Bancos investem contra a poupança

Para os especuladores, 6% de rendimento na caderneta é muito alto

Os bancos privados, sobretudo estrangeiros, pressionam o governo pela mudança no cálculo da rentabilidade da caderneta de poupança. Para menos, é claro, já que a aplicação tornou-se, segundo eles, mais atrativa para os investidores após a baixa da taxa Selic.

A caderneta foi criada para beneficiar os pequenos poupadores – os trabalhadores, os aposentados, a dona de casa, sob a garantia do governo federal. Com um rendimento de apenas 6% ao ano mais TR (Taxa Referencial), e sem incidência do Imposto de Renda, a única mudança aceitável seria para aumentar o rendimento. Além do que, por lei, 65% dos recursos da poupança são destinados, pelo banco, para financiamento habitacional, o que impede que o recurso sirva à mera especulação financeira, estimulada pelos juros altos do Banco Central.

O economista Roberto Padovani, do Banco WestLB do Brasil – subsidiária do WestLB AG, um dos maiores bancos da Alemanha, defendeu na quarta-feira (17) que é preciso reduzir o rendimento da caderneta de poupança para não prejudicar outras aplicações, como a movimentação dos títulos públicos, principal ganho do sistema financeiro. Em vez de baixar suas abusivas taxas de administração – que lhes garantem vultuosos lucros – , para atrair investidores, os bancos investem contra os pequenos poupadores.

Esta é a questão de fundo por trás da suposta necessidade de se alterar a lei que garante o rendimento da caderneta de poupança.

Além de ser uma armadilha política para o governo – pois ainda é candente na memória do povo o confisco efetuado pelo governo Collor nas economias dos brasileiros – o suposto risco propalado aos pequenos poupadores, caso ocorra uma debandada dos fundos para a poupança, não é verdadeiro. A perda de rendimento dos pequenos poupadores só viria a acontecer se o ganho da poupança fosse reduzido.

Manter a diminuição na margem de lucro dos que especulam com os títulos públicos e manter os ganhos da poupança só trazem benefícios para o país. Primeiro porque diminui a sangria efetuada através dos juros, amplia a capacidade de investimento do Estado e potencializa os recursos disponíveis para se aplicar na construção civil, uma vez que, por lei, 65% dos recursos da poupança são destinados para financiamento habitacional.

É claro que a rentabilidade menor nos fundos desestimula a aplicação nesta modalidade. E isso não é ruim para o país, só para os bancos, que ganharão menos lucros com taxas; para os especuladores, que sugarão menos recursos públicos – boa parte enviada para fora do país – e para a oposição, que aposta todas as suas fichas numa grande retração da economia.
Jornal Hora do Povo

Rizzolo: Concordo plenamente com o raciocínio do texto. Na verdade ainda existe no imaginário do povo brasileiro um certo “trauma” em relação à poupança, face ao confisco da era Collor, e a mudança no cálculo do rendimento da caderneta poderá trazer conseqüências aos bancos na sua rentabilidade, que não admitem reduzir suas margens de lucros.

Não é época de se estimular a especulação, com a diminuição da margem de ganho especulativo, podemos ampliar a capacidade de investimento do Estado aumentando sobremaneira os recursos disponíveis para se aplicar por exemplo na construção civil. Isso sim. É impressionante a voracidade pelo lucro por parte dos bancos internacionais, nacionais, inclusive os estatais. Pobre do pequeno empresário brasileiro que precisa de recursos para investir na produção !!