Apenas para “oia”

10250138_777598458967122_2040613886268755669_n*por Fernando Rizzolo

Na verdade fazia tempo que eu não pegava a estrada e ia para lá. Caminho tão antigo, com tantos contornos conhecidos, tão familiares que fui, eu mesmo, me perguntando o porquê de não arranjar tempo nem vontade de ver como andavam as coisas naquela pequena fazendinha. O sítio – como muitos o chamam – pertence a nossa família e fica em Itapecerica da Serra, cidade antiga, bem perto da capital paulista, numa região chamada de Potuverá, à beira da rodovia Régis Bittencourt, no caminho para o Paraná.

No trajeto pensava em quanto é bom se distanciar da capital, do movimento das ruas, dos embates políticos, das passeatas, da violência… e mergulhar dois quilômetros na Mata Atlântica secundária (como chamam os especialistas), sentindo o cheiro do mato e pensando na vida. Logo que cheguei, a imagem da antiga casa, do gramado, das flores, me fez lembrar minha infância e adolescência, os amigos, geralmente filhos de caseiros que, de uma forma ou de outra, me ajudavam a selar os cavalos sem raça definida que mais socavam do que andavam. Bem ao lado do sítio existe até hoje um vilarejo muito antigo chamado “Vila dos Freitas”. O lugar tem esse nome simplesmente porque, há mais de 200 anos, viveu lá o casal Freitas – hoje vivem lá seus descendentes, tanto que todos ali têm o sobrenome Freitas, inclusive o nosso caseiro, Antônio. Aliás, caseiro não, ele é “tomador de conta” do sítio, como ele gosta de dizer.

Descobri com o tempo que existem nos sítios da região duas modalidades de “tomador de conta”: os que trabalham de fato e os que são contratados apenas para “oiá”. Portanto, a primeira pergunta que fazem ao serem consultados é: “É pra trabaiá ou só pra oiá?”. Logicamente existe diferença de preço: oiá é bem mais barato; mas é mais uma particularidade da região.

Caminhando pelos jardins e pelas plantações de eucalipto, que há meses não visitava, senti uma enorme satisfação ao ter novamente o contato com a natureza, envolto ao cheiro de mato e ao perfume emanado das altas árvores. Naquele instante, pus-me a refletir sobre a necessidade do ser humano de estar em contato com a natureza, com os pássaros, com a calça grudada de mato, terra nos sapatos, ou seja, um imenso contraste com a vida na cidade.

Já quase me despedindo, como sempre, fui pegar no carro meu iPad para tirar uma foto do jardim, que postei no famoso Facebook. Foi um sucesso total, muita gente “curtiu”; e isso por um momento me fez pensar que meu dom talvez seja a fotografia – e não a literatura. Mas a grande verdade é que todos como eu estamos cansados, exaustos de falar em política, corrupção, eleição, impeachment, volta da ditadura, MST e essas coisas pesadas que acabam sugando nossa energia. A vida simples está na moda e está aí o presidente do Uruguai, o José Mujica, que não me deixa mentir. A palavra é despojamento e a ordem do dia é ir para o campo, contratar um caseiro só pra “oiá”, evitar os jornais e jamais pensar em escrever sobre política. Talvez fosse bom, se eu conseguisse, mas, inevitavelmente, tenho de retornar à realidade do dia-a-dia e enfrentar um país complicado. Não é fácil, e mais, do jeito que as coisas andam, logo pouco emprego teremos, restando a nós apenas a modalidade de alguns da “Vila dos Freitas”, que é só observar, só “oiá” as coisas acontecerem, porque emprego mesmo vai rarear e a saída será a desilusão com a política para ficar apenas curtindo fotos de jardim. Cá entre nós, é bem mais saudável e nos deixa bem menos irritados……

Não quero “papo” com vocês

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* por Fernando Rizzolo

Uma das coisas mais difíceis na vida é tentar dialogar ou nos aproximar de quem não está disposto, de forma alguma, a este movimento conciliatório. Isso, em todas as situações – quer no plano familiar, nas amizades, no trabalho. Parece que algo maior impede tais pessoas de um gesto superior em nome da paz, da construção ou até do reconhecimento daquele que, por inúmeros motivos, estende a mão e quer, sim, dialogar.

Eu mesmo já enfrentei várias vezes a postura de pessoas refratárias ao diálogo. Mas, por mim, tenho a consolação de que tais comportamentos são universais e não apenas interpessoais. Isso ocorre também, e principalmente, no âmbito da política internacional, de modo que podemos, diante da história, aferir que muitas das desavenças provocadoras de guerras mundiais ou locais se deram em razão deste espírito de fechar as portas ao bom entendimento.

No mundo pós-contemporâneo, podemos observar essa postura nas relações do Oriente Médio, onde Israel tenta o diálogo. Enfrenta, porém, o fundamentalismo daqueles que querem defender seu ponto de vista por meio da violência, o que, é claro, acaba gerando violência da parte contrária, legitimada pela proteção do Estado Judeu.

No Brasil, estamos vendo algo que jamais poderíamos imaginar que ocorresse na nossa jovem democracia. A oposição, ao exemplo dos radicalismos incoerentes, não está disposta ao diálogo, à união, ao entendimento e, o pior, faz de tudo para que a primazia na construção de um Brasil mais unido – como o apregoado pela presidente Dilma – seja desmantelada, descontruída, simplesmente porque existe uma infantilidade democrática em não aceitar a derrota numa eleição democrática. Observamos hoje um Brasil em que parte da população, principalmente no Sul e no Sudeste, expõe nas redes sociais seu preconceito e intolerância aos nossos queridos irmãos nordestinos, algo inconcebível no âmbito de uma democracia saudável e madura.

O Brasil é um só e todos temos o dever de contribuir para sanar obstáculos, combatendo a corrupção, os gastos públicos e a inflação. Tal empreitada, entretanto, deve ser feita a partir da união, com respeito à democracia, às diversidades regionais, às diferenças e, acima de tudo, mantendo-se um patriotismo constitucional.

Sei como é difícil conversar com alguém que não quer “papo” com você, como disse há pouco. Eu mesmo, muitas vezes, não consegui. Mas, quem sabe, os articuladores políticos do Congresso, os interlocutores entre governo e oposição, consigam. A presidente Dilma já estendeu as mãos, assim como eu e tantas pessoas nesse mundo já fizemos. Confesso que não tive sucesso, fracassei, pois, talvez, não seja suficientemente habilidoso. Em relação ao Brasil, todavia, sou otimista. Sei que a união vencerá o ódio e, enfim, acabaremos com essa história triste apregoada por alguns de que agora “Não quero ‘papo’ com vocês”… Vamos, sim, bater papo com todos e construir um Brasil fraterno.