O futuro para os que estão nascendo

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*por Fernando Rizzolo

Dizem que praia de paulista é shopping center. Concordo. Plenamente. Eu mesmo todos os sábados à tarde vou à minha praia e sento numa mesma poltrona, no mesmo café, no mesmo shopping. Seria como aqueles que têm seu lugar preferido na areia – é uma coisa instintiva, apesar de que alguns prefiram chamar de TOC. Só que há uma diferença nessa praia: sentado num café, ouvindo pelo celular música pré-selecionada pelo “streaming”, a vista é outra. Ao invés de olhar o mar, olho gente.

Uma observação recorrente nessa minha “praia”: o que eu vejo de mulheres grávidas e pais empurrando carrinhos de bebê é uma coisa impressionante! Assim, impossível não imaginar o que será desse país daqui uns 40 anos e, numa reflexão temerária entre o olhar e as notícias que transbordam sobre corrupção, desemprego, falta de perspectiva e violência, realmente imagino o que ronda a cabeça desses jovens pais.

Diante desse Brasil das notícias, o mesmo que acolherá quem ainda vai nascer, a pergunta clichê, mas inevitável e pertinente é: que país deixaremos para eles? Agora não resta a menor dúvida de que se não consertarmos a economia, de que se não nos desfizermos dos maus políticos, pobres e ricos serão vítimas fatais. Crianças e jovens não terão futuro e a saída para eles será se juntar ao povo de Governador Valadares – aquela cidade mineira na qual uma grossa fatia da população migrou para os Estados Unidos – aliás, me parece e segundo os noticiários, que o pessoal de lá está voltando para os EUA. Não é pessimismo, mas é que por aqui tudo vai mal. Improvável não questionar como conseguiram desmantelar um país em tão pouco tempo. Acho muito triste isso.

No mundo lá fora impera a intolerância. A Europa está se tornando perigosa, grupos extremistas atacam cidadãos inocentes em Israel covardemente a facadas. Imigrantes em massa se dirigem a países que, no fundo, já entoam preconceito e violência étnica. Enfim, provavelmente quando este texto for publicado não estarei no Brasil e sim na Europa, mas em Londres, por quase 30 dias. E, vejam, cheguei até a pensar em não escrever nada neste mês. Mas, como o momento é de incursões, decidi externar minha desesperança, esta alarmada em função dos carrinhos de bebê, das mamães grávidas, daqueles que passeiam no shopping e estão, sim, desempregados. Quando se lambuzam de sorvete, o fazem também para esquecer. É, não está fácil.

Mas, essa afinal é a minha praia, a praia de paulista, que talvez desnude mais do que qualquer outra – e que ainda nos alerta a partir de uma simples e prosaica reflexão.

Ouvi dizer que existem shoppings com arrastão, igual nas praias. Nem ligo. Se passarem por mim levarão o quê? Só ideias de um Brasil conhecido por “pátria educadora”. E eu vou continuar no café. Aqui, se a coisa pega, peço mais um macchiato e mudo para um samba de gafieira, uma vantagem do tal do “streaming”, que caiu no gosto dos jovens do Brasil.

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