O garçom, o celular e as eleições

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*por Fernando Rizzolo

Essa história de morar em cidade grande acaba sempre nos levando a frequentar os mesmos lugares; na hora do almoço, então, já passei por vários restaurantes durante esses últimos dez anos, desde os vegetarianos até os mais gordurosos. Mas os melhores são aquelas padarias que deixaram de produzir apenas o pãozinho de cada dia e montaram um imenso buffet, com direito a nutricionista e tudo o mais. Atualmente tenho sido fiel a uma dessas, aqui no bairro de Moema, em São Paulo. Todos os dias o mesmo atendente, rapaz simples e simpático que veio do Nordeste, me recepciona com um largo sorriso. Ao me ver já grita para o pessoal da cozinha preparar o meu sagrado suco de melancia.

Na semana passada, quando ele caminhava em direção à minha mesa trazendo-me o suco, segurando meio trêmulo o copo com o refresco avermelhado, avistou, na mesa, meu celular. É um modelo já antigo, daqueles que nem acesso à internet tem. O garçom me olhou com curiosidade e perguntou, atencioso: “E aí doutor? O senhor não gosta de estar conectado?”. Sem me dar tempo de responder, ele tirou do bolso um aparelho completo, com o símbolo de uma maçã, para eu não falar a marca, e disse: “Este ano vai sair um mais moderno, não vejo a hora de trocar”. Balancei a cabeça em sinal de aprovação e: “É isso aí!! O negócio é tecnologia”, e dei início a minha refeição.

Como almoço sempre sozinho e não tenho internet no celular, para alternar entre garfadas e cliques, mergulhei numa reflexão que passava pelo rapaz, atendente de uma padaria, vindo do Nordeste à procura de uma vida melhor em São Paulo, esbanjando conhecimento tecnológico com um celular de última geração – e ansioso para comprar outro ainda mais moderno.

Ora, alguma coisa mudou neste país. Do celular então, passei a ponderar por que no Brasil, por mais que a oposição grite, a presidenta Dilma – segundo pesquisa CNT/MDA – obteria 43,7% das intenções de voto se a eleição fosse hoje. Ou seja, ela venceria as eleições. E mais… segundo a Serasa Experian e o Instituto Data Popular, se a classe média brasileira formasse um país, seria o 12º do mundo em população e a 18ª nação em consumo, podendo pertencer ao G20.

A grande verdade é que a classe média e a classe C, que gastaram mais de R$ 1,17 trilhão em 2013 e movimentaram 58% do crédito no Brasil, nunca viveram um consumo digno como este e não querem se aventurar em tímidas propostas da oposição. Certo, isso pode até não ser bom, pois numa democracia a alternância do poder é saudável, mas havemos de concordar que o celular no bolso e os eletrodomésticos novos em casa vão falar mais alto para essas pessoas.

Enfim, apesar de perceber, ao chegar no caixa, que os valores da refeição sobem lentamente (ainda que eu esteja comendo menos e de maneira mais lenta; os especialistas dizem que faz bem para a saúde), o avermelhado suco de melancia me parece combinar com o país de Dilma. A mim, parece sugerir que, da forma em que as coisas na política andam, não há mensaleiro que abale os milhões de atendentes e trabalhadores humildes que hoje estão mais conectados na melhoria de sua vida do que nas notícias vindas da pobre oposição, que até agora não encontrou um discurso bom e doce como meu suco diário de melancia… E assim vamos…

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