NOVAS APTIDÕES

O Sr. Dovid Dryan, um judeu muito humilde e simples, era um Shochet (pessoa que faz o abate Kasher de animais) conhecido por todos pelo seu temor a D’us e extremo cuidado com a fala, evitando a todo custo pronunciar Lashon Hará (falar mal de outras pessoas). Em certa fase de sua vida o Sr. Dovid precisou mudar-se para uma cidade inglesa chamada Gateshead. Chegando lá ele descobriu que naquela cidade não havia nenhuma Yeshivá. Ele pensou consigo mesmo:

– Como posso viver em um lugar onde não há uma única Yeshivá?

Talvez muitos de nós também pensaria a mesma coisa nesta situação. Mas que atitude tomaríamos? Nenhuma. Já o Sr. Dovid decidiu não ficar apenas na pergunta, ele agiu. Ele dedicou muito tempo e esforço para realizar uma tarefa aparentemente impossível em face das consideráveis dificuldades. Ele assumiu muitas tarefas que não estavam dentro das áreas de suas competências, incluindo a captação e a administração de fundos para a Yeshivá, atividades que ele não tinha o mínimo conhecimento e experiência.

Com seu esforço incansável o Sr. Dovid conseguiu fundar e administrar por muitos anos a Yeshivá Gateshead. Desempenhou também um papel significativo na formação do Kolel Gateshead (centro de estudos de Torá para homens casados) e de um Seminário de estudos judaicos para mulheres. Certamente sua dedicação sem limites é um dos grandes responsáveis pelo fato da Yeshivá Gateshead ser atualmente reconhecida como o maior centro Torá da Europa, através do qual milhares de rapazes e moças recebem um elevado nível de educação de Torá.

O Sr. Dovid Dryan poderia ter decidido que sua função no mundo era apenas ser um simples Shochet, sem precisar se envolver em projetos difíceis. Ele poderia assumir que desta maneira estava cumprindo todas as suas responsabilidades com a comunidade e com D’us. Mas em vez disso ele motivou-se a fazer o que era necessário e D’us ajudou-o a ter sucesso. (História Real)

*

Nesta semana lemos duas Parashiot juntas, Vayakel e Pekudei, que tratam basicamente do mesmo assunto: as atividades de construção do Mishkan (Templo Móvel) de acordo com todos os ensinamentos de D’us. No meio da descrição das atividades de construção do Mishkan a Torá diz: “E veio todo homem cujo coração o inspirou…” (Shemot 35:21). Mas foi esta a qualificação necessária para as pessoas que construíram o Mishkan? Não era necessário provar nenhum tipo de habilidade? Apesar da Torá descrever detalhes construtivos difíceis de serem executados, o necessário foi apenas um coração inspirado?

O Ramban (Nachmânides) escreve que o Mishkan envolvia vários trabalhos de tecelagem, costura e construção, que exigiam pessoas muito habilidosas e experientes. Mas os judeus eram aparentemente desqualificados para estes tipos de trabalho, pois durante os dois séculos de escravidão no Egito eles haviam realizado apenas tarefas grosseiras de construção. Onde é que estas pessoas haviam aprendido a executar trabalhos finos tão difíceis? Explica o Ramban que realmente ninguém tinha nenhuma experiência nem conhecimento nestas áreas, mas as pessoas encontraram no fundo de suas almas a capacidade de fazer estes trabalhos. Essa força oculta veio à tona como consequência do profundo desejo de cumprir a vontade de D’us. Como resultado do desejo ardente de cada judeu que se voluntariou para construir o Mishkan, D’us deu-lhes a capacidade de fazer coisas que nunca haviam aprendido na vida.

Há um princípio muito conhecido de que D’us dá para cada um de nós um conjunto único de ferramentas com as quais podemos chegar ao nosso máximo potencial. Mas este conceito é muitas vezes mal aplicado no nosso crescimento espiritual. À medida que crescemos naturalmente ficamos cientes dos nossos pontos fortes e fracos e temos a tendência de limitar nossas atividades apenas dentro de áreas de atuação dos nossos pontos fortes, ignorando os campos em que somos menos aptos. Por exemplo, uma pessoa pode sentir que ela desempenha bem a função de falar na frente de pequenos grupos, mas que não pode falar diante de grandes audiências. Assim, mesmo quando existir a necessidade de alguém para falar em tal situação, ela vai fugir da responsabilidade porque se rotulou como alguém incapaz de falar na frente de muitas pessoas. Aprendemos com a Parashá desta semana que esta é uma atitude errada. As pessoas que se apresentaram para trabalhar no Mishkan não tinham consciência do quanto eram capazes de realizar. No entanto, como resultado da sua vontade de cumprir a vontade de D’us, descobriram talentos até então inexplorados.

Assim também acontece em nossas próprias vidas, muitas vezes nos limitamos por acharmos que não temos capacidade de ir mais longe. Às vezes surge a necessidade de que uma determinada tarefa espiritual seja executada e nos esquivamos por sentir que somos incapazes de realizá-la. Mas nos ensina o Pirkei Avót (Ética dos patriarcas): “Em um lugar onde não há homens, se esforce para ser um homem”, isto é, se não há pessoas aptas a realizarem certa tarefa, devemos tomar sobre nós a responsabilidade de fazê-la. Não está escrito no Pirkei Avót que devemos nos levantar para fazer o que ninguém está fazendo apenas em uma área onde nos sentimos altamente capazes. Pelo contrário, a única coisa que devemos analisar é se existe alguém que pode realizar as tarefas necessárias para cumprir a vontade de D’us. Se não há, então é certo que se nos esforçarmos então D’us revelará em nós talentos ocultos.

Muitas vezes o fracasso inicial nos faz desistir. Mas mesmo pessoas que no passado já se esforçaram em certas áreas e não tiveram sucesso não estão isentas das responsabilidades nestas áreas. O rabino Israel Meir HaCohen, mais conhecido como Chafetz Chaim, nos dá um exemplo prático deste conceito. Ele nos ensina a medir nossas forças observando o quanto estamos dispostos a nos esforçar quando o que está em jogo são os nossos próprios interesses. Por exemplo, se um negócio não está indo bem, uma pessoa não vai simplesmente desistir, antes ela sempre pensa em como pode melhorar a situação. Ela procura o conselho de outros homens de negócio, tenta outras alternativas, investe de maneiras diferentes e, eventualmente, muitas vezes acaba sendo bem sucedida após algumas tentativas.

Ensina o Chafetz Chaim que se cumprir a vontade de D’us tivesse o mesmo valor para uma pessoa do que os seus próprios assuntos pessoais, ela procuraria aconselhamento e estratégias de como se desenvolver espiritualmente e com certeza D’us a ajudaria a encontrar formas de ter sucesso. No entanto, não o fazemos desta maneira. Quando vemos que nosso crescimento espiritual é difícil, que não há nenhuma maneira de crescermos imediatamente, muitas vezes desistimos com a sensação de que estamos isentos de qualquer esforço futuro. A verdade é que se estivéssemos dispostos a aplicar o mesmo esforço que utilizamos nos nossos interesses financeiros no nosso crescimento espiritual, poderíamos então superar nossos limites.

As pessoas que elevaram seus corações para cumprir a vontade de D’us descobriram forças que eles nunca poderiam imaginar que possuíam. Nós também temos a habilidade de quebrar nossos limites e conseguir o aparentemente impossível. Basta ter o senso de responsabilidade e, acima de tudo, querer.

SHABAT SHALOM

Rav Efraim Birbojm

Tenha um sábado de paz

Fernando Rizzolo

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