Pague caro, você é rico – Coluna Carlos Brickmann

O caro leitor já tomou conhecimento do recorde do Impostômetro, o medidor dos impostos que pagamos a cada dia: apesar de reduções eventuais, para estimular o mercado, a receita deste ano já é maior que a do mesmo período de 2009.

Mas isso não impressiona tanto: são apenas números. Vamos a um exemplo concreto, real. O automóvel Honda City fabricado no Brasil foi lançado no México com preço inicial de R$ 25.800. No Brasil, o preço inicial do City é de R$ 56.210. O mesmo carro? Não: o vendido no México por menos da metade do preço que pagamos tem freios ABS nas quatro rodas. O daqui, não.

Os argentinos também pagam menos pelo mesmo carro: R$ 34.800, com equipamento igual ao do brasileiro. O modelo mais caro, o City EXL AT Flex, custa na Argentina US$ 25.500 – menos de R$ 50 mil. Aqui, custa R$ 71.860. Os dados podem ser conferidos aqui.

Os carros brasileiros, para chegar ao México, ainda pagam um alto frete. Para que se tenha uma idéia, o carro fabricado em São Paulo é vendido no Norte-Nordeste com preço aumentado em R$ 1.200, por conta do transporte. E o México, se a memória deste colunista não falha, fica bem mais longe que o Nordeste.

A diferença está nos impostos. Não imaginemos que México e Argentina não cobrem impostos: cobram, sim. Mas não é essa loucura que faz com que brasileiros paguem o dobro do que se cobra no Exterior por seus próprios produtos.

Valendo aposta

Está marcado para hoje o início dos trabalhos da CPI Mista da Câmara e Senado sobre o MST. Este colunista prevê que as investigações, iniciadas antes do Carnaval, num ano de eleições presidenciais e de Copa do Mundo, podem ter os seguintes resultados: a) vão acabar em pizza; b) vão acabar em samba; c) vão dar em água de barrela. Quanto às declarações de líderes “sem-terra”, gravadas em áudio e vídeo, de que a invasão dos laranjais da Cutrale tinha como objetivo “dar um prejuízo a eles”, haverá manifesto de intelectuais acusando a imprensa golpista e a oposição reacionária de criminalizar os movimentos sociais.

Sem Esso

A aliança entre a Shell e a Cosan, distribuidora Esso e maior produtora de álcool do mundo, tem dois pontos importantes que estão passando despercebidos.

1) Além de globalizar a distribuição de álcool da Cosan e dar à Shell a posição de grande participante no novo mercado de combustíveis, as duas empresas querem investir na tecnologia de substituição celulósica. Tudo aquilo da cana que não é caldo pode ser tratado e transformar-se em álcool; da mesma maneira, pode-se produzir álcool etílico, ou etanol, a partir de madeira de reflorestamento.

2) Ao comprar a distribuição da Exxon-Mobil no Brasil, a Cosan ganhou o direito de usar a marca Esso por cinco anos, dos quais já se passaram quase dois. E mais tarde? Com a aliança, talvez possa usar a marca Shell.

Foi bom?

O mercado reagiu bem à criação da empresa gigante. As ações da Cosan se valorizaram na Bolsa, no total, em R$ 1 bilhão – e isso num único dia. Explica-se: Shell e Cosan, unidas, terão melhores condições de transformar o álcool em commodity, produto negociável em bolsa, como é hoje o petróleo. Isso eliminaria boa parte dos entraves à exportação do álcool brasileiro a países desenvolvidos.

E é ele …

João Augusto da Rosa, codinome Irno, ex-policial do Dops gaúcho citado no caso do sequestro dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Díaz (ambos foram presos no Brasil e levados clandestinamente ao Uruguai, que na época também vivia sob regime ditatorial, onde foram torturados e só escaparam da morte porque havia testemunhas do sequestro), deve encontrar-se amanhã com uma de suas vítimas. Irno, que participava da equipe do delegado Pedro Seelig, uma espécie de delegado Sérgio Fleury do Rio Grande do Sul, processa o jornalista Luiz Cláudio Cunha, que fez a reportagem sobre o sequestro e posteriormente editou o livro O Sequestro dos Uruguaios, em que narra sua participação no caso.

…que processa!

Cunha, avisado de que havia algo estranho no apartamento dos uruguaios em Porto Alegre, foi lá em companhia do fotógrafo J. B. Scalco, ambos de Veja. Irno abriu a porta com a pistola apontada para sua cabeça. Lá estava também um ex-jogador de futebol, Orandir Portassi Lucas, codinome Didi Pedalada.

Com o processo, Irno estará frente a frente com Lilian Celiberti, testemunha de Cunha. É a primeira vez, desde 1978, em que se encontram estando ele desarmado. Vale a pena acompanhar: 18ª Vara Cível de Porto Alegre, 15 horas.

Los hermanos del crímen

Toda essa história faz parte da Operação Condor, aliança entre ditaduras sul-americanas para prender, torturar e matar sem levar em conta as fronteiras. Brasileiros foram torturados e mortos no Uruguai, Chile e Argentina sem que Brasília se movesse. O hoje governador paulista José Serra teve de fugir do Chile, após o golpe militar, para não ser morto. E Brasília, na época, ajudou os perseguidores.

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