Muito Obrigado

“Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, em 1945, a Europa estava devastada. Os judeus haviam sido dizimados e os poucos sobreviventes tinham perdido literalmente tudo. Era o caso de um jovem rapaz polonês que havia perdido toda a sua família, seu dinheiro e até mesmo a sua saúde. Estava completamente abandonado em uma enfermaria que cuidava de feridos de guerra. Seu tio, um milionário que morava nos Estados Unidos, fez um gigantesco esforço para encontrar o rapaz. Levou-o para viver nos Estados Unidos com sua família e pagou os melhores médicos e os mais caros remédios até que ele ficou completamente curado.

Como o rapaz tinha pouco estudo, seu tio pagou também os melhores professores particulares para o prepararem para a universidade. Comprou-lhe roupas novas, servia-lhe apenas as melhores comidas e bebidas. O rapaz começou a se desenvolver e entrou em uma excelente universidade. Lá conheceu uma boa moça, terminou como um dos melhores alunos de sua turma e conseguiu um bom emprego. Após algum tempo decidiu que era hora de casar e construir sua própria família. Novamente seu tio o ajudou, pagando todo o casamento e ajudando-o em cada pequeno detalhe. Um dia antes do casamento, o jovem olhou para o tio, apertou-lhe a mão e disse:

– Tio, obrigado por tudo o que você fez por mim.

O tio ficou furioso. Agarrando-o pela gola da camisa, ele falou:

– Eu te salvei da morte, cuidei da sua saúde, te dei as melhores roupas e comidas, cuidei dos seus estudos e do seu casamento, e tudo o que você me diz é “obrigado por tudo”? É assim que você demonstra todo o seu agradecimento?”

Assim nos comportamos com D’us, que nos dá tudo: vida, comida, roupa, saúde, inteligência. E na maioria das vezes, quando nos lembramos de agradecer, dizemos apenas “muito obrigado”.

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O Shabat desta semana é conhecido como “Shabat Hagadol”, o último Shabat antes da festa de Pessach, que começa na noite da próxima segunda-feira (29 de março de 2010). Lemos a Parashá Tzav, que continua descrevendo alguns dos serviços realizados no Mishkan, entre eles os Korbanót (sacrifícios). Um Korban em especial que nos chama a atenção é o “Korban Todá” (Sacrifício de agradecimento), que era oferecido por qualquer pessoa que havia passado por um grande perigo e havia escapado com vida. Nossos sábios explicam que havia quatro casos em que a pessoa tinha que trazer o Korban Todá: ao ser libertado da prisão, após se curar de uma doença grave, após atravessar o oceano e após atravessar o deserto. Atualmente, quando não temos mais o nosso Beit-Hamikdash (Templo Sagrado), o Korban foi substituído pelo Birkat Hagomel, uma Brachá (Benção) pronunciada em público após passar por um dos quatro perigos mencionados anteriormente, em um agradecimento a D’us pela bondade de nos ter salvo.

O Korban Todá está muito relacionado com a festa de Pessach, pois a essência de Pessach é o reconhecimento e o agradecimento a D’us por todas as bondades que Ele fez conosco durante a época em que éramos escravos no Egito e fomos retirados de lá com Mão forte e Braço estendido. Grande parte da Hagadá que lemos no Seder de Pessach é composta de louvores e agradecimentos a D’us. E um dos momentos especiais de agradecimento é quando lemos o “Daienu” (Nos bastaria). Apesar de “Daienu” parecer uma divertida canção de crianças, ela nos ensina uma importante e profunda lição para nossas vidas. Uma lição de como deve ser o nosso agradecimento pelas bondades que recebemos dos outros.

Umas das maiores virtudes de um ser humano é saber ter “Acarat Hatóv” (reconhecer as bondades que recebe dos outros). Mas Acarat Hatóv não é apenas dizer “muito obrigado”, é refletir sobre todo o esforço que foi investido para que a bondade chegasse até nós. Por exemplo, quando somos convidados a jantar em uma casa, ao sair nós agradecemos pela comida. Mas precisamos lembrar quantas bondades estão por trás daquele prato de comida. Para a comida estar pronta na mesa foi necessário alguém sair para comprar os ingredientes, lavá-los, prepará-los, cozinhá-los e arrumar toda a mesa. Quando o prato de comida está sendo servido, é apenas o último estágio de uma série de bondades anteriores. Passamos às vezes uma vida inteira casados sem nos dar conta de quanto esforço nossas esposas fizeram para que a janta esteja servida na mesa na hora em que voltamos do trabalho.

É isso o que o “Daienu” nos ensina. O “Daienu” é composto de 14 “estágios” de agradecimento. Expressamos que se D’us tivesse feito bem menos por nós, mesmo assim estaríamos agradecidos, mas Ele fez mais e mais, superando nossas expectativas. Ele poderia apenas nos ter tirado do Egito, mas fez ainda mais e castigou os egípcios que nos fizeram mal. Ele poderia ter apenas nos libertado fisicamente, mas fez ainda mais e nos libertou espiritualmente, nos entregando a Torá. Ele poderia ter nos deixado no deserto, mas fez ainda mais e nos trouxe para a Terra de Israel. Quando olhamos todos os “estágios” de bondades que D’us fez conosco, fica óbvio que não é suficiente apenas um “muito obrigado”.

A palavra “Todá” (agradecimento) vem de “Lehodót”, que significa tanto “agradecer” quanto “reconhecer”. Apenas podemos agradecer de verdade quando reconhecemos o que recebemos de bom. Se uma pessoa nos dá um relógio Rolex e pensamos que é falsificado, falaremos apenas um “obrigado”. Apenas quando reconhecermos o verdadeiro valor do relógio é que nosso agradecimento será sincero.

Precisamos aplicar este ensinamento em nossas vidas. Um exemplo trazido pelo Rabino Simcha Cohen em seu livro “Tikshoret” é quando uma pessoa faz uma festa e convida muitas pessoas. Como há muitos convidados, o dono da festa muitas vezes deixa de dar uma atenção especial a alguns dos convidados. Quantas vezes fazemos uma festa e no meio de uma animada conversa com um dos convidados chega outra pessoa que nos interrompe? Como não queremos parar a conversa no meio, damos apenas um rápido “oi” e logo voltamos à conversa anterior. Talvez aquele convidado tenha feito um gigantesco esforço para poder estar na festa e não soubemos dar valor. Ele precisou deixar seus filhos sozinhos com uma baby-sitter contratada, ficou muito tempo no trânsito e pagou um alto valor para estacionar o carro. E quando a pessoa chega, após todo este esforço, é literalmente ignorada pelo dono da festa. Isto acontece apenas porque não paramos para refletir e entender os esforços que estão atrás de cada bondade que recebemos. Recebemos as bondades e achamos tudo normal e óbvio.

Ensinam os nossos sábios que se não reconhecemos o bem recebido das pessoas mais próximas, certamente nunca chegaremos a reconhecer as bondades que D’us faz conosco. Por que? Pois D’us nos faz bondades o tempo inteiro, sem interrupção. O simples fato de estarmos respirando é um ato de grande bondade de D’us. Poder abrir os olhos de manhã e enxergar é uma bondade sem tamanho. Até mesmo ir ao banheiro e verificar que o corpo está funcionando como uma máquina perfeita é uma grande bondade. Porém, se não nos acostumamos a parar e refletir, as bondades se banalizam e não conseguimos mais reconhecê-las.

Voltando à Hagadá, observamos que após o “Daienu” repetimos novamente todos os 14 “estágios” resumidamente em um único parágrafo. Por que? Para ver o quadro completo, todas as bondades juntas pronunciadas de uma só vez. Para aprendermos a dar valor a tudo o que recebemos dos outros. Para aprendermos a enxergar sempre o quadro completo. Para deixarmos de receber bondades sem perceber o esforço que está por trás delas. Somente assim poderemos um dia chegar a reconhecer e agradecer as bondades que recebemos constantemente de D’us.

SHABAT SHALOM e PESSACH KASHER VE SAMEACH (Um Pessach Kasher e alegre)

Rav Efraim Birbojm

Tenha um sábado de paz !

Fernando Rizzolo

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