A República dos vira-latas – Coluna Carlos Brickmann

Um dia, que vergonha!, a bela Sylvia Kristel, a atriz de Emmanuelle, visitou o Senado. O trabalho parou (se bem que, para isso, não é preciso grande esforço). Velhos senhores babavam na gravata diante da gringa bonita, prestavam-lhe homenagens. Afinal, era a moça que ficou nua em vários filmes de sexo quase explícito, que mostrou ao mundo uma outra utilidade para os banheiros de avião.

Anos depois, houve uma CPI para apurar por que o Brasil perdeu a Copa de 1998 (a resposta era simples: porque, na final, a França fez mais gols). Ronaldo Fenômeno foi convidado para depor. Mas não houve depoimento a sério: Suas Excelências queriam mesmo é achegar-se ao ídolo, ser fotografados a seu lado.

Agora, Madonna. A estrela americana é uma personalidade internacional, não há dúvida. Mas não o suficiente para que aceitemos passivamente que sua segurança inspecione a sede do Governo paulista para verificar se as instalações eram boas o suficiente para ela. A babação de ovos foi tão grande que, dizem, o governador José Serra esforçou-se até para ser simpático. E tentou passar um 171 na moça, convidando-a a assistir ao Carnaval paulistano em vez do carioca.

No Rio, houve ruas fechadas por Beyoncé, houve helicópteros da Polícia sobrevoando o trajeto da popstar, o governador e o prefeito se colocaram à sua disposição. Só faltou, para completar o espetáculo da submissão, que as autoridades e os penduricalhos que as acompanhem beijassem a mão das estrelas.

Tratar bem os visitantes, sim. Mas um pouco de pudor sempre é bom.

Serra é pop

Madonna tem um programa de ajuda a crianças pobres; merece receber atenção. Mas a Unicef, fundo da ONU para crianças, opera há anos em São Paulo vários programas de inclusão social, e desde 2008 pede um encontro com Serra. Até agora nada conseguiu, por alegados “problemas de agenda” do governador.

Sem mentir pra você

Nem o maior adversário do presidente Lula irá negar sua inteligência, seu faro político, seu senso de oportunidade. No entanto, repete-se que Fernando Henrique (que também não é burro e que, no confronto direto, derrotou Lula duas vezes no primeiro turno) caiu na armadilha do presidente: o sonho de Lula seria chamá-lo para o debate, para comparar ambos os Governos, triturá-lo e, mais importante ainda, evitar que Dilma ficasse exposta ao confronto com Serra.

Sem fantasia

Dá para acreditar que Lula, ao montar uma armadilha para Fernando Henrique, iria divulgar amplamente que era isso que estava querendo? Dá para acreditar que Fernando Henrique, ao saber o que é que Lula estava querendo, faria exatamente isso, para cair na armadilha? Se todo o PT anuncia que ficou feliz com a entrada de Fernando Henrique na campanha, é porque não ficou feliz, não.

O dia D

Quando os Aliados preparavam a invasão da Normandia, combinaram com a Resistência Francesa que, no local do desembarque, deveria haver um levante, para que as tropas alemãs tivessem algo mais com que se preocupar. Os Aliados, entretanto, calcularam que, se houvesse um levante num determinado local, os alemães saberiam que ali seria o ataque. E pediram a todos os setores da Resistência que se revoltassem. Os alemães massacraram os resistentes. Mas não descobriram, a não ser quando os navios aliados começaram a bombardear a Normandia, o ponto em que seriam atacados.

Imagine se Lula vai avisar a Fernando Henrique onde quer que ele ataque, porque é lá que concentrou suas tropas. Imagine se Fernando Henrique vai atacar justo ali.

Hora H

Vai ficar claro dentro de poucos dias quem quer e quem não quer o debate entre Lula e Fernando Henrique. O jornalista Augusto Nunes, da Veja on line, comprometeu-se a organizar o debate que tanto o presidente quanto o ex-presidente garantem desejar. Ambos irão? Um deles recuará? Qual?

Água de mau gosto

Há uns 50 anos, o slogan do Nescau era “gostoso como uma tarde no circo”. Em 1961, um incêndio no Gran Circo Norte-Americano, em Niterói, matou 300 pessoas. Para evitar associações de idéias, no dia seguinte o slogan do Nescau mudou para “gostoso como ele só”. A propaganda anterior foi abandonada.

A excelente lição não foi aprendida: com as chuvas mais intensas e prolongadas da história de São Paulo, com áreas alagadas, com transbordamento de esgotos, com regiões sem abastecimento de água, a Sabesp, estatal de saneamento básico do Governo paulista, mantém sua propaganda de água limpa e tratamento de esgotos. A Sabesp não é responsável pelas chuvas, nem pelas enchentes – como o Nescau nada tinha a ver com o incêndio do circo. Mas há ocasiões em que o bom-senso recomenda não falar em água em casa de alagado.

A Copa é nossa

O Rio, segundo dados oficiais do Governo Federal, é hoje o campeão nacional do trabalho escravo. O Pará, antigo líder, caiu para o sexto lugar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: