Cérebro humano tem aversão à desigualdade, mostra estudo

SÃO PAULO – O cérebro de uma pessoa “rica” se alegra quando um “pobre” ganha algum dinheiro, mas o cérebro do “pobre” não acha graça em ver o rico enriquecer ainda mais, o que sugere a presença de um instinto de aversão à desigualdade instalado no cérebro humano. “Ricos” e “pobres”, no caso, são voluntários de um experimento envolvendo distribuição desigual de dinheiro e ressonância magnética, realizado por pesquisadores dos EUA e Irlanda e publicado na edição desta semana da revista Nature.

“Nós vemos atividade em parte do cérebro associadas à resposta a recompensas quando voluntários observam a si mesmos ou outras pessoas recebendo vantagens monetárias em potencial”, explica um dos autores do trabalho, John O’Doherty, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), em entrevista ao estadao.com.br.

Na realização do estudo, voluntários, divididos em duplas, receberam US$ 30 cada e, em seguida, participaram de sorteios onde, dependendo do resultado, cada um foi designado “rico” (recebendo US$ 50 a mais) ou “pobre” (não recebendo nenhum dinheiro extra).

Os voluntários das duplas foram então submetidos então a ressonância magnética funcional do cérebro, enquanto um pesquisador propunha novas transferências de dinheiro para um ou outro membro, analisando a atividade de duas áreas – o estriato ventral e o córtex frontal ventromedial – que reagem ao recebimento de recompensas.

Tanto “ricos” quanto “pobres” tiveram aumento na atividade cerebral das regiões analisadas quando recebiam a proposta de obter mais dinheiro. No entanto, o cérebro dos “ricos” animava-se mais quando a proposta de ganho era feita ao “pobre” do que quando era dirigida a si mesmo. No caso dos participantes “pobres”, o efeito era o oposto: a área de recompensa do cérebro era mais estimulada por ganhos próprios do que por pagamentos ao “rico”.

Além de se submeter à ressonância magnética, os participantes também responderam a questionários sobre a experiência. Ambos os grupos disseram valorizar as recompensas extras recebidas, embora os membros do grupo rico dessem menos valor a esses ganhos que os do grupo pobre. E, em contraste com os dados cerebrais registrados, os “ricos” responderam dizendo que davam mais valor aos pagamentos recebidos pessoalmente do que aos feitos aos “pobres”.

“Sim, isso é intrigante”, diz O’Doherty, sobre a diferença entre a resposta verbal e a prevista pela ressonância. “Mas, claro, são esses enigmas que nos levam a realizar novas investigações. Minha intuição é de que, se pedíssemos às pessoas para realmente escolher entre várias transferências que variem no grau de aversão à desigualdade, poderíamos encontrar padrões de escolha parecidos com os que vimos no cérebro”.

Outra característica do estudo é o fato de ele evitar estabelecer qualquer tipo de competição ou custo para os participantes: nem “ricos ” e nem “pobres” sofreram perdas quanto o outro grupo ganhava mais recursos. Mas essa situação não difere da percepção dos efeitos da desigualdade que existe na sociedade?

“A razão pela qual não fizemos isso é que se um aumento na riqueza de um jogador estivesse associada a uma redução na de outro, então efetivamente um jogador estaria sendo punido e o outro recompensado”, explica O’Doherty, acrescentando que isso complicaria o trabalho.

“Estaríamos olhando para reações a recompensas a si mesmo e ao outro, e reações à punição de si mesmo e do outro”, o que criaria a dificuldade extra de “desemaranhar” os diferentes impactos na atividade cerebral.

Com a ressalva de que a evolução biológica de fenômenos com a aversão à desigualdade não é sua área de especialização, o cientista cita a necessidade de coesão dentro dos grupos humanos como uma possível causa desse mecanismo.

Mesmo reconhecendo que os seres humanos competem e lutam entre si, ele pondera que “a presença de um certo grau de aversão á desigualdade pode ser um fator importante em moderar essa competição, reduzindo a probabilidade de que o excesso de competição faça com que os grupos se destruam por completo”.
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Rizzolo: Isso comprova que a ganância, o individualismo, a exploração, não pertencem à esfera da boa índole da espécie humana. O bom senso, o conceito de justiça, a religiosidade acabam dirigindo os bons espíritos de justiça a uma melhor compreensão da necessidade de se diminuir as desigualdades sociais. Descobriu-se enfim, através de uma máquina, aquilo que alma humana por anos já proclamava, Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Lula critica ONU e pede debate sobre Ilhas Malvinas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu nesta terça-feira (23) o início de um debate na Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a polêmica envolvendo a exploração petroleira nas Ilhas Malvinas por uma empresa britânica, criticada pela Argentina.

Lula fez a declaração na Cúpula do Grupo do Rio, no México, evento no qual representantes de 32 países da América Latina e do Caribe estiveram reunidos. No encontro, os líderes aprovaram por unanimidade a reivindicação da Argentina pela soberania sobre as ilhas.

Os argentinos não aceitam a ação da empresa Desire Petroleum na região e se baseiam em uma resolução da ONU de que nada poderia ser feito nas ilhas sem o consentimento dos dois países, que entraram em guerra em 1982 pela posse das ilhas.

‘Qual explicação?’

Durante a cúpula, Lula disse não ser possível que a Argentina não tenha soberania sobre as Malvinas e que esse direito seja exercido por um país a 14 mil quilômetros de distância.

“Qual é a explicação política das Nações Unidas para que não tenham tomado uma decisão? Será o fato de a Inglaterra participar como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas a razão para que eles podem tudo e os outros não podem nada?”, indagou Lula. “É necessário que comecemos a lutar para que o secretário-geral das Nações Unidas reabra este debate com muita força dentro das Nações Unidas”, afirmou.

“Não é possível que as Nações Unidas continuem com um Conselho de Segurança que seja representado pelos interesses políticos da Segunda Guerra Mundial, que não levem em conta todas as mudanças que ocorreram no mundo”, disse Lula. “A ONU se distancia e os países individualmente se ocupam de seus assuntos, porque a ONU perdeu representatividade”, afirmou.
globo

Rizzolo: Essa disputa pela soberania das ilhas Malvinas ou Falklands nunca terá fim, o bom seria o Brasil não se envolver nessa discussão, quem teria ainda maior legitimidade para discutir essa disputa,se assim fosse, seria os franceses que foram os primeiros a lá se estabelecer. O governo argentino volta à discussão com a pura finalidade política nacionalista, um problema que na realidade vem ao socorro interno fruto da fragilidade política e econômica do governo de Cristina Kirchner.

Governo está ‘tranquilo’ com a Telebrás, diz assessor

BRASÍLIA – O assessor especial da Presidência da República e coordenador dos estudos para implantação do Plano Nacional de Banda Larga, Cezar Alvarez, disse hoje que o governo “está muito tranquilo” com a possibilidade de utilizar a Telebrás para ser a gestora do programa de expansão da internet rápida no Brasil, porque essa hipótese vem sendo considerada, segundo ele, desde 2004, quando o governo iniciou o projeto Computador para Todos. “Não é segredo que o governo tenta usar suas redes como elemento ''ofertador'' e regulador do mercado. Se vai ser através desta ou daquela empresa, tem estudos que mostram que a Telebrás é a empresa com maior possibilidade, que acumula as melhores condições para exercer a gestão”, afirmou.

O assessor disse que não tem conhecimento da denúncia publicada hoje no jornal Folha de S.Paulo de que o ex-ministro José Dirceu tenha se favorecido no processo de reativação da Telebrás e de utilização das redes de fibras óticas da Eletronet no programa de massificação da banda larga. Depois de participar de seminário em Brasília, Alvarez disse que não havia lido ainda os jornais do dia, mas assegurou que não há nenhum constrangimento com as denúncias e especulações envolvendo as ações da Telebrás na Bolsa de Valores. “Das informações que detenho e da tranquilidade como nós estamos trabalhando essa questão, não tenho o menor constrangimento e sei que o Plano Nacional de Banda Larga não se afastará um centímetro de suas diretrizes”, disse.

Sobre a possibilidade de criação da CPI da Telebrás, que será proposta pelo líder do DEM na Câmara, deputado Paulo Bornhausen, Alvarez disse que respeita as prerrogativas do Legislativo, mas provocou. “Só espero que não seja mais um elemento para fugir da discussão da necessidade que o Brasil tem da banda larga ou para fugir dos problemas que esse próprio partido tem em outras searas”, disse Alvarez, numa referência ao mensalão do DEM, no Distrito Federal.

Sobre a valorização das ações da Telebrás, Alvarez disse que desconhece os mecanismos do mercado financeiro e que informações privilegiadas devem ser combatidas pela publicidade do fato. “Desde 2004 há registros sobre a possibilidade de a Telebrás ser usada. A partir daí, qualquer observação será especulativa”, disse.

Questionado sobre o motivo de o governo não anunciar oficialmente que usará a Telebrás, para evitar especulações, Alvarez disse que a decisão ainda não foi tomada e que deverá sair na próxima reunião que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá com vários ministros. Inicialmente essa reunião estava prevista para a primeira quinzena de março, mas, segundo Alvarez, por problemas de agenda do presidente, ela deverá ocorrer no fim de março ou no início de abril. Segundo ele o presidente Lula tem falado sobre a reativação da Telebrás, porque conhece os estudos e sabe que a Telebrás é a empresa que tem as melhores condições para ser a operadora da expansão da banda larga. Ele lembrou que o governo tenta há cinco anos, no Judiciário, através da Eletrobrás, recuperar as redes de fibras óticas que pertencem à Eletronet.

agencia estado

Rizzolo: O grande desafio hoje é viabilizar o programa de expansão da internet rápida no Brasil. Nisso tudo existem os que odeiam a participação do Estado e de tudo fazem para desqualificar o processo, usam de todos meios e subterfúgios para saciar a sede do capital e dos interesses de poucos. Afirmar que a reativação da Telebrás beneficiaria empresa que José Dirceu assessorou, ou que por detrás disso tudo está o ex. ministro, entendo ser mais um argumento pobre para fugir da discussão maior, que é sim manter esse projeto, o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), nas mãos do Estado brasileiro. Definitivamente a Telebrás deve ser reativada para esse fim, aliás, a discussão sobre a ressurreição da Telebrás vem desde 2004, e de forma transparente, o resto é bobagem da oposição, pura manobra diversionista, de uma oposição sem discurso.

Charge do Pelicano para o Bom Dia SP

Respeito ao Passado

“Uma grande nação jamais poderá esquecer seus velhos.” Esta antiga frase, que há muito ouvimos, na realidade contrapõe-se à visão mercadológica apregoada pela mídia, que, de forma geral, sempre tentou impor a versão de que o novo, o jovem, é o modelo ideal a ser seguido, e que o velho, ou ultrapassado, deve ser descartado. Na seara do trabalho, no que diz respeito às oportunidades de crescimento pessoal, a figura do mais idoso denota certa fragilidade, e cada vez mais idosos entram num processo de baixa autoestima, quando poderiam continuar dando sua contribuição à sociedade.

É verdade que no Brasil houve grandes avanços em relação aos direitos dos idosos, mas ainda há muito que se fazer. Hoje, o país tem 14,5 milhões de idosos – ou 8,6% da população total –, segundo informa o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base no Censo 2000. O instituto considera idosas as pessoas com 60 anos ou mais, mesmo limite de idade considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para os países em desenvolvimento.

Em uma década, o número de idosos no Brasil cresceu 17%. O envelhecimento da população brasileira é reflexo do aumento da expectativa de vida, decorrente do avanço no campo da saúde e da redução da taxa de natalidade. Além dos mecanismos já existentes de proteção aos idosos, precisamos implementar políticas de sustentação desse segmento da sociedade que já deu o seu quinhão de colaboração ao país, segmento esse que ainda vive às tormentas de uma sociedade baseada na produção e na associação entre a figura do jovem como sendo o produtivo e do idoso como colocado em posição de descarte.

Foi com base nesse pensamento que o presidente Lula sancionou a lei que institui o Fundo Nacional do Idoso (FNI). A mesma legislação também autoriza deduzir do imposto de renda de pessoas físicas e jurídicas as doações feitas aos fundos municipal, estadual e nacional do idoso. Este fundo visa financiar os programas e as ações relacionados ao idoso, para assegurar os direitos sociais. Na realidade, o fundo pretende criar condições que promovam autonomia, integração e participação efetiva do idoso na sociedade. Os recursos serão usados de acordo com o que diz o artigo 115 do Estatuto do Idoso: “O Orçamento da Seguridade Social destinará ao Fundo Nacional de Assistência Social, até que o Fundo Nacional do Idoso seja criado, os recursos necessários, em cada exercício financeiro, para aplicação em programas e ações relativos ao idoso”.

Programas de proteção aos direitos do idoso vão muito além dos recursos financeiros que o Estado deve prover. Devemos nos fixar numa política de divulgação entre os jovens, baseada nos conceitos de respeito e carinho aos mais velhos. É bom lembrar que infelizmente hoje não existe mais o respeito, a consideração que outrora existia às gerações passadas. Estimular uma educação nos moldes de alguns países asiáticos como o Japão, onde o predomínio pelo cuidado e zelo ao idoso surge já infância, pavimentará uma real política em relação aos velhos do futuro, que finalmente terão um final de vida digno, jamais esquecido pela nação brasileira.

Fernando Rizzolo

Lula falou e não disse – Coluna Carlos Brickmann

O presidente Lula é um excelente orador, com impressionante capacidade de improviso e grande facilidade para responder a perguntas incômodas – embora não haja perguntas incômodas, apenas respostas inconvenientes. Chamou a atenção, portanto, a dificuldade com que falou a O Estado de S.Paulo sobre o Mensalão. E essa dificuldade vem desde que o Mensalão foi denunciado: na ocasião, Lula disse que foi traído, mas não disse por quem, nem quando, nem como.

Agora, prometeu que vai investigar o caso ao deixar o Governo. “Quero saber de algumas coisas que não sei e que me pareceram muito estranhas”. Justo; mas por que não investigar agora, que tem o poder nas mãos, que comanda a Abin e a Polícia Federal, e deixar para depois, quando já não terá quem faça o serviço?

Há realmente coisas muito estranhas. Quem denunciou o Mensalão foi o presidente nacional do PTB, deputado Roberto Jefferson. Jefferson continua na presidência nacional do PTB e o PTB continua na base do Governo. Depois de uma denúncia dessas, por que não deixou o Governo? Por que o Governo o aceita?

Há os dólares na cueca, que antecederam em muito o dinheiro nas cuecas e nas meias do Panetonegate. Até hoje não se sabe qual a origem dos dólares, nem qual seria seu destino. Como não se sabe a origem do dinheiro dos aloprados, que tentavam comprar um dossiê contra José Serra. Como não se sabe para que o braço direito da hoje candidata Dilma Rousseff, Erenice Guerra, fazia um dossiê contra Ruth Cardoso. São coisas estranhas. Um enigma dentro de um mistério.

O fruto proibido do Pomar

Por ordem direta do secretário de Relações Internacionais do PT, Valter Pomar, a imprensa foi proibida de assistir aos debates do Congresso do partido. Os jornalistas não puderam assistir nem à palestra da candidata Dilma Rousseff às delegações estrangeiras. Por que? Pomar explicou: “Porque eu estou mandando”.

O gênio e o doido

O vice-governador em exercício de Brasília, Paulo Octavio, havia decidido renunciar em caráter irrevogável. Desta forma, aliviaria a pressão política que sofre e que eventualmente pode atingir a atividade de suas empresas. Comunicou a decisão aos companheiros de partido, aos assessores, à imprensa. Em seguida, copiando os bigodes mais fartos do Senado, revogou a decisão irrevogável e anunciou que quer ficar no cargo, saindo porém de seu partido, o DEM, antes de ser expulso (isso se não mudar de ideia até amanhã). De duas, uma: ou Paulo Octavio é um gênio político e desorienta seus adversários ou está cometendo um grande erro. Paulo Octavio nunca demonstrou até hoje sua genialidade política.

Trinta anos neste ano

O caro leitor com certeza deve lembrar-se do recente anúncio da autossuficiência brasileira em petróleo. Se tiver um pouco mais de idade e forçar a memória, lembrará do anúncio do fim das importações de gasolina, há 30 anos. Bom, o Brasil nunca deixou de importar petróleo. E volta agora a importar gasolina. De onde? A Petrobras começou anunciando importações da Venezuela, mas logo em seguida trocou o discurso: a gasolina virá dos EUA e da Europa. A primeira encomenda é de dois milhões de barris.

Os motivos e os motivos

De acordo com a Petrobras, o motivo da importação de gasolina é a queda da produção de álcool, provocada por mudanças climáticas. De certa forma, é verdade. Mas houve também a alta do açúcar, o que fez com que muitas empresas, esquecendo seu compromisso com o abastecimento de combustível, deixassem a produção de álcool de lado. E houve a alta na venda de veículos, com a redução de impostos. Aparentemente, embora seja tudo Governo, a turma do combustível não acreditou que com menos impostos haveria mais veículos nas ruas.

Os maiorais

A notícia de que a aliança entre Cosan e Shell formaria a maior empresa mundial de álcool ficou velha. Agora a maior é a aliança entre ETH, braço alcooleiro da Odebrecht, e a Brenco, multinacional criada para liderar o mercado mas que nunca chegou lá. Só a queima do bagaço deve gerar o equivalente a mais de um quarto da energia de Itaipu. E um dia, quem sabe, o álcool volta ao mercado.

Má notícia

Lembra do caso do menino João Hélio, que morreu sendo arrastado por um carro? Um dos participantes do roubo do carro, exatamente o que fechou a porta com o garotinho de fora, já está solto: fez 18 anos e não é mais “dimenor”. Enquanto estava detido, tentou assassinar um agente penitenciário. E está sendo protegido pela ONG Projeto Legal, que o considera ameaçado de morte. Tem direito a troca de identidade, a mudança para outra cidade e a uma Bolsa dessas.

Boa notícia

A Câmara de Londrina, no Paraná, discute no dia 23 uma tarifa especial de ônibus: R$ 1,00 aos domingos, em vez dos R$ 2,25 habituais. O projeto, do vereador Paulo Arildo, se baseia numa proposta do deputado federal Luiz Carlos Hauly, do PSDB, quando foi candidato à Prefeitura. Hauly é favorável também à passagem gratuita para estudantes de todos os níveis – mas isso fica para depois.

PERDENDO TUDO

“Havia um certo camponês que, inconformado com o sucesso de seu vizinho, decidiu iniciar uma empreitada para conseguir aumentar suas propriedades e assim superá-lo. Juntou todo o seu dinheiro e saiu procurando oportunidades. Encontrou um fazendeiro que tinha terras a perder de vista e que lhe fez uma excelente proposta de enriquecimento fácil. O camponês daria todo o dinheiro que tinha e em troca poderia se apropriar de quanta terra conseguisse. A regra era a seguinte: no início do dia o camponês marcaria com uma pedra o início das suas terras. Caminharia o quanto quisesse e marcaria o limite final de suas terra com uma segunda pedra. A única condição seria voltar até o pôr-do-sol até a primeira pedra. Caso ele não conseguisse voltar até o anoitecer, perderia tudo. O camponês aceitou imediatamente a proposta. Em sua cabeça, pensava que aquele fazendeiro era um grande tolo. Seria fácil conseguir muita terra com aquele dinheiro.

Na manhã seguinte o camponês chegou cedinho, marcou com uma pedra o local inicial e guardou no bolso uma segunda pedra para marcar o limite final das suas terras. Começou a caminhar, passou primeiro por terras boas para plantar milho. Mais adiante descobriu um pedaço excelente para o cultivo de batatas. E assim, durante todo o dia, ele percebeu que surgiam cada vez terras melhores. Sempre que ele pensava em parar e marcar o limite de suas terras para começar a voltar, ele se lembrava de seu vizinho e por isso queria mais.

E assim, deslumbrado com tantas terras boas e motivado pela inveja, ele seguiu o dia inteiro caminhando. De repente, quando se deu conta, percebeu que o sol já começava a aparecer no horizonte. Desesperado, ele colocou a segunda pedra no chão e começou a voltar. Primeiro em passos cadenciados, mas o desespero começou a tomar conta dele e os passos foram se transformando em uma corrida. O tempo acabava e ele não conseguia ver nem de longe o local onde estava a primeira pedra. Apavorado, correu com todas as forças que tinha enquanto o sol ia sumindo no horizonte. Finalmente chegou, completamente exausto, na primeira pedra. Mal podia falar, mal podia se mover. Caiu imóvel no chão e pôde ver o céu. Já era noite, as estrelas já tinham saído. O tempo havia acabado, ele havia perdido o dinheiro. Pela inveja do vizinho ele havia perdido tudo o que tinha”.

Esta história se repete todos os dias. Ao invés de estarem satisfeitas com o que têm, as pessoas estão sempre desejando o que os outros têm. Pessoas motivadas pela inveja perdem suas famílias, perdem sua saúde, perdem tudo.

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A Parashá desta semana, Terumá, começa a nos contar sobre a construção do Mishkan, o Templo móvel que acompanhou o povo judeu durante os 40 anos no deserto e foi substituído posteriormente pelo Beit Hamikdash (Templo Sagrado) de Jerusalém. E se prestarmos atenção veremos que não apenas esta Parashá trata do Mishkan, cerca de cinco Parashiot inteiras da Torá descrevem os mínimos detalhes de todos os seus utensílios. Então temos que nos perguntar: por que a Torá precisava se alongar tanto na descrição do Mishkan e seus utensílios se o Mishkan foi apenas algo temporário?

A resposta é que apesar do Mishkan ter funcionado somente por alguns anos, em cada detalhe da sua construção há mensagens eternas para todo o povo judeu e não apenas para a geração do deserto. Por exemplo, algo nos chama a atenção sobre uma diferença entre o Aron Hakodesh, a arca sagrada que continha a Torá, e o Mizbeach interno, o altar onde eram oferecidos incensos. Enquanto as medidas do Mizbeach interno eram todas medidas inteiras (um cúbito de comprimento, um cúbito de largura e dois cúbitos de profundidade), as medidas do Aron Hakodesh eram justamente o contrário, todas elas medidas quebradas (dois cúbitos e meio de comprimento, um cúbito e meio de largura e um cúbito e meio de profundidade). O que isto nos ensina?

Explica o Kli Yakar, um famoso comentarista da Torá, que neste pequeno detalhe está contido um grande ensinamento. O Aron Hakodesh que continha a Torá representa a nossa parte espiritual. Em relação ao nosso crescimento espiritual, temos sempre que olhar como se estivéssemos incompletos, que nos falta algo, que estamos apenas na metade do caminho. Temos que olhar sempre para quem tem mais espiritualidade do que nós, criando assim uma inveja positiva que nos leva a um crescimento espiritual. A pessoa que acha que já tem toda a sabedoria que precisa fica estagnada, não cresce mais espiritualmente. Por isso as medidas do Aron Hakodesh são todas quebradas.

Mas ao contrário, em relação ao mundo material, representado pelo Mizbeach de incenso, nas áreas como a riqueza e a honra temos que olhar sempre para aqueles que tem menos do que nós, e buscar enxergar que estamos completos com o que já temos. Por isso as medidas do Mizbeach de incenso são inteiras.

Ensinam os nossos sábios que todas as características que D’us colocou na alma do ser humano, mesmo as que parecem ser apenas negativas, podem ser canalizadas para o lado positivo, como é o caso da inveja. Se a inveja é utilizada para desejar as aquisições materiais que pertencem ao outro, ela se torna uma característica muito negativa e pode levar o ser humano à destruição, como está escrito no Pirkei Avót (Ética dos Patriarcas): “Três coisas tiram o homem do mundo: a inveja, a honra e a busca pelos desejos”. A pessoa invejosa se torna triste e depressiva pois nunca está contente com o que possui e vive em função do que os outros têm. Não importa que o carro dela é bom e tem tudo o que ela precisa, o que importa é que o vizinho tem um melhor e mais moderno. É por isso que o ápice dos 10 mandamentos é “Não cobiçarás”, pois a cobiça destrói a vida do ser humano e pode fazê-los transgredir os outros 9 mandamentos.

Mas D’us colocou a inveja em nossa alma para que possamos canalizá-la para o lado positivo, para o lado espiritual. Para que possamos ver o crescimento espiritual de outra pessoa e desejarmos também crescer espiritualmente. Isto faz com que tenhamos mais incentivos para nos esforçar e atingir nossos objetivos espirituais.

E assim ensinam os nossos sábios: “A pessoa que reza deve voltar seu coração para cima e seus olhos para baixo”. O coração está relacionado com o nosso crescimento espiritual e, portanto, devemos olhar para cima, para quem tem mais de que nós. Já os olhos estão relacionados com o desejo material e, portanto, devemos olhar para baixo, para quem tem menos do que nós. Somente assim poderemos continuar nosso trabalho de crescimento espiritual com a sensação de tranqüilidade de termos todas as ferramentas do mundo material que necessitamos para podermos crescer.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

Tenha um sábado de paz !

Fernando Rizzolo