Um sonho apagado, um talento esquecido

Por entre camelôs, numa calçada estreita, eu tentava caminhar em direção à avenida Dr. Arnaldo. Dia quente, desviava das pessoas como quem pratica um tipo de dança, num movimento de ombro com passos rápidos. O cheiro vindo dos bares na hora do almoço prenunciava que já devia ser por volta do meio-dia. No ponto de ônibus, o olhar das pessoas tinha algo de triste; gente pobre, balconistas, vendedoras, que num misto de amargura e resignação se enquadravam naquele cenário agitado, como atores a denunciar o desgaste do trabalho do dia a dia, as pressões do emprego, o medo da miséria, desses medos que sempre rondam as esperas dos ônibus dos trabalhadores como numa música pensante repetitiva.

Foi bem ali que ouvi alguém me chamar pelo nome, na subida da Teodoro Sampaio, já bem próximo do Hospital das Clínicas. “Dr. Fernando!” Olhei para trás e vi um rosto conhecido, familiar, porém bem envelhecido. Negro, cabelos brancos, malvestido, olhar hesitante, o homem me olhou e disse: “Sou o Roque. Lembra-se de mim? Trabalhei no sítio. Sou filho da Dona Geni, que foi cozinheira de vocês”. Meio constrangido, aproximei-me dele e pude constatar que se tratava mesmo do Roque. Estava ali encostado, ao lado de um bar, numa condição física e psicológica deplorável. Sim, era o Roque, amigo de infância, filho da caseira, que costumava andar a cavalo comigo, rir dos cachorros que nos seguiam e que sempre dizia que seria agrônomo ou veterinário.

Tentei conversar um pouco com ele, mas na mesma hora percebi o que o tempo, o abandono e a falta de oportunidade fizeram de um jovem que eu não via havia trinta anos. Logo após o falecimento da mãe, Roque desapareceu. Na época tinha 14 anos. Foi tentar a vida no Paraná, mas, como acontece com a maioria dos jovens pobres, nada deu certo em sua vida. Parou de estudar, foi trabalhar numa oficina, não tinha profissão definida, foi jogado no mercado de trabalho vivendo de serviços simples, de biscates que mal davam para se sustentar.

Roque entregou-se à bebida, perdeu a dignidade. E, na pobre condição de negro, deixou seus sonhos para trás – estava desempregado e literalmente bêbado. O impacto dessa desventura, desse desalento social, absorvi naquele momento, quando de repente o ouvi chamar meu nome. Foi ali, naquele instante, que percebi quanto é importante um jovem ser assistido, ter acesso à educação, à profissionalização, a um Bolsa Família que garanta à criança a educação básica, a real oportunidade de integrar os jovens aos programas de inclusão social, de protegê-los da desesperança e de promover a construção de seus sonhos através de programas como o ProUni, entre outros, levando-os até a universidade.

Na verdade, naquele momento, diante daquele cenário, eu tinha pouco a falar com Roque. Apenas lancei a ele um olhar como quem lamenta por seu caminho, ofereci-lhe ajuda e dei-lhe um cartão meu. Num gesto lento, ele estendeu a mão trêmula e disse: “Estou sempre aqui. As pessoas me ajudam”. Em seguida, numa voz embargada, completou a frase, perguntando-me com um sorriso triste: “E os cachorros que seguiam os cavalos, você se lembra?”. Meio desconcertado, balancei a cabeça afirmativamente e depois me despedi. Continuei meu caminho e por um instante me desconectei do tempo. Numa marcha acelerada, me dei conta de que os cachorros já haviam morrido, os cavalos tinham sido vendidos e o menino Roque, amigo de cavalgadas, não existia mais.

Foram três quarteirões até a Dr. Arnaldo, uma ladeira e tanto. Durante o trajeto, tentei desviar das pessoas o tempo todo, mas o destino me fez trombar com meu passado, jogando-me na cara aquilo que sempre me indignou: ver jovens com sonhos apagados e talentos esquecidos, jogados numa esquina qualquer, perto de um bar, longe da esperança de uma vida justa, digna e cidadã.

Fernando Rizzolo
Artigo publicado no Blog da Dilma

4 Respostas to “Um sonho apagado, um talento esquecido”

  1. izidoro de castro Says:

    Classifico como uma das mais humanas e melhor crônica que leio neste ano, gostei tanto que resolvi escrever. Embora o veja como cidadão do mundo, falaste de teu e nosso povo. Quantos Roques vagueiam por este Brasil varonil, a margem de todo o festivo discurso governamental, discurso do “novo avatar” de Garanhuns/PE. Roque pertencente ao “exército de brancaleones” mas com vínculos viscerais ao “Movimento Nacional do Sem” sem terras, sem tetos, sem educação, sem esperança, sem saude. Da forma simples que descrevestes este furtivo e inesperado encontro, visualizei Roque estendendo-lhe a mão e pedindo socorro, atenção, e clamando por um olhar do coração, de alguém que possa estendê-la, para ajudá-lo a reeguer-se. Roque, talvez inconscientemente, queira encontrar a “Nova Canãa, A Terra Prometida” tantas vezes repetidas nos demagógicos discursos dos novos “Reis no Posto” Quando derrubaremos a Bastilha?

    • Regina Cury Says:

      ……uáuuu……uma historia triste…..mas com certeza, com um final SUPER ALTO ASTRAL!!!!
      …………..PARABENS SEMP………….RE!!!
      ………………….MEU CARINHO,
      ………………………….REGINA CURY

  2. andreakelly212703@hotmail.com Says:

    Sim Dr. Fernando,
    São estes episódios na vida, que nos trazem de volta às nossas origens, e nos fazem afirmar que os meios justificam o fim. Quão importante uma oportunidade, bastando, que em algum momento, alguém confie e aposte em nós, quer como profissional, quer como pessoa humana.
    É muito fácil excluir de nossa razão e sentimentos aquilo que sequer tentamos entender. É cômodo, conveniente e altamente lucrativo construir barreiras para impedir que o curso da marginalidade escoe naturalmente para leito aristocrático, ou seja, façamos presídios para enjaularmos aos negros, pobres, filhos de prostitutas, sem terra, sem tetos, sem nada, do que nos preocupar com a nascente do problema.
    Ledo e crasso engano burguês entender que bastando nos amontoar em condomínios de luxo, para estarmos imunes à violência a e criminalidade da sociedade. Realidade esta, vivida por muitos afortunados nos dias de hoje.
    Enquanto apequenado o pensamento capitalista e xenofobico, transfigurado em uma falsa idéia de justiça, porquanto defende aprisionamento dos nossos adolescentes, tal qual o faz aqueles que proclamam a diminuição da maioridade penal, negando e satirizando uma segunda chance aos ex detentos, recebem e receberão, como gratidão, em reciprocidade, com a mesma intensidade de violência e descaso que dispensam à seus “Futuros Algozes”.

  3. leo Says:

    TODA A VIOLENCIA,HUMILHAÇAO,TUDO QUE É MAL,É CAUSADO PELA EXTREMA GANANCIA DE UNS POUCOS,QUE SÓ QUEREM O MUNDO PARA SI,ESQUECENDO QUE NÓS SÓ TEMOS ESTE PLANETA!!!QUANDO GAIA COMEÇAR A SE DEFENDER,NIGUEM ESCAPARÁ DA DESTRUIÇAO!!!!


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