Onde Estão os Revolucionários?

*Por Simon Jacobson

Há pouco tempo fui a uma sinagoga para as preces noturnas. Em meio ao serviço, notei um congregante comportando-se rudemente com outro. Eu estava a ponto de dizer alguma coisa, quando um homem perto de mim sussurrou: :”Estes dois sujeitos estão brigando desde que estou aqui. Não se envolva.”

“Não é uma grande coisa,” você poderia pensar. “As pessoas em toda parte têm briguinhas tolas.” Porém eu não podia simplesmente deixar isso passar.

Uma experiência de infância não me permitiria. Quando eu tinha seis anos, lembro-me claramente – numa espécie de imagem congelada, do tipo que resulta somente de uma experiência de criança para sempre congelada na memória – de uma luta a socos que ocorreu em nossa sinagoga. Jamais me esquecerei do meu medo e horror ao assistir aqueles dois adultos se socando em meio dos serviços de prece. Quando perguntei ao meu pai o que estava acontecendo, ele simplesmente descartou o problema com a mão e disse “Tzvai idioten” (dois idiotas)…

Anos depois, eu tinha ouvido pessoas demais contando-me como experiências semelhantes as tinham afastado da religião e de instituições religiosas: tendo testemunhado profundas inconsistências entre as aparências externas das pessoas (como indivíduos devotos) e seu comportamento real, tendo visto como uma pessoa pode ser obsessivamente comprometida com certos rituais e simultaneamente ser profundamente grosseira e mal educada; como determinados indivíduos religiosos fazem julgamentos e são condescendentes, agindo como se fossem “mais sagrados que você”, e em suas vidas pessoais, por baixo da superfície, podem se apegar a bobagens, ganância e até… lutar a socos; como divisões e pura acrimônia primitiva tem permeado tantas comunidades de fé; como crianças em lares religiosos estão sendo magoadas por adultos egoístas, não diferentes de seus semelhantes em lares seculares. Todas essas discrepâncias e contradições têm contribuído bastante para o cinismo e rejeição atuais da vida religiosa.

Obviamente, isso deve ser qualificado por dois fatos importantes. O primeiro é que isso de maneira alguma é um estereótipo de indivíduos religiosos, muitos dos quais são almas gentis e sensíveis, pessoas que estão continuamente se esforçando para refinar-se exatamente por causa de suas crenças. Alguns dos mais nobres, cultivados e espirituais seres humanos na terra são pessoas de fé. O segundo ponto é que um sistema jamais deveria ser julgado por qualquer pessoa ou por um grupo de indivíduos. A religião estabelece um padrão específico para a virtude humana e a justiça. Nenhuma pessoa neste planeta pode chegar ao padrão mais elevado.

O compromisso da vida é alguém que sempre aspire a elevar-se, enquanto conhece suas falhas e que sempre há horizontes maiores a conquistar.O fato de que alguns poucos indivíduos possam ser hipócritas e se comportar de maneiras constrangedoras não se reflete no sistema como um todo, somente na realidade de que o sistema não impede que pessoas tolas façam opções erradas e se comportem de maneira imprópria ou imatura. Não é diferente, dizem, que um cientista falsificar dados é algo que se reflete em todos os cientistas e na ciência.

Porém aqueles poucos (ou alguns a mais) indivíduos que claramente se comportam de maneira contrária ao padrão religioso certamente são capazes de dar um soco que deixa o olho negro – um soco que perdura.

Portanto, em tempos perturbadores como esse, quando religião corrupta e a feiúra da natureza humana ergue sua cabeça, eu gostaria de fazer uma viagem – uma jornada que nos leva três mil anos atrás, ao nascimento da religião.

O que diria o homem que nos deu o monoteísmo e adotou uma vida de virtude, justiça e bondade sobre a religião em nossos tempos? Ele seria capaz de reconhecê-la? Como Avraham reagiria se entrasse numa sinagoga moderna? Ele prontamente se juntaria à mesa de diretores ou se tornaria parte de seu corpo docente? E como ele reagiria a uma briga na sinagoga entre seus tetra-tetra-tetranetos?

Aqui está minha especulação sobre a atitude de Avraham para com a vida religiosa atual.

Coemecemos com a briga. Se Avraham entrasse numa sinagoga e visse a luta que eu presenciei, não tenho dúvidas de que ele choraria. Teria a mesma reação a todas as outras inconsistências acima mencionadas.

Porém a questão maior é se ele sequer entraria numa sinagoga do Século 21? Ficaria à vontade ali? E qual sinagoga, exatamente, ele escolheria?

Avraham ficaria bem perturbado por qualquer casa de D’us que tenha sido transformada numa burocracia. Duvido que Avraham se sentisse confortável em qualquer sinagoga que não desse as boas-vindas igualmente a todo indivíduo, onde toda alma se sentisse em csa.

Talvez seja por isso que Rabi Isaac Luria, o Arizal (um cabalista do Século 16) e o Baal Shem Tov (fundador da Chassidut) – como era costume de outros sábios e místicos – recitasse certas preces no campo na véspera do Shabat. Lemos na porção Chayei Sarah da Torá (Bereshit 24:63): “Yitschac saiu para falar (rezar) no campo.” Yitschac deve ter aprendido isso com alguém antes dele – ninguém menos que seu pai, Avraham1 Algumas preces talvez sejam mais condutivas no campo, em meio à natureza, sem distrações das estruturas feitas pelo homem e instituições. Até mesmo as estruturas onde as preces geralmente são feitas exigem janelas que nos permitem ver e atingir além da estrutura, até o céu. Avraham estaria procurando as janelas…

O Baal Shem Tov certa vez correu para fora de uma sinagoga relativamente vazia, reclamando que o local estava muito lotado, não lhe deixando espaço para rezar. Quando seus alunos perguntaram o que ele queria dizer, o Baal Shem Tov explicou: “O Zohar diz que amor e reverência são como as duas asas de uma ave que leva nossas preces voando até o céu. Nessa sinagoga em particular as preces estavam sendo recitadas sem qualquer sentimento, deixando-as presas ao chão, como pássaros engaiolados, incapazes de voar. A sinagoga portanto estava tão apinhada com aquelas preces “mortas”, que não deixava espaço para o Baal Shem Tov rezar…

Avraham estaria procurando as janelas – pelas preces se elevando e pelos espíritos alados.

Avraham foi um pioneiro do não-conformismo. Desafiou sua família e toda a sua sociedade, rejeitando o paganismo e mapeando um novo curso que mudaria a história para sempre. Não há dúvida de que Avraham, o pai da individualidade e não-conformismo, ficaria chocado ao ver como o caminho Divno que ele iniciou – deixando para trás todas as suas zonas de conforto, e escolhendo para si mesmo e seus filhos uma vida de virtude e serviço – como a religião se tornou tão conformista hoje em dia, muitas vezes asfixiando o espírito humano.

Avraham foi um pensador global com uma visão universal para liderar as pessoas rumo à redenção pessoal e coletiva. Ele claramente acharia estranho que alguns judeus de hoje se tornaram tão paroquiais, e até divisivos, concentrando-se em suas vidas pessoais, e com frequência esquecendo que D’us nos deu um projeto universal para melhorar o mundo em geral. E como as notas musicais numa grande composição, precisamos uns dos outros para realizar nossas aspirações individuais.

Avraham não se isolou em estudo, prece e devoção Divina. Ele abriu sua casa a todos, ele “criou” (inspirou) almas em Charan, ele fez disso a obra de sua vida, não apenas ensinar aos filhos o caminho da integridade e da justiça, como inspirar todos com quem entrava em contato. Como, certamente Avraham se perguntaria, sua atitude confiante e ativa – como uma força a impulsionar o progresso humano – se torna tão defensiva e tentativa?

Avraham foi um apaixonado, uma alma revolucionária que mudou o mundo ao seu redor, em vez de deixar que o mundo o mudasse. O que aconteceu, perguntaria Avraham, que hoje tantas pessoas de fé carecem de paixão e alma? Por que há tantas pessoas mecânicas, que cumprem as mitsvot de cor? E por que as pessoas religiosas hoje em dia são tão afetadas pela sociedade contemporânea (quer elas saibam disso ou não) e pela busca ao dinheiro, que em vez de elas moldarem o mundo, é o mundo que as está moldando? E onde estão os revolucionários?

Porém acima de tudo, Avraham não se retiraria. Ele não escolheria o caminho mais fácil de proteger “a própria pele” e desistir da nossa geração. Se Avraham rezava pelos infiéis de Sodoma, ele certamente faria todo o possível para nos ajudar a libertarmo-nos da nossa letargia.

Avraham certamente encontraria profundo mérito em nós, seus netos. Apesar de todas as perseguições e genocídios, apesar de séculos de opressão, os descendentes de Avraham ainda permanecem. Embora, talvez fracos algumas vezes, talvez inconsistentes, talvez carentes de paixão – mas ainda tentando.

Porém Avraham não se contentaria em achar mérito nas nossas vidas. Ele nos engajaria, desafiaria, tentaria nos habilitar e despertar – ele nos acenderia para pararmos de agir como vítimas e assumir controle de nossas vidas e nossos destinos.

Ele nos imbuiria com profunda confiança (ou melhor ainda, acenderia a confiança que jaz adormecida em nossas almas) para sair e mudar o ambiente em que vivemos.

Sim, de fato, imagine só como Avraham mudaria nosso mundo de cabeça para baixo! Somente pensar nisso pode fazer você estremecer.

É interessante visualizar como um homem que viveu há mais de 3.700 anos reagiria ao nosso mundo e o que ele faria para melhorar a nossa condição.

Então mais uma vez, talvez haja um Avraham conosco hoje. Talvez aquele Avraham esteja dentro de você e de mim…

Fonte: site do Beit Chabad

Tenha um sábado de paz !!

Fernando Rizzolo

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