Indignação: instrumento de Deus

Talvez uma das características mais revolucionárias do instinto humano seja a capacidade de nos indignarmos. Na história do mundo, inúmeras foram as pessoas que pela força motriz da indignação e do não conformismo se lançaram a uma nova proposta, a uma nova postura, diante de situações que ao olhar de um conformista nada restaria a não ser a resignação.

Tenho me aprofundado muito sobre na questão do que chamamos no judaísmo de Tikún Olam, que significa reparar, transformar e melhorar nosso mundo. Como seres humanos, somos, na essência, parceiros de Deus, e um bom parceiro não pode fazer vistas grossas aos problemas que envolvem a sociedade, como o combate às injustiças sociais, a luta contra a miséria e a disposição para a ética no esforço do aprimoramento profissional, seja de que área for.

No Brasil, ainda não transformamos a política num instrumento hábil e capaz de servir aos interesses da maioria da população pobre do nosso País, salvo algumas propostas ou a atuação de alguns políticos idealistas. Na verdade, este instrumento social tem sido desvirtuado de sua originária proposta social. Vivemos no Brasil uma crise de ética política, haja vista o passado dos representantes do povo brasileiro, salvo algumas dignas exceções. Com efeito, a indignação e política são irmãs por natureza, a primeiro advinda do espírito, do senso de justiça, do inconformismo, a segunda resultante da viabilidade social de se fazer concretizar o ideal da mudança.

Muito se fala em relação aos fatores que levam ao Tikum Olam. Na própria história do presidente Lula, existe um componente forte de indignação que nos faz perguntar: “Até que ponto a indignação de Luiz Inácio Lula da Silva não o moveu a iniciar um caminho de líder sindical que culminou à Presidência da República ?

Quando partimos de uma análise política – espiritual, atemo-nos apenas ao lado emocional. Com certeza, em determinando momento de vida, o presidente, ainda operário, viu-se parceiro de um projeto maior, mesmo sem ter total conhecimento da essência deste projeto, assim como tantos outros líderes, no Brasil e no mundo, dos mais variados segmentos sociais ou profissionais.

A indignação é algo que devemos praticar. Alguns já nascem com ela, outros a desenvolve, e infelizmente outra parcela a perde. A vigilância e os questionamentos sobre o que é justo e ético do ponto de vista humano são matéria-prima do senso de indignação, que por sua vez, é o instrumento eficaz de participação do projeto divino de parceria do homem com Deus, muito embora o valor do exercício dessa parceria material transcenda aspectos religiosos.

Muitos daqueles que repararam, transformaram e melhoraram o mundo com seus atos, gestos e idéias, mesmo sem saber, foram de uma religiosidade infinita; até porque, aos olhos do Grande Arquiteto do Universo, o que importa é a ação, a parceria, e isso vale mais do que mil orações.

Ainda me lembro certa vez, quando caminhava no centro de São Paulo em direção ao fórum; em dado momento, na calçada movimentada, me dei conta de que as pessoas, inclusive eu, por falta de espaço físico, passavam por cima dos pés de uma criança que dormia enrolada num cobertor sujo, provavelmente drogada.

Num gesto rápido, ao passar por ela, olhei o relógio para verificar se estava atrasado ao meu compromisso. Foi quando me surpreendi com o fato de que eu e tantas outras pessoas, havíamos passado por cima de ser humano, uma criança abandonada, doente, sem nem sequer nos termos indignado. Aquela imagem e a minha insensibilidade me perturbaram o dia inteiro. Eu dizia para mim mesmo: ” Você jamais deve se acostumar a ver crianças jogadas na rua”.

Era época de Yom Kippur, o Dia do Perdão, quando fazemos um balanço do ano que passou e nos arrependemos dos erros cometidos. Então tentei responder perante Deus à seguinte pergunta, como costumo fazer todos os anos faço: ” Que tipo de pessoa eu me tornei ?” A resposta sempre me serviu para me redirecionar, e me fazer indignar com as coisas erradas desse mundo. Afinal a indignação é um instrumento de Deus e perdê-la significa não ser mais um bom parceiro, e isso não é bom nem para Ele, tampouco para nós.

Fernando Rizzolo

Ao lado do velho córrego, ele chorava como uma criança

Ainda me lembro bem daquele sábado, era uma tarde quente, e eu como que tivesse uma alegria estranha, com uma corda na mão, tentava laçar meu cavalo para caminhar pelas estradas de Potuverá, um bairro rural de Itapecerica da Serra, interior, hoje, periferia de São Paulo. Aquilo para mim naquela época, em 1973, era uma aventura. Eu estudava Direito em São Paulo, e quando chegava sexta-feira, sentia o cheiro do mato das florestas, dos riachos, do trilho de trem que rasgava Aldeinha passando por trás da nossa Fazenda. Mas naquela tarde, algo de estranho ocorreu; percebi que meu cavalo – sempre me avistava costumava correr em minha direção- Numa peleja dura e com muito custo, cheguei a laça-lo, e enfim, segurando -o firme como quem contava com um amigo, coloquei a sela e fui em direção ao centro da cidade pela antiga BR116, hoje, a Régis Bittencourt.

O caminho era sempre o mesmo, virava no ” Bar do vovô” e seguia a velha estrada até a cidade. Galopava com um vento no rosto, naquela estrada de terra dura, num cavalo que “socava” chamado ” amargoso”- mistura de amargo com “bardoso’. Foi quando observei num vilarejo uma voz de choro, um choro triste que chegava a doer na alma. Puxei a rédea, parei, observei e vi uma casa muito pobre, com umas galinhas ciscando, e ao lado da casa um córrego, com uma água verde que cheirava mal.

Mas o choro, o choro mesmo, vinha de trás da casa. Resolvi então descer e caminhar até lá. Logo que me aproximei da casa, uma velhinha com uns olhos azúis marejados me olhou com um olhar assustado, como quem precisava de ajuda. Perguntei: ” A senhora mora aí ?” “Moro, sim senhor “, respondeu meio encabulada.” Está tudo bem? Ouvi alguém chorando… “. Logo que ela percebeu que eu já tinha ouvido o choro me disse: ” Sabe que é, senhor, o irmãozinho dele morreu hoje pela manhã. Ele era muito apegado ao irmão, de tanto brincarem juntos no córrego, o irmãozinho ficou doente e morreu; quem disse foi o médico lá do Hospital. Olha senhor, ele não pára de chorar, está chorando o dia inteiro, ali atrás, perto da curva do córrego”.

Com o coração totalmente partido, caminhei em direção à curva do córrego e vi então uma cena muito triste: um rapaz agachado, encolhidinho, soluçando como uma criança. Tentei consolá-lo, mas era difícil, a perda do irmão doía no seu peito como uma faca rasgando seu tórax, perguntei “O que houve? ”
– Meu irmãozinho de seis anos morreu, ele dependia de mim, minha mãe morreu, meu pai sumiu, e nós vivíamos aqui com a minha avó. Sempre aos sábados brincávamos jogando bola ou empinando pipa ao lado desse córrego, mas não sabia que estava contaminado; o doutor disse que a infecção ele pegou aqui ”

Naquele momento, olhei para ele e percebi o que a miséria e as desventuras da vida fazem com as pessoas. Já naquele tempo não se investia em saneamento básico, e não se investia como ainda hoje não se investe, porque saneamento básico é obra que não aparece, não dá votos. E mais, hoje como antigamente, as pessoas continuam morrendo de infecções vindas da rua, dos córregos, dos riachos, pela negligência dos políticos que são bons, em época de eleição tocar ” aquelas musiquinhas irritantes “, com aqueles carros de som imundos. São os que eu chamo de velhos “políticos profissionais”, “espertos”, dotados daqueles “olhinhos” que não perdem um lance de oportunidade sequer, que prometem tudo; mas quando eleitos, fazem afinal o jogo dos prefeitos, que por sinal, detestam investir em saneamento básico, saúde pública e lixões.

Fiquei muito abalado com aquela cena, que até hoje a tenho na memória. O choro, o desespero a miséria, ainda estão vivos em mim, quando passo por lá, sempre lembro do garotinho que se foi, e o soluço de tristeza de seu irmão, que hoje é um conhecido comerciante no Embu. Há dois anos, o encontrei num supermercado, ele se lembrou de mim, do cavalo, dos momentos em que eu tentei consolá-lo. Disse a ele brincando que um dia ainda seria prefeito de Itapecerica da Serra. Ele olhou para mim, deu um sorriso, depois olhou para o chão e disse: ” Doutor, se um dia o senhor for prefeito, acabe com aquele riacho maldito, que ele ainda está infectado, matando as crianças e rindo de mim. Sempre que posso, ainda sento ao lado dele derramo minhas lágrimas, choro de saudade do meu irmãozinho; infelizmente ele se foi e não volta jamais “. Naquele momento senti que a alma daquela criança migrara para aquelas esferas em que todas as almas santas e injustiçadas se encontram. Não consigo imaginar o Eden sem aquele menino, inocente e vítima do descaso.

Fernando Rizzolo

Dedico este texto a todas às crianças da periferia de São Paulo que morrem ou morreram nas últimas décadas, face à falta de saneamento básico e abandono pelo Poder Público.

Quando a política vale mais que a água

Muito se fala na inclusão social, e no desenvolvimento sócio econômico das camadas mais pobres da população. Apregoadores da sustentabilidade do meio ambiente, através dos anos, vem alertando o mundo da necessidade da qualidade da água como fator não só do ponto de vista ecológico, mas como um viés político preponderante no tocante à questão da saúde pública, como bem alerta os médicos sanitaristas no Brasil e no exterior.

A própria CNBB na sua Campanha da Fraternidade de 2004 insistiu no tema sobre água “FRATERNIDADE E ÁGUA” e o lema era: “ÁGUA, FONTE DE VIDA”. A água é um bem de destinação universal. A primazia da vida se estabelece sobre todos os outros possíveis usos da água. Nenhum outro uso da água, nenhuma decisão de ordem política, de mercado ou de poder, pode se sobrepor às leis básicas da vida.

Não são apenas os seres humanos os destinatários da água, mas também todos os outros seres vivos. Todas as formas de vida dependem da água e não existe vida onde não há água. É nesse esteio de pensamento que vale uma reflexão sobre o comportamento político aético do ponto de vista ecológico e de saúde pública que impregna algumas prefeituras no desrespeito a o bem maior, que é água que bebemos.

O exemplo clássico do pouco caso ecológico, é o lixão de Itapecerica da Serra, situado está em área de manancial comprometendo as águas subterrâneas da bacia onde fica a Represa de Guarapiranga, responsável pelo abastecimento de 3,8 milhões de moradores da cidade de São Paulo. No Inventário Estadual de Resíduos Sólidos Domiciliares, divulgado há um ano pela Cetesb, o município obteve conceito de “Inadequado” culminando com a interdição do ” lixão” do município, que alguns apreciadores de eufemismos, prefere classifica-lo como ” aterro sanitário”.

Não é possível compactuar com o descaso com um bem maior que é a água, mormente em se tratando em área de manancial como é o caso do município em questão. Coibir essa postura apolítica e de desrespeito à população paulista, se faz necessária vez que atinge a qualidade da água de 3,8 milhões de pessoas tornando-as vulneráveis às questões de saúde pública.

Infelizmente no Brasil ainda convivemos com os interesses políticos acima do gosto pela integração ecológica, pela formatação de uma política municipal visando acima de tudo a saúde pública, do município e dos demais municípios que da água dela depende. A interdição dos municípios infratores pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), é uma demonstração de que ainda vivemos numa época em que a fiscalização preenche a lacuna na respeitabilidade pública, nas questões ambientais, representada pelas águas que permeiam nossos mananciais, e que acabam saciando nossa sede, nossa sede de respeito.

Fernando Rizzolo