Poema de madrugada

Esta noite eu acordei depois de ter sonhado com aqueles sonhos que nada dizem….acordei pensando em você.

Ao lado da minha velha cabeceira com dezenas de remédios inócuos e inocentes, que me acompanham desde a minha adolescência , como aspirinas, omeprazol, e alguns para eventualmente controlar minha velha asma companheira, olhei fixamente para eles na escuridão. Essa noite eu acordei de madrugada, troquei o travesseiro, olhei para o teto, e então comecei a pensar em você….

Não era daqueles pensamentos que te abraçam e te levam de volta para o sono, era maior, o suficiente para manter meus olhos parados e docemente lembrar de você, por entre tantos remédios inocentes na cabeceira, você meio que me parecia a um bálsamo perdido, que me abraçava na fria madrugada, mergulhado no silêncio da noite, onde de longe ouvia os ônibus subindo as ladeiras da Vila Madalena.

Foi então que eu tentei uma aspirina, numa pequena dose, mas você insistiu em ficar dançando no meu pensamento , era enfim o começo de uma história que meu coração me escondia, uma leve sensação de amor como que se uma fruta não estivesse ainda madura.

Então antes de adormecer, novamente dei o nome deste poema de “poema da madrugada ” , apaguei a luz do meu velho “criado mudo ” e ele então calou-se de forma súbita. Então, bem então, fui dormir e nunca mais pensei em você , talvez foi a única coisa boa que o criado que era mudo repleto de remédios inocentes me aconselhou…….esta noite eu acordei…….mas voltei a dormir…

Brasil, o celeiro da Covid

 

Uma das correntes que explicam a transmissão do vírus no Brasil não é propriamente científica, mas ideológica. É bem verdade que o governo brasileiro sempre agiu em desacordo com a proteção social em relação a essa questão epidemiológica, abrindo a discussão como uma farsa, bem ao estilo do então presidente dos EUA, Donald Trump. A essência do negacionismo, do simplismo no tratamento através de medicações inócuas, as demonstrações públicas das aglomerações sem máscara, a falta de coordenação do planalto, sempre justificada pela decisão do STF que delegava a governadores e prefeitos o combate à pandemia o que não é verdade, pois a Corte não eximiu o governo federal de responsabilidade, pelo contrário, reforçou a competência dos executivos , fizeram do Brasil preocupação internacional na proliferação de novas variantes ante o descontrole do governo.

Um fato incontestável é que Bolsonaro sempre apostouque a população não iria aderir às vacinas, pois várias vezes afirmou que jamais a tomaria, e que a economia era,sim, vítima de uma “epidemia fabricada”, em que o vírusera um agente político para promoção de governadores e oposicionistas. E tal pensamento de certa forma acabouimpregnado na mente dos negacionistas, grande parte dos seus eleitores, muitos dos quais, diga-se de passagem, já faleceram em virtude da Covid-19. 

Diz um ditado alemão que “se há 10 pessoas sentadas numa mesa, um nazista se senta e ninguém levanta, então há 11 nazistas sentados”, e é exatamente nessa linha de pensamento que se pode avaliar a influência exercida poruma corrente ideológica que alimenta a contaminação pelo vírus. 

Hoje no Brasil o grande problema são as variantes, o que torna a contaminação e a virulência duplicadas, atacando, portanto, os jovens, ao contrário de outrora, em que eram apenas os mais idosos as vítimas fatais. 

A questão de saúde pública é complexa, ainda mais se tratarmos de lockdown, uma vez que de nada adianta restaurantes cumprirem as exigências de segurança, sebares, festas, igrejas e aglomerações em geral não o fazem.Aliás, essa é a queixa de determinados setores da economia, e com razão.

Isto posto, resta-nos apenas uma esperança, a vacinação em tempo ágil, o que até agora não demonstra que pode ocorrer, já que o governo não acompanha a produção e a compra destas no mesmo ritmo das contaminações. Para constatar o terrível desprezo por mais de 250.000 mortes, atualmente quase 2.000 mortes por dia, nada melhor e mais triste do que uma frase de Jair Bolsonaro em relação a essa tragédia dita esta semana: “Chega de frescura e mimimi. Vão chorar até quando?. Pobre Brasil, um país que realmente não é para principiantes. Prova disso é ologístico General Pazuello…

Assim, enquanto a tristeza e o abandono nos empurram às lágrimas, grandes infectologistas e países oferecem seu apoio, talvez para enxugar o choro doído dos desamparados…

 Fernando Rizzolo é advogado, jornalista, mestre em Direitos Fundamentais.