TUDO PELA METADE

Jaime era um garoto que nasceu e cresceu na cidade grande sem nunca ter conhecido o campo. Comprava todos os dias pães na padaria mas não tinha a mínima idéia de todos os processos necessários para fazê-los. Imaginava que, como as maças e as peras, os pães também já nasciam prontos e eram colhidos das árvores.

Certa vez seus pais tiveram que se mudar para uma pequena fazenda. Iriam passar algum tempo lá e seria uma grande oportunidade para Jaime aprender coisas novas. Se tornaram vizinhos de um agricultor com extensos campos de cultivo. Nos primeiros dias Jaime viu o vizinho dirigindo um trator e abrindo sulcos na terra. Parecia ser algo interessante, mas para que serviam aqueles buracos todos? No dia seguinte ele estranhou ver o agricultor atirando nos sulcos alguns feixes de trigo. Por que ele estragava tanto trigo assim? E para o seu desespero ele viu novamente o trator passar pelo campo, enterrando de vez aquele trigo. Jaime ficou um pouco chateado, sem entender as atitudes daquele agricultor. Parecia um grande tolo!

Passados alguns dias ele foi novamente até o campo e viu que começavam a brotar algumas plantas. Que cena maravilhosa, o campo inteiro estava começando a florir. Ele pensou que aquilo era um grande jardim, plantado para enfeitar a fazenda vizinha. As plantas foram crescendo e viraram belos feixes de trigo. Jaime todos os dias acordava e ia ver o maravilhoso campo de trigo.

Mas uma surpresa o esperava. Certa manhã o agricultor levantou cedo e, junto com muitos funcionários munidos de foice, começou a cortar todos os feixes de trigo. Jaime se desesperou. Por que aquele homem malvado estragava o lindo jardim que havia plantado? Por que ele destruía o que havia trabalhado tanto para plantar? No final do dia já não havia mais nenhum feixe de trigo plantado, havia sido tudo cortado e atirado no chão. Para piorar, aquele homem malvado ainda pegou uma carroça sem rodas puxada por bois e começou a passar por cima dos feixes de trigo, destruindo-os completamente. Depois recolheu as pequenas sementes que haviam se separado do caule e, para completar a maldade, moeu todas elas, transformando-as em pó. Que desperdício! Jaime já não agüentava mais, queria ir embora e abandonar aquele lugar estranho.

Mas para a surpresa de Jaime, no dia seguinte ele viu um pouco daquele pó ser misturado com água, tomar a forma de um pão e ser levado ao forno. Em poucos minutos saía do forno um lindo pão fresco, que enchia a casa com seu cheiro delicioso. Era assim que os pães eram feitos! Tudo era parte do processo! Mesmo aqueles momentos de “maldade” eram, na verdade, parte do processo necessário para produzir o pão. Se Jaime tivesse saído no meio do processo, certamente nunca teria entendido nada e teria achando que o agricultor era uma pessoa malvada”

Assim é a nossa vida. Vemos coisas que não entendemos. Inundações, terremotos, doenças, sofrimentos. Questionamos constantemente a bondade do Criador do mundo. Mas como queremos entender tudo de uma vez só se estamos apenas entrando no mundo “no meio do processo”? Será que não é injusto julgar as atitudes de D’us sem saber onde tudo começou e onde tudo vai terminar?

*

Nesta semana lemos a Parashá Ki Tissá, que começa com um ensinamento muito interessante: o povo judeu não pode ser contado de forma direta, o censo deve ser feito sempre de uma maneira indireta, isto é, as pessoas devem trazer algum objeto e assim, através da contagem dos objetos, pode-se saber o número de pessoas. Durante a época em que o povo judeu estava no deserto a contagem era feita através da doação de meio Shekel (uma moeda de prata utilizada na época) cada um. Por que a contagem era feita com dinheiro e não com outro objeto? Pois o dinheiro arrecadado era utilizado para construir e manter as bases de sustentação do Mishkan (Templo Móvel). Tanto os pobres quanto os ricos precisavam doar, mas a doação não podia ser nem mais nem menos do que meio Shekel, como está escrito “Todo aquele que passar pelo censo, de 20 anos para cima, deve dar sua porção para D’us. Os ricos não podem aumentar e os pobres não podem diminuir do meio Shekel” (Shemot 30:14,15).

Mas desta doação surgem algumas perguntas: em todas as partes que compunham o Mishkan, como os utensílios e as outras partes estruturais, cada um doava de acordo com a vontade de seu coração, isto é, cada um doava quanto desejava, alguns mais e outros menos. Por que então na base do Mishkan todas as pessoas tinham que doar a mesma quantia? Além disso, por que o valor doado era de meio Shekel e não de um Shekel inteiro, o que facilitaria na contagem do povo? E finalmente, qual a relação deste ensinamento com o terrível pecado da construção do bezerro de ouro, que é descrito na continuação desta Parashá?

Explicam os nossos sábios que existe uma regra interessante sobre o Mishkan: todos os elementos que compõem o Mishkan nos ensinam sobre alguma característica com a qual devemos nos comportar para chegarmos a níveis espirituais mais elevados. A base do Mishkan é o elemento que sustentava toda a estrutura, era o que mantinha o Mishkan de pé. Nos ensina o rabino Yossef Salant que a base do Mishkan está associada com a base do ser humano: a sua Emuná (fé). É a Emuná que mantém o homem de pé, que o sustenta durante todos os seus dias. Se uma pessoa perde sua Emuná, ele não tem mais nada em sua vida. Se pudéssemos concentrar todas as 613 Mitzvót da Torá em apenas uma Mitzvá, seria a Mitzvá de Emuná.

Em todas as Mitzvót e níveis espirituais que o ser humano pode chegar em sua vida, D’us não cobra que todos estejam no mesmo nível. É o que afirma a própria Torá em suas palavras finais “Nunca mais se levantou um profeta em Israel como Moshé” (Devarim 34:10). D’us cobra cada pessoa de acordo com as suas possibilidades, cada um tem um propósito diferente e pode chegar a um nível compatível com as suas próprias características. Não vamos ser cobrados por não termos chegado ao mesmo nível de Moshé, cada um vai ser cobrado de acordo com as ferramentas que recebeu de D’us. É por isso que em todos os outros elementos do Mishkan cada um podia doar quanto quisesse, de acordo com a vontade de seu coração, nos ensinando que as pessoas têm capacidades diferentes e são cobradas por D’us em níveis diferentes.

O mesmo não ocorre em relação à Emuná. O nível de Emuná que devemos ter na vida é o mesmo para todos, independente do nível de cada pessoa, independente de qualquer outra característica. Cada ser humano deve trabalhar para chegar até o máximo nível possível de Emuná, tanto na certeza da veracidade de cada palavra da Torá quanto na existência de um Criador que sabe tudo, pode tudo e está presente em todos os lugares. É por isso que, para as doações que eram destinadas para a base do Mishkan, cada pessoa precisava trazer a mesma doação, nem um centavo a mais nem a menos.

Mas por que a doação para a base do Mishkan era de meia moeda e não uma moeda inteira? Para nos ensinar que um dos fundamentos da Emuná é sabermos que em nenhum evento que ocorre em nossas vidas estamos vendo o quadro completo, em nenhum acontecimento vemos o começo, o meio e o fim, sempre estamos no meio de um processo. Com este ensinamento claro em nossos corações conseguimos responder muitos questionamentos que nos incomodam. Perguntas do tipo “Por que pessoas boas sofrem e pessoas más têm sucesso na vida?” somente nos incomodam porque estamos vendo apenas parte do filme. Temos uma vida limitada, não vimos o começo de muitos processos, entramos apenas no meio e, portanto, é impossível querer entender tudo de uma só vez. Por isso a pessoa que tem esta certeza no coração consegue trabalhar e crescer em seu nível de Emuná.

Ensina o Talmud que a doação do meio Shekel veio como uma expiação por termos construído o bezerro de ouro no meio do dia. O que isto significa? A construção do bezerro de ouro aconteceu porque o povo judeu se desesperou. O povo judeu se equivocou na conta dos 40 dias que Moshé deveria permanecer no Monte Sinai e se desesperou ao imaginar que ele havia morrido. O que significa que o bezerro de ouro foi feito “no meio do dia”? Que o erro do povo judeu foi conseqüência da falta de Emuná, pois eles viram somente uma parte da história e quiseram tirar conclusões de forma precipitada. A consequência foi trágica para o povo judeu, pois quando se tira a fundação de uma estrutura, a estrutura inteira racha e desmorona.

É por isso que nossos sábios estabeleceram tantas Brachót (bênçãos) no nosso dia, praticamente tudo o que nós fazemos está associado a uma Brachá. Por exemplo, até mesmo após o simples ato de ir ao banheiro nós pronunciamos uma Brachá, na qual agradecemos pelo perfeito funcionamento do nosso corpo. Isso nos faz refletir sobre a perfeição do Criador do universo, que fez tudo com capricho até os mínimos detalhes. As Brachót colocam a tranqüilidade no nosso coração de saber que tudo o que o Criador faz é com perfeição e para o nosso bem. Se algo nos parece que não está completo, temos que saber que o erro não está nos atos do Criador e sim na limitação dos nossos olhos.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

Tenha um sábado de paz

Fernando Rizzolo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: