IEDI: “a última coisa que o BC deveria fazer é elevar os juros”

Incentivar o mercado interno é a melhor política a ser adotada diante da crise dos Estados Unidos

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) fechou na segunda-feira com uma queda de 6,6%, em 53.709 pontos, mesmo dia em que também foram registradas expressivas quedas nas bolsas européias e asiáticas. O pano de fundo, obviamente, é a grave crise em que se encontra a economia norte-americana. Como a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, os defensores dos juros altos já saíram defendendo a elevação da taxa básica de juros para supostamente enfrentar possíveis turbulências externas.

Além dos analistas da mídia antidemocrática, o boletim Focus – que o BC divulga semanalmente com uma pesquisa com representantes do sistema financeiro e que serve de parâmetro para as decisões do Copom – aumentou sua projeção da taxa Selic para 11,25%, contra 11,13% feita anteriormente. O presidente do BC, Henrique Meirelles, sinalizou que poderá adotar medidas preventivas, que têm se traduzido nos juros siderais ao longo anos. “Não temos ilusão de que o Brasil está imune à crise, mas entendemos que estamos mais preparados”, disse.

O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), em sua análise intitulada ”A crise e os mecanismos de defesa da economia brasileira”, defende que o país está em condições de se proteger contra efeitos negativos de crises provenientes do exterior. O primeiro fator está no fato de que nos últimos anos a economia brasileira “apoiou-se muito mais no mercado interno do que no mercado externo, o que reduz o impacto de uma retração de volumes e preços de exportações devido à retração da economia mundial”. É isso, diz o Iedi, que “torna maior o alcance de políticas de incentivo ao mercado interno através do crédito, por exemplo, que poderão ser adotadas caso o quadro internacional se agrave e ameace levar à retração a economia doméstica”.

MENOS JUROS

Ampliar o crédito para fortalecer o mercado interno significa ter que reduzir os juros, como, aliás, defende o Instituto: “A última coisa que o Banco Central deveria fazer no presente momento da economia nacional e internacional seria elevar a taxa de juros”. Até porque, ao contrário do pretexto usado por Meirelles, não “serviria para o controle da inflação”.

RESERVAS

Outro fator de defesa da economia brasileira destacado pelo Iedi são as reservas internacionais – US$ 185,024 bilhões até o dia 18 -, “conseqüência dos saldos comerciais elevados que o país gerou desde 2003”. Essas reservas poderão ser usadas pelo governo, argumenta o Iedi, “para defender o real e evitar fortes e bruscas desvalorizações originadas de um colapso de capitais internacionais para o país, caso isso venha a ocorrer. Isso neutralizará possíveis riscos de reaceleração inflacionária, evitando que o Banco Central eleve a taxa de juros o que provocaria uma retração econômica”.

Nesse aspecto, cabe destacar a política adotada pelo governo Lula em diversificar o comércio exterior brasileiro, em especial a de fortalecimento do Mercosul. Assim, de um saldo negativo de US$ 999.243 no comércio com os países do bloco em 2003, o Brasil saltou para um superávit de US$ 5,723 bilhões no ano passado.

Para o Iedi, tanto o incentivo do mercado interno, através de crédito, quanto a utilização das reservas para uma eventual defesa do real, “se bem manejados pela política econômica, assegurarão um crescimento razoável em 2008, mesmo levando-se em conta as adversidades externas. O governo não deve hesitar em usar esses mecanismos para a defesa da economia real”.

O Iedi considera que a turbulência ocorrida nas bolsas no sistema financeiro ocorrida no dia 21 “não reflete de fato nenhum evento novo. Sua causa última são os problemas da economia americana originados da crise do mercado de crédito imobiliário desse país. A maior instabilidade foi detonada pelo impacto negativo dos enormes prejuízos acumulados pelas instituições financeiras, sediadas principalmente nos EUA, que agora, seis meses após o início da crise, vieram a público com a divulgação dos resultados do último trimestre de 2007”.

VALDO ALBUQUERQUE

Rizzolo: Ao analisarmos as declarações do Meirelles, observamos que desde já ensaia um aumento das taxas de juros, o que seria uma atitude deplorável. Temos um mercado interno aquecido mas que não justifica uma aumento das taxas de juros, muito pelo contrário, devemos sim aumentar o mercado interno para que possamos blindar ainda mais nossa economia através de crédito. Ademais, com as taxas de juros altas, atraímos especuladores que inundam o mercado com dólares mantendo o real valorizado, e por conseqüência uma dificultando as exportações.

Quanto a utilização das reservas para uma eventual defesa do real, acredito ser um instrumento a ser usado numa situação emergencial, com isso, evitaríamos fortes e bruscas desvalorizações originadas de um colapso de capitais internacionais para o país. É na realidade um instrumento de controle cambial. Isso neutralizará possíveis riscos de reacelerarão inflacionária, evitando que o Banco Central eleve a taxa de juros o que provocaria uma retração econômica.