O Povo Sorrindo no Shopping

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O tempo não ajudou: dia nublado, frio, feriado, e acabei fatalmente indo ao shopping. Estacionar no piso térreo, nem se fale! Não havia nenhuma vaga. Comecei, então, a dança de tentar o piso superior, rampa após rampa. Por fim encontrei o que estava procurando: uma simples vaga. Foi aí que me lembrei de que era véspera do Dia das Crianças e encontrei, enfim, a justificativa pela falta de vagas.

Descendo pela escada rolante, com olhar curioso, senti algo diferente naquele dia. As pessoas, os rostos, as roupas eram outras; o modo alegre de caminhar denunciava que aquele passeio, aquele dia, aquela compra, era especial. O shopping estava repleto de novos frequentadores – gente humilde, bem-vestida, com pacotes, e o rosto iluminado como eu nunca tinha visto. Muitos vinham da periferia, de ônibus, metrô, mas com uma certeza: consumir no Dia das Crianças, talvez como não faziam havia muito tempo.

Não é à toa que as vendas do Dia das Crianças surpreenderam o comércio varejista e já sinalizam um bom Natal. Duas pesquisas de instituições diferentes divulgadas ontem indicam que o desempenho das lojas neste ano foi cerca de 8% maior que o registrado na mesma data de 2008. O Dia das Crianças foi até agora a melhor data comemorativa de vendas para o varejo do ano, superando o Dia dos Pais.

Na preferência por presentes, os brinquedos lideram a lista e aumentam a representatividade na comparação com o Dia das Crianças do ano anterior. Cresce também a demanda por roupas, calçados e eletrônicos, que contam com grande variedade de produtos e preços, coerentes com a preferência de pagamentos à vista.

Consumir e presentear são um ato de generosidade dos mais pobres, essa parcela da população que há anos foi excluída e que agora ressurge num colorido real, formando um mosaico de gente diversa, alegre, com sede de futuro. Sonhar com dias melhores é exercitar o sentido de justiça, e as datas ficam bem mais alegres com o povo comprando, as crianças sorrindo, os estacionamentos lotados. Mesmo num dia nublado, num feriado lembrado, vendo rostos risonhos de gente feliz, que agora consome, ajeita a vida, criando um novo mercado para o nosso País.

Fernando Rizzolo

Delfim: país não precisa de juro real maior do que 2,5% ou 3%

Ao analisar a interrupção do corte da taxa Selic pelo Banco Central, o ex-ministro da Fazenda Antonio Delfim Netto disse que não há necessidade de o Brasil ter uma taxa real de juros superior à média mundial. “Nós continuamos, ainda, com taxas de juros que não correspondem à realidade nacional.

O Brasil não é mais uma economia teratológica. O Brasil não precisa de taxas de juros reais superiores à do mundo. Se as taxas de juros internas caminhassem para as taxa de juros internacionais, tudo iria funcionar muito melhor. Não é apenas o câmbio. É tudo. Porque a taxa de juros na posição errada põe o câmbio na posição errada, põe o salário real na posição errada. O equilíbrio, mesmo nos modelos mais simples de liberdade de movimento de capitais, exige que a taxa de juro interna seja igual à externa”, afirmou Delfim, em entrevista ao UOL.

No último dia 2, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a taxa Selic em 8,75% ao ano, o que corresponde em termos reais (descontada a inflação projeta para os próximos 12 meses) a 4,5% ao ano. “Não acredito que o Brasil precise de uma taxa de juro real muito maior do que 2,5% ou 3%. Essa é a taxa de juro do mundo. Ela corresponde à produtividade média da economia do mundo. Como é evidente, a taxa de juro real não pode ser muito maior do que a produtividade média. O que interessa não é a venda de papel no computador. O que interessa é a venda de parafusos na loja de ferragem”, observou Delfim.

Segundo o economista, uma questão ser observada na economia brasileira é queda da cotação do dólar. “O Brasil continua o último peru com farofa no mercado internacional à disposição dos investidores estrangeiros. Se você combina as aplicações na Bovespa com a valorização que ela mesma produz no câmbio, pela entrada de capitais, você vai ver que o Brasil está rendendo hoje 5,5% ao mês em dólar”, frisou, acrescentando que a desvalorização da moeda norte-americana “é extremamente prejudicial para o setor exportador, e é realmente o ponto nevrálgico na ampliação da produção industrial”.

Delfim ironizou as estimativas do BC: “No dia 15 de setembro (do ano passado), o Banco Central não sabia nada do que iria acontecer no dia 16. Hoje, ele pretende saber qual vai ser a inflação em 2011. Então, acredita se quiser. Ou usa a teoria de Santo Agostinho: creia porque é impossível prever”.
Hora do Povo

Rizzolo: Com efeito, se não há coerência nas taxas de juros, isso afeta diretamente os salários, as exportações, prejudicando a nosso mercado interno. Hoje um dos grandes desafios do Brasil é a exportação de manufaturados que tem uma relação direta com a cotação dólar. Com um real valorizado nossa competitividade fica prejudicada, e com a política de juros praticada pelo governo a enxurrada de dólares não para de crescer, sendo na maior parte capital especulativo.