Garoa na praia

Existe às vezes, uma moldura diferente na vista da praia de cima do prédio. A chuva fina molha a praia vazia, e talvez por estar vazia nos remete às lembranças passadas. A chuva molhando a praia em dia nublado, cheira a whisky, cachaça, bossa nova, e lembra aquele amor. Tem cheiro de saudade, cheiro de mar, de olhos nos olhos.. E caminhar então, quem não caminhou ao lado de alguém que um dia amou, ama, ou ainda vai amar. 

Olhar a praia do alto prédio, não é para qualquer um. Se chovendo então, prepare uma boa bebida; a chuva caindo é o tempero do som da bossa nova, e a melhor companheira no passeio pela calçada da saudade, na lembrança das caminhadas, dos pés molhados pela água fria dos desencontros. O mais engraçado: as praias combinam o enredo. A moldura na praia chuvosa é sempre a mesma, pode ser Copacabana, Ipanema, Pitangueiras, e outras tão belas; aquele ar de tristeza, uma musica de Cayme, alguém que se foi para nunca mais voltar.

Cuidado nos dias chuvosos ao abrir a janela e dares de cara com a praia. Se notares o tempo chuvoso, a moldura do mar poderá te jogar no sofá da saudade, e então terás a lembrança de tudo que vivenciastes na areia, principalmente ao som dos Desafinados, envolto ao cheiro de mar e ao gosto do scotch. Se coragem tiveres por fim, terás então a oportunidade de descobrir, através de um olhar longínquo, que muitas coisas na vida nascem, e outras morrem na praia; se desfazem no vento, ou se perdem nas ondas que não voltam jamais. Cuidado, garoa na praia provoca sempre uma pneumonia de saudade, prepares então uma boa bebida…

Fernando Rizzolo