimento é o meio utilizado por D’us para trazer o ser humano de volta para a Tefilá, que Ele tanto deseja.

Foi isso o que aconteceu com o povo judeu no Egito. Quando eles estavam passando por terríveis sofrimentos da escravidão pesada, voltaram seus corações para D’us, como está escrito “E os Filhos de Israel suspiraram por causa do trabalho, e eles gritaram. O clamor deles por causa do trabalho chegou até D’us” (Shemot 2:23). Imediatamente D’us iniciou a salvação do povo judeu, com grandes milagres, com mão forte a braço estendido. E D’us ficou esperando que o povo judeu continuasse com seus corações conectados com Ele, mas isso não aconteceu. Quando os judeus viram que seus sofrimentos estavam terminando, imediatamente começaram a se afastar de D’us. Então Ele utilizou o faraó como um “despertador”. O susto despertou o coração dos judeus e os conectou novamente a D’us, em um nível maior do que se tivessem feito 100 jejuns.

Com este conceito entendemos também que a Tefilá, ao retirar o sofrimento, não desvia a justiça perfeita de D’us. Os sofrimentos vieram justamente pelo desejo de D’us de que a pessoa se conectasse com Ele através da Tefilá. No momento que a pessoa volta a fazer Tefilá, não há mais nenhuma necessidade dos sofrimentos.

É justamente por isso que temos no nosso dia 3 Tefilót fixas, em momentos estratégicos, para que possamos nos manter conectados com D’us o dia inteiro. Começamos o dia com a Tefilá da manhã (Shacharit), antes de irmos ao trabalho e antes mesmo de tomarmos um bom café-da-manhã. No meio do dia, após algumas horas de trabalho, paramos novamente para alguns momentos de conexão espiritual durante a reza da tarde (Minchá). E no final do dia, quando voltamos para casa, mais uma vez nos conectamos com a nossa espiritualidade na reza da noite (Arvit).

Muitas vezes, quando coisas “ruins” acontecem em nossas vidas, questionamos por que D’us nos abandonou. Mas a Parashá nos ensina justamente o contrário. Se estamos passando por dificuldades, pode ser um sinal de que nós abandonamos D’us. Apesar Dele cuidar do nosso bem estar 24 horas por dia, nós estamos sempre ocupados com o nosso dia-a-dia. Tudo é mais importante, tudo vem antes da nossa conexão com D’us. Então antes de reclamarmos que D’us nos abandonou, é bom checarmos se não fomos nós que O abandonamos e O deixamos falando sozinho.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

Tenha um sábado de paz !!

Fernando Rizzolo

Lula defendeu projeto que partilha lucro das empresas, diz Mangabeira

Autor do projeto que determina a distribuição compulsória de 5% dos lucros das empresas para os empregados, o ex-ministro de Assuntos Estratégicos Roberto Mangabeira Unger afirmou ontem que a cúpula do governo não só sabia como estimulou a proposta. Em entrevista ao Estado, por e-mail, ele disse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva era um defensor “entusiasmado” da proposta e os ministros da Justiça, Tarso Genro, e do Trabalho, Carlos Lupi, colaboraram diretamente na sua elaboração. “Conduzi esse trabalho com o apoio entusiasmado do presidente Lula e em estreita colaboração com meus amigos colegas ministros, sobretudo os do Trabalho e da Justiça”, garantiu Mangabeira, que hoje é professor na Universidade Harvard.

A afirmação contradiz declaração do ministro da Justiça, segundo a qual a obrigatoriedade da partilha de lucros, hoje entregue à negociação direta entre empregados e empregadores, não passa de “estudo” e não foi objeto de análise e decisão de sua pasta nem do governo. O projeto tem nove artigos e integra um documento de 67 páginas, chamado Reconstrução das Relações Capital-Trabalho, que Mangabeira diz ter produzido após um ano e meio de análises e discussões com entidades representativas de trabalhadores e do setor empresarial.

LEI

Prevista na Constituição, a participação de empregados no lucro das empresas é disciplinada pela Lei nº 10.101, editada em 2000 pelo governo Fernando Henrique Cardoso. O texto remete os critérios da distribuição à livre negociação entre as partes e não fixa um porcentual de partilha. O novo texto, na prática, anularia a lei vigente e tornaria a distribuição compulsória, fixando a cota de 5%.

Desse montante, se aprovada a proposta, 2% serão transferidos de forma linear a todos os empregados. Os 3% restantes devem ser distribuídos conforme critério interno de gestão da empresa, em razão do mérito individual, produtividade e resultados.

O ex-ministro relatou que “sempre”, com o apoio de Lula, se reuniu com as seis maiores centrais sindicais do País para dar uma definição mais clara à norma constitucional. “Expus ao presidente, em meio a essas discussões, o rumo das propostas que emergiam”, explicou Mangabeira, que antes de ter um posto na Esplanada dos Ministérios qualificara o governo Lula de “o mais corrupto da história”.

CONSULTAS

Ele informou que fez também “incontáveis consultas” a empresários grandes, médios e pequenos, além de ter dialogado com a Justiça e o Ministério Público do Trabalho. “Nessa parte de meu esforço, contei com a ajuda constante do dr. Jorge Gerdau e do movimento Brasil Competitivo, que ele lidera”, afirmou. “Em toda essa atuação, sempre fui claro a respeito do sentido dessas consultas.”

Segundo Mangabeira, o Brasil tem a má tradição, em matérias como a da relação trabalho-capital, de delegar a definição das leis às corporações interessadas. “República não é corporativismo”, escreveu em sua resposta, ao defender papel decisivo do Estado na elaboração desse tipo de conteúdo. “A consulta é necessária por justiça e por prudência, mas é preciso não confundir consulta com delegação de poder”, disse. “São as instituições republicanas as que precisam deliberar o conteúdo das leis e, ao deliberá-lo, zelar pelos interesses das maiorias desorganizadas.”

Ele disse compreender que, como em qualquer país do mundo, projetos que mexem em interesses poderosos, como o seu, gerem controvérsias. “É natural: alcançam a distribuição da riqueza, da renda e do poder.”
agencia estado

Rizzolo: Bem, em relação a essa questão este é o meu primeiro comentário após refletir e analisar o projeto referido de Lei. Na verdade não há nada de novo em relação a esta distribuição de lucros, na Europa ela já existe há tempos, e na sua essência é extremamente válida no que diz respeito a sanar as diferenças sindicais, ou seja, o que ocorre hoje, é que muitas empresas não concedem a distribuição até porque alguns segmentos não possuem representatividade sindical forte capaz de impor a justa partilha de lucros.

Numa visão desenvolvimentista trabalhista e contemporânea, as negociações devem sempre estabelecer um mínimo, e hoje muitos desses acordos estão aviltados por falta de uma postura protecionista do Estado. Postura essa saudável do ponto de vista dos interesses da classe trabalhadora. Portanto apóio de forma inconteste o projeto de Lei que vem ao encontro da grande massa laboral do nosso país.

Lula passará por avaliações médicas hoje e amanhã

BRASÍLIA – O médico-chefe da coordenação da saúde da Presidência da República, Cléber Ferreira, irá nesta sexta-feira, 29, à tarde à casa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Bernardo do Campo, para fazer uma nova avaliação médica, medir a pressão e verificar os batimentos cardíacos dele. Ferreira acompanha diariamente Lula em seus deslocamentos em Brasília e nas viagens. O presidente permanece descansando em sua casa no ABC paulista, conforme orientação médica.

Lula também será submetido no sábado, 30, a partir das 8 horas, a uma bateria de exames no Instituto do Coração (InCor) em São Paulo. O check-up está previsto para durar três horas. A agenda do presidente continua suspensa para compromissos oficiais. A primeira previsão de retomada da programação é na segunda-feira, às 10 horas, na reabertura dos trabalhos do Judiciário, no Supremo Tribunal Federal (STF).

No entanto, na semana que vem, o presidente Lula já tem viagem prevista para três Estados, a partir da quarta-feira: Rio de Janeiro, São Paulo (na quarta-feira) e Rio Grande do Sul (na sexta-feira).
agencia estado

Rizzolo: Como já comentei anteriormente, a situação do presidente merece os cuidados de praxe. É natural de que com o rítmo de trabalho imposto ao presidente, situações de estresse ocorram. Vamos torcer pela recuperação de Lula, dessa forma todos nós ganhamos.

Uma caminhada rumo à dignidade

Sempre compartilhei da ideia de que um dos maiores patrimônios que temos na vida é a nossa saúde. Assim, cumprindo as recomendações médicas, levantei cedo, coloquei meus tênis (anti-impacto) e fui caminhar e correr, ou correr e caminhar, como faço quase todos os dias quando estou na praia. Especialmente naquele dia havia muita gente cumprindo as mesmas recomendações e caminhando na orla do Guarujá, litoral paulista. A multidão era grande; enquanto uns iam, outros voltavam com seus trajes diferentes, tênis variados, com o olhar demonstrando cansaço, porém determinado.

Como sou daqueles que preferem pensar em vez de ouvir, não levei meu MP3. Preferi o silêncio das minhas observações à medida que caminhava junto ao mar, desviando vez ou outra das pessoas, muitas das quais não viam a hora de terminar o martírio esportivo. Caminhar e pensar desfrutando do trajeto, analisando a arquitetura dos prédios, observando as pessoas é algo fascinante que aguça nossa capacidade de reflexão, porque sempre há ao longo do caminho atores de situações diversas que acabam participando do percurso não como atletas, mas como vítimas do dia a dia da nossa sociedade.

Naquela manhã, naquele turbilhão de pessoas, observei que em determinado ponto havia um jovem deitado debaixo da pequena fachada de um prédio, provavelmente embriagado – ou drogado, se os leitores assim preferirem. Todavia, a questão é que ele estava bem ali, perdido, desbaratado, maltrapilho, abandonado – uma cena deplorável. Diminuí meu ritmo e tentei adivinhar sua idade, quando cheguei à conclusão de que ele devia ter uns 18 anos. Enquanto a grande maioria das pessoas exercitava sua consciência do ponto de vista da saúde, o jovem de origem humilde estava totalmente à mercê das consequências da miséria, da falta de formação e principalmente da falta de uma política de saúde pública.

Contudo, foi com imensa satisfação que, naquele mesmo dia, ao ler os jornais, tive conhecimento de que o governo federal vai instituir o Comitê Técnico de Saúde para a População em Situação de Rua, que contará com a participação de vários órgãos ligados à saúde, incluindo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Pastoral Nacional da População de Rua e a Organização Médicos Sem Fronteiras. O referido comitê vai propor ações e apresentar subsídios voltados à saúde da população em situação similar à do jovem e elaborar propostas de intervenção conjunta nas diversas instâncias e órgãos do Sistema Único de Saúde (SUS).

Essa iniciativa do governo federal faz parte da política nacional para a população de rua instituída pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a partir de um decreto que busca promover todo tipo de direito dessa população. A coordenação do comitê será da Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa do Ministério da Saúde, e os responsáveis pela política serão a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, além de diversos Ministérios.

É fato que, quando falamos em inclusão social, não podemos deixar de ressaltar que muitas vezes incluir significa primeiro tratar, cuidar, e não apenas promover uma renda mínima imediata. Os jovens de rua, os pobres abandonados pelas famílias, os desvalidos, os alcoólatras necessitam de um plano de assistência médica que envolva programas de reinclusão social semelhantes a essa iniciativa do governo, que busquem promover os direitos humanos, civis, políticos, econômicos e sociais dessa população carente.

Desamarrar os tênis, relaxar as pernas já cansadas de correr e observar que estamos avançando na luta contra essa população jovem e perdida nos faz sonhar com o dia em que jovens como aquele estarão enfim valorizando sua saúde, assim como tantos que por ele passavam, muitos dos quais sem lhe dirigir sequer um olhar, talvez muito mais em razão de seus MP3 que pela falta de indignação de ver seres dormindo o sono da desesperança.

Fernando Rizzolo

Charge do Ique para o JB Online