Escrevendo para os Pássaros

Passar longo tempo sem escrever agita e anestesia a alma. Porque escrever não é ofício diário, com horário, transcende, sim, todos os momentos de avaria da consciência cotidiana, para que num determinado estado de “contar uma história” nos leve a um lugar cômodo e tudo seja então posto a um plano de confissão. Bom tempo fiquei sem escrever; fiquei divorciado de outubro até agora. Motivos calaram minha voz e me fizeram descobrir que de todos os textos, ou de todas as reflexões, pouco ficou de consistência plena. Afinal, num país em que poucos leem não poderia esperar brandoso eco de leitores calados.

Livros, textos, artigos, servem a nós mesmos. Isso eu descobri. Descobrir tal realidade é dar-se conta de que a arte literária pode ser dirigida a outros seres, não só aos humanos, mas aos que supostamente nos inspiram pela sua liberdade, assim como os pássaros. Liberdade foi sempre a minha teimosia ideológica, aquela que me levou a sonhar com a política, culminando com a percepção de que os 194 votos que obtive com candidato a deputado federal eram o exato espelho de que tudo fora, sim, consumido por mim mesmo. Tudo permaneceu na esfera do criador artístico. Assim, num golpe de revolta, me divorciou das minhas próprias ideias de pensar um país, acreditando na participação dos demais. Certo dia, enviei meu último livro, lançado na Feira Internacional do Livro em São Paulo, de presente à nossa hoje presidente Dilma. Afinal, lutei pela sua vitória, brigava nas redes sociais, enfrentei dissabores como editor de um blog chamado Blog da Dilma, e, como resposta a todo esse esforço, não obtive absolutamente nada, nem sequer um “obrigado pela luta”, ou um “obrigado pelo seu livro”, vindo de um assessor (nem que fosse por educação).

Não consideraria amargas as linhas deste texto, ou rancorosas, mas apenas um retrato do que é o Brasil, pobre de cultura e impregnado de um policialismo ideológico-partidário que não admite que pessoas de fora do grupo sejam prestigiadas ou reconhecidas. Os artistas desse imenso Brasil vivem um esquecimento histórico. Seja na literatura, na pintura, no cinema, no teatro, corre o olhar do crescimento do PIB, das commodities, do consumo, do amor líquido, na melhor concepção de Bauman, sobre todas as artes. Ganhar dinheiro, ter sucesso a qualquer custo se sobrepõem às ideias contidas na arte, e o olhar reflexivo do conteúdo de um quadro se resta esquecido e fora de moda dando lugar a uma nova concepção de arte, a arte do ganhar, restando a nós, artistas, escrever para um consumo solitário, de liberdade, de voo, escrever sabendo que escrevemos apenas para os pássaros que insistem em voar um voo solitário alto sem ao menos ser notados.

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