“Politização”: um termo pronto para ser usado

*por Fernando Rizzolo

No esteio do universo dos instrumentos de argumentação, um dos mais utilizados, inclusive por nós advogados, é o de descaracterização dos fatos, de preferência no uso de termos de impacto, como aqueles que visualmente nos remetem a uma forma, impulsionando-nos a uma revisão do fato ocorrido em favor do réu.

É fato notório que a presidente Dilma, quer por motivos de saúde, quer por conveniência política, demorou a se manifestar no caso Palocci; “modus operandi” diverso do usado pelo presidente Lula, que disparava de pronto contra qualquer acusação que atingisse os membros de seu governo. Essa postura defensiva, de cunho pouco crítico e embasada no viés da utilização da terminologia política que visa a descaracterizar um fato concreto, denota ao novo governo e ao ex, o velho uso de uma estratégia que fere a ética na democracia.

O que observamos de algum tempo para cá é que tudo o que os atinge, segundo o governo, se trata de “politização”, portanto sob a ótica da democracia saudável, opinativa, com as vertentes de apuração dos fatos delituosos ou éticos, é assim desqualificado, como sendo então parte de um mero jogo político, apequenando o embate das ideias, e o pior, chancelando tudo o que fere a esfera da boa conduta, ou atos que violam o espírito da Constituição, como o fato de o ex-ministro da Fazenda do governo Lula, Palocci, ter multiplicado por 20 seu patrimônio e ter adquirido um apartamento de R$ 6,6 milhões, em São Paulo, quando, como parlamentar, deveria sim viver de forma exclusiva dos seus subsídios.

Por bem agora o Ministério Público do DF decidiu investigar os ganhos de Palocci apurando se a evolução patrimonial do ministro de 2006 a 2010 é compatível com os ganhos de sua empresa, a Projeto. Contudo, o que temos que nos ater na observação da conduta política do atual governo e na do ex, é a insistente forma de passar por cima de fatos relevantes do ponto de vista republicano, jogando tudo sob o estilo da desqualificação dos fatos, e como disse, denominando de “politização” a quase tudo o que os atinge, desconstruindo talvez um grande projeto de esperança do povo brasileiro no governo Dilma, na defesa de outro projeto menor, uma empresa chamada “Projeto”.

Popularidade e inflação – artigo publicado na Agência Estado 05/05/2011

Por Fernando Rizzolo*

Uma das tarefas mais complicadas na consolidação do governo Dilma, na manutenção da popularidade que havia na era do presidente Lula, é, sem dúvida, o controle da inflação. Até que por bem, a presidente nunca foi de falar muito, nem de apregoar uma imensa cruzada contra a pobreza da forma ostensiva como o ex-presidente costumava fazer em seus discursos emotivos que atingiam de modo contundente sobretudo as camadas mais populares.

A grande verdade é que já se percebe nas expressões faciais – nas entrevistas dos membros do governo quando se aborda o tema -, que inflação é algo que atinge diretamente o maior valor agregado do governo petista, que é a chamada popularidade de seus representantes no poder. Por outro lado, fica patente que sem uma política de austeridade, de aperto ao crédito com redução dos prazos dos financiamentos, sem o necessário enfrentamento da realidade da demanda aquecida, fixando-se nessa fase, numa visão mais técnica e menos política, a inflação, como já ocorre em vários países, voltará a se tornar a vilã da economia. O momento, portanto, é de cautela e planejamento. Nem nós queremos correr o risco de enfrentar a inflação, representada emblematicamente pelo dragão que solta fogo pelas ventas, nem o governo há de querer o risco da queda da popularidade, da quebra da confiança, da crítica inevitável e violenta da oposição.

Ademais, sabemos que o consumidor é mais suscetível à redução do prazo de financiamento do que à alta dos juros. Com efeito, oito em cada dez consumidores brasileiros preferem comprar de forma parcelada. Equivale dizer que nem sempre – ou quase nunca – o consumidor tem a percepção de que o aumento do valor da parcela em si, em razão da alta dos juros, uma vez diluída, seja em si um fator determinante e impeditivo no seu voraz desiderato de consumo, principalmente naqueles que se referem aos bens de consumo. Por outro lado, o remédio da redução do prazo de financiamento tem no seu bojo um alto custo político, e isso esbarra na continuidade daquilo que seria um “governo para o povo”, como assim sempre afirmaram as lideranças do Partido dos Trabalhadores.

Mas como adequar uma medida técnica sem arranhões populares? O governo tem plena ciência de que um aumento real nas taxas de inflação poderia tornar inócuos – ou menos eficazes – os discursos emotivos, as promessas de inclusão social, as Bolsas Família. Isso porque, é fato, a imensa população pobre e a nova classe média brasileira já se acostumaram com a estabilidade da moeda, e distantes estão da palavra que hoje soa antiga, carestia.

Um dos grandes mecanismos que nesse momento poderá efetivamente contribuir para o controle da inflação – por ironia do destino, e pelo desespero dos exportadores, principalmente do setor manufatureiro – é exatamente o dólar mais baixo, que favorece as importações e aumenta a concorrência no âmbito do mercado interno. Sem contar, é claro, com a continuidade da política de elevação da taxa básica de juros, vez que isso alimenta a entrada de dólares mantendo essa moeda num patamar apreciável, tornando-a um instrumento regulador. Ao que parece, as autoridades monetárias efetivamente desejam o preço da moeda americana baixo como “ancora” nesse processo de controle da inflação.

Trocando em miúdos – e retomando a linha condutora do pensamento iniciado com o desafio que se impõe à nossa governante-, boa mesmo é a postura da presidente Dilma, com poucos discursos inflamados e poucas menções a grandes projetos de transferência de renda no palanque. Mesmo porque, por tudo o que o ex-presidente Lula avançou, a inflação agradeceu; mas agora se tornou uma ameaça. A hora é de agir, porque a emoção não vem mais do discurso da liderança maior da nação, mas dos números e, especialmente, do bolso daqueles que esperam a continuidade da virtuosidade da economia brasileira. Em outras palavras, que esperam manter seu poder de compra e esperam ter condições de pagar o que compraram. Entre a popularidade e a inflação, boa mesmo é a postura da presidente Dilma…..

* Fernando Rizzolo é advogado, professor universitário e membro efetivo da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP. Esta seção não se responsabiliza por operações decididas a partir das informações e opiniões divulgadas neste artigo.

Copyright © 2011 Agência Estado. Todos os direitos reservados

Tragédia do Realengo e uma simples caminhada

Dia nublado, com ar de que vai chover, quase sempre nos conduz a um shopping. Principalmente em São Paulo, onde os shoppings centers são a praia paulistana. Lá encontramos muita gente, novidades nas vitrines, cinema, além de podermos caminhar. Caminhar em shopping é bom, principalmente quando não se quer gastar. Geralmente quando vou a um shopping, costumo colocar um bom tênis, e vou andando, subo escada, desço de escada rolante, enfim sou um andarilho urbano num local fechado. E não só ando. Penso, reflito, caminho num passo lento e constante, vejo a quantidade de bebês, o futuro da nação, e como são tantos nos shoppings da capital paulista.

Mas no último sábado parei numa loja, dessas que vendem jogos acoplados à TV, com vários temas, na sua maioria estranhos: e muita violência. Na vitrine, o destaque era para um que se passava por uma perseguição policial, bandido versus polícia. Na minha ingenuidade, entrei na loja – de tênis anti-impacto, é claro –, e o vendedor me deu uma vasta explicação sobre os jogos, achando talvez que eu fosse comprar algum deles para o meu neto. Logo me perguntou sobre a característica do meu neto, sua idade, se ele é “agitado”, se gosta de aventura, e me indicou um do tipo “tiroteio”, matança por pontos, quanto mais mata, maior a pontuação atingida. Inconformado, disfarcei com o gesto de amarrar meu tênis anti-impacto, arrumei meus óculos, e fiquei apenas balançando a cabeça como se estivesse achando aquilo “instrutivo”. Ao final, agradeci ao vendedor, saí e fui tomar um café, pensativo, logo ali perto da escada rolante.

Pensei de imediato que o psicopata do Realengo, na sua infância, provavelmente brincava solitariamente como estes joguetes. Constatei que numa sociedade de informação – também pudera, um dia são deslizamento e mortes, no outro, inundações e mortes, atentados e mortes, tsunami e mortes, guerras e mortes –, o fator morte, é claro, deveria estar presente de forma mais marcante nas mentes adoecidas de muitos jovens do mundo contemporâneo. Aliás, na mídia, nos brinquedos, e até em algumas seitas, a morte é muito mais comentada do que a vida, o amor, o construir algo e o bem. Num rápido gole de café, perdido nas minhas reflexões, absolvi, sim as armas, os pedaços de pau, os socos na cara, os chutes, as facas, porque isso tudo, no meu entender, é apenas um instrumento da violência, do agente, e suprimir o pedaço de pau, o taco de golfe, não resolveria o problema.

A culpa de tudo? Também não é da lojinha de jogos, mas de uma sociedade de informação em que a relação com a morte infelizmente vale mais do que a vida, em que falar dos infortúnios vende mais notícia do que apontar os de bem . Rever essa postura mundial midiática poderia ser o início da construção educacional aos bebês dos shoppings do mundo, sob uma nova visão de vida, prestigiando a educação sadia, detectando precocemente os distúrbios mentais psicopatas, combatendo o bullying, reconstruindo os canais da vida, do amor, e sempre nos atermos às reflexões sobre o futuro do mundo e do Brasil. Tudo isso de forma simples, numa cadeia de informação informal, caminhando mesmo sozinho, pensativo, calado, ou conversando, protegido dos perigos de tomar chuva como num shopping, nos precavendo de todos os impactos que, quando emocionais, são mais fortes do que aqueles mais simples que atingem os nossos pés, porque estes sim, são protegidos pela tecnologia anti-impacto, que nos serve para nos levar a caminhar mais e a pensar com mais emoção no coração sobre aqueles “brasileirinhos que se foram”.

Fernando Rizzolo

Política, ecossistema e a natureza

*por Fernando Rizzolo

Foi numa tarde daquelas de sábado, na frente da minha pequena casa de campo, que antigamente se chamava de sítio, que decidi, com o olhar perdido em direção à mata da floresta que invade a janela do meu quarto, que não mais escreveria sobre política. Coisas dos homens, das relações de governo, são importantes, mas não nessa fase que estou passando, de ente reflexivo político para um observador espiritualista. Aliás, dizem que a idade nos leva ao fundamentalismo religioso. Isso, como sempre digo, pode ser perigoso no Oriente Médio, mas não aqui no meu sítio, nem nas minhas longas conversas com Deus.

Ao tomar conhecimento das tragédias que ocorreram no Japão, das cenas de fúria do mar, dos tremores da terra, no desespero das pessoas, e da perplexidade da humanidade diante do que mostrou o Breaking News, da CNN, descobri que minha vocação literária reflexiva religiosa me levaria a um profundo pensar sobre quais são as causas disso tudo. Sabemos que, de acordo com o Velho Testamento, no início os animais dos mais ferozes eram todos dóceis com Adão, em tudo havia uma harmonia, a paz reinava. Porque então a natureza hoje se porta tão agressiva quanto os animais ferozes que atualmente habitam as selvas? Seria, portanto, culpa do ser humano, como se pode concluir a partir do que os cientistas descrevem sobre o “efeito estufa” e outros conceitos vagos? Ou por trás daquela fúria da natureza existe, sim, uma resposta divina, incompreensível como o diagnóstico de uma doença terminal numa criança que mal começou a viver?

A grande verdade é que nascer e fazer parte daquilo que chamamos de vida nos põe diante da obra divina. Quanto mais a conhecemos, mais perplexos ficamos diante de tanta beleza e perfeição da obra de Deus da natureza. Observamos a capacidade destrutiva dessa mesma força natural e temos uma pequena noção do que poderia ser o desfecho cabalístico do fim da criação representado pela morte e destruição. Jamais chegaremos a uma explicação lógica, perfeita, e das científicas ainda prefiro as espirituais, religiosas, bem ao meu estilo filosófico da linhagem pensadora de Brauch Spinoza, em que, para se encontrar com Deus, é mister não entender seu comportamento instrumentalizado pela natureza, mas apenas contemplá-lo. E, como numa simples oração, descobrir que quem criou pode dispor da criatura, bastando assim apenas conciliarmos com algo superior, ou um mero olhar perdido tentando entender na beleza da floresta a tristeza do povo japonês, numa tarde debruçado na janela da casa do meu velho sítio…….

Fernando Rizzolo

Escrevendo para os Pássaros

Passar longo tempo sem escrever agita e anestesia a alma. Porque escrever não é ofício diário, com horário, transcende, sim, todos os momentos de avaria da consciência cotidiana, para que num determinado estado de “contar uma história” nos leve a um lugar cômodo e tudo seja então posto a um plano de confissão. Bom tempo fiquei sem escrever; fiquei divorciado de outubro até agora. Motivos calaram minha voz e me fizeram descobrir que de todos os textos, ou de todas as reflexões, pouco ficou de consistência plena. Afinal, num país em que poucos leem não poderia esperar brandoso eco de leitores calados.

Livros, textos, artigos, servem a nós mesmos. Isso eu descobri. Descobrir tal realidade é dar-se conta de que a arte literária pode ser dirigida a outros seres, não só aos humanos, mas aos que supostamente nos inspiram pela sua liberdade, assim como os pássaros. Liberdade foi sempre a minha teimosia ideológica, aquela que me levou a sonhar com a política, culminando com a percepção de que os 194 votos que obtive com candidato a deputado federal eram o exato espelho de que tudo fora, sim, consumido por mim mesmo. Tudo permaneceu na esfera do criador artístico. Assim, num golpe de revolta, me divorciou das minhas próprias ideias de pensar um país, acreditando na participação dos demais. Certo dia, enviei meu último livro, lançado na Feira Internacional do Livro em São Paulo, de presente à nossa hoje presidente Dilma. Afinal, lutei pela sua vitória, brigava nas redes sociais, enfrentei dissabores como editor de um blog chamado Blog da Dilma, e, como resposta a todo esse esforço, não obtive absolutamente nada, nem sequer um “obrigado pela luta”, ou um “obrigado pelo seu livro”, vindo de um assessor (nem que fosse por educação).

Não consideraria amargas as linhas deste texto, ou rancorosas, mas apenas um retrato do que é o Brasil, pobre de cultura e impregnado de um policialismo ideológico-partidário que não admite que pessoas de fora do grupo sejam prestigiadas ou reconhecidas. Os artistas desse imenso Brasil vivem um esquecimento histórico. Seja na literatura, na pintura, no cinema, no teatro, corre o olhar do crescimento do PIB, das commodities, do consumo, do amor líquido, na melhor concepção de Bauman, sobre todas as artes. Ganhar dinheiro, ter sucesso a qualquer custo se sobrepõem às ideias contidas na arte, e o olhar reflexivo do conteúdo de um quadro se resta esquecido e fora de moda dando lugar a uma nova concepção de arte, a arte do ganhar, restando a nós, artistas, escrever para um consumo solitário, de liberdade, de voo, escrever sabendo que escrevemos apenas para os pássaros que insistem em voar um voo solitário alto sem ao menos ser notados.

Leia o conto Angústia, de Anton Tchekhov

A quem confiar minha tristeza?(1)

Crepúsculo vespertino. Uma neve úmida, em grandes flocos, remoinha preguiçosa junto aos lampiões recém-acesos, cobrindo com uma camada fina e macia os telhados das casas, os dorsos dos cavalos, os ombros das pessoas, os chapéus. O cocheiro Iona Potapov está completamente branco, como um fantasma. Encolhido o mais que pode se encolher um corpo vivo, está sentado na boléia, sem se mover.

Tem-se a impressão de que, mesmo que caísse sobre ele um montão de neve, não consideraria necessário sacudi-la… Seu rocim está igualmente branco e imóvel. Graças a sua imobilidade, à angulosidade das formas e à perpendicularidade de estaca de suas patas, parece mesmo, de perto, um cavalinho de pão-de-ló de um copeque. Seguramente, ele está imerso em meditação.

Não pode deixar de meditar quem foi arrancado do arado, da paisagem cinzenta e familiar, e atirado nessa voragem, repleta de luzes monstruosas, de um barulho incessante e de gente correndo…

Faz muito tempo que Iona e seu rocim não se mexem do lugar. Saíram de casa ainda antes do jantar, e, até agora, não apareceu trabalho. Mas, eis que a treva noturna desce sobre a cidade. A palidez das luzes dos lampiões cede lugar a cores vivas e a confusão das ruas torna-se mais barulhenta.

– Cocheiro, para a Víborgskaia! – ouve Iona. – Cocheiro!

Estremece e vê, através das pestanas cobertas de neve, um militar de capote com capuz.

– Para a Viborgskaia! – repete o militar. – Está dormindo? Para a Víborgskaia!

Em sinal de consentimento, Iona puxa as rédeas, e a neve cai em camadas de seus ombros e do dorso do cavalo…

O militar senta-se no trenó. O cocheiro faz ruído com os lábios, estende o pescoço à feição de cisne, ergue-se um pouco e agita o chicote, mais por hábito que por necessidade. O cavalinho estica também o pescoço, entorta as pernas, que parecem estacas, e desloca-se com indecisão…

– Onde vai, demônio?! – ouve, logo depois, Iona exclamações partidas da massa escura de gente, que se desloca em ambos os sentidos. – Para onde te empurram os diabos? Mantenha-se à direita!

– Não sabe dirigir! Olha a direita – zanga-se o militar.

O cocheiro de uma carruagem solta impropérios; um transeunte, que atravessou a rua correndo e chocou-se com o ombro contra a cara do rocim, lança um olhar rancoroso e sacode a neve da manga. Na boléia, Iona parece sentado sobre alfinetes e aponta com os cotovelos para os lados; seus olhos tontos perpassam pelas coisas, como se não compreendesse onde se encontra e o que está fazendo ali.

– Que gente canalha! – graceja o militar. – Eles se esforçam em chocar-se contra você ou cair embaixo do cavalo.

Combinaram isso.

Iona volta-se para o passageiro e move os lábios…

Sem dúvida, quer dizer algo, mas apenas uns sons vagos lhe saem da garganta.

– O quê? – pergunta o militar.

Iona torce a boca num sorriso, faz um esforço com a garganta e cicia:

– Pois é, meu senhor, assim é… perdi um filho esta semana.

– Hum!… De que foi que morreu?

Iona volta todo o corpo na direção do passageiro e diz:

– Quem é que pode saber! Acho que foi de febre… Passou três dias no hospital e morreu… Deus quis.

– Dá a volta, diabo! – ressoa nas trevas uma voz. – Não está mais enxergando, cachorro velho? É com os olhos que tem que olhar!

– Anda, anda… – diz o passageiro. – Assim, não chegamos nem amanhã. Mais depressa!

O cocheiro estica novamente o pescoço, ergue-se um pouco e agita o chicote, com uma graciosidade pesada. Depois, torna a olhar algumas vezes para o passageiro, mas este fechou os olhos e parece pouco disposto a ouvir. Depois de deixá-lo na Víborgskaia, pára diante de uma taverna, encurva-se sobre a boléia e fica novamente imóvel… A neve molhada torna a pintá-lo de branco, juntamente com o rocim. Decorre uma hora… outra…

Três jovens passam pela calçada, fazendo muito barulho com as galochas e trocando impropérios: dois deles são altos e magros, o terceiro é pequeno e corcunda.

– Cocheiro, para a Ponte Politzéiski! – grita o corcunda, com voz surda. – Damos vinte copeques… os três!

Iona sacode as rédeas e faz ruído com os lábios. Vinte copeques são um preço inadequado, mas, agora, pouco lhe importa o preço… Tanto faz seja um rublo ou cinco copeques, contanto que haja passageiros… Empurrando-se e soltando palavrões, os jovens acercam-se do trenó e sobem para os assentos, os três ao mesmo tempo. Começam a discutir a questão: dois deles irão sentados, e quem vai ficar de pé?

Depois de uma longa troca de insultos, manhas e recriminações, chegam à conclusão de que o corcunda é quem deve ficar de pé, por ser o menor.

– Bem, faz o cavalo andar! – grita com voz trêmula o corcunda, ajeitando-se de pé e soprando no pescoço de Iona. – Dá nele! Que chapéu você tem, irmão! Não se encontra um pior em toda Petersburgo…

– Hi-i… hi-i… – ri Iona. – Assim é…

– Ora, você assim é, bate no cavalo! Vai andar desse jeito o tempo todo? Sim? E se eu te torcer o pescoço?

– Estou com a cabeça estalando… – diz um dos moços compridos. – Ontem, em casa dos Dukmassov, eu e Vaska(2) tornamos quatro garrafas de conhaque.

Não compreendo para que mentir! – irrita-se o outro moço comprido. – Mente como um animal.

– Que Deus me castigue, é verdade…

– Tão verdade como um piolho tossindo.

– Hi-i! – ri Iona entre dentes. – Que senhores alegres!

– Irra, com todos os diabos!… – indigna-se o corcunda. – Você vai andar ou não, velha peste? É assim que se anda? Estala o chicote no cavalo! Eh, diabo! Eh! Dá nele!

Iona sente, atrás de si, o corpo agitado e a voz trêmula do corcunda. Ouve os insultos que lhe são dirigidos, vê gente, e o sentimento de solidão começa, pouco a pouco, a deixar-lhe o peito. O corcunda continua os impropérios e, por fim, engasga com um insulto rebuscado, descomunal, e desanda a tossir. Os moços compridos começam a falar de uma certa Nadiejda Pietrovna. Iona volta a cabeça para olhá-los. Aproveitando uma pausa curta, olha mais uma vez e balbucia:

– Esta semana… assim, perdi meu filho!

– Todos vamos morrer. – suspira o corcunda, enxugando os lábios, após o acesso de tosse. – Bem, bate nele, bate nele! Minha gente, decididamente, não posso continuar andando assim! Esta corrida não acaba mais?

– Você deve animá-lo um pouco… umas pancadas no pescoço!

– Está ouvindo, velha peste? Vou te moer o pescoço de pancada! Não se pode fazer cerimônia com gente como você, senão é melhor andar a pé! Está ouvindo, Zmiéi Gorínitch(3)? Ou você não se importa com o que a gente diz?

E Iona ouve, mais que sente, os sons de uma pancada no pescoço.

– Hi-i… – ri ele. – Senhores alegres… que Deus lhes dê saúde!

– Cocheiro, você é casado? – pergunta um dos compridos.

Eu? Hi-i… que senhores alegres! Agora, só tenho uma mulher, a terra fria… Hi-ho-ho… O túmulo, quer dizer!… Meu filho morreu, e eu continuo vivo… Coisa esquisita, a morte errou de porta… Em vez de vir me buscar, foi procurar o filho…

E Iona volta-se, para contar como lhe morreu o filho, mas, nesse momento, o corcunda solta um suspiro de alívio e declara que, graças a Deus, chegaram ao destino. Tendo recebido vinte copeques, Iona fica por muito tempo olhando os pândegos, que vão desaparecendo no escuro saguão. Está novamente só e, de novo, o silêncio desce sobre ele… A angústia que amainara por algum tempo torna a aparecer, inflando-lhe o peito com redobrada força. Os olhos de Iona correm, inquietos e sofredores, pela multidão que se agita de ambos os lados da rua: não haverá, entre esses milhares de pessoas, uma ao menos que possa ouvi-lo? Mas a multidão corre, sem reparar nele, nem na sua angústia… Uma angústia imensa, que não conhece fronteiras. Dá a impressão de que, se o peito de Iona estourasse e dele fluísse para fora aquela angústia, daria para inundar o mundo e, no entanto, não se pode vê-la. Conseguiu caber numa casca tão insignificante, que não se pode percebê-la mesmo de dia, com muita luz…

Iona vê o zelador de uma casa, carregando um embrulho, e resolve travar conversa.

– Que horas são, meu caro? – pergunta.

– Mais de nove… Por que você parou aqui? Passa!

Iona afasta-se alguns passos, torce o corpo e entrega-se à angústia… Considera já inútìl dirigir-se às pessoas. Mas, decorridos menos de cinco minutos, endireita-se, sacode a cabeça, como se houvesse sentido uma dor aguda e puxa as rédeas… Não pode mais.

“Para casa”, pensa, “para casa”.

E o cavalinho, como se tivesse compreendido seu pensamento, começa a trotar ligeiramente. Uma hora e meia depois, Iona está sentado junto ao fogão grande e sujo. Há gente roncando em cima do fogão, no chão e sobre os bancos. O ar é abafado, sufocante… Iona olha para os que dormem, coça a cabeça e lamenta haver voltado tão cedo para casa…

“Não ganhei nem para a aveia”, pensa. “Daí essa angústia. Uma pessoa que conhece o ofício… que está bem alimentada e tem o cavalo bem nutrido também, está sempre calma…”

Num dos cantos, levanta-se um jovem cocheiro, funga, sonolento, e arrasta-se para o balde d’água.

– Ficou com sede? – pergunta Iona.

– Com sede, sim!

– Bem… Que lhe faça proveito… Pois é, irmão, e eu perdi um filho… Está ouvindo? Foi esta semana, no hospital… Que coisa!

Iona procura ver o efeito que causaram suas palavras, mas não vê nada. O jovem se cobriu até a cabeça e já está dormindo. O velho suspira e se coça… Assim como o jovem quis beber, assim ele quer falar. Vai fazer uma semana que lhe morreu o filho e ele ainda não conversou direito com alguém sobre aquilo… É preciso falar com método, lentamente…

É preciso contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que disse antes de morrer e como morreu… É preciso descrever o enterro e a ida ao hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia… É preciso falar sobre ela também… De quantas coisas mais poderia falar agora? O ouvinte deve soltar exclamações, suspirar, lamentar… E é ainda melhor falar com mulheres. São umas bobas, mas desandam a chorar depois de duas palavras.

“É bom ir ver o cavalo”, pensa Iona. “Sempre há tempo para dormir…”

Veste-se e vai para a cocheira, onde está seu cavalo. Iona pensa sobre a aveia, o feno, o tempo… Estando sozinho, não pode pensar no filho… Pode-se falar sobre ele com alguém, mas pensar nele sozinho, desenhar mentalmente sua imagem, dá um medo insuportável…

Está mastigando? – pergunta Iona ao cavalo, vendo seus olhos brilhantes. – Ora, mastiga, mastiga… Se não ganhamos para a aveia, vamos comer feno… Sim… Já estou velho para trabalhar de cocheiro… O filho é que devia trabalhar, não eu… Era um cocheiro de verdade… Só faltou viver mais…

Iona permanece algum tempo em silêncio e prossegue:

– Assim é, irmão, minha egüinha… Não existe mais Kuzmá Iônitch… Foi-se para o outro mundo… Morreu assim, por nada… Agora, vamos dizer, você tem um potrinho, que é teu filho… E, de repente, vamos dizer, esse mesmo potrinho vai para o outro mundo… Dá pena, não é verdade?

O cavalinho vai mastigando, escuta e sopra na mão de seu amo… Iona anima-se e conta-lhe tudo…

_____________________________________________________________________________

(1). Versículo de um canto da Igreja Russa.

(2). Diminutivo de Vassíli.

(3). Nas lendas russas, um dragão que repreeenta o mal. No entanto, o nome Gorínitch dá também idéia de tristeza, aflição.

(1886).

Tradução: Boris Schnaidermann

Cassada liminar que liberava bacharel sem prova da OAB

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Cezar Peluso, cassou ontem à noite a liminar que permitia que dois bacharéis em Direito do Ceará exercessem a advocacia independentemente de serem aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A íntegra da decisão não foi divulgada.

O presidente da OAB, Ophir Cavalcante, comemorou a decisão. “Ela reafirma a importância do exame de ordem como instrumento de defesa da sociedade. A decisão garante, ainda, que a qualidade do ensino jurídico deve ser preservada”, afirmou.

Na ação que pedia a derrubada da liminar, o Conselho Federal da OAB argumentava que a decisão abria brecha para que bacharéis sem formação adequada exercessem a advocacia. E alegava que a Constituição garante o exercício livre de profissão, mas prevê que uma lei pode criar restrições à atuação profissional.

A liminar havia sido concedida pelo desembargador Vladimir Souza Carvalho, do Tribunal Regional Federal da 5.ª Região (TRF-5), cujo filho foi reprovado por quatro vezes no exame entre 2008 e 2009, conforme a OAB. A decisão beneficiou apenas Francisco Cleuton Maciel e Everardo Lima de Alencar, mas abria brecha para novas ações no mesmo sentido. Os dois argumentaram ser inconstitucional a exigência de prévia aprovação na prova como condição para o exercício profissional da advocacia.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Rizzolo: Por bem o STF decidiu com o costumeiro acerto, Exame de ordem é imprescindível aos bachareis em Direito , assim como devemos instituir o Exame de CRM nos moldes aplicados aos milhares de estudantes brasileiros de medicina que se auto exilam no exterior em busca de um sonho.