Brasil compra US$ 10 bilhões em bônus e vira credor do FMI pela primeira vez

O Brasil se comprometeu formalmente nesta segunda-feira (5) a adquirir US$ 10 bilhões em bônus do Fundo Monetário Internacional (FMI), assumindo pela primeira vez a posição de credor desta entidade e refletindo seu crescente peso na economia mundial.

“Passamos da condição de devedores à de credores. É uma mudança radical”, declarou à imprensa o ministro da Fazenda, Guido Mantega, após entregar uma carta ao diretor-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn.

Mantega havia anunciado que o Brasil emprestaria US$ 10 bilhões ao FMI em junho. Em abril, quando a ideia de um eventual empréstimo ao FMI foi divulgada pela primeira vez, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva perguntou a jornalistas que cobriam o encontro do G20 em Londres: “Você não acha muito chique o Brasil emprestar dinheiro para o FMI?”

“É um momento histórico para nós. É a primeira vez na história que o Brasil empresta recursos ao FMI – e, portanto, à comunidade internacional”, destacou Mantega, que participa em Istambul da reunião anual do Fundo.

O ministro lembrou que o Brasil se beneficiou em 2002 de um pacote de US$ 30 bilhões do FMI para enfrentar as turbulências e a onda especulativa provocadas pela eleição de Luis Inácio Lula da Silva à presidência. Foi o maior valor já emprestado pelo organismo financeiro. Aplicando uma rigorosa política fiscal, Lula saldou toda a dívida no final de 2005.

O Brasil está entre os países que estão conseguindo superar bem a crise econômica mundial, após atravessar uma breve recessão. Mantega fez o anúncio três dias depois da vitória do Rio de Janeiro na disputa pela organização dos Jogos Olímpicos de 2016, ao derrotar as finalistas Chicago, Tóquio e Madri.

Na carta, entregue em mãos a Strauss-Kahn, o Brasil se compromete a “assinar um acordo de compra de bônus emitidos pelo Fundo no valor de US$ 10 bilhões de dólares, sob condições que serão estabelecidas no contrato que assinaremos”, explicou Mantega. “Faremos uma assinatura por dois anos”, indicou o ministro, acrescentando que o acordo será ratificado “nos próximos dias”.

“É importante dizer que nós estamos colocando uma parte de nossas reservas, mas isto não significa uma diminuição da disponibilidade de recursos para o Brasil. É apenas uma mudança de ativos”, ressaltou Mantega, lembrando que o país decidiu comprar bônus que podem ser vendidos a outros países, sem dar o dinheiro diretamente ao FMI.

“Com estes recursos, o FMI poderá ajudar os países que precisam de liquidez”, disse o ministro, explicando que, com esta atitude, o Brasil responde a um apelo feito por Strauss-Kahn aos membros do Fundo para que não acumulem reservas e usem parte delas para dar à instituição os recursos necessários para contribuir com a recuperação da economia.

Bric

Segundo Mantega, os países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) decidiram comprar um total de US$ 80 bilhões em bônus do fundo; US$ 50 bilhões serão adquiridos por Pequim e US$ 30 bilhões igualmente divididos por Brasília, Moscou e Nova Délhi.

Agora, os quatro países vão negociar a possibilidade de colocar seus títulos nos Novos Acordos para a Obtenção de Empréstimos (NAP), programa que permitirá ao FMI dispor de 500 bilhões de dólares para conceder empréstimos rápidos a países em dificuldades.

Os BRICs, no entanto, condicionam esta decisão a uma garantia de que seu poder de decisão seja proporcional à contribuição feita ao NAP. O Fundo, por sua vez, se comprometeu no domingo a aumentar em pelo menos 5% as cotas dos países emergentes até 2011.

Os US$ 80 bilhões dos BRICs representam 16% dos 500 bilhões previstos pelo programa, porcentagem que daria ao grupo de quatro países uma minoria de bloqueio.

No domingo, Strauss-Kahn anunciou que sua instituição necessitava de um “aumento considerável” de seus recursos para ajudar os países mais afetados pela crise, a maior desde a Grande Depressão da década de 30.
globo

Rizzolo: Parece um sonho o Brasil finalmente se tornar um credor do FMI. É bem verdade que as condições econômicas mundiais contribuíram para isso, mas por outro lado as políticas de intervenção do Estado na economia observando uma maior regulação dos meios financeiros propiciou ao Brasil um maior solidez econômica.

A grande verdade é que tudo na sua maior parcela se deve ao desenvolvimento do mercado chinês e seu aumento de consumo pelas commodities brasileiras. O povo chinês passou a consumir mais e o Brasil por ser um parceiro mais integrado à economia chinesa do que aos EUA, se beneficiou desse desenvolvimento.

Os recursos que estão sendo emprestados pelo Brasil e outros países, como China e Rússia, ajudarão o Fundo a socorrer países que estão em mais dificuldade por conta da crise, ajudando a retomar o comércio mundial e viabilizando um recuperação mais rápida da economia mundial. Agora, como diz o presidente Lula, “isso é muito chique”, o Brasil ficar credor do FMI. Parabéns ao Brasil e ao governo Lula. Tem seu mérito, ou não tem ? Tem que reconhecer, só bater, não dá, não é ?

Vendas brasileiras caem por 2º mês consecutivo

Rio de Janeiro, 16 jun (EFE).- O volume de vendas no comércio brasileiro caiu 0,2% em abril, comparado ao mês anterior, em dois meses consecutivos de resultados negativos, informou hoje o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

As vendas já tinham caído 0,5% em março comparado a fevereiro, seu primeiro resultado negativo em vários meses.

Apesar do volume de vendas em abril ter sido 6,9% superior ao do mesmo mês do ano passado, o IBGE reconheceu que o setor comercial, que até agora tinha se mantido imune, finalmente começou a sentir os efeitos da crise econômica global.

As vendas acumuladas nos primeiros quatro meses do ano aumentaram 4,5%, muito abaixo dos 11% registrados no mesmo período do ano passado.

O volume de vendas acumulado nos últimos doze meses, até abril, aumentou em 7,1%. Até setembro do ano passado, quando crise começou a se agravar, o comércio brasileiro acumulava um aumento anual das vendas de 10,3%.

De acordo com o IBGE, seis dos oito setores comerciais analisados registraram, em abril, uma redução em suas vendas, em comparação com março.

Os mais afetados pela queda das vendas foram o setor de livros, jornais e revistas (-2,7%), móveis e eletrodomésticos (-2,0%) e o setor têxtil, de confecções e de calçados (-1,7%).

As vendas de alimentos, bebidas e supermercado quase não aumentaram (+0,8%). Materiais para escritório e informática tiveram um aumento de 8,9%.

De acordo com o instituto, os setores mais afetados pela queda das vendas são os que dependem em maior proporção do crédito, como os de automóveis, móveis, eletrodomésticos e confecções.

As vendas de móveis e eletrodomésticos, por exemplo, acumularam nos últimos doze meses um crescimento de 8,3%, metade do registrado em setembro do ano passado (16,9%).

O setor de automóveis e motocicletas, que, até setembro de 2008 aumentava suas vendas a um ritmo anual de 21%, cresceu somente 5,1% no último ano, até abril.

De acordo com os analistas do instituto, apesar do comércio indicar estabilidade este ano, o ritmo de crescimento das vendas está muito abaixo do que vinha registrando até antes da crise.

“O comércio está positivo, mas não está crescendo e possivelmente não vai a crescer”, admitiu o economista Nilo Lopes, coordenador do estudo sobre as vendas do comércio no varejo realizado pelo IBGE.

De acordo com Lopes, a aparente estabilidade nas vendas em abril só foi possível graças às medidas que o Governo adotou contra a crise, principalmente à redução dos impostos sobre automóveis e eletrodomésticos linha branca. EFE

Rizzolo: Podemos observar, que a desaceleração foi mais forte em produtos ligados ao crédito, como móveis e eletrodomésticos, que desacelerou de 16,9% em setembro para 8,3% em abril. No varejo ampliado (que inclui carros, motos, partes e peças), a desaceleração foi de 21% em setembro para 5,1% em abril, a crise revelou de forma mais evidente seus efeitos sobre o setor nos resultados dos 12 meses do ano.

Na verdade, o comércio em 12 meses mostrou a face da crise. O setor ainda resiste, contudo, mais do que a indústria. O comércio depende menos das exportações e mais da massa salarial, que resiste graças ao aumento do salário mínimo e aos programas sociais do governo .

Mantega: recursos para FMI não reduzirão as reservas

BRASÍLIA – O ministro da Fazenda, Guido Mantega, explicou hoje que o aporte de US$ 10 bilhões ao Fundo Monetário Internacional (FMI) não reduzirá as reservas internacionais brasileiras e será realizado assim que a diretoria do fundo concluir a emissão do bônus que será subscrito não só pelo Brasil, mas também pela China (US$ 50 bilhões), pela Rússia (US$ 10 bilhões) e pela Índia, que ainda não anunciou o valor do aporte. Mantega destacou que, dessa forma, os Brics (sigla para Brasil, Rússia, Índia e China) vão colaborar para reduzir a vulnerabilidade internacional.

Mantega explicou que a emissão do bônus é, na verdade, uma aplicação financeira dos recursos das reservas internacionais brasileiras. Ele disse que a maior parte dos recursos das reservas estão aplicados em títulos do Tesouro norte-americano, que estão rendendo pouco. E, o restante, está alocado em outras aplicações sólidas, como esta que será feita com o FMI. Mantega disse que a vantagem do financiamento ao FMI é que esses recursos ajudarão os países emergentes que estão com escassez de capital neste momento de crise. Mantega destacou que é a primeira vez que o Brasil emprestará recursos ao FMI. “O Brasil está encontrando condições de solidez para emprestar ao FMI. No passado, era o contrário”, destacou Mantega, lembrando o período em que o Brasil teve de recorrer ao fundo para sair de outras crises.

O ministro destacou o fluxo de capital positivo no Brasil e o aumento das reservas internacionais. “Por isso, poderemos fazer essa transação com o FMI com tranquilidade”, disse o ministro. Ele disse que esse é o segundo passo importante tomado pelo Brasil ao decidir tornar-se credor do FMI. Ele lembrou que o convite foi feito no ano passado e que o Brasil aceitou por ter solidez econômica e recursos suficientes para fazer esses aportes. “Esses aportes são importantes para ajudar a encurtar a crise”, disse. Ele lembrou que alguns países estão reduzindo seus investimentos e o comércio exterior em função da retração econômica e por falta de recursos. Para Mantega, a ajuda brasileira poderá contribuir para a retomada do comércio mundial, com o que o Brasil também se beneficiará.
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Rizzolo: Parece um sonho o Brasil finalmente se tornar um credor do FMI. É bem verdade que as condições econômicas mundiais contribuíram para isso, mas por outro lado as políticas de intervenção do Estado na economia observando uma maior regulação dos meios financeiros propiciou ao Brasil um maior solidez econômica. A grande verdade é que tudo na sua maior parcela se deve ao desenvolvimento do mercado chinês e seu aumento de consumo pelas commodities brasileiras. O povo chinês passou a consumir mais e o Brasil por ser um parceiro mais integrado à economia chinesa do que aos EUA, se beneficiou desse desenvolvimento.

Os recursos que estão sendo emprestados pelo Brasil e outros países, como China e Rússia, ajudarão o Fundo a socorrer países que estão em mais dificuldade por conta da crise, ajudando a retomar o comércio mundial e viabilizando um recuperação mais rápida da economia mundial. Agora, como diz o presidente Lula, “isso é muito chique”, o Brasil ficar credor do FMI. Parabéns ao Brasil e ao governo Lula. Tem seu mérito, ou não tem ? Tem que reconhecer, só bater, não dá, não é ?

Como a China está lutando contra a crise global

O Ocidente está depositando as suas esperanças na China para reavivar a economia global. Pequim está orquestrando os seus esforços para combater a crise de forma tão meticulosa quanto anteriormente planejou a espetacular ascensão econômica do país.

Por Wieland Wagner, para o Der Spiegel*

Tudo é colorido de vermelho vivo, desde as coberturas das tendas que protegem dos elementos os inúmeros consumidores até os panfletos que os encorajam a comprar. Wang Shiqin, um agricultor de 62 anos, dirigiu-se apressadamente ao mercado nas primeiras horas da manhã. Assim como muitos consumidores daqui, ele já possui um televisor, mas agora quer comprar a sua primeira geladeira – subsidiada pelo governo chinês.

Há um clima misto de carnaval e competição no mercado de Feidong, uma cidade rural na província de Anhui, que fica a cerca de três horas de trem a noroeste de Xangai. Os vendedores apresentam barulhentamente eletrodomésticos, especialmente os de marcas nacionais, cujos preços estão reduzidos devido à campanha do governo para combater a crise financeira global.

Os chineses estão entre os maiores poupadores do mundo, depositando no banco uma parcela de suas rendas que é cinco vezes maior do que a proporção correspondente dos alemães. Mas agora o Partido Comunista quer promover o consumo coletivo.

A indústria chinesa global necessita principalmente, como novos consumidores, dos 800 milhões de agricultores do país. O mesmo ponto de vista prevalece no Ocidente, onde até mesmo a menor dose de otimismo sugerindo que a crise possa terminar em breve é absorvida com avidez.

Ponto de inflexão

Na semana passada, o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, afirmou cautelosamente que a economia global está “próxima a um ponto de inflexão”. Em uma manchete de primeira página, o jornal alemão de economia e negócios Handelsblatt afirmou que “a queda livre da economia alemã parece ter chegado ao fim”. A indústria de exportação da Alemanha poderia sair do vermelho, graças em parte à Ásia.

Mas até mesmo os membros do governo em Berlim não estão dispostos a arriscar uma previsão, não ousando afirmar se esta é de fato uma tendência de reversão ou simplesmente uma boa notícia isolada. A China parece ser a principal responsável por essa dose de otimismo. O Ocidente, por sua vez, está esperando que aumente o interesse da China por suas máquinas, produtos industriais e know-how.

O Ocidente deseja que milhões de consumidores chineses como o agricultor Wang substituam, pelo menos parcialmente, os consumidores da Europa e dos Estados Unidos, que, desde que a crise começou, estão comprando cada vez menos produtos “made in China”. Só em abril, as exportações chinesas despencaram cerca de 22%.

Fundos maciços para regiões atrasadas

Não é necessário muito para convencer as massas chinesas a gastar o seu dinheiro, e elas entregam-se entusiasmadamente a um frenesi de consumo em Anhui e outras províncias – especialmente nas regiões relativamente atrasadas do oeste do país – nas quais Pequim está atualmente investindo uma grande quantidade de dinheiro governamental.

“Jiadian Xiaxiang”, ou “Eletrodomésticos para as Vilas”, é o título da campanha em andamento na China. O programa de estímulo econômico é simples: os compradores têm que se identificar como agricultores. Após comprarem os seus novos televisores, geladeiras, máquinas de lavar roupa ou telefones celulares, os consumidores têm um desconto de 13% do preço de compra nos escritórios locais de tributação.

Pequim está utilizando programas de estímulo governamental similares para estimular a compra de automóveis. Um imposto sobre a compra de certos carros pequenos foi reduzido pela metade, chegando a 5%. O governo está gastando o equivalente a cerca de € 560 milhões na esperança de estimular as vendas de automóveis nas zonas rurais. E a estratégia parece estar funcionando. Somente em março, os chineses compraram mais de 770 mil carros, o que representa uma aumento de 27% em relação ao mês anterior, e um novo recorde mensal.

Os programas de estímulo recentemente ajudaram a China a superar os Estados Unidos como o maior mercado mundial de automóveis. Esses programas governamentais, financiados com o auxílio das enormes reservas monetárias chinesas, poderão beneficiar também o Ocidente.

China é que mais investe

Nenhum outro país está injetando dinheiro de maneira tão entusiasmada no exausto ciclo econômico, e em quase nenhum outro lugar um governo intervem tão rigorosa e profundamente no mercado como na República Popular da China.

A China foi um dos primeiros países a anunciar um programa de estímulo econômico. Em novembro de 2008, o governo em Pequim lançou um plano de dois anos para injetar quatro trilhões de yuans (cerca de € 450 bilhões) na economia. Isso é cerca de sete vezes a quantia que o governo alemão pretende investir na sua economia.

Desde o início da crise, Pequim criou novos projetos de infraestrutura praticamente com o apertar de um botão. Alguns projetos tinham sido planejados havia muito tempo, mas outros são totalmente novos. Entre eles está a pavimentação e a reforma de 300 mil quilômetros de rodovias, bem como um investimento equivalente a € 68 bilhões em novas ferrovias, o que é aproximadamente o dobro do ano passado.

No ano anterior, Pequim adiou vários projetos, em parte para reduzir a poluição durante os Jogos Olímpicos, mas também para esfriar aquilo que à época era uma economia super-aquecida. Com parte dessa estratégia, antes da crise o banco central da China aumentou em ocasiões a taxa de juros, mas a seguir reverteu freneticamente essa rota, tendo reduzido desde então os juros em cinco ocasiões consecutivas. Agora os planejadores econômicos de Pequim estão novamente aumentando o ritmo de todos os setores da economia.

Frente à crise, o governo e o Partido Comunista estão colocando rapidamente de lado as considerações relativas à proteção ambiental e à sustentabilidade, que foram levantadas cada vez mais nos últimos anos, tanto no exterior quanto na China. Em apenas dois dias, o Ministério do Meio Ambiente do país aprovou apressadamente 90 projetos que têm um valor total de 240 bilhões de yuans (€ 27 bilhões), incluindo usinas de geração de energia elétrica, usinas de alumínio, fábricas de cimento e siderúrgicas. Esse processo acelerado de aprovação é apelidado, sem nenhuma ironia, de “Passagem Verde”.

Os comunistas da China veem-se subitamente mais uma vez em seu elemento. Eles estão bastante acostumados com campanhas governamentais, desde à época que o então líder Mao Tsé-tung invocou o fatídico “Grande Salto Adiante” na década de cinquenta, e mais tarde lançou a Revolução Cultural.

Embarcados na mesma canoa furada

Atualmente, o inimigo número um do partido é a crise global, que é originária principalmente dos Estados Unidos, o importante mercado de exportação de Pequim. A China está preocupada também com os seus investimentos financeiros nos Estados Unidos. Tendo cerca de um terço das suas reservas em moeda estrangeira de US$ 1,9 trilhão (€ 1,4 trilhão) investido em títulos do Tesouro dos Estados Unidos, a China é o maior credor da superpotência ocidental. Em outras palavras, chineses e norte-americanos estão essencialmente embarcados na mesma canoa furada.

Para proteger os seus devedores do colapso, os chineses têm como única opção continuar comprando títulos do Tesouro norte-americano. Porém, Pequim está tirando vantagem da crise para apresentar-se como uma alternativa aos Estados Unidos e como uma futura superpotência. Para a liderança chinesa é gratificante observar o Ocidente buscando soluções que cheiram a capitalismo estatal.

Os líderes chineses têm uma boa chance de vencer a competição global, pelo menos no curto prazo. Afinal, a economia de mercado planejada é a área deles. Além do mais, o Partido Comunista não tem que se preocupar com nenhum parlamento democraticamente eleito, que fosse capaz de procurar influenciar a sua “economia de mercado com características chinesas”. E eles podem praticamente ordenar aos seus bancos estatais que concedam empréstimos às companhias, muitas das quais são também estatais.

Somente em março, os bancos chineses aumentaram o volume dos seus empréstimos às companhias em um valor equivalente a € 216 bilhões. Como resultado, os investimentos nas fábricas e nos imóveis nas áreas urbanas aumentaram mais de 30% de janeiro a abril.

Gerentes onipotentes da crise

O partido tem também enviado os seus membros para visitar companhias em todo o mundo. Parte do objetivo dessas visitas é determinar que companhias necessitam de apoio governamental. Ao mesmo tempo, as autoridades do partido passaram a pressionar os gerentes de companhias locais para que estes não demitam nem fechem fábricas – uma tendência que gerou uma onda inicial de protestos no país no final do ano passado.

A princípio, a crise pegou o partido de surpresa na província de Guangdong, o centro exportador no sudeste da China, uma região vizinha de Hong Kong. Quando milhares de fábricas privadas que produziam produtos baratos como sapatos e brinquedos foram fechadas, cerca de 20 milhões de trabalhadores migrantes em toda a China perderam os seus empregos. Mas as autoridades locais do partido garantiram o recebimento de salários atrasados pelos recém-desempregados.

Em Xangai, os gerentes de crise do Partido Comunista são praticamente onipotentes. Nesta cidade de arranha-céus, autoridades comunistas municipais controlam as grandes companhias mais importantes, das redes de supermercados à maior fabricante chinesa de automóveis. Recentemente, a cidade gastou um bilhão de yuans para salvar discretamente da falência a SVA, uma fabricante local de televisores de tela plana. “O partido é fundamental para superar as dificuldades econômicas”, afirma Yu Zhengsheng, líder do Partido Comunista em Xangai.

O objetivo coletivo dos planejadores econômicos da China é obter um crescimento de 8%, o que a liderança de Pequim considera o patamar mínimo necessário para preservar a constantemente invocada harmonia social neste país enorme.

De fato, a China provavelmente anunciará no final do ano um crescimento que esteja totalmente sincronizado com os números planejados – não importando se o índice verdadeiro de crescimento seja de exatos 8% ou, por exemplo, de 7,8%.

Libertando a China da dependência das exportações

No primeiro trimestre de 2009, a terceira maior economia mundial cresceu 6,1%. O número é desapontador quando comparado ao crescimento de dois dígitos experimentado pela China até 2007. Não obstante, a República Popular da China ainda está em boa forma se comparada ao Ocidente, que está mergulhando cada vez mais profundamente na recessão.

O primeiro-ministro Wen Jiabao já indicou que ainda possui “mais pólvora” disponível para proteger o seu país da crise. Mas, ao construir novas estradas, ferrovias e aeroportos, Pequim só está elevando a proporção já elevada e nada saudável de tais investimentos na economia em geral, que já excedeu os 40% em 2007.

Oferecer descontos de impostos para carros e televisores não resolverá o verdadeiro desafio da China, que é libertar-se da dependência das exportações no longo prazo e estimular o consumo doméstico.

Para atingir esse objetivo, a China terá que reduzir a desigualdade crescente entre ricos e pobres. Na década de oitenta, os chineses das áreas urbanas ganhavam em média aproximadamente o dobro dos moradores das zonas rurais. Em 2008, a população urbana ganhava 3,3 vezes mais do que a população rural.

A República Popular da China necessita urgentemente desenvolver um sistema de bem estar social que seja bem mais amplo do que os atuais planos para essa área. A maioria dos 1,3 bilhão de habitantes da China não contam com serviços de saúde adequados nem com aposentadorias significantes.

A China, que se industrializou com atraso, necessita urgentemente – e bem mais do que o Ocidente – de empresários privados dispostos a assumir os riscos envolvidos no desenvolvimento das suas próprias marcas de alta tecnologia. Mas, em vez disso, os planejadores econômicos do país continuam socorrendo as gigantescas empresas estatais com os seus empréstimos.

Até mesmo o banco central de Pequim, no seu relatório trimestral mais recente, manifestou preocupação quanto à necessidade de a China acelerar “a inovação e a reforma”.

Em vez disso, os líderes provinciais do partido procuram perpetuar a glória da organização erigindo prédios ostentatórios de aço e concreto. Ni Jinjie, um famoso comentarista financeiro, adverte que se Pequim continuar distribuindo dinheiro indiscriminadamente, “a estrutura da nossa economia poderá sofrer um rápido desequilíbrio”.

A nova bolha da China já está começando a crescer silenciosamente nos mercados. Em Shenzhen, onde o índice das ações já subiu mais de 50% neste ano, os reguladores do mercado sentiram a necessidade de divulgar um alerta oficial aos investidores chineses: “Cuidado com os perigos da especulação cega com ações!”.

Tradução: UOL

*Der Spiegel é um jornal alemão.

Rizzolo: A China depende de insumos e parte dessas commodities é importada do Brasil e de outros países. A economia chinesa possui característica poupadora, o conceito de consumo na China ainda é incipiente, e para isso o governo promove através de incentivos estatais, as necessárias condições para que o consumismo tome conta dos chineses. Mais ou menos a dinâmica de incentivo na compra de bens é feita como no Brasil, na renúncia tributária e diminuição dos impostos a favor do consumo de bens, o que acarreta um aumento do nível econômico. É interessante observar o comportamento da economia chinesa, e bom também é lembrar, que tudo fica mais fácil em função da economia ser planificada que pode assim atuar com maior eficiência nos setores mais vulneráveis, e incidindo de forma pontual na oferta de créditos e recursos advindas de bancos estatais que possuem o compromisso com a sociedade.

Swaps, o Real, e o Mercado Interno

Todo cenário macroeconômico está propício a um processo de queda da taxa básica de juro (Selic). O fato da valorização cambial, nos faz refletir que ainda – sem considerar todas as outras variáveis – existe um espaço para uma acentuada queda nas taxas de juros. Na verdade não são só os investimentos externos que aumentaram, mas os que já circulavam na economia permaneceram, dando o efeito contrário do corte de juros, surtindo a valorização cambial, forçando o Banco Central (BC) a realizar, o primeiro leilão de swap cambial reverso, que tem na sua essência alguns inconvenientes aos exportadores, pois retarda de certa forma uma maior queda do dólar.

A natureza diversa do ” enxugamento de dólares” no mercado, através dos swaps reversos, denota uma confiabilidade dos investidores no País, e acena como uma possível regressão da condição de retração do mercado brasileiro. É bem verdade, que que o afrouxamento adicional da política monetária depende de mudança ” premente ” nas regras de remuneração da caderneta de poupança, até porque, se a taxa Selic cair para um dígito, alguns fundos de investimento em renda fixa e DI terão remuneração líquida abaixo da poupança.

Os investimentos no País aportam entre outros motivos, pelo potencial do nosso mercado interno, e o momento de crise internacional, deixa os investidores com poucas opções confiáveis. O Brasil neste contexto ao administrar um maior volume de dólares via swaps, acaba fortalecendo as reservas, e isso, como que num ciclo virtuoso, induzirá a mais investimentos, valorizando ainda mais a moeda.

Não restará outra saída ao Banco Central: diminuir substancialmente a queda da taxa básica de juros, realizar leiões a vista, e ir em direção ao crescimento do mercado interno, sem medo do ” bicho papão da inflação “; tendo como seu “santo protetor”, as commodities que continuam abastecendo o poderoso mercado chinês, que se recupera lentamente num rítmo ainda alto para nós. Sorte nossa.

Fernando Rizzolo

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Juro básico a 10,25% fragiliza mercado interno frente à crise

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu na quarta-feira (29) a taxa Selic em 1 ponto percentual, passando de 11,25% para 10,25% ao ano. O pequeno recuo na taxa básica de juros desagradou trabalhadores e empresários, que consideraram o corte como tímido, insuficiente e conservador.

Em condições normais de temperatura e pressão, uma taxa de 10,25% ao ano, ou 5,8% reais (descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses), já seria bastante elevada. Em um ambiente internacional de profunda crise – com a quase totalidade dos países do G7 em recessão, Estados Unidos incluso –, mais ainda. Esse fato, entre outras coisas, cria dificuldades para as exportações brasileiras, o que significa dizer que o espaço maior para o crescimento da nossa economia, mais que nunca, está no mercado interno. Daí a urgente necessidade da redução dos juros para viabilizar a ampliação do crédito e dinamizar a atividade produtiva, gerar empregos e aumentar o consumo. Enfim, fortalecer o mercado interno.

No início de março, antes da penúltima reunião do Copom, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou o estudo “A Gravidade da Crise e a Despesa de Juro do Governo” sugerindo a redução da Selic para 7% ao ano, em termos nominais, um pouco mais de 2,5% de juros reais. Ainda assim, o Instituto considerava uma “taxa demasiadamente alta para tempos de crise”. Hoje, segundo a consultoria UpTrend, 36 das 40 maiores economias mundiais estão com juros reais iguais ou inferiores a 1,7% ao ano. Iguais a zero ou com taxas negativas, 19 países. Ou seja, bem distantes do patamar (5,8% ao ano) estabelecido pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e sua trupe.

A crise, originada no coração do sistema capitalista, não atingiu em cheio a economia brasileira. Dois fatores foram fundamentais para isso: a decisão do governo de manter os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a resistência do movimento sindical ao não aceitar a redução geral dos salários, como pretendiam os monopólios, o que implicaria em uma redução drástica do consumo, portanto, enfraquecimento do mercado interno. Contudo, seja pela sabotagem aberta do BC, seja pela atuação das multinacionais, a crise externa não deixou de resvalar em nossa economia. Um aspecto tem se mostrado um claro entrave para estimular a ampliação da demanda e a atividade produtiva: a escassez de crédito, dificultado principalmente pelos juros cavalares. Isto é, a demora em reduzir os juros, em um primeiro momento, e os cortes a conta gotas, posteriormente, têm sido um dos fatores de contenção à retomada do crescimento verificado nos três primeiros trimestres do ano passado.

Segundo a Sondagem Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), do primeiro trimestre deste ano, “a queda da produção atingiu as pequenas empresas com maior intensidade” e o “acesso ao crédito continua difícil”. Para o setor industrial, a falta de demanda é um dos principais problemas, sendo que “as perspectivas com relação à demanda externa são mais pessimistas”. O nível de utilização da capacidade instalada recuou a 68%. “Não obstante, o pessimismo dos empresários com relação à evolução futura da economia diminuiu”, diz a CNI.

O próprio presidente do BC já disse repetidas vezes que os efeitos da redução ou aumento dos juros são verificados após seis meses. Pois bem, se de retomada do crescimento se trata, não dá para o Banco Central ficar apenas chancelando a cada reunião do Copom as estimativas dos “analistas” financeiros – que, em última instância, é o que tem acontecido -, mantendo os juros nas alturas e dificultando os investimentos das atividades produtivas. Por outro lado, também não há razão para se manter o intervalo das reuniões em 45 dias. Aliás, o período entre uma reunião e outra foi aumentado de 30 para 45 dias exatamente para protelar as reduções dos juros.

A necessidade da expansão da produção é incompatível com o nível atual dos juros básicos. Protelar uma drástica redução da Selic é querer, aí sim, que a crise entre e se instale de mala e bagagem.

VALDO ALBUQUERQUE
Hora do Povo

Rizzolo: É claro que diante da crise internacional, reduzir a taxa Selic em 1 ponto percentual, passando de 11,25% para 10,25% ao ano, ou 5,8% reais (descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses, significa quase nada. Até porque, uma taxa apreciável em termos internacionais está por volta de 2 a 3%, como por exemplo nos países da Europa. O grande problema é que com esta taxa de juro ainda altíssima, predispõe a entrada maciça de dólares, valorizando o real, e por conseqüência prejudicando as exportações, principalmente a de manufaturados.

Até que um pouco parece proposital, sem mesmo atermos a uma possível ” teoria conspiratória” contra o desenvolvimento econômico do País. Na verdade a postulação de que a alta taxa de juro mantem a inflação sob controle, serve apenas para que os devaneios da política econômica dêem margem a pensarmos o que quiser, inclusive nisso. Tenho pena dos pequenos empresários brasileiros que geram emprego, não tem crédito, concorrem com os grandes grupos e ainda sonham com um mercado interno aquecido.

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PIB chinês no 1º trimestre tem menor expansão desde 1992

PEQUIM, 16 de abril (Reuters) – A China iniciou 2009 com o mais fraco crescimento já registrado, mas uma recuperação em março sugere que a terceira maior economia do mundo pode ver tempos melhores à frente, afirmam analistas.

Um salto no empréstimo e no gasto público contrabalançou o colapso das exportações. A expansão do PIB foi de 6,1% no primeiro trimestre sobre o mesmo período do ano passado, abaixo da leitura de 6,8% registrada nos três meses anteriores.

O dado também ficou abaixo da previsão de analistas de 6,3% de crescimento e foi o menor da série iniciada em 1992.

Por outro lado, o governo não divulga o dado do Produto Interno Bruto (PIB) na comparação com o trimestre imediatamente anterior, mas economistas calculam que no primeiro trimestre esse crescimento ficou entre 5,3% e 6,2%, acima da alta de 0,9 a 2,5% calculada para o quarto trimestre do ano passado.

“A economia nacional em geral mostrou mudanças positivas, com uma performance melhor que a esperada”, disse Li Xiaochao, porta-voz da agência nacional de estatísticas, em entrevista coletiva.

Ele ressaltou, no entanto, que a queda das exportações está abatendo os lucros corporativos, reduzindo a receita do governo e atrapalhando a criação de empregos.

“A economia nacional está sendo confrontada pela pressão de uma desaceleração.”

Muitos economistas dizem que a retomada no fim do trimestre dá crédito às promessas do governo de que a China pode sobreviver à crise mundial e crescer 8% neste ano, um patamar visto como mínimo para gerar empregos no país.

Os dados abertos do PIB também forneceram otimismo aos analistas.

O crescimento na comparação anual do investimento em capital fixo saltou inesperados 28,6%, enquanto a produção industrial cresceu 8,3% em março, recuperando-se do recorde de baixa de 3,8% apurado entre janeiro e fevereiro.

“A economia começou a se beneficiar do fim do processo de desestocagem, assim como do pacote de estímulo do governo”, afirmou Mingchun Sun, do Nomura Global Economics em Hong Kong.

“Empréstimos bancários muito mais fortes que o esperado e o crescimento dos investimentos no primeiro trimestre sugerem que o crescimento será muito forte no segundo trimestre.”

folha online
Rizzolo: O que observamos, é uma retomada da economia chinesa no final do trimestre, e isso nos leva a pensar que a China poderá sobreviver à crise mundial e ainda crescer 8% neste ano. Se isso se confirmar, estaremos num patamar mínimo de crescimento da China, mas aceitável. O governo chinês anunciou em novembro um plano de estímulo econômica de cerca de US$ 585 bilhões, com medidas fiscais e, sobretudo, grandes investimentos, principalmente em infraestruturas.

A economia brasileira depende bem mais do mercado chinês do que do próprio mercado dos EUA, e muito da relação do aumento dos preços das commodities está interligado ao crescimento da economia chinesa. O pacote de ajuda do governo ao Agronegócio vem em boa hora, precisamos estar atentos a uma eventual maior demanda por commmodities pelo mercado chinês.