O grito de uma criança

*por Rabino Chefe da Inglaterra, Professor Jonathan Sacks

Um dos aspectos mais chocantes do maior ato de desumanidade na história da humanidade foi o extermínio de crianças entre as milhares de vítimas. Mais de um milhão e meio de crianças foram mortas durante o terror nazista. Teve início com os deficientes, epilépticos e mentalmente retardados, passando para os grupos considerados inferiores aos espécimes perfeitos da raça ariana, culminando com aqueles culpados de ter avó ou avô judeus.

Mais de um milhão de crianças judias foram perdidas durante estes anos, uma geração inteira assassinada. Até hoje, quando caminho nas ruas de determinadas cidades da Europa, sinto-me como se estivesse na presença de fantasmas, ouvindo novamente as palavras de D’us a Caim: “O sangue de teu irmão clama a Mim lá da terra.”

Há oito anos, visitei Auschwitz pela primeira vez. É difícil descrever o arrepio que se sente ao passar pelos portões com sua inscrição zombeteira: “O trabalho liberta.” O que mais congelou meu sangue, porém, foi a visão das roupas das crianças, ainda ali, preservadas: os minúsculos sapatos, a capa vermelha de uma menina de três anos, as pequenas malas amarradas com cordão. Há certas coisas que depois que você as vê, o assombram para sempre, e para mim isso foi o pior de tudo.

A palavra hebraica para compaixão, rachamim, vem de rechem, e significa “um útero”, porque mais que qualquer outra coisa, o ato de trazer ao mundo uma nova vida é a matriz de nosso respeito pela vida. Para assassinar crianças, os nazistas tiveram primeiro de destruir aquele senso de compaixão, o que fizeram – assim como fizeram tudo o mais – com eficiência brutal. Nos primeiros anos, as crianças recebiam injeções letais. Mais tarde, morriam de inanição ou então à bala, baioneta ou estranguladas.

Estes atos provaram ser demais para poucos soldados, e lentos demais para a planejada liqüidação de todos os judeus da Europa. Assim foram criados os campos de extermínio, com câmaras de gás disfarçadas de chuveiros. Um guarda de Auschwitz, testemunhando no Juramento em Nuremberg, admitiu que no auge do genocídio, quando o campo estava matando dez mil judeus por dia, as crianças eram atiradas ainda vivas à fornalhas.

Nunca a humanidade chegou tão perto do mal pelo mal em si.

As crianças eram e sempre serão o teste de nossa humanidade. Porém, ainda nos dias de hoje, trinta mil morrem a cada dia de doenças evitáveis, e centenas de milhões vivem sem alimentação adequada ou abrigo, educação ou assistência médica. Pior de tudo, ainda são usadas como peões no jogo de xadrez do ódio, sendo jogados em zonas de conflito em todo o mundo.

Porém, mesmo nesses anos mais tenebrosos houve exceções – as quase dez mil crianças trazidas, na sua maioria para a Inglaterra, na operação de resgate chamada Kindertransport, e os milhares de outros abrigados, escondidos e salvos por homens e mulheres comuns, cuja simples humanidade os levou a extraordinários atos de coragem, quando salvar a vida de um judeu significava arriscar a própria vida. Muitos membros de nossa comunidade devem a vida a pessoas assim, cujo heroísmo ainda acende uma chama de esperança num mundo escuro e perigoso.

Ao final de sua vida, Moshê reuniu os filhos daqueles que ele levara da escravidão à liberdade e disse: “Escolham a vida, para que vocês e seus filhos possam viver.” Aquelas palavras continuam a reverberar numa época em que o ódio dá as mãos às armas de destruição em massa. Se o Holocausto nos ensinou alguma coisa, é isso: tudo aquilo pelo qual lutamos não vale a pena, se nos deixa surdos ao grito de uma criança.

Fonte: Site do Beit Chabad

Tenham um sábado de paz !

Fernando Rizzolo

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