TUDO FAZ SENTIDO

“Da primeira vez em que eu (Rav Efraim Birbojm) estive em uma Yeshivá em Israel, no início do meu processo de Teshuvá (retorno aos caminhos da Torá), fui com um pequeno grupo de rapazes passar um Shabat na cidade de Bnei Brak, perto de Tel Aviv. Nesta cidade a grande maioria dos moradores são judeus ortodoxos que cumprem as Mitzvót da Torá. A cidade não tem delegacia de polícia, não existem assaltos e as frutas e livros ficam expostos em mesas no meio da rua, sem vendedores, para que os compradores levem o que querem e deixem o dinheiro em uma caixinha.

Ninguém do grupo conhecia a cidade, apenas tínhamos os nomes e endereços das famílias que nos receberiam para as refeições e para dormirmos (o que havia sido previamente organizado por uma pessoa da Yeshivá). Deixamos nossas malas na casa onde dormiríamos e saímos para o Kabalat Shabat. O jantar, em outra família, terminou um pouco tarde e decidimos dar uma volta para conhecer a cidade. Quando nos demos conta já era quase uma da manhã e decidimos voltar. Como não conhecíamos o caminho, fomos perguntando como chegar para as poucas pessoas que ainda estavam nas ruas. Finalmente chegamos na casa onde deveríamos dormir, mas a porta estava trancada. Batemos por uns 15 minutos e ninguém veio atender. Naquele momento, desanimado, eu sentei no chão e comecei a questionar D’us: “Eu estou aqui, em uma cidade estranha, disposto a guardar o Shabat, então o que Você quer de mim?”.

Sem lugar para dormir, decidimos procurar alguma sinagoga aberta onde pudéssemos passar a noite. Porém, não havia mais ninguém na rua e estávamos completamente sem idéia de que direção tomar. Começamos a caminhar, mas as ruas pareciam todas iguais, cada vez nos sentíamos mais perdidos. Foi quando vimos um homem acompanhado de 2 filhos pequenos caminhando na rua. Corremos para pedir informações de como chegar em alguma sinagoga aberta e, após explicarmos o que fazíamos tão tarde na rua, ele nos convidou para passarmos a noite em sua casa. Nos serviu chá, bolos e ofereceu o quarto onde os seus filhos dormiam para que ficássemos confortáveis. Ficamos muito agradecidos por tanta hospitalidade, principalmente com pessoas que eles nem mesmo conheciam. Antes de dormir, o dono da casa veio nos dar boa noite e nos contou algo que nos deixou perplexos:

– Hoje é o Yortzait (aniversário de falecimento) da minha querida mãe. Durante todo o dia eu pedi para D’us me ajudar a encontrar alguma Mitzvá especial para fazer no Shabat e assim elevar a alma dela. Mas o que eu poderia fazer de especial em uma cidade onde todos já são religiosos? Todos já têm suas casas para passar o Shabat e fazer suas refeições, quem eu poderia convidar? Agora eu vejo que D’us escutou as minhas Tefilót (rezas), pois Ele me mandou vocês para que eu pudesse cumprir a Mitzvá de receber convidados no Shabat e assim elevar a alma de minha mãe.

Fomos dormir impressionados com tudo o que havia acontecido. Na manhã seguinte voltamos à casa onde deveríamos ter dormido. Eles estavam muito preocupados conosco e explicaram que não queriam dormir com a porta aberta, por isso a trancaram e a cada meia hora eles vinham até a porta para ver se havíamos chegado. Os 15 minutos que estivemos lá batendo na porta foram justamente quando eles estavam no quarto, de onde mal se ouviam as batidas.

Naquele momento tudo fez sentido. Aquele questionamento que eu havia feito para D’us, “o que Você quer de mim?”, estava respondido. Ele queria me dar uma das lições mais importantes da minha vida: que não existe acaso, Ele tem o controle sobre todas as coisas que acontecem e pode mudar tudo apenas para atender a Tefilá de um homem que queria elevar a alma de sua mãe. (História Real)

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Neste Shabat lemos a Parashá Tetzavê, que continua descrevendo detalhes do Mishkan (Templo Móvel), em especial as roupas que o Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) utilizava durante os serviços no Mishkan. Lemos também a Parashá Zachor, um trecho da Torá que nos relembra da nossa luta contra o povo de Amalek e tudo o que eles fizeram contra o povo judeu no deserto. Por que a Parashá Zachor é lida justamente neste Shabat? Pois após o Shabat, no sábado de noite (em Jerusalém no domingo de noite) começamos a comemorar a festa de Purim, revivendo com alegria o milagre da salvação do povo judeu nos dias de Mordechai e Ester, quando fomos salvos do extermínio certo. A história de Purim é mais um “round” da nossa luta contra Amalek, pois Haman, o homem que queria exterminar o povo judeu, era do povo de Amalek.

Uma das principais Mitzvót de Purim é ler a Meguilat Ester, o livro do Tanach que descreve a subida do rei Achashverosh no poder, a escolha de Ester como rainha, a subida de Haman e a sua posterior queda. Infelizmente temos muitas vezes uma visão infantil da Meguilá, como se ela fosse apenas um livro de histórias. A verdade é que se nos aprofundarmos na Meguilá poderemos aprender importantes lições para nossas vidas.

Por exemplo, no segundo capítulo a Meguilá nos conta que Mordechai descobriu que Bigtan e Teresh, dois homens da guarda pessoal do rei Achashverosh, planejavam matá-lo. Mordechai imediatamente informou Ester e ela contou ao rei. Investigações foram abertas, o plano foi descoberto e Bigtan e Teresh foram enforcados. O que isto mudou na história do povo judeu? Muitos anos depois, quando certa noite o rei Achashverosh não conseguia dormir, ele pediu a seus serviçais que lessem o livro das crônicas, onde constava tudo o que havia ocorrido no reinado. Então ele escutou novamente o episódio de Bigtan e Teresh e lembrou-se que Mordechai havia salvado sua vida e nunca havia recebido nenhuma recompensa por isso. A partir deste momento a sorte do povo judeu começou a mudar.

Mas se pararmos para refletir sobre este acontecimento, surge uma grande pergunta: o rei Achashverosh não era nenhum Tzadik (Justo). Ele pegou Ester à força para ser sua esposa e mostrava seu poder exibindo em público os tesouros roubados do Beit-Hamikdash (Templo Sagrado). Portanto, por que Mordechai decidiu salvar a vida de Achashverosh e não preferiu deixá-lo morrer para poder salvar Ester?

Para responder esta pergunta precisamos antes de tudo entender a luta espiritual que existe entre o povo judeu e o povo de Amalek. A essência de Amalek é ensinar que tudo é um grande acaso, que não existe um Criador nem uma ordem nas coisas que ocorrem no mundo. O nome Purim vem da palavra “Pur”, que significa sorteio, pois Haman sorteou o dia em que o povo judeu seria exterminado, tentando mostrar através do sorteio que tudo é um grande acaso. Já a essência do povo judeu é ensinar ao mundo que existe um Criador, que não apenas criou o mundo mas que cuida de cada um de nós com “Hashgachá Pratid” (Supervisão Particular). Tudo o que acontece tem um motivo, tudo o que ocorre está de acordo com os planos de D’us para o mundo. Não há acaso nem coincidências.

E assim vivem os Tzadikim, com a certeza de que tudo o que o Criador do mundo faz é com algum propósito, nada é por acaso. Cada pequeno detalhe tem um motivo, pois tudo é controlado por D’us. Quando Mordechai escutou o plano de Bigtan e Teresh para matar o rei, ele parou para refletir e perguntou para si mesmo: “Se a morte de Achashverosh fosse algo bom para o povo judeu, então ele teria morrido e eu não ficaria nem sabendo dos planos. Mas se D’us me fez escutar o plano deles é porque certamente é minha função interferir”.

Portanto, a Meguilá é um ensinamento de como vencer a guerra contra Amalek. Mordechai não sabia que no futuro este acontecimento mudaria toda a história do povo judeu. Mas ele também não precisava saber disso. Tudo o que ele precisava saber é que nada que ocorre no mundo é por acaso. Tudo tem um porque. Assim ele venceu Haman e assim podemos vencer Amalek. Tendo a certeza de que não existe acaso, que D’us está em cada detalhe de nossas vidas. E para isso não é necessário uma fé cega. Se pararmos para refletir sobre nossas vidas, certamente vamos enxergar vários momentos em que a mão de D’us estava evidente. Quanto mais certeza colocarmos no nosso coração de que tudo o que ocorre em nossas vidas é com Hashgachá Pratid, mais estaremos contribuindo para vencer a luta contra Amalek.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbjm

Tenha um sábado de paz

Fernando Rizzolo

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