Tragédia do Realengo e uma simples caminhada

Dia nublado, com ar de que vai chover, quase sempre nos conduz a um shopping. Principalmente em São Paulo, onde os shoppings centers são a praia paulistana. Lá encontramos muita gente, novidades nas vitrines, cinema, além de podermos caminhar. Caminhar em shopping é bom, principalmente quando não se quer gastar. Geralmente quando vou a um shopping, costumo colocar um bom tênis, e vou andando, subo escada, desço de escada rolante, enfim sou um andarilho urbano num local fechado. E não só ando. Penso, reflito, caminho num passo lento e constante, vejo a quantidade de bebês, o futuro da nação, e como são tantos nos shoppings da capital paulista.

Mas no último sábado parei numa loja, dessas que vendem jogos acoplados à TV, com vários temas, na sua maioria estranhos: e muita violência. Na vitrine, o destaque era para um que se passava por uma perseguição policial, bandido versus polícia. Na minha ingenuidade, entrei na loja – de tênis anti-impacto, é claro –, e o vendedor me deu uma vasta explicação sobre os jogos, achando talvez que eu fosse comprar algum deles para o meu neto. Logo me perguntou sobre a característica do meu neto, sua idade, se ele é “agitado”, se gosta de aventura, e me indicou um do tipo “tiroteio”, matança por pontos, quanto mais mata, maior a pontuação atingida. Inconformado, disfarcei com o gesto de amarrar meu tênis anti-impacto, arrumei meus óculos, e fiquei apenas balançando a cabeça como se estivesse achando aquilo “instrutivo”. Ao final, agradeci ao vendedor, saí e fui tomar um café, pensativo, logo ali perto da escada rolante.

Pensei de imediato que o psicopata do Realengo, na sua infância, provavelmente brincava solitariamente como estes joguetes. Constatei que numa sociedade de informação – também pudera, um dia são deslizamento e mortes, no outro, inundações e mortes, atentados e mortes, tsunami e mortes, guerras e mortes –, o fator morte, é claro, deveria estar presente de forma mais marcante nas mentes adoecidas de muitos jovens do mundo contemporâneo. Aliás, na mídia, nos brinquedos, e até em algumas seitas, a morte é muito mais comentada do que a vida, o amor, o construir algo e o bem. Num rápido gole de café, perdido nas minhas reflexões, absolvi, sim as armas, os pedaços de pau, os socos na cara, os chutes, as facas, porque isso tudo, no meu entender, é apenas um instrumento da violência, do agente, e suprimir o pedaço de pau, o taco de golfe, não resolveria o problema.

A culpa de tudo? Também não é da lojinha de jogos, mas de uma sociedade de informação em que a relação com a morte infelizmente vale mais do que a vida, em que falar dos infortúnios vende mais notícia do que apontar os de bem . Rever essa postura mundial midiática poderia ser o início da construção educacional aos bebês dos shoppings do mundo, sob uma nova visão de vida, prestigiando a educação sadia, detectando precocemente os distúrbios mentais psicopatas, combatendo o bullying, reconstruindo os canais da vida, do amor, e sempre nos atermos às reflexões sobre o futuro do mundo e do Brasil. Tudo isso de forma simples, numa cadeia de informação informal, caminhando mesmo sozinho, pensativo, calado, ou conversando, protegido dos perigos de tomar chuva como num shopping, nos precavendo de todos os impactos que, quando emocionais, são mais fortes do que aqueles mais simples que atingem os nossos pés, porque estes sim, são protegidos pela tecnologia anti-impacto, que nos serve para nos levar a caminhar mais e a pensar com mais emoção no coração sobre aqueles “brasileirinhos que se foram”.

Fernando Rizzolo