O dólar e o carnaval – isso aí dá samba

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*por Fernando Rizzolo

Pode até parecer, pelo título deste artigo, que o assunto de hoje seja economia, os insondáveis custos de hospedagem nos hotéis, enfim, as viagens de feriado prolongado que estão por vir e quanto elas vão custar. Isso até renderia um longo texto, mas, na verdade, eu que nunca fui um folião, prefiro refletir os motivos do carnaval no Brasil. Sua insana e anestesiante felicidade rende mais que a economia. Com efeito, não há como desvencilhar situações tristes que são afogadas na alegria incontida desta festa.

Lendo um artigo há pouco tempo, descobri, surpreso, que nas quatro primeiras décadas do século 20, negros cariocas e judeus do Leste Europeu migrados para o Brasil dividiam ruas, escolas e mesmo casas no bairro Praça Onze, no Rio de Janeiro. E foi por lá, justamente na antiga Praça Onze, que as primeiras escolas de samba surgiram.

Mas, o que poderia, na época, fazer do carnaval uma efervescência de alegria na Praça Onze? Na minha humilde interpretação, a festa seria um jeito de extravasar a tristeza, o descaminho e o desalento, tanto de negros quanto de minorias étnicas. Por aqui, Brasil do samba, quando as coisas vão mal, o carnaval continua sendo um remédio – um tanto ingênuo e até passível do título ‘alienação’, é verdade. Ainda me lembro quando nos meus quinze anos juntávamos amigos e íamos de trem ao Rio de Janeiro, para o carnaval, é claro. Não entendia bem a alegria, mas aquilo me fazia feliz.

Com o samba enredo “2016: economia precária, recessão, desemprego e dólar alto”, a espontânea alegria carnavalesca é mais difícil, menos praticável. Apesar disso e por mais incoerente que pareça, acredito ser legítimo buscar meios de alegrar o espírito. Aqueles que criticam o carnaval devem apenas observar a alegria sem nexo, a fantasia da ilusão e se despojar da rigidez racional.

Talvez assim, e num vislumbre da história brasileira, compreenderemos que da alegria infantil revive a força; que com o espírito alegre, embalado pelas marchinhas, renascemos. Traçamos uma marcha sem rumo em direção ao inesperado, fortalecidos, apesar disso. Talvez haja alguns bêbados de esperança pelo caminho, em meio aos sempre sóbrios, assim como viviam outrora os negros e judeus da Praça Onze.

O enredo político perdido neste país em que impera a corrupção só pode ser vencido pela esperança da alegria.

Pena que o antigo trem de ferro São Paulo-Rio já não exista mais. Se por suas linhas ainda trafegasse, estaria eu mesmo tentado a esquecer de tudo e a viver deste ardor mais uma vez, deste antídoto chamado carnaval. Festa bonita, da forma como se realiza, é só nossa. Incoerente? O que importa! Evento monumental, figura sim como disforme no contexto da nossa democracia. Aliás, aqui democracia rima com folia e eu vou sim preparar minha fantasia, pois sinto saudades do tempo em que o real (Real?) valia… acho até que… isso aí dá samba…!

 

 

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