Para EUA, Brasil oculta prisão de terroristas, revela WikiLeaks

SÃO PAULO – Documentos diplomáticos secretos dos EUA divulgados no domingo, 28, pelo site WikiLeaks, revelam que as autoridades brasileiras prenderam “vários indivíduos engajados em supostas atividades de financiamento do terrorismo”, mas basearam sua detenção em acusações diferentes para “não chamar a atenção da mídia e dos altos níveis governamentais”.

As informações estão contidas em um relatório enviado pelo então embaixador da missão americana no Brasil, Clifford Sobel, às autoridades americanas em 8 de janeiro de 2008 referente à política brasileira em relação ao combate ao terrorismo.

Os relatórios são parte dos mais de 250 mil documentos vazados pelo WikiLeaks e publicados no domingo pelos jornais The New York Times (EUA), The Guardian (Reino Unido), Le Monde (França), El País (Espanha) e pela revista Der Spiegel (Alemanha). O material se refere a informações diplomáticas obtidas desde a década de 1960 até fevereiro deste ano.

No despacho, o embaixador afirma que o governo do Brasil é “um parceiro cooperativo” contra atividades terroristas, apesar de não gostar de tornar o assunto público. Segundo o documento, o Brasil colabora e inclusive “prende com frequência indivíduos ligados ao terrorismo”.

Por outro lado, o despacho afirma que o tema é tratado com cuidado no País, em parte, pelo “medo de estigmatizar a grande comunidade muçulmana no Brasil”, ou de “prejudicar a imagem da área como um destino turístico”. O texto afirma que a postura pública brasileira busca “evitar parecer com o que é visto como uma política agressiva dos EUA de guerra ao terrorismo”.

O despacho relativo ao Brasil, de janeiro de 2008, afirma que os mais altos órgãos do governo brasileiro, “particularmente o Ministério das Relações Exteriores”, são “extremamente sensíveis a quaisquer alegações de que terroristas tenham uma presença no País – seja para levantar fundos, arranjar logísticas ou mesmo transitar pelo território – e irão rejeitar vigorosamente quaisquer declarações” nesse sentido sobre o tema.

Apesar das prisões citadas, o documento assinado pelo embaixador lembra que, em geral, os suspeitos são acusados em vários quesitos, não relacionados ao terrorismo, para “evitar chamar a atenção da mídia e dos níveis mais altos do governo”. O documento cita especificamente a Polícia Federal, afirmando que ela prendeu no ano anterior (2007) vários suspeitos de financiar o terror, mas estes foram acusados por vínculos com o narcotráfico, entre outros. O documento afirma que também a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) “monitora as atividades desses supostos extremistas”.

O despacho ainda nota que a área que mais domina a cobertura jornalística nacional sobre a suposta presença de extremistas é a Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. Apesar disso, o texto afirma que “a principal preocupação de contraterrorismo, tanto para funcionários brasileiros quanto para a missão dos EUA no Brasil, é a presença de atividades de indivíduos com vínculos com o terrorismo – particularmente vários suspeitos extremistas sunitas e alguns indivíduos ligados ao Hezbollah – em São Paulo e outras áreas do sul do Brasil”.

O WikiLeaks é um site que se dedica a revelar documentos militares secretos dos EUA e de outros países. Neste ano, o site divulgou cerca de 400 mil documentos secretos sobre a guerra do Iraque. Antes disso, o WikiLeaks já havia divulgado 90 mil relatórios confidenciais sobre abusos cometidos no Afeganistão.
Estadão

Rizzolo: Bem, se a informação procede, podemos ficar mais tranquilos, pois se as autoridades brasileiras, segundo os EUA, promovem a detenção de terroristas, ou pretensos terroristas, porem lhes outra tipificação penal, é sinal que as coisas funcionam no Brasil. A questão interna do ponto de vista político pouco importa, estamos nós ” fazendo a lição de casa” e entendo isso ser uma boa notícia, pena que vem dos EUA através do Wikileads, e não das autoridades brasileiras.

Com 887,4 mil alunos, classe D é o dobro da A nas universidades

A classe D já passou a classe A no número total de estudantes nas universidades brasileiras públicas e privadas. Em 2002, havia 180 mil alunos da classe D no ensino superior. Sete anos depois, em 2009, eles eram quase cinco vezes mais e somavam 887,4 mil.
Em contrapartida, o total de estudantes do estrato mais rico caiu pela metade no período, de 885,6 mil para 423, 4 mil. Os dados fazem parte de um estudo do instituto Data Popular.

“Cerca de 100 mil estudantes da classe D ingressaram a cada ano nas faculdades brasileiras entre 2002 e 2009”, observa Renato Meirelles, sócio diretor do instituto e responsável pelo estudo. “Hoje temos a primeira geração de universitários desse estrato social.”

Essa mudança de perfil deve, segundo ele, ter impactos no mercado de consumo a médio prazo. Com maior nível de escolaridade, essa população — que é a grande massa consumidora do país — deve se tornar mais exigente na hora de ir às compras.

O estudo, feito a partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela também que as classes C e D respondem atualmente por 72,4% dos estudantes universitários. Em 2002, a participação dos estudantes desses dois estratos sociais somavam 45,3%.

São considerados estudantes de classe D aqueles com renda mensal familiar entre um e três salários mínimos (de R$ 510 a R$ 1.530). Os estudantes da classe C têm rendimento familiar entre três e dez salários mínimos. Já na classe A, a renda é acima de 20 salário mínimos (R$ 10.200).

A melhoria da condição financeira permitiu inicialmente a compra do primeiro carro zero e do celular aos brasileiros de menor renda. Abriu também, caminho para que eles tivesse acesso ao ensino superior.

Pesquisa do Programa de Administração de Varejo (Provar) da Fundação Instituto de Administração (FIA), que mede a intenção de compra dos consumidores por classe social, revela que subiu de 15%, no terceiro trimestre, para 17%, neste trimestre, a capacidade de gasto com educação em relação à renda da classe C.

Além da renda maior, Meirelles ressalta outros fatores que provocaram essa mudança de perfil socioeconômico dos universitários. Um deles é a universalização do ensino de segundo grau. Também contribuíram as bolsas de estudo do Programa Universidade para Todos (ProUni) e a proliferação de universidades particulares.

Da Redação, com informações do O Estado de S. Paulo

Empregos perdidos nos EUA: Perdidos para sempre

As ‘privatizações’ e a globalização voltam, para bater no lombo de quem as inventou.

Por Paul Craig Roberts, no Counterpunch

Agora, quando alguns Democratas e o que restou da AFL-CIO [1] começam a acordar para o impacto destrutivo da exportação de postos de trabalho sobre a economia dos EUA e sobre a vida de milhões de norte-americanos, os defensores da globalização ressuscitaram um artigo de Matthew Slaughter, economista de Dartmouth, que já foi ridicularizado há alguns anos. O artigo demonstrava que a globalização, com exportação de postos de trabalho, seria fator que faria aumentar o emprego e os salários nos EUA.

Quando o artigo apareceu, dediquei-me a expor os erros de Slaughter. Mas economistas dependentes dos grandes salários das grandes transnacionais entenderam que seria mais lucrativo divulgar aqueles erros do que discutir números e fatos. Recentemente, a Câmara de Comércio dos EUA requentou o falso argumento de Slaughter, usado como arma contra os deputados Democratas Sandy Levin e Tim Ryan; e o Wall Street Journal mandou William S. Cohen, secretário da Defesa de Bill Clinton, regurgitar as ideias de Slaughter em sua coluna no jornal, dia 12/10.

Escrevi ao Wall Street Journal, mas os editores não se interessaram pelo que tivesse a dizer um de seus ex-diretores e colunistas, e secretário-assistente do Tesouro para questões de economia política do presidente Reagan. A fachada de mentiras publicadas como fatos tem de ser mantida a qualquer custo. Ninguém questionará, no WSJ, os benefícios da globalização para os EUA.

Cohen disse aos leitores do WSJ que “para cada emprego exportado para Bangalore, criam-se cerca de dois empregos em Buffalo e em outras cidades norte-americanas”. Aposto que Buffalo “e outras cidades norte-americanas” adorariam saber o endereço desses novos empregos que teriam sido recentemente criados. Talvez descubram, se telefonarem a Slaughter, Cohen ou à Câmara de Comércio.

Mês passado estive em St. Louis, e impressionaram-me os quarteirões, quarteirões e quarteirões, de casas abandonadas, fábricas desertas e prédios de escritórios com as lojas de calçada com placas de “aluga-se”.

Detroit está tentando reduzir a área da cidade, abrindo mão de mais de 40 milhas quadradas do próprio território. Dia 25/10, no programa 60 Minutes, tratou-se do desemprego no Vale no Silício, onde viviam profissionais de altíssimos salários que, hoje, estão desempregados há mais de dois anos e já não encontram nem empregos de meio período pagos a US$ 9/hora, na Target.

A ideia de que a exportação de empregos, pelas transnacionais norte-americanas globais, aumentaria o emprego nos EUA é das maiores falácias jamais divulgadas por especialistas e pela mídia. Como já demonstrei em inúmeros artigos e também em meu livro How The Economy Was Lost [Como a economia perdeu o rumo] (2010), Slaughter consegue montar sua conclusão errada, porque conta o crescimento dos empregos nas multinacionais nos EUA, sem corrigir os dados de modo a que reflitam as aquisições e fusões de empresas: empresas norte-americanas compradas por conglomerados globais e empresas que já existiam, mas se converteram em empresas globais pela primeira vez. Não há novos empregos em transnacionais nos EUA. Os empregos simplesmente foram convertidos em empregos multinacionais, porque as empresas empregadoras converteram-se em multinacionais.

Se Slaughter (ou Cohen) tivesse consultado as estatísticas do Bureau of Labor e seus dados sobre nonfarm payroll Jobs [2], não conseguiria achar lugar para os supostos 5,5 milhões de empregos que teríamos criado, mas não criamos. Tenho escrito detalhadamente, há quase uma década, sobre a criação de empregos nos EUA que se vê nos dados do BLS e outros, como o economista Charles McMillion, de Washington, que têm feito o mesmo. Na última década, os novos empregos criados nos EUA nada tiveram a ver com as corporações multinacionais. São empregos de garçons e garçonetes, de assistentes médicos (em unidades de atendimento ambulatorial), vendedores em lojas de varejo e – enquanto a bolha se arrastar – na construção civil.

Nada dos empregos high-tech de altos salários, que a “Nova Economia” tanto prometeu, e não são empregos que possam ser associados às empresas globais. Além do quê, também os empregos domésticos já escasseiam.

Mas o que menos se considera são os fatos. Será que Slaughter, Cohen, a Câmara e o Wall Street Journal jamais se perguntaram como seria possível ter, simultaneamente, milhões de novos empregos e bons salários para a classe media, com cada vez maior desigualdade de renda no mundo desenvolvido, e toda renda acumulando-se cada vez mais na faixa dos mega ricos?

Em meados de outubro, o secretário do Tesouro e fantoche de Goldman Sachs, Tim Geithner, discursou na Califórnia no pátio, ou no ex-pátio, de ex-casas dos ex-ricos da classe média do Vale do Silício, vários dos quais vimos no programa 60 Minutes sobre a mesma região. Lá, Geithner disse que a solução é “formar mais engenheiros”.

Os EUA já têm muito mais engenheiros do que empregos para eles. Em pesquisa recente feita por empresa de pesquisa e marketing da Filadélfia, Twentysomething, constata-se que 85% de recém-saídos de universidades terão de voltar a viver na casa dos pais. Ainda que os “filhos do boom” consigam empregos, não conseguirão salários suficientes para manter-se com vida independente dos pais.

A mídia financeira “especializada” nada ajuda a esclarecer. Jornais e jornalistas repetem a mentira de que a taxa de desemprego estaria em 9,6%. Essa é taxa fabricada, especialmente depurada para não contabilizar a maior parte dos desempregados. Os números do governo, mais inclusivos, chegam a 17%. John Williams, especialista em estatística, que calcula desemprego como tem de ser calculado, trabalha já com taxas de 22% de desemprego.

A mídia financeira converte más notícias em boas notícias. Recentemente divulgaram novos 64 mil empregos no setor privado; são empregos que desaparecem, se confrontados aos empregos desaparecidos no setor público. De fato, são necessários cerca de 150 mil novos empregos por mês nos EUA, só para equilibrar o crescimento vegetativo da força de trabalho. Em outras palavras: 100 mil novos empregos por mês são, de fato, déficit mensal de 50 mil empregos.

A estupidez da mídia financeira aparece bem evidente em duas manchetes publicadas dia 19/10, na mesma página Bloomberg:

“Dólar reage bem ao apoio de Geithner ao fortalecimento da moeda” e, adiante: “Mercado vê o dólar fraco de Geithner como caminho para a recuperação da economia norte-americana”.

Por não darem qualquer atenção aos empregos que desapareceram porque foram exportados, os políticos e seus asseclas na imprensa financeira atribuem o desemprego nos EUA a uma suposta manipulação pela China ou à crise financeira. Os Republicanos dizem que a crise financeira, ela mesma, é culpa dos cidadãos de baixa renda que assumiram dívidas hipotecárias que não poderiam saldar.

Em outras palavras, a culpa é da China e da cobiça dos norte-americanos pobres que aspiram a viver acima de suas possibilidades. Se os EUA ‘raciocinam’ desse modo, é fácil ver por que parece não haver solução para os problemas econômicos.

Nenhum governo dos EUA assumirá os próprios erros, se pode culpar algum estrangeiro. A China é o bode expiatório para o fracasso dos EUA. Os empresários acusam a China, mas não são capazes de ver os efeitos de 20 anos de continuada exportação de postos de trabalho – a chamada “globalização” -, nem veem os efeitos, nos EUA, de nove anos de guerras caríssimas e sem sentido algum.

O crime se chama “manipulação da moeda”. Mas a China não está interessada em manipular o dólar norte-americano. Aconteceu, sim, que o governo chinês decidiu converter sua economia comunista quebrada em economia de mercado. Isso, quando o governo entendeu que os investidores teriam de confiar na moeda em que negociassem. Então a China atrelou sua moeda ao dólar, para sinalizar que o dinheiro chinês era tão confiável quanto o dólar. Naquele momento, a China, é claro, não poderia, sem perder a credibilidade, atribuir alto valor em dólar à moeda chinesa.

Mas o tempo passou. As políticas financeiras irresponsáveis e alucinadas dos EUA consumiram o valor do dólar. E, porque a moeda chinesa continua atrelada ao dólar, o valor dela também caiu. Só se fossem doidos, os chineses manipulariam a própria moeda, para que valesse menos.

Bem ao contrário disso. Quando estive na China, em 2006, a taxa corrente era de pouco menos de 8 iuane por 1 dólar. Hoje, é de 6,6 iuane por 1 dólar: o iuane valorizou-se 17,5%.

O governo dos EUA atribui à moeda chinesa desvalorizada a responsabilidade pelo déficit comercial com a China. Nada mais falso. A moeda chinesa valorizou-se 17,5% contra o dólar desde 2006, mas o déficit comercial EUA-China não diminuiu.

A maior causa do déficit comercial EUA-China é a “globalização”, ou a prática, estimulada por Wall Street e Wal-Mart, de as corporações norte-americanas exportarem a produção de seus produtos para o mercado de trabalho chinês, em busca de mão de obra barata. A maioria das tarifas que os idiotas do Congresso querem impor às importações “chinesas” pesarão, portanto, sobre a produção que as multinacionais norte-americanas exportaram para a China! Quando produtos norte-americanos, como computadores Apple, por exemplo, são trazidos para o consumo dos norte-americanos, entram como importações. Assim, as tarifas pesarão, primeiro, sobre a produção que as empresas multinacionais norte-americanas exportaram para a China; em seguida pesarão também sobre os bens lá produzidos e exportados da China de volta aos EUA, quando chegarem aos EUA.

Só se pode concluir que o déficit comercial dos EUA com a China é resultado da “globalização”, sobretudo, dos empregos; não, é claro, de alguma manipulação dos chineses com sua moeda.

Aspecto importante jamais considerado é que, hoje, os EUA são dependentes da China para inúmeros bens manufaturados, inclusive produtos de alta tecnologia, que, há bastante tempo, já não são fabricados nos EUA. Se a China valorizar sua moeda, o preço desses produtos aumentará nos EUA. Quanto mais valorizado o iuane, maiores os preços nos EUA. Então, sim, o impacto sobre o padrão de vida já declinante nos EUA, seria dramático.

Quando políticos norte-americanos dizem que a solução para os problemas dos EUA seria moeda chinesa mais forte, mais uma vez tentam jogar todo o peso do ajustamento à nova situação de desemprego, sobre a população mais pobre dos EUA, já endividada, desempregada e sem casa onde morar.

Notas:

[1] principal união sindical nos EUA, composta de 54 federações nacionais e internacionais de sindicatos.

[2] Número construído por pesquisas do US. Bureau of Labor Statistics, que mostra o número total de trabalhadores norte-americanos pagos em todos os ramos de negócios, excluídos os funcionários públicos em geral, empregados domésticos, empregados de organizações assistenciais e sem finalidades de lucro e empregados rurais. Mais, em: Non-Farm Payroll.

Tradução do coletivo Vila Vudu. O artigo original, em inglês, está em http://www.counterpunch.org/roberts10282010.html

Marcio Pochmann: As vias do desenvolvimento

Em discurso proferido durante a abertura da 1ª Conferência do Desenvolvimento (Code), em 24 de novembro de 2010 no Distrito Federal, o presidente do Instituto de Pesquisas Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann, valeu-se de uma citação do grande cineasta Charles Chaplin para assinalar que “não devemos ter medo dos confrontos, pois até os planetas se chocam e do caos nascem as estrelas…”.

Por Marcio Pochmann*

O Brasil não mais aceita ser liderado. Pretende contribuir para o novo projeto de desenvolvimento mundial, multipolar e compatível com a repartição justa da riqueza e a sustentação do planeta para as novas gerações. Mas aqui vale repetir que não há caminhos para quem não tem direção a seguir. Tampouco pode prevalecer a máxima do último imperador no Brasil, que afirmava que quando não sabia o que fazer, melhor seria sempre esperar, geralmente para ser conduzido por alguém que dizia saber o que fazer.

O Brasil do início do século 21 tem pressa e não mais admite cometer velhos erros, já ocorridos e que deixaram como herança o subdesenvolvimento, deixaram a cada grupo de dez brasileiros, um analfabeto, contingente em sua maior parte constituído por pessoas de 50 anos e mais de idade e de cor não-branca. Sem tocar ainda na complexidade do atual analfabetismo funcional, que faz ceifar o acesso às oportunidades de maior ascensão social possibilitado pelo crescimento da economia nacional.

É hora do exercício da grande arte da política pública que deve fazer garantir a universalidade da igualdade do acesso às oportunidades, pois como dizia Charles Chaplin, “… a persistência é o caminho do êxito. Não devemos ter medo dos confrontos, pois até os planetas se
chocam e do caos nascem as estrelas…”.

O engrandecimento do Brasil, percebido pelo seu recente reposicionamento entre as economias mais ricas do planeta, bem como de sua participação efetiva nos principais fóruns globais, é fruto da decisão governamental do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de abandonar as tecnicalidades da cultura do bonsai e do exercício focado no plantar em vasos, como se observou nas políticas neoliberais hegemonizadas na passagem para o século 21.

Antes não se poderia elevar o valor do salário mínimo porque geraria informalidade e desemprego; não se deveria aumentar o gasto social porque desorganizaria as finanças públicas; não se poderia apoiar
investimentos nas empresas públicas porque haveria mais ineficiência; assim como se deveria manter banco público aprisionado para não fazer subir ainda mais a taxa de juros. Os pobres, de vítimas deste sistema econômico e social regressivo, eram os próprios responsáveis por suas trajetórias de infortúnio, sendo somente os ricos portadores de recompensa e admiração.

Ora, o Brasil nasceu para ser grande. Somente a ruptura com todo esse engenho satânico permitiu ao País retomar o caminho do desenvolvimento, indicando o quanto aguardava a força da cultura da plantação em larga escala, por meio da volta do semear de abacateiros, jacas e mangas que permitissem fazer com que a combinação da expansão econômica com a mobilização social corresse pela primeira vez nos últimos cinquenta anos.

Somente o passar do tempo permitirá avaliar completa e profundamente a trajetória econômica, política e social brasileira nos últimos oito anos do governo Lula. Antecipar, todavia, alguns dos principais aspectos estruturadores do passado recente parece ser necessário, especialmente quando se está diante das expectativas de ação para os próximos quatro anos do governo Dilma Rousseff. Dos vários méritos alcançados pelo governo Lula nos oito últimos anos, dois principais devem – pelo menos – ser destacados.

Um primeiro vinculado ao contexto mundial menos desfavorável ao reposicionamento brasileiro na Divisão Internacional do Trabalho. O avanço obtido no comércio externo permitiu reduzir consideravelmente as históricas fragilidades nacionais no Balanço de Pagamentos, com a prevalência de importantes saldos comerciais, do acesso ampliado aos investimentos diretos externos, da resolução dos problemas com a dívida externa e do considerável aumento das reservas internacionais, tornando o País credor do Fundo Monetário Internacional, algo jamais antes visto. Ademais, o protagonismo brasileiro no âmbito das relações internacionais tornou-se evidente e incontestável nos diversos fóruns mundiais e, em alguma medida, com papel de liderança nos temas ambientais e sociais.

Um segundo mérito observado nos últimos oito anos encontra-se relacionado aos importantes desempenhos obtidos nos campos (i) econômico, com a expansão – duas vezes maior que na
década de 1990 – dos investimentos e da produção, bem como da queda – à quase metade – na taxa de desemprego comparada a dos anos 1990; (ii) social, com redução sensível nas taxas de pobreza e
de desigualdade da renda; e (iii) ambiental, com a desaceleração nas queimadas e no grau de emissão do dióxido de carbono. Essa construção relativamente harmônica nas diversas esferas do desenvolvimento nacional possibilitou ao País um novo reposicionamento na relação com o conjunto das nações, ademais de chamar a atenção para a possibilidade de construção de um novo
padrão de desenvolvimento com justiça social e sustentabilidade ambiental.

A etapa de resolução dos problemas do passado não se encerrou ainda e já há novas questões do presente que se vinculam com o futuro, não mais passíveis de postergação, precisando urgentemente ser consideradas à luz da reorganização do Brasil que se deseja e que não tem medo de ser feliz.

Para os próximos anos, contudo, a sequência de enfrentamento dos problemas que estruturam o passado tende a contar com fatos novos, fundamentais de serem considerados e, sobretudo, enfrentados. De um lado, pelo movimento global de reestruturação do capital, responsável por expressar sinais crescentes de decadência relativa dos Estados Unidos, simultaneamente ao deslocamento do antigo centro dinâmico capitalista unipolar para a multipolarização geoeconômica mundial (Estados Unidos, União Europeia, Rússia, Índia, China e Brasil). O poder privado, quase monopólio das grandes corporações transnacionais, precisa ser recompensado pela renovação do poder público a garantir a democracia e a capacidade do exercício do direito de oportunidades a todos.

De outro lado, o desafio da construção de uma sociedade superior. Pela eleição democrática da presidente Dilma, o Brasil consolida a formação de uma nova maioria política capaz de assegurar a continuidade do caminho do desenvolvimento brasileiro. Mas isso não significa, necessariamente, a sequência de mais do mesmo, mas a possibilidade da radicalização das alternativas de construção de uma sociedade superior. Ou seja, a transição mais intensa da condição do trabalho enquanto meio de financiamento da sobrevivência para o estabelecimento de um novo patamar do desenvolvimento humano integral.

Historicamente, a combinação do avanço das forças produtivas com a atuação progressista das lutas sociais e políticas permitiram elevar o padrão de vida da população. Atualmente, quando o curso da revolução tecnológica faz crescer ainda mais o potencial material de produzir, o Brasil encontra-se diante de oportunidade inédita de libertação crescente de sua dependência do trabalho para a mera sobrevivência. Noutras palavras, o estabelecimento de um novo código do trabalho fundamentado na educação para toda a vida, na postergação do ingresso no mercado de trabalho para após a conclusão do ensino superior e na contenção do tempo de trabalho.

Na sociedade do conhecimento, não somente transformam-se as fontes da geração de riqueza como se requer um Estado refundado e apto a potencializar as oportunidades de universalização de um padrão de vida superior, com expectativa de vida próxima dos 100 anos de idade, estudo durante toda a vida e solidariedade fraterna.

É neste contexto, de estar na luta com determinação, envolvido na bandeira da vida, de vencer com ousadia que o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, com o apoio plural de meia centena de rganizações governamentais e da sociedade civil, tornou possível a construção da primeira Conferência Nacional do Desenvolvimento (Code/Ipea) nesta última semana de novembro de 2010.

Em pleno coração do Brasil e no centro da Esplanada dos Ministérios, a multidisciplinariedade temática do desenvolvimento está sendo tratada de forma inédita, não mais como um assunto somente de especialistas em salas VIP, que em seus gabinetes fechados e protocolares pretendiam definir os rumos da nação. A singular experiência da realização de conferências temáticas no Brasil recente aponta não apenas para a riqueza especial da democracia brasileira, mas também para a nova forma de construção e monitoramento das políticas públicas.

A Code segue esta mesma orientação, embora não detenha estrutura equivalente de delegados, debates e locais prévios. O triunfo das decisões a respeito dos rumos do desenvolvimento nacional pertence ao atrevimento de todas as gerações de brasileiros que não se afastam dos esforços de desafiarem continuamente as impossibilidades. Elas se recordam que as principais proezas da História foram frutos do que inicialmente parecia impossível.

Por meio de oito grandes painéis e quase uma centena de oficinas, documentários, filmes, lançamentos de livros, minicursos e apresentações culturais, este espaço de 10 mil metros quadrados pretende abrigar o fervilhar de ideias renovadoras e amplamente fecundas a respeito da necessária reorganização para um Brasil desenvolvido. Ele já está ao alcance de esforços coletivos e no horizonte das possibilidades concretas das transformações de uma realidade de agonia e amargura daqueles que temem o avanço humano.

Sem fronteiras ao desenvolvimento soberano brasileiro, forjado na democracia e na vontade de homens e mulheres, de doutores e operários, de estudantes e professores, de empresários e trabalhadores sem emprego, de donas de casa e líderes sindicais, de gestores públicos e de políticos, enfim, de todas as mais diversas expressões da sociedade que aceitaram o convite de assumir seu papel na História e não deixar mais para amanhã a esperança de acordar o gigante que por muito tempo permaneceu adormecido.

Conhecer o povo brasileiro e desvendar todo o potencial de uma grande nação pacífica e produtiva como o Brasil por meio da formação de novas convergências políticas construídas em torno dos rumos do desenvolvimento brasileiro constitui-se a base de todo o sucesso. Por um Brasil desenvolvido. Viva a Code. Viva o povo brasileiro.

*Professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do
Trabalho da Universidade Estadual de Campinas. Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea).

Meirelles fora do BC: “Tiraram a raposa do galinheiro”, diz Neto

Com a provável exceção da oligarquia financeira, a saída do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, não deixará saudades na sociedade brasileira. O acontecimento é saudado, com alívio, um “já vai tarde” e alguma esperança, não só por sindicalistas e líders de esquerda, que nunca viram com bons olhos um banqueiro à frente do Banco Central. Empresários do setor produtivo também não estão disfarçando o contentamento com a notícia.

“Tiraram a raposa do galinheiro.” Foi dessa forma que o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto, reagiu ao anúncio sobre a saída de Henrique Meirelles da presidência do Banco Central (BC) no governo de Dilma Rousseff.

“Não sei se vai dar certo, mas estou contente com essa notícia”, afirmou. O executivo disse que vê um conflito de interesses em trazer um profissional do sistema financeiro para comandar a autoridade monetária, referindo-se ao fato de Meirelles, antes de chegar ao BC, ter sido presidente do BankBoston no Brasil.

Nesse sentido, o presidente da entidade defendeu a nomeação de um funcionário de carreira ao cargo, sem citar expressamente o nome de Alexandre Tombini, diretor de Normas do BC. Tombini foi confirmado há pouco para a presidência do BC pela assessoria de Dilma Rousseff.

“É preciso ter autonomia geral”, comentou Aubert Neto. Ele reconheceu que os juros caíram durante o mandato de Meirelles, mas lamentou que a taxa ainda continue sendo a maior do mundo.

Segundo ele, o país não pode um banqueiro no comando do Banco Central, uma vez que o sistema financeiro é o maior beneficiado pela manutenção de taxas de juros em patamares elevados, uma situação que ele classificou como “uma transferência brutal de renda” a um único setor.

Com informações do Valor

Na 3ª semana do mês, país tem déficit comercial de US$ 663 mi

O resultado da balança comercial na terceira semana de novembro (dias 15 a 21) é claramente uma consequência da política de facilitação da pilhagem cambial norte-americana por parte do Banco Central. Com a ação dessa espécie de quinta-coluna econômica dentro do país, como poderia ser diferente?

Na terceira semana de novembro, segundo divulgou a Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) na segunda-feira, nosso saldo comercial foi negativo em US$ 663 milhões. Ou seja, as importações dessa semana excederam as exportações em mais de meio bilhão de dólares.

Já voltaremos aos últimos números da balança comercial – e à situação atual, agravada pela guerra cambial. Para os nossos assíduos leitores, não é uma novidade que desde 2005, com os juros altos, o BC tem atraído para dentro do país uma torrente de dólares, que para cá vem procriar com a diferença de juros em relação aos EUA – e outros países. Durante cinco anos, praticamente sem interrupção, a taxa básica de juros estabelecida pelo BC foi mantida no mais alto nível do mundo – e várias vezes aumentada, mesmo já sendo essa a sua condição.

O resultado foi a apreciação do real – a hipervalorização completamente artificial da nossa moeda em relação ao dólar. Por uma manipulação do câmbio, efetuada principalmente pelos juros altos (mas também pelas intervenções do BC no mercado de dólares), os produtos importados (isto é, os que têm seu preço em dólar convertido em reais) ficam mais baratos e os produtos internos (isto é, que têm seu preço em real), tanto aqueles exportáveis quanto os não exportáveis, ficam mais caros.

O Brasil é um país extremamente rico – isso explica porque, mesmo com o freio de mão travado (isto é, com preços mais caros) as exportações continuaram a aumentar, embora com um perfil cada vez mais primário: minério de ferro, soja, etc. Porém, mesmo assim, foi impossível que as exportações aumentassem mais do que as importações, que deram um salto exponencial, com dificuldades cada vez maiores para as contas externas.

Se isso já causava, como veremos, grandes prejuízos ao país, com a guerra cambial – isto é, as superemissões de dólares dos EUA a partir do final de 2008, com o objetivo central, exatamente, de desvalorizar a sua moeda para tornar as mercadorias norte-americanas mais baratas, descarregando no exterior o que não conseguem mais vender internamente – a situação tornou-se crítica.

Hoje, só há uma explicação para juros tão absurdos (em termos reais, mais do que o dobro da segunda taxa de juros mais alta do mundo): a função deles é abrir os portões do país para os dólares e as mercadorias dos EUA – além das de outros países que souberam, em maior ou menor medida, se defender contra a agressão norte-americana.

É até algo cômico ver o lobby pró-Meirelles dos apoiadores de Serra, exatamente aqueles que agrediram Dilma de todas as formas durante a campanha eleitoral – a “Veja”, a Miriam-alguma-coisa-ão, a “Globo”, a “Folha”, em suma, toda a canalha serrista. Em suma, perderam a eleição mas querem determinar quem é o presidente do Banco Central…

Por alguma razão, não é tão cômico quando Meirelles diz a jornalistas, só porque foi convocado para uma reunião com Dilma, que foi convidado para ficar no BC, mas só ficará se for em caráter permanente – supõe-se que eterno – e com um cheque em branco para fazer o que lhe der na telha, o que, aliás, não é difícil de adivinhar: aumentar juros, pois é a única coisa que ele aprendeu no BankBoston, de onde até hoje não saiu da folha de pagamento. Aliás, sua lobista-mor, aquela senhorita pouco atraente da “Globo”, diz que Meirelles é indispensável porque “vai ser necessário” aumentar os juros logo em janeiro…

Com o resultado da terceira semana de novembro, o saldo comercial do ano está em US$ 15,283 bilhões. No mesmo período de 2009, esse saldo foi de US$ 22,858 bilhões – portanto, houve uma queda de 33,1% em relação ao ano anterior.

Observemos que a “corrente de comércio” (exportações + importações) aumentou 36,1% em relação a 2009 – e mesmo assim o saldo desceu 33,1%.

Da mesma forma, as exportações cresceram – e não pouco: nada menos do que 30,3%, isto é, quase um terço em menos de 12 meses – e mesmo assim o saldo, nesse período (janeiro até a terceira semana de novembro), caiu 33,1%, porque as importações cresceram 43,2%.

CÂMBIO

Nos cinco primeiros anos do governo Lula, o saldo comercial, afundado no governo anterior, decolou:

2003: US$ 24,794 bilhões;

2004: US$ 33,641 bilhões;

2005: US$ 44,703 bilhões;

2006: US$ 46,457 bilhões;

2007: US$ 40,032 bilhões.

Compare-se a soma desses resultados (superávit de US$ 189,626 bilhões) com a soma dos saldos comerciais nos primeiros cinco anos do governo Fernando Henrique (déficit de US$ -23,591 bilhões) e ficará claro que o governo Lula recuperou o comércio exterior do país. Mesmo se compararmos com o resultado de 2002 (US$ 13,1 bilhões), que foi uma exceção no governo Fernando Henrique (todos os saldos de 1995 a 2000 foram negativos e o de 2001 foi insignificante), Lula conseguiu elevar o nosso saldo comercial da casa dos US$ 10 bilhões para o patamar dos 40 bilhões de dólares – isto é, quadruplicou o saldo comercial, mesmo quando a comparação é feita com a exceção no governo anterior.

No entanto, fundamentalmente devido à política de juros altos do BC, a cotação do dólar em relação ao real foi decrescente:

2003- R$ 3,07;

2004 – R$ 2,92;

2005 – R$ 2,43;

2006 – R$ 2,18;

2007 – R$ 1,95.

Essas são as cotações médias anuais do dólar em relação ao real, divulgadas pelo Banco Central. Note-se que o nosso saldo comercial cresceu até 2006. Em 2007, quando o dólar cai abaixo de dois reais, ele caiu mais de US$ 6 bilhões. Em seguida (os números de 2010 são, evidentemente, referentes ao período janeiro-3ª semana de novembro):

2008 – US$ 24,836 bilhões

(dólar médio: R$ 1,83);

2009 – US$ 25,347 bilhões

(dólar médio: R$ 1,99);

2010 – US$ 15,283 bilhões

(dólar médio: R$ 1,77).

A relação entre o câmbio e o travamento do saldo comercial é clara por esses dados.

Todos os países, diante da pilhagem cambial norte-americana ou baixaram seus juros, inclusive abaixo dos norte-americanos (quase todos os países da Europa), ou controlaram seu câmbio (China, Vietnã e até a Arábia Saudita). O Brasil, devido ao sr. Meirelles, foi o único país que manteve os juros altos e um câmbio manipulado através deles. E o sujeito ainda quer governar no lugar da nossa presidente, para ajudar os americanos a sair da crise nos esfolando…

CARLOS LOPES
Hora do Povo
Rizzolo: Excelente análise do companheiro Carlos Lopes.

Noam Chomsky: As 10 estratégias de manipulação midiática

O professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachussetts, Noam Chomsky, elaborou uma lista das “10 Estratégias de Manipulação” através da mídia.

10 Estratégias de Manipulação

Por Noam Chomsky

A estratégia da distração.

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes.

A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja com outros animais (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

Criar problemas e depois oferecer soluções

Esse método também é denominado “problema-ração-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” previsa para causar certa reação no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam sejam aceitas.

Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o demandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços púbicos.

A estratégia da gradualidade

Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

A estratégia de diferir

Outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e desnecessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrificio imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente.

Logo, porque o público, a massa tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade

A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais.

Quanto mais tentem enganar o espectador, mais tendem a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão da sugestionabilidade, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou ração também desprovida de um sentido crítico (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)”.

Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de aceeso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos…

Manter o público na ignorância e na mediocridade

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeja entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

Estimular o público a ser complacente com a mediocridade

Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

Reforçar a autoculpabilidade

Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas por sua própria desgraça, devido à pouca inteligência, por falta de capacidade ou de esforços. Assim, em vez de rebelar-se contra o sistema econômico, o indivíduo se autodesvalida e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E sem ação, não há revolução!

Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem

No transcurso dos últimos 50 anos, os avançosacelerados da ciência gerou uma brecha crescente entre os conhecimentos do público e os possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem disfrutado de um conhecimento e avançado do ser humano, tanto no aspecto físico quanto no psicológico.

O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que o dos indivíduos sobre si mesmos.

Fonte: Argenpress, reproduzido por dital