Amazônia: a outra face de D’us

* por Fernando Rizzolo

Não sei realmente por que, mas naquele dia, caminhando por aquele bosque que mais parecia uma floresta de pínus, fixei os olhos nos meus pés. A terra um pouco umedecida e o ar frio que soprava não me intimidavam, ainda que o sono quisesse me levar de volta à minha casa.

Sempre gostei das florestas, das matas, dos bichos que vivem daquilo, e todas as vezes que estou envolto às árvores, mantendo meu ritmo de caminhada, onde ouço apenas meus passos e os pássaros, penso em Baruch Spinoza (1632-1677), um filósofo do século XVII. Nascido em uma família judaico-portuguesa, seus familiares vinham, havia algum tempo, fugindo da Inquisição. Filho de um rico comerciante, viria a se tornar, posteriormente, um dos maiores pensadores racionalistas dentro da chamada filosofia moderna. Spinoza acreditava que Deus era a engrenagem que movia o Universo, e que os textos bíblicos nada mais eram que símbolos que dispensam qualquer abordagem racional.

Contudo, o mais interessante em Spinoza era sua visão una de natureza e Deus – a natureza como um reflexo da expressão divina. Por certo, com base nesse ponto de vista, podemos, sim, nos conectar com Deus quando estamos em sintonia com a natureza. Não há por que negar que não existem diversas maneiras de orar; pensar nas questões ambientais, na luta pela sua preservação também é uma forma de oração. Caminhar pela manhã sentindo o orvalho no rosto e o cheiro das folhas de eucalipto é mais do que exercitar os passos firmes em direção ao alto da montanha – é reaver o conceito panteísta de que Deus é naturante e a natureza, naturata (gerada).

Ainda me lembro de quando sobrevoava a Amazônia vindo de um Congresso de empresários na Venezuela dois anos atrás. A imensidão do verde me fez pensar em todas as formas de vida que ali habitavam; era como se eu avistasse de cima a expressão divina da criação. A preocupação com a preservação da Amazônia é uma constante em todos nós, e tudo o que lá habita pertence a nós brasileiros. Por consequência, deve existir um nexo causal, de cunho filosófico-espiritual, entre Deus e a obrigação cívica do nosso povo em tutelar aquela área.

Sempre que caminho nas minhas manhãs penso na grandiosidade divina e em nossa responsabilidade ambiental como brasileiros. Imagino a expressão de gratidão daqueles seres da floresta, à imagem divina, que nada possuem em sua defesa a não ser enxergarmos a natureza como a via Spinoza. Caminhar pelos campos verdes, na luta contra a destruição das florestas, é sair em defesa contra as serras afiadas do lucro que rasgam a face verde de Deus e lutar contra os que jamais caminharam na mata sentindo o orvalho no rosto ou souberam que natureza e Deus nada mais são que uma mesma oração.

Inclusão social e a saúde

Como sabemos, não há mais espaço na América Latina para as políticas que visam apenas ao desenvolvimento industrial, que beneficiam a especulação financeira ou que, de maneira indireta, socorram somente uma parcela da sociedade privilegiada, em detrimento de uma grande população carente em todos os sentidos. Os governos da atualidade, incluindo o dos Estados Unidos, pontuam a questão da inclusão social como forma de enfrentar os problemas da miséria – que atinge boa parte da população mundial – com programas específicos. 

Não podemos nos referir à inclusão social apenas como uma questão de transferência de renda, mas devemos vinculá-la à participação dos meios de que dispõe o Estado na garantia dos direitos fundamentais previstos na nossa Carta Magna, como educação, saúde, trabalho, entre outros, como tem norteado alguns programas como o Bolsa-Família, que vincula o recurso à educação dos filhos. Contudo, numa visão mais abrangente, podemos verificar que, muito embora exista a boa intenção, alguns direitos acabam sendo preteridos pelo Poder Público, sob a justificativa econômica, os quais, na realidade, perfazem a essência do que chamamos de real inclusão social, como, por exemplo, a prestação adequada dos serviços de saúde pública à população necessitada. 

Do ponto de vista meramente material, a referência à inclusão social, incidindo apenas na condição do poder de compra, é uma das más-formações conceituais de um programa real de inclusão. De forma prática, temos de margear a transferência de renda, dando o devido suporte aos demais direitos fundamentais do cidadão, como a saúde pública, otimizando de modo global a conceituação de inclusão, tendo em vista que, de nada adianta apenas aumentar o poder de compra, ou seu reflexo futuro na educação, se não adequarmos a esse aumento uma saúde pública de suporte, eficaz, àqueles que passam a integrar a sociedade, por intermédio dos notórios programas de transferência de renda. 

Nessa esfera de pensamento, defrontamo-nos com a imperiosa necessidade de disponibilizarmos recursos à saúde como forma primordial de sustentabilidade dos programas inclusivos, valendo-nos como na distribuição em massa das vacinas, na luta contra o negacionismo, na implementação de um programa de vacinação abrangente para vencermos a desafiadora pandemia do coronavírus, com a devida responsabilidade sanitária . A abrangência conceitual da inclusão social passa cada vez mais pela visão plena da satisfação do cumprimento dos direitos fundamentais previstos na Constituição, sob pena de apenas estarmos avalizando o mero consumo, via auxili emergencial, promovendo uma cadeia consumista de estrito cunho material, deixando de vincularmos o essencial, que é a inclusão da população carente num todo, exercitando as prerrogativas saudadas pela nossa Constituição, que, por excelência, é humana e progressista.

Pandemia, religião e imunidade

No tocante a pandemia que vivemos, gostaria de abordar um estudo interessante realizado em Israel sobre a questão da relação entre as doenças em geral e a fé.

Estudos científicos realizados nas últimas quatro décadas têm demonstrado o papel do ponto de vista público e pessoal da religiosidade e seus efeitos na saúde e na longevidade. Tais pesquisas têm evidenciado que a prática da fé e da religiosidade, aumenta, de certa forma, a imunidade geral dos pacientes. Alguns dos resultados citados foram pesquisados durante 16 anos em Israel, em comunidades com o mesmo perfil, porém vivendo espiritualmente de forma diversa: uma num kibutz secular não-religioso e outra num kibutz religioso.

Apesar de ambas as comunidades serem demograficamente iguais, contendo o mesmo nível de estrutura médica e social, o número de óbitos era o triplo no Kibutz secular, comparado-se em relação ao religioso. Pesquisas nesta área também foram realizada na Inglaterra. Através de estudos semelhantes foram constatado os efeitos da fé na superação dos problemas de saúde.

Verificou-se, por exemplo, num estudo sobre os efeitos das doenças meningocócicas em adolescentes, que a religiosidade, a fé e a espiritualidade, tinham o mesmo efeito preventivo que as vacinas para as doenças relacionadas a esta bactéria ( Tully J, Viner RM, Coen PG, Stuart JM, Zambon M, Peckham C, Booth C, Klein N, Kaczmarski E, Booy R. 2006. Risk and Protective Factors for Meningococcal Disease in Adolescents: Matched Cohort Study. BMJ 332: 445-450.)

O mundo vive um aumento da pandemia do Covid -19 apesar dos esforços dos governos, das vacinações em massa, e de toda sociedade, os procedimentos de higiene preconizados devem continuar sendo amplamente difundidos pela imprensa. Contudo, por tratar-se de uma doença que provavelmente tem no seu âmago, indevidas violações do ser humano contra natureza – no seu característico desrespeito especista, no triste confinamento antinatural de grandes quantidades de animais – temos que refletir e rever nosso estilo de vida e os nossos conceitos em relação aos hábitos alimentares que jamais deveriam ser baseados na violência.

O sofrimento dos animais e a incessante busca de lucro pelos grandes abatedouros escondem, com certeza, um baixo conteúdo espiritual-energético no contexto desta doença. Muito mais do que um vírus, encontramos uma forma de “virulência espiritual”; assim, a razão e a nossa espiritualidade nos levam a lançarmos mão de uma busca religiosa como uma forma complementar de proteção de seus efeitos nefastos.

Pouco importa a religião, a origem ou a forma de se conectar com Deus. Talvez, no silêncio da noite, numa reflexão sobre a procedência desta pandemia e de outras que poderão um dia surgir, ou então numa oração, encontraremos, enfim, uma forma de nos apaziguarmos com toda a natureza e nos harmonizarmos com um elo perdido. Descobriremos também que nos relacionarmos com Deus é respeitarmos os seres vivos por Ele criados que aqui vivem e compartilham conosco essa jornada terrena. Afinal, uma oração ou uma reflexão espiritual é também uma forma de perdão e de harmonia que sempre leva à cura os que têm fé.

Fernando Rizzolo

Garoa na praia

Existe às vezes, uma moldura diferente na vista da praia de cima do prédio. A chuva fina molha a praia vazia, e talvez por estar vazia nos remete às lembranças passadas. A chuva molhando a praia em dia nublado, cheira a whisky, cachaça, bossa nova, e lembra aquele amor. Tem cheiro de saudade, cheiro de mar, de olhos nos olhos.. E caminhar então, quem não caminhou ao lado de alguém que um dia amou, ama, ou ainda vai amar. 

Olhar a praia do alto prédio, não é para qualquer um. Se chovendo então, prepare uma boa bebida; a chuva caindo é o tempero do som da bossa nova, e a melhor companheira no passeio pela calçada da saudade, na lembrança das caminhadas, dos pés molhados pela água fria dos desencontros. O mais engraçado: as praias combinam o enredo. A moldura na praia chuvosa é sempre a mesma, pode ser Copacabana, Ipanema, Pitangueiras, e outras tão belas; aquele ar de tristeza, uma musica de Cayme, alguém que se foi para nunca mais voltar.

Cuidado nos dias chuvosos ao abrir a janela e dares de cara com a praia. Se notares o tempo chuvoso, a moldura do mar poderá te jogar no sofá da saudade, e então terás a lembrança de tudo que vivenciastes na areia, principalmente ao som dos Desafinados, envolto ao cheiro de mar e ao gosto do scotch. Se coragem tiveres por fim, terás então a oportunidade de descobrir, através de um olhar longínquo, que muitas coisas na vida nascem, e outras morrem na praia; se desfazem no vento, ou se perdem nas ondas que não voltam jamais. Cuidado, garoa na praia provoca sempre uma pneumonia de saudade, prepares então uma boa bebida…

Fernando Rizzolo

Fim do Auxílio Emergencial e a Fome

Hoje temos no Brasil 15 milhões de desempregados, com230.000 mortos pela pandemia e um Bolsa Família que não acompanha a inflação. Como se não bastasse, agoratemos o fim do auxílio emergencial, acompanhado peloolhar desesperado das mães que são a maioria das chefes de família em todas as comunidades ou favelas do Brasil. Segundo o Datafolha, 69% dos brasileiros atendidos pelo auxílio emergencial ainda não conseguiram outra fonte de renda.

Ontem, ao assistir uma reportagem na televisão, fiquei realmente consternado, para não dizer triste, quando ouvi uma criança de determinada comunidade dizer que,quando tem fome, come “farinha com açúcar”. Temos definitivamente que mudar o rumo da condução econômica do Brasil, e de nada adianta colocarmos a culpa na pandemia, como faz o governo, e mais precisamente o Sr. Paulo Guedes, que só está preocupado com o “teto fiscal” e poucos olhos tem para os que vivem em situação de extrema pobreza, na solidão, e para a angústia das mães chefes de família das favelas deste imenso Brasil.

Se não temos vacina por negligência do Poder Público, ou “picuinha da Anvisa”, não podemos ser negligentes com o fim do auxílio emergencial. Sabemos que o benefício de 600 reais chegou a atingir mais de 126 milhões de pessoas, o que representou 60% da população brasileira, entrepobres, negros, desalentados, pessoas para as quais a única saída foi, sim, o auxílio emergencial. E mais uma vez repito, de nada adianta culparmos a pandemia, pois fomos um dos últimos países a demonstrar preocupação com tal problema do ponto de vista sanitário, encarando-o com descaso, chacota, falta de organização e negacionismo.

Infelizmente o auxílio emergencial terminou e sabemostambém que, em 2020, somente a inflação de alimentos,de acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), foi de 14,09%, e o último reajuste do Bolsa Família foi de 5,6%, concedido ainda no governo Temer, em 2018. Portanto, diante desse quadro desesperador, em que o liberalismo insiste em promover ajuste econômico em vez de assistencialismosocial em época de crise, podemos nos aprofundar na miséria e tornar mais grave a fome que já assola o país. 

O governo Bolsonaro conta agora com o chamado Centrão, que por sua vez também vai pressionar o Sr. Guedes a flexibilizar a renovação desse auxílio, como que num grande “Plano Marshall”, para que a “farinha e o açúcar” não alimentem a desesperança, as doenças, o desagregamento familiar, a criminalidade, típicas de governos liberais, nos quais a economia ignora a tragédia da fome, tornando-se uma pandemia existencial ideológica, mais letal que o vírus, pois atinge uma população em especial, a mais vulnerável, a sem esperança, afinal, razões econômicas não dão ouvidos aquem de fome morre.