Empregos perdidos nos EUA: Perdidos para sempre

As ‘privatizações’ e a globalização voltam, para bater no lombo de quem as inventou.

Por Paul Craig Roberts, no Counterpunch

Agora, quando alguns Democratas e o que restou da AFL-CIO [1] começam a acordar para o impacto destrutivo da exportação de postos de trabalho sobre a economia dos EUA e sobre a vida de milhões de norte-americanos, os defensores da globalização ressuscitaram um artigo de Matthew Slaughter, economista de Dartmouth, que já foi ridicularizado há alguns anos. O artigo demonstrava que a globalização, com exportação de postos de trabalho, seria fator que faria aumentar o emprego e os salários nos EUA.

Quando o artigo apareceu, dediquei-me a expor os erros de Slaughter. Mas economistas dependentes dos grandes salários das grandes transnacionais entenderam que seria mais lucrativo divulgar aqueles erros do que discutir números e fatos. Recentemente, a Câmara de Comércio dos EUA requentou o falso argumento de Slaughter, usado como arma contra os deputados Democratas Sandy Levin e Tim Ryan; e o Wall Street Journal mandou William S. Cohen, secretário da Defesa de Bill Clinton, regurgitar as ideias de Slaughter em sua coluna no jornal, dia 12/10.

Escrevi ao Wall Street Journal, mas os editores não se interessaram pelo que tivesse a dizer um de seus ex-diretores e colunistas, e secretário-assistente do Tesouro para questões de economia política do presidente Reagan. A fachada de mentiras publicadas como fatos tem de ser mantida a qualquer custo. Ninguém questionará, no WSJ, os benefícios da globalização para os EUA.

Cohen disse aos leitores do WSJ que “para cada emprego exportado para Bangalore, criam-se cerca de dois empregos em Buffalo e em outras cidades norte-americanas”. Aposto que Buffalo “e outras cidades norte-americanas” adorariam saber o endereço desses novos empregos que teriam sido recentemente criados. Talvez descubram, se telefonarem a Slaughter, Cohen ou à Câmara de Comércio.

Mês passado estive em St. Louis, e impressionaram-me os quarteirões, quarteirões e quarteirões, de casas abandonadas, fábricas desertas e prédios de escritórios com as lojas de calçada com placas de “aluga-se”.

Detroit está tentando reduzir a área da cidade, abrindo mão de mais de 40 milhas quadradas do próprio território. Dia 25/10, no programa 60 Minutes, tratou-se do desemprego no Vale no Silício, onde viviam profissionais de altíssimos salários que, hoje, estão desempregados há mais de dois anos e já não encontram nem empregos de meio período pagos a US$ 9/hora, na Target.

A ideia de que a exportação de empregos, pelas transnacionais norte-americanas globais, aumentaria o emprego nos EUA é das maiores falácias jamais divulgadas por especialistas e pela mídia. Como já demonstrei em inúmeros artigos e também em meu livro How The Economy Was Lost [Como a economia perdeu o rumo] (2010), Slaughter consegue montar sua conclusão errada, porque conta o crescimento dos empregos nas multinacionais nos EUA, sem corrigir os dados de modo a que reflitam as aquisições e fusões de empresas: empresas norte-americanas compradas por conglomerados globais e empresas que já existiam, mas se converteram em empresas globais pela primeira vez. Não há novos empregos em transnacionais nos EUA. Os empregos simplesmente foram convertidos em empregos multinacionais, porque as empresas empregadoras converteram-se em multinacionais.

Se Slaughter (ou Cohen) tivesse consultado as estatísticas do Bureau of Labor e seus dados sobre nonfarm payroll Jobs [2], não conseguiria achar lugar para os supostos 5,5 milhões de empregos que teríamos criado, mas não criamos. Tenho escrito detalhadamente, há quase uma década, sobre a criação de empregos nos EUA que se vê nos dados do BLS e outros, como o economista Charles McMillion, de Washington, que têm feito o mesmo. Na última década, os novos empregos criados nos EUA nada tiveram a ver com as corporações multinacionais. São empregos de garçons e garçonetes, de assistentes médicos (em unidades de atendimento ambulatorial), vendedores em lojas de varejo e – enquanto a bolha se arrastar – na construção civil.

Nada dos empregos high-tech de altos salários, que a “Nova Economia” tanto prometeu, e não são empregos que possam ser associados às empresas globais. Além do quê, também os empregos domésticos já escasseiam.

Mas o que menos se considera são os fatos. Será que Slaughter, Cohen, a Câmara e o Wall Street Journal jamais se perguntaram como seria possível ter, simultaneamente, milhões de novos empregos e bons salários para a classe media, com cada vez maior desigualdade de renda no mundo desenvolvido, e toda renda acumulando-se cada vez mais na faixa dos mega ricos?

Em meados de outubro, o secretário do Tesouro e fantoche de Goldman Sachs, Tim Geithner, discursou na Califórnia no pátio, ou no ex-pátio, de ex-casas dos ex-ricos da classe média do Vale do Silício, vários dos quais vimos no programa 60 Minutes sobre a mesma região. Lá, Geithner disse que a solução é “formar mais engenheiros”.

Os EUA já têm muito mais engenheiros do que empregos para eles. Em pesquisa recente feita por empresa de pesquisa e marketing da Filadélfia, Twentysomething, constata-se que 85% de recém-saídos de universidades terão de voltar a viver na casa dos pais. Ainda que os “filhos do boom” consigam empregos, não conseguirão salários suficientes para manter-se com vida independente dos pais.

A mídia financeira “especializada” nada ajuda a esclarecer. Jornais e jornalistas repetem a mentira de que a taxa de desemprego estaria em 9,6%. Essa é taxa fabricada, especialmente depurada para não contabilizar a maior parte dos desempregados. Os números do governo, mais inclusivos, chegam a 17%. John Williams, especialista em estatística, que calcula desemprego como tem de ser calculado, trabalha já com taxas de 22% de desemprego.

A mídia financeira converte más notícias em boas notícias. Recentemente divulgaram novos 64 mil empregos no setor privado; são empregos que desaparecem, se confrontados aos empregos desaparecidos no setor público. De fato, são necessários cerca de 150 mil novos empregos por mês nos EUA, só para equilibrar o crescimento vegetativo da força de trabalho. Em outras palavras: 100 mil novos empregos por mês são, de fato, déficit mensal de 50 mil empregos.

A estupidez da mídia financeira aparece bem evidente em duas manchetes publicadas dia 19/10, na mesma página Bloomberg:

“Dólar reage bem ao apoio de Geithner ao fortalecimento da moeda” e, adiante: “Mercado vê o dólar fraco de Geithner como caminho para a recuperação da economia norte-americana”.

Por não darem qualquer atenção aos empregos que desapareceram porque foram exportados, os políticos e seus asseclas na imprensa financeira atribuem o desemprego nos EUA a uma suposta manipulação pela China ou à crise financeira. Os Republicanos dizem que a crise financeira, ela mesma, é culpa dos cidadãos de baixa renda que assumiram dívidas hipotecárias que não poderiam saldar.

Em outras palavras, a culpa é da China e da cobiça dos norte-americanos pobres que aspiram a viver acima de suas possibilidades. Se os EUA ‘raciocinam’ desse modo, é fácil ver por que parece não haver solução para os problemas econômicos.

Nenhum governo dos EUA assumirá os próprios erros, se pode culpar algum estrangeiro. A China é o bode expiatório para o fracasso dos EUA. Os empresários acusam a China, mas não são capazes de ver os efeitos de 20 anos de continuada exportação de postos de trabalho – a chamada “globalização” -, nem veem os efeitos, nos EUA, de nove anos de guerras caríssimas e sem sentido algum.

O crime se chama “manipulação da moeda”. Mas a China não está interessada em manipular o dólar norte-americano. Aconteceu, sim, que o governo chinês decidiu converter sua economia comunista quebrada em economia de mercado. Isso, quando o governo entendeu que os investidores teriam de confiar na moeda em que negociassem. Então a China atrelou sua moeda ao dólar, para sinalizar que o dinheiro chinês era tão confiável quanto o dólar. Naquele momento, a China, é claro, não poderia, sem perder a credibilidade, atribuir alto valor em dólar à moeda chinesa.

Mas o tempo passou. As políticas financeiras irresponsáveis e alucinadas dos EUA consumiram o valor do dólar. E, porque a moeda chinesa continua atrelada ao dólar, o valor dela também caiu. Só se fossem doidos, os chineses manipulariam a própria moeda, para que valesse menos.

Bem ao contrário disso. Quando estive na China, em 2006, a taxa corrente era de pouco menos de 8 iuane por 1 dólar. Hoje, é de 6,6 iuane por 1 dólar: o iuane valorizou-se 17,5%.

O governo dos EUA atribui à moeda chinesa desvalorizada a responsabilidade pelo déficit comercial com a China. Nada mais falso. A moeda chinesa valorizou-se 17,5% contra o dólar desde 2006, mas o déficit comercial EUA-China não diminuiu.

A maior causa do déficit comercial EUA-China é a “globalização”, ou a prática, estimulada por Wall Street e Wal-Mart, de as corporações norte-americanas exportarem a produção de seus produtos para o mercado de trabalho chinês, em busca de mão de obra barata. A maioria das tarifas que os idiotas do Congresso querem impor às importações “chinesas” pesarão, portanto, sobre a produção que as multinacionais norte-americanas exportaram para a China! Quando produtos norte-americanos, como computadores Apple, por exemplo, são trazidos para o consumo dos norte-americanos, entram como importações. Assim, as tarifas pesarão, primeiro, sobre a produção que as empresas multinacionais norte-americanas exportaram para a China; em seguida pesarão também sobre os bens lá produzidos e exportados da China de volta aos EUA, quando chegarem aos EUA.

Só se pode concluir que o déficit comercial dos EUA com a China é resultado da “globalização”, sobretudo, dos empregos; não, é claro, de alguma manipulação dos chineses com sua moeda.

Aspecto importante jamais considerado é que, hoje, os EUA são dependentes da China para inúmeros bens manufaturados, inclusive produtos de alta tecnologia, que, há bastante tempo, já não são fabricados nos EUA. Se a China valorizar sua moeda, o preço desses produtos aumentará nos EUA. Quanto mais valorizado o iuane, maiores os preços nos EUA. Então, sim, o impacto sobre o padrão de vida já declinante nos EUA, seria dramático.

Quando políticos norte-americanos dizem que a solução para os problemas dos EUA seria moeda chinesa mais forte, mais uma vez tentam jogar todo o peso do ajustamento à nova situação de desemprego, sobre a população mais pobre dos EUA, já endividada, desempregada e sem casa onde morar.

Notas:

[1] principal união sindical nos EUA, composta de 54 federações nacionais e internacionais de sindicatos.

[2] Número construído por pesquisas do US. Bureau of Labor Statistics, que mostra o número total de trabalhadores norte-americanos pagos em todos os ramos de negócios, excluídos os funcionários públicos em geral, empregados domésticos, empregados de organizações assistenciais e sem finalidades de lucro e empregados rurais. Mais, em: Non-Farm Payroll.

Tradução do coletivo Vila Vudu. O artigo original, em inglês, está em http://www.counterpunch.org/roberts10282010.html

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