Otimismo, o PIB e o Câmbio

Quando todos, já embalados pelo otimismo do governo, concordavam com o presidente que a crise econômica que assolou o país neste ano não passava de uma simples “marolinha”, a notícia sobre o aumento do PIB no terceiro trimestre intensificou ainda mais esse sentimento de otimismo no povo brasileiro, pois, de acordo com o governo, tal aumento deveria superar as expectativas. Contudo, segundo a revisão de dados do IBGE, foi apontada uma queda de 2,1%, em lugar de 1,8%, do PIB no primeiro trimestre e de 1,6%, em vez de 1,2%, no segundo, o que gerou uma frustração geral.

A primeira delas porque ficou comprovado que o empresariado, os economistas e os analistas se renderam muito mais aos impulsos otimistas da era Lula do que aos números reais da economia, os quais podem ser revistos de uma hora para outra e nos levar a uma triste realidade econômica. A segunda frustração – esta já tão contestada por parte de muitos empresários e especialistas – foi que as altas taxas de juros – o grande vilão da história – realmente contribuíram para o resultado obtido, freando o desenvolvimento do mercado interno e prejudicando nossa capacidade de exportação.

Muito embora o desempenho da nossa indústria tenha sido o mais forte entre os setores de produção (2,9% ou 12,1% anualizados), o triste resultado da agropecuária colaborou para o menor crescimento do PIB, em função da valorização do real, que está diretamente relacionado às altas taxas de juros reais, e da queda dos preços no mercado internacional, o que, de certa forma, potencializou o baixo desempenho desse importante setor.

Com efeito, o PIB de 2009 vai depender do resultado do quarto trimestre, mas com certeza será ligeiramente inferior a 1%. Diante desse quadro, só nos resta confirmar que a política macroeconômica que culminou com a valorização de 100,64% do real na era Lula, em função das altas taxas de juros, prejudicando o consumo interno e essencialmente as exportações, deverá ser revista. A pretensa acomodação e a argumentação de que mesmo com os juros no atual patamar a economia deslanchava de vento em popa caíram por terra.

Portanto, resta-nos agora não só rever os valores do PIB, mas também visualizarmos uma nova concepção monetária que priorize as exportações, principalmente as do setor agropecuário, setor este mais afetado, de maior risco e que sempre contou com diversos fatores do otimismo: o realismo, o fatalismo climático, as chuvas, o investimento de risco e a sorte. Otimismo em excesso e números reais que surgem da noite para o dia causam, da mesma forma, os efeitos devastadores a que os agricultores estão habituados: a perda da colheita ou a perda da esperança.

Fernando Rizzolo

Em setembro, entrada de capital especulativo ultrapassa US$ 6,8 bi

Os números do setor externo divulgados pelo Banco Central registraram em setembro ingressos líquidos de US$ 6,835 bilhões em investimentos estrangeiros em carteira. Esse volumoso ingresso de capitais puramente especulativos não foi um ponto fora da curva, como costumam dizer os economistas. Inclusive já vinha sendo apontado em meses anteriores.

Assim se sucedeu em agosto (US$ 6,079 bilhões) e julho (US$ 7,517 bilhões). No ano, foi acumulada uma entrada de US$ 22,693 bilhões em investimentos estrangeiros em carteira.

Especialmente em período de crise internacional, o diferencial de juros tem se tornado um forte atrativo para os especuladores. É só analisar, por exemplo, taxa real de juros(4,3%) com as dos países do G7. Atualmente, segundo levantamento da consultoria UpTrend, a taxa média real de juros das 40 maiores economias é de 1,1%. Estão abaixo dessa média, países como Inglaterra (-0,6%) e Itália (0,8%). As taxas de juros reais dos EUA e França estão em 1,4%, enquanto que na Alemanha está em 1,3%, Canadá, em 1,2% e Japão, 2,4%.

Em setembro, a média geral dos juros reais era de 1,2%, enquanto a dos EUA, 2,3%. A da Inglaterra estava em -1,3%, a da Alemanha, 1,5% e a do Japão. A do Brasil, 4,5%.

Em julho, média geral dos juros reais: 1,0%. Abaixo disso, Inglaterra (-1,3%) e Alemanha (0,8%). Os EUA estavam com taxa real de juros de 1,6% e Japão, com 1,2%. A do Brasil, 4,4%.

Com isso, os especuladores ganham em duas pontas. Primeiramente, na conversão das moedas e depois na aplicação em títulos públicos remunerados pela Selic.

Além de se tornar um freio à ampliação dos investimentos, a consequência imediata da manutenção dos juros altos por parte do BC é a valorização do real ante ao dólar. Segundo o FED, o banco central norte-americano, entre 31 de dezembro de 2008 e 22 de outubro de 2009, a taxa de valorização média de uma cesta de moedas em relação ao dólar foi de 6%, enquanto a do real foi de 37%.

Obviamente que encareceram os produtos brasileiros no exterior, atingindo em cheio às exportações.

A cobrança de 2,0% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre capital estrangeiro que ingressar no país para aplicação na Bolsa e em renda fixa, foi uma boa medida, mas ainda muito tímida. Sem a redução dos juros para média internacional, continuará a enxurrada de capitais especulativos e com eles a sobrevalorização cambial.

VALDO ALBUQUERQUE
Hora do Povo

Rizzolo: A notícia corrobora o que este Blog afirma há muito tempo, o desmantelamento da indústria nacional, exportadora, principalmente de manufaturados, tem sido feito através da perversa política macroeconômica, que tem por objetivo sustentar a alta taxa de juros no Brasil. Fica patente que os especuladores tomam numa ponta recursos, e ganham na conversão e depois na aplicação em títulos públicos remunerados pela Selic.

O principal efeito, é claro, é a valorização do real tornando nossos produtos sem competitividade; como se bastasse os custos da nossa produção, temos ainda que contemplar os especuladores com a enxurrada de dólares. A cobrança de 2,0% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre capital estrangeiro que ingressar no país para aplicação na Bolsa e em renda fixa, é uma medida tímida que pouco efeito surtirá enquanto as taxas de juros estiverem neste patamar.